Saturday, December 22, 2007

Ainda a chuva - Agora com José Emilio Pacheco

HOMENAJE
Con esta lluvia el mundo natural
penetra en los desiertos de concreto
Escucha su música veloz
Contrapunto de viento y agua
Única eternidad que sobrevive
esta lluvia no miente

Monday, December 17, 2007

Poesia Mexicana IV - Tablada


Figura: Zompantli de Artemio Rodríguez









José Juan Tablada [1871-1945] já era um poeta simbolista mais ou menos consagrado quando encontra o Haikai e daí uma passagem para a poesia moderna.
Un día [poemas sintéticos] de 1919; Li-Po [1920], Jarro de Flores [1922] e La feria [1928] são quatro portentos, maravilhas poéticas deslumbrantes de um apaixonado pela palavra e pela superfície sensível do mundo. Vamos passar ligeiro pelos quatro.

De Un día:
Los zopilotes
Llovió toda la noche
y no acaban de peinar sus plumas
al sol, los zopilotes.

De Li-Po:
Nocturno Alterno
Neoyorquina noche dorada
Fríos muros de cal moruna

Rector's champaña foxtrot
Casas mudas y fuertes rajas

y volviendo la mirada
Sobre las silenciosas tejas

El alma petrificada
Los gatos blancos de la luna
Como la mujer de Lot

Y sin embargo
es una
misma
en New York
y en Bogotá

¡La Luna...!

A un Lémur (Soneto sin ripios)
GO
ZA
BA
YO

A
BO
GO
TA

TE
MI
RE

Y
ME
FUI

De Jarro de Flores:

Un mono
El pequeño mono me mira...
¡Quisiera decirme
algo que se le olvida!

De Feria:
Los zopilotes
Cuando sacrificaban en el Templo Mayor
las alas de los zopilotes
oscurecían el sol…

Y los remeros en sus barcas
no miraban a las alturas
si del lago las aguas zarcas
se tornaban pronto oscuras.

Pues el pávido macehual
al presagio del zopilote
de la sangre miraba el brote
bajo el filo del pedernal.

Con envidia de los coyotes
volando, de la serranía,
sobre Tenochtitlán caía
muchedumbre de zopilotes…

Cual gerifaltes en alcándara
sobre el zompantli se posaban
y adornando las calaveras
con morriones de plumas negras,

¡solían saltar
al brusco son
de panhuehuetl
o caracol…!

Saturday, December 15, 2007

Tradução, sacação, traição

Deu na Folha de São Paulo: Roberto Domênico Proença "traduziu" os contos de Voltaire - trocando uns detalhes aqui e outros dali de uma tradução antiga de Mário Quintana. A troca era pura crocodilagem - os erros contidos na tradução do poeta gaúcho continuaram. A Martin Claret, editora especializada em livros de bolso, publicou traduções igualmente plagiadas de "Os Irmãos Karamazov" e "A República". A primeira, assinada por Alexandre Boris Popov, é cópia de uma antiga versão da editora Vecchi. A tradução de "A República", assinada por Pietro Nassetti, é, na verdade, uma versão de Maria Helena da Rocha Pereira.
Essa história de tradução requentada é antiga. Eu perdi o respeito intelectual por um grande poeta [que continuo respeitando muito como poeta] quando percebi que uma das suas "traduções" eram assim mesmo, muito entre aspas. As pessoas se fiam muito na ignorância geral da nação para fazer bonito, mas esse tipo de impostura prolifera particularmente no mundo das traduções, principalmente de prosa, quando quem lê a tradução o faz porque não pode ler o original e não tem como julgar o trabalho feito. É o crime perfeito, até que se pegue o criminoso...
Quem conhece as dificuldades do ofício de tradutor, aumentadas pelas péssimas condições de trabalho, sabe: o melhor a fazer é ler, sempre que possível, o original. Digo isso consciente de que nunca vou passar do "oi como vai" em um punhado de línguas que são importantíssimas: Mandarim, Russo, Japonês, Urdu, Hebraico e Árabe, por exemplo. Portanto há que se cuidar antes de sair dizendo por aí que Dostoiévski é isso e aquilo; o Dostoiévski que eu conheço pode muito bem ser consideravelmente diferente do original Russo. Um artigo recente da New Yorker sobre as traduções "clássicas" de Dostoiévski para o inglês atestam o que eu digo: a tal influência de Dostoiévski em Faulkner é a influência dessas traduções mula-manca para o inglês em Faulkner, assim como até uns poucos anos atrás falar de influência de Faulkner na América Latina é uma piada se o escritor em questão não sabia ler inglês muito bem [e para ler Faulkner em inglês, dependendo do livro...]. A "tradução" do tal poeta de que falei é um bom exemplo do que eu estou dizendo: a tradução brasileira que o camarada copiou era uma traducão do Gogol já traduzido para o francês. Quando comparei as duas com uma tradução do Russo para o inglês, encontrei textos completamente diferentes. E Gogol à essa altura... rola na sepultura. Ou não? O mundo das traduções sempre foi assim, desde a Bíblia, um livro pelo qual as pessoas literalmente se matam e que foi traduzida das maneiras mais absurdas desde sempre até bem pouco tempo atrás. A história da relação entre línguas diferentes tradicionalmente se faz de mal-entendidos - o modelo dessas relações seriam as paródias que Moreira da Silva cantava de filmes de Hollywood:

O Rei do Gatilho [Miguel Gustavo]

Trecho falado :


'' o rei do gatilho, super bang-bang de michael gustav, com kid morangueira, o mais famoso pistoleiro de wichitta. temido pelos bandidos, pois só atirava em nome da lei.''


Começa o filme com o garoto me entregando
Um telegrama do arizona, onde um bandido de lascar
Um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona
E não deixava nem defunto descansar.
Dizia urgente que eu seguisse em seu socorro.
A diligencia do oeste neste dia ia levar
Vinte mil dólares do rancho águia de prata
Onde a mocinha costumava me encontrar


'' venha urgente, pois estou morta de medo. só tú poderás salvar-nos.
Beijos
Da tua mary.''


Botei na cinta dois revolveres que atiram
Sem que eu precise nem ao menos me coçar
Assobiei para um cavalo que passava do outro lado
E com o bandido mascarado fui lutar
Cheguei na vila, nem dei bola prô xerife
Entrei direto do saloon, fui me encostando no balcão
Com o chapéu em cima dos olhos nem dei conta
De que o bandido me esparava a traição
''-cuidado, moreira-''
Era um indio meu parceiro que sabia
Das intenções do bandoleiro contra mim
E advertia seu amigo do perigo que corria
Devo-lhe a vida, mas isso não fica assim
A essa altura o cabaret em polvorosa
Já tinha um cheiro de cadáver se espalhando
Houve um suspense de matar o hitchicock
E em close-up prô bandido fui chegando
Parou o show e as bailarinas desmaiaram
Fugiram todos só ficando ele e eu
Ele atirou, eu atirei e nós trocamos tantos tiros
Que até hoje ninguém sabe quem morreu
Eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu
Só sei dizer que a mulher dele hoje é viúva
Que eu nunca fui de dar refresco ao inimigo
Como no filme bang-bang vale tudo
O casamento da viúva foi comigo
Tem um final, mas o final é meio impróprio e eu não digo
Volte na próxima semana se quiser ser meu amigo
Eu de cowboy fico gaiato, mas não fujo do perigo.

Fonte: http://letras.terra.com.br/moreira-da-silva/962265/

Wednesday, December 12, 2007

Memórias de BH

Quem não gosta de chuva? Eu quando vivia em Belo Horizonte ficava sempre esperando o final de novembro chegar, só para ver o céu ficar cor de chumbo quase preto e de repente a chuva desabar, aliviando o calor e limpando a cidade. Em Belo Horizonte a estação das chuvas funcionava para mim como o outono ou a neve do inverno em um lugar mais frio: era a hora em que a natureza [no sentido mais visceral da palavra] resolvia dar as caras e nos lembrar que somos: um bando de formiguinhas zanzando para lá e para cá crentes que são as donas do mundo.

Tuesday, December 11, 2007

Desculpe qualquer coisa...

Essa mania de pedir perdão sem fazer patavinas sobre as injustiças pelas quais as deculpas são pedidas é um horror. Aliás, eu quero logo pedir desculpas pelo conteúdo desse blogue e por quaisquer erros de gramática que ele contiver. Aproveito para pedir perdão à todos os professores que ignorei ou ofendi antes de virar professor e compreender a corda bamba em que andamos no picadeiro da sala de aula, à minha esposa e meu filho por ser um ser humano bem ordinário em seus defeitos e qualidades e finalmente à minha mãe por ter nascido, causando naquela pobre senhora terríveis dores no parto. Enfim, como dizemos às vezes nós mineiros quando nos despedimos de alguém em um arroubo de penitência previdente: "Desculpe qualquer coisa!"

Monday, December 10, 2007

Poesía Mexicana III - Lopez Velarde

Ramón Lopez Velarde é considerado pelos próprios mexicanos o precursor da poesia moderna no México. Morreu com apenas 31 anos em 1921 e seu poema “La suave patria” se transformou em uma espécie de hino nacionalista – uma contradição em termos principalmente se pensarmos que López Velarde vai ser canonizado pela revolução mexicana tendo sido ele um católico conservador [veja no próprio poema em questão a referência ao correio de Chuan]. Como deixa clara a abertura do seu poema mais famoso, seu patriotismo não tem nada de estridente; é um épico em surdina, uma evocação íntima, discreta, profundamente pessoal. São excelentes também os poemas memorialistas de López Velarde, dignos de Drummond na sua evocação de erotismo infantil e culpa, por exemplo, no famoso “Mi prima Agueda”.

La suave patria – Proemio
Yo que solo canté de la exquisita
Partitura del íntimo decoro,
alzo hoy la voz a la mitad del foro,
a la manera del tenor que imita
la gutural modulación del bajo,
para cortar a la epopeya un gajo.
Navegaré por las olas civiles
con remos que no pesan, porque van
como los brazos del correo chuan
que remaba la Mancha con fusiles.
Diré con una épica sordina:
la Patria es impecable y diamantina.
Suave Patria: permite que te envuelva
en la más honda música de selva
con que me modelaste por entero
al golpe cadencioso de las hachas,
entre risas y gritos de muchachas
y pájaros de oficio carpintero.

Saturday, December 08, 2007

Torcer por time de futebol é uma grande perda de tempo...

Torcer por um time de futebol é mesmo uma perda de tempo, como também são perda de tempo ver novela; passear no shopping center; decorar o hino nacional; acompanhar a moda; acompanhar as “novidades” da música popular que usam os mesmos quatro ou cinco acordes há décadas; sentir nostalgia por qualquer baboseira do passado como seriados de heróis japoneses; seguir a vida pessoal de gente “famosa”; ficar criticando o governo e os políticos sem nunca fazer absolutamente nada a respeito; conversar sobre o clima e o trânsito; ler notícias sobre desastres naturais há mais de cem quilômetros de distância da residência de qualquer pessoa do seu conhecimento; cantar loas de louvor a um bairro/cidade/estado/país qualquer; ficar olhando retratos de gente famosa, estejam elas peladas ou vestidas; ficar discutindo os atributos físicos de pessoas famosas ou não, gastar fortunas com um monte de baboseiras que prometem o impossível – fazer você parar de ficar mais velho; fazer a cama que você vai desfazer de novo na noite seguinte; pentear os cabelos que vão se despentear de novo; fazer a barba que cresce no dia seguinte; ter um animal de estimação qualquer e pior ainda tratá-lo como um ser humano; ter filhos só porque os outros têm filhos e pior ainda ter dois filhos só porque todo mundo diz que o seu menino precisa de um irmão; trabalhar mais do que o estritamente necessário e ficar acumulando capital ou gastando em reformas ou hobbies; viajar até Paris e sair correndo pelo Louvre afora tirando fotografias e se espremendo na multidão para olhar a Mona Lisa ou a Torre Eiffel sem nem ter nunca tido a menor disposição nem o menor conhecimento para apreciar artes plásticas ou arquitetura; gastar muito dinheiro comendo em restaurantes caros sem nem saber qual é a diferença entre uma polenta e um prato de angu; ficar horas e horas pesquisando e discutindo todas as filigramas mais insignificantes sobre vinhos, charutos, relógios, carros, selos, instrumentos musicais, bicicletas, etc.
Enfim, o melhor mesmo seria humano absolutamente medíocre ser completamente racional e comprar o caixão mais barato da praça, se meter lá dentro e pedir para alguém colocar a tampa em cima. Mas se ele fizesse isso, provaria que não é tão medíocre assim e que portanto deveria continuar vivo.
PS. Eu reconheço que também perco o meu tempo, por isso não procuro julgar a forma que os outros escolhem para perder o seu tempo. Ah, se todos soubessem que estavam só perdendo tempo...
[essa foi uma resposta a um bom texto anti-futebol do blogue "Liberal Libertário Libertino"]

Friday, December 07, 2007

Crónicas do Império - Voltando para casa

Reportagem recente do NYT sobre brasileiros que vivem nos Estados Unidos e têm, cada vez mais, decidido voltar para o Brasil [a reportagem chega a dizer que o fluxo de volta já supera o de chegada]:
http://www.nytimes.com/2007/12/04/nyregion/04brazilians.html?ex=1197694800&en=8687361152036697&ei=5070&emc=eta1
Em vista das crescentes dificuldades diárias na vida dos brasileiros que imigraram ilegalmente para os Estados Unidos, parece que um número cada vez maior de pessoas se pergunta “Vamos voltar para casa?”
Mas e depois?
Será que essas pessoas voltam e são engolidas pelo meio e rapidamente voltam a ser como eram antes de sair de sair do Brasil? Será que essas pessoas tentam manter pelo menos uma parte da forma de vida que tinham nos Estados Unidos? E os filhos que crescem aqui e têm muito pouca identificação com o Brasil?
Imaginemos um imigrante comum: o cara tem um diploma, por exemplo, de letras e ganhava a vida aqui como bombeiro-eletricista. Ele vai fazer o quê no Brasil?
Criar cana-de-açúcar… Abrir um restaurante “serve-serve”…

Wednesday, December 05, 2007

Poesía Mexicana II - Enrique González Martínez

González Martínez escrevia sonetos e era um sujeito respeitável nos anos 20 no México. De repente ele escreve um soneto em que propõe dar cabo sem dó nem piedade dos cisnes simbolistas e substituí-los por uma circunspecta coruja, que antes de qualquer coisa, mantém os olhos bem abertos para a vida. Mais ou menos o mesmo grito de emancipação do modernismo brasileiro, mas sem qualquer traço de vanguarda - a tal coruja é da deusa Atenas...
Esses mexicanos... que loucura! Será mesmo? Será que a nossa historiografia que insiste que 1922 viu a invenção do moderno num Brasil arcaico, não merece uma revisão? Não parece um pouco forçada a idéia de simplesmente chamar qualquer escritor moderno antes de 1922, como Lima Barreto e Machado de Assis, de pré-modernistas? Vale a pena ler de novo o poema "Os Sapos" de Manuel Bandeira [lido na Semana de Arte Moderna], principalmente do ponto de vista formal. Será que "Os Sapos" é completamente diferente de "Tuércele el cuello al cisne..."?

Tuércele el cuello al cisne...

Tuércele el cuello al cisne de engañoso plumaje
que da su nota blanca al azul de la fuente;
él pasea su gracia no más, pero no siente
el alma de las cosas ni la voz del paisaje.

Huye de toda forma y de todo lenguaje
que no vayan acordes con el ritmo latente
de la vida profunda... y adora intensamente
la vida, y que la vida comprenda tu homenaje.

Mira al sapiente búho cómo tiende las alas
desde el Olimpo, deja el regazo de Palas
y posa en aquel árbol el vuelo taciturno. . .

El no tiene la gracia del cisne, mas su inquieta
pupila, que se clava en al sombra, interpreta
el misterioso libro del silencio nocturno.

Sunday, December 02, 2007

Declaração de Bens

Declaração de Bens

A vida como eu conheço é a única vida que eu sei que existe
e não vale a pena.
A vida é uma só, como acontece é assim uma vez só e nunca mais
e não vale a pena.
Querer saber porque e porque não e para que serve tudo isso aqui
não vale a pena.
É tudo um imenso desperdício de energia de ilusão de sofrimento,
a vida como eu conheço aqui e agora não vale a pena.
Estúpida e lenta passa devagar até que não deixamos mais que um traço
se deixarmos um traço e é melhor nem deixar um só traço
e ainda bem que é assim
porque se deixássemos mais que um traço depois de irmos embora
poderíamos enganar, não a nós mesmos, mas aos outros que ficam para trás,
como eu agora estou aqui atrás,
esperando a hora de ir em frente
e parar de ir em frente.
Porque ir em frente é um engano terrível,
uma completa perda de tempo.

Sinto muito, mas assim são as coisas como eu as conheço
e eu não posso saber das coisas diferentes de como eu as conheço.
Levamos quarenta, dez, sessenta anos,
a vida inteira, sem saber;
porque quando finalmente entendemos, se percebemos,
descobrimos que não vale a pena
e quando descobrimos que não vale a pena
somos mais um na imensa estatística dos perdidos
dos desperdiçados, dos banidos do céu e do inferno,
dos duramente esquecidos pelos que ficam aqui atrás.

Toma muita coragem mas é um gesto só de coragem e basta,
mas é preciso coragem demais para perder o chão e não é fácil
dar esse ultimo passo vale a pena;
tem que valer a pena porque depois não há mais nada.
Nada a perder depois; nada.
Nada a fazer depois;
Nada.

Friday, November 30, 2007

Passagem

Olho pra fora, não fujo, não quero mais me sentir outro, de fora;
quero a comunhão barata do barulho dos carros, da gente, do rádio.
Ainda está tudo do lado de fora, do outro lado da mesa, o outro lado da porta de vidro:
gente dando as mãos, atravessando a rua, chorando, sorrindo,
sozinhos, em bando, em dupla,
nascendo, amadurecendo, secando, morrendo.
Um par de folhas de um broto cai no chão,
a chuva cai e leva as duas juntas,
que escurecem podres e já não são mais folhas,
tudo o que há e que houve e que há de ser depositando-se em centenas de anos,
em camadas no sangue, nos ossos, na carne, na língua, tão minha quanto de quem mais quiser,
minha e dos dois garotos que passam lá fora conversando um futuro besta,
minha e da mulher que passa carregando seus desapontamentos nas costas,
minha e do senhor que se arrasta como um deus de chapéu e terno riscado,
minha e de você que me lê agora e é assim meu quase irmão, meu pai e meu filho
e reconhece aqui agora alguma coisa de dentro de um quase par,
um avesso que quase completa e termina o que você é, foi, e pode ainda ser ou não ser.

Mas a questão posta aqui e agora na minha frente é outra:
é sair de dentro desta angústia cega e fazer papel e tinta desta dor surda
que encharca o corpo e aperta cabeça e peito,
porque feito papel e tinta este grito tartamudo
que ninguém vê nem quando me olha bem de frente vai enfrente,
e eu estou livre desta falta do que ainda não fui.

O barulho lá fora faz uma pausa de repente,
mas o alicate de cabo amarelo continua apertando a coluna
e o coração vermelho e cansado continua queimando com o estômago aceso.
Outros barulhos aqui dentro corroem o silêncio que cresce de dentro
e dizem que existe saída, ainda que não exista alívio em sair pra vida.
Então eu vou: faço a tal passagem de uma só vez –
chamem de morte, chamem de amor, chamem de lei natural das coisas da terra –
é uma passagem e é mais e menos: tão pequena que quase desaparece no ar,
mesmo com o sol a pino.
E está aqui, bem na minha frente, mais alta que este muro polvilhado de cacos de vidro:
um silêncio mais alto que o barulho dos caminhões e ônibus descendo a rua.

Escorre pelas grades da janela da sala, contorna o vidro e salta;
cai no jardim salpicado de guimbas de cigarro e copos de plástico.
Cá embaixo, na manhã emaranhada pelo sol do dia 10 de fevereiro, vejo ainda a sala
onde ainda estou e já não estou e onde 23 outros eus doem
espremidos entre o que ainda podem e o que já não podem em um mundo, uma vida e um corpo
que não param de envelhecer nem um segundo.
Aqui embaixo, sou a experiência de uma pedra e a inocência de um torrão de terra,
e me redivido em mil outras coisas menores,
também possuidoras de suas próprias definições para o amor e ditas mortas como eu.
Lá e aqui o mundo das idéias não passa de um vapor quente
que se desapega do chão quando o sol esquenta,
onde tudo é como este poema, escrito e inescrito além e aquém de si mesmo,
dentro e fora ao mesmo tempo.

Thursday, November 29, 2007

Blogue do Mino Carta

Concordando ou n�o com Mino Carta, imposs�vel n�o perceber a diferen�a entre a safadeza da imprensa que atua politicamente pela omiss�o de informa�o e mant�m a pose de jornalismo imparcial. Aqui um exemplo recente:

Por que n�o leio Veja
Respondo ao companheiro de navega�o Henrique Vianna. Nada sei a respeito de entrevista de Saulo Ramos � Veja, publica�o que n�o leio. Ali�s, cuido de n�o ler, em benef�cio da zona miasm�tica situada entre o f�gado e a alma. Aproveito a oportunidade que voc� me oferece, para esclarecer minhas raz�es: a Veja, que se apresenta como uma das maiores do mundo por causa de sua tiragem, de fato alentada, � uma da provas da indig�ncia mental da chamada classe m�dia nativa. Sem falar dos abastados. Est�o a� os leitores de cabresto, incapazes de perceber o p�ssimo jornalismo praticado pela revista da Abril, de um reacionarismo ign�bil, facciosa al�m da conta e extraordinariamente mal escrita. Somos uma na�o desimportante, a despeito das incr�veis potencialidades da terra, exatamente por causa desta pretensa elite, que repete o besteirol da Veja, da Globo e dos jornal�es. N�o perco as esperan�as, por que ainda confio na cultura dos desvalidos. Mais cedo, ou mais tarde, vingar�. Provavelmente, mais tarde. Sinto, apenas, que ent�o j� n�o estarei por aqui.

O link para o blogue est� em www.cartacapital.com.br

Wednesday, November 28, 2007

Poesía Mexicana I - Alfonso Reyes

Começo aqui uma série de grandes poemas mexicanos do século XX com um poema de tema indígena que põe no chinelo muita baboseira dos modernistas brasileiros. Escrito em 1934 [antes da estadia de Reyes como embaixador mexicano no Brasil] e publicado pela primeira vez em 1941. Os Tarahumaras são nativos de norte do méxico de onde Reyes veio e são famosos por serem grandes corredores de longa distância.

YERBAS DEL TARAHUMARA
Han bajado los indios tarahumaras,
que es señal de mal año
y de cosecha pobre en la montaña.

Desnudos y curtidos,
duros en la lustrosa piel manchada,
denegridos de viento y de sol, animan
las calles de Chihuahua,
lentos y recelosos,
con todos los resortes del miedo contraídos,
como panteras mansas.

Desnudos y curtidos,
bravos habitadores de la nieve
—como hablan de tú—,
contestan siempre así la pregunta obligada:
—"Y tú ¿no tienes frío en la cara?"

Mal año en la montaña,
cuando el grave deshielo de las cumbres
escurre hasta los pueblos la manada
de animales humanos con el hato a la espalda.

Los hicieron católicos
los misioneros de la Nueva España
—esos corderos de corazón de león.
Y, sin pan y sin vino,
ellos celebran la función cristiana
con su cerveza-chicha y su pinole,
que es un polvo de todos los sabores.

Beben tesgüiño de maíz y peyote,
yerba de los portentos,
sinfonía lograda
que convierte los ruidos en colores;
y larga borrachera metafísica
los compensa de andar sobre la tierra,
que es, al fin y a la postre,
la dolencia común de las razas de los hombres.
Campeones de la Maratón del mundo,
nutridos en la carne ácida del venado,
llegarán los primeros con el triunfo
el día que saltemos la muralla
de los cinco sentidos.

A veces, traen oro de sus ocultas minas,
y todo el día rompen los terrones,
sentados en la calle,

entre la envidia culta de los blancos.
Hoy solo traen yerbas en el hato,


las yerbas de salud que cambian por centavos:
yerbaniz, limoncillo, simonillo,
que alivian las difíciles entrañas,
junto con la orejela de ratón
para el mal que la gente llama "bilis";
y la yerba del venado, del chuchupaste
y la yerba del indio, que restauran la sangre;
el pasto de ocotillo de los golpes contusos,
contrayerba para las fiebres pantanosas,
la yerba de la víbora que cura los resfríos;
collares de semillas de ojos de venado,
tan eficaces para el sortilegio;
y la sangre de grado, que aprieta las encías
y agarra en la nariz los dientes flojos.

(Nuestro Francisco Hernández
—El Plinio Mexicano de los Mil y Quinientos—
logró hasta mil doscientas plantas mágicas
de la farmacopea de los indios.
Sin ser un gran botánico,
don Felipe Segundo
supo gastar setenta mil ducados,
¡para que luego aquel herbario único
se perdiera en la incuria y el polvo!
Porque el padre Moxó nos asegura
que no fue culpa del incendio
que en el siglo décimo séptimo
aconteció en El Escorial.)

Con la paciencia muda de la hormiga,
los indios van juntando sobre el suelo
la yerbecita en haces
—perfectos en su ciencia natural.

Tuesday, November 27, 2007

Da série gênios da raça II

Perólas de Sabedoria do Príncipe FHC ou Do Programa do Faustão ao Planalto
“Há portanto várias maneiras de se treinar para a atividade política. Na verdade, todas as formas de participação que mencionei requerem algum treinamento. Às vezes as pessoas treinam sem saber que estão treinando. Vou dar um exemplo que pode parecer estapafúrdio: programas de auditório. Neles existe uma certa interação entre o apresentador, os convidados e a platéia que, mesmo sem ser contabilizada como se fosse política, ensina as pessoas a se exporem, a se comunicar em público. Quem hoje está no programa de auditório, amanhã pode estar numa comissão de moradores representando seus vizinhos.”
[Trecho retirado do livro "Cartas a um jovem politico", de Fernando Henrique Cardoso]
Prefiro Tim Maia:
"Fiz uma dieta rigorosa. Cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas perdi 14 dias".

Saturday, November 24, 2007

Mote e Glosa: Zeladores e repassadores de e-mail

Recebi a seguinte mensagem:
Sent: Monday, 19 November, 2007 6:58:53 AM
Subject: Assistencialismo - Absurdo!
Amigos e Amigas,
BOA SEMANA!!!
Repassando...
Fiquei INDIGNADO!
REVOLTANTE!!!
Mas, em cada cabeça uma sentença, já dizia nossos antigos...
Abraços
História do Zelador que pediu para ser demitido !!!
Interessante e verídico!
IRREAL para um PAIS como o BRASIL!!!
IRREAL... partindo de um opositor ferrendo da POLÍTICA SOCIAL anterior...
O zelador de um prédio em Natal/RN, pediu à administração do
condomínio onde trabalhava que o demitissem.
Contou o motivo; tem dois cunhados desempregados, lá mesmo em Natal, e que, por conta da bolsa escola, cartão cidadão, cartão alimentação, vale gás, transporte gratuito, vale-refeição (acreditem - Vale-refeição) e demais benefícios do nosso governo, dadas a título de esmola, vivem melhor que ele.
Aí paramos e fomos fazer umas continhas:
1. Bolsa escola - R$ 175 para cada filho que freqüente as aulas (suponhamos que sejam apenas dois) = R$ 350,00 (em dinheiro);
2. Cartão cidadão (cujo intuito é restituir a cidadania) = R$ 350,00 (em dinheiro);
3. Vale gás (um por mês) = R$ 70,00;
4. Transporte (calculamos 4 passagens diárias, que é uma boa média)
R$ 8,00/dia x 20 dias = R$ 160,00;
5. Vale refeição (um por dia) R$ 3,50/dia x 30 dias x 4 pessoas (ele
a esposa e os dois filhos) = R$ 420,00;
Total em dinheiro - R$ 700,00
Total em serviços - R$ 650,00
Total mensal - R$ 1.350,00
Obs.1 : O salário do zelador acrescido de horas extras e tudo mais
girava em torno de R$ 830,00/mês.
Obs. 2: Tudo isso é o estabelecido pela *LEI No 10.836 , DE 9 DE
JANEIRO DE 2004*.
Se você duvidar, consulte:
Como o zelador tem três filhos em idade escolar, para ele é vantajoso ficar desempregado e ter esses benefícios. Seu 'salário desemprego' irá girar em torno de R$ 1.525,00, quase o dobro do que ganha trabalhando.
Como diria o Boris Casoy (expurgado da TV por se opor ao Lula): -
'ISTO É UMA VERGONHA!'.
Sabe quem paga por isso?
'NÓS', os 'OTÁRIOS' que damos um duro danado e passamos restrições que só nós sabemos?
Distribuir a renda, eu acho correto, mas isso é ESMOLA em exagero.
Porque você acha que o Nordeste em peso votou no Lula?
Porque você acha que 'ele' pode ser reeleito mais 'n' vezes?
REFLITA E DEPOIS LEMBRE-SE QUE A DECLARAÇÃO DO TEU IMPOSTO DE RENDA DEVE SER ENTREGUE ATÉ O DIA 30 DE ABRIL, TODOS OS ANOS. VEJA PARA ONDE VAI O TEU IMPOSTO.

Pois aí vai a glosa, a sentença da minha cabeça:
Curioso ninguém parece se indignar com alguém que tem três filhos receber um salário de 830 reais por mês...
Quem sabe se todos os zeladores e empregadas domésticas e faxineiros pedirem demissão e forem embora para casa?
Acho que qualquer ser humano razoável daria um chute bem dado em qualquer emprego que lhe ofereça um salário miserável, se pudesse.
Acho que se esse mesmo ser humano fosse mais perspicaz, perceberia que o sem-vergonha que lhe paga esse salário mereceria um chute ainda mais bem dado, mas é melhor não esperar demais de alguém que se informa pelo Jornal Nacional e se diverte com as novelas da Rede Globo, única coisa aliás que os que trabalham como zeladores e os que pagam os zeladores têm em comum.
Aposto que essa minha mensagem ninguém vai repassar [os repassadores de mensagens e os pagadores de zeladores têm muito em comum...]

Friday, November 23, 2007

Diário do Império - sobrenomes

Sobrenomes mais comuns nos Estados Unidos?
Smith [2,4 milhões, 20% deles são negros]
Johnson [1,9 milhão, 30% deles são negros]
Williams [1,5 milhão, 50% deles são negros]
Brown e Jones [1,4 milhão cada um]
Miller e Davis [1,1 milhão cada um]

Ah, 90% dos Washingtons e 75% dos Jeffersons [sobrenomes, por aqui] são negros.

Sobrenomes que mais cresceram desde os anos 90?
Rodríguez, García, Hernández, Martínez, González, López...
São seis os nomes de origem latino americana entre os 25 sobrenomes mais comuns.
Enquanto isso, Lou Dobbs vocifera na CNN todos os dias contra imigrantes ilegais e sua invasão do país e o sinistro Homeland Security conduz dezenas de batidas policiais prendendo e deportando a granel os mesmos Rodríguez, García, Hernández, Martínez, González, López...

Monday, November 12, 2007

Norman Mailer

Norman Mailer era um iconoclasta que chegava a extremos absurdos. Ele participou por exemplo de debates antológicos no início dos anos 70 quando defendia posição contrária ao feminismo, chegando a dizer ser contra o controle de natalidade, além da candidatura louca a prefeito de Nova Iorque, com a plataforma de separar a cidade do estado e banir o automóvel de Manhattan. Mas não era como muitos iconoclastas de hoje em dia, que são puramente oportunistas; Mailer punha o coração aberto em tudo o que fazia, mesmo as maiores besteiras.
Quem quiser conhecer o mais forte e o mais fraco de Mailer deveria ler "Exercitos da Noite" mistura de jornalismo com romance egomaniaco sobre os protestos contra a guerra do Vietna em 1967. Quem nao tem tempo pode ficar com o artigo “White Negro”. É uma idealização existencialista dos atos de um jovem negro que assassinou um branco no início dos anos 60. Mas para quem, como nós no Brasil, convive com uma violência palpável e concreta no dia-a-dia, essa fascinação com a violência como afirmação existencial fica um pouco sem graça...

Saturday, November 10, 2007

Notícias do Império

Notícias do Império ou para quem acha que o Brasil é o cu do mundo ou ainda: às vezes o Haiti também é aqui!

Nome da maracutaia: “earmark”, do verbo que significa destinar.
Funcionamento: congressistas adicionam a emendas do orçamento [appropriation bills] recursos destinados a empresas ou instituições específicas para executar projetos e o dinheiro é destinado a essas empresas ou instituições sem concorrência pública. O crescimento espantoso da prática que chegou a 31 bilhões de dólares ano passado está associado ao longo período de domínio absoluto do Partido Republicano nas duas casas do congresso e a tomada de poder pelos democratas representou uma diminuição de 50% nos earmarks com a instituição da exigência de um requerimento formal por escrito [o procedimento antes era anônimo e as emendas sugeridas oralmente]. No entanto, a prática continua e não é exclusiva de um partido: um democrata, o poderoso presidente da comissão de segurança John Murtha, campeão do earmark com 166 milhões de dólares, é seguido pelo republicano mais poderoso na comissão, C.W. Bill Young, com 106 milhões. Só em earmarks adicionados à emenda ao orçamento da área militar e de segurança são 1.8 bilhão de dólares para 580 empresas privadas este ano.
A iniciativa privada vê a coisa toda como um investimento rentoso e cai de boca. Por exemplo, a Raytheon [lembram-se?] gastou 990.000 dólares com lobby e recebeu 30 milhões de dólares em earmarks. O lobbysta Paul Margliochetti, ex-acessor do comitê de Murtha e Young, recebeu 840.000 dólares em honorários de clientes que receberam dinheiro dos earmarks de Murtha e seus funcionários fizeram contribuições de 58.600 dólares a campanha de Murtha. Desde 2005 essas empresas caridosas ofereceram 437.000 dólares ao comitê de campanha de Murtha e seu irmão mais novo, Kit Murtha, era empregado de uma firma de lobby até o ano passado. A firma é o braço lobbysta de um grupo empresarial que recebeu 5 milhões de earmarks de Murtha.

Circe

Circe
Minha pátria está em teus olhos, meu dever em teus lábios.
Peça-me o que quiseres menos que te abandone.
Se naufraguei em tuas praias, se estendido em tua areia
sou um porco feliz, sou teu; mais, não importa.
Sou deste sol que es, meu solar está en ti.
Meus lauros no teu destino, minha fazenda em teus haveres.

O poema é de Gabriel Zaid, traduzido do espanhol por mim.

Thursday, November 08, 2007

blogues falsos ou Jesus não mora mais aqui

Sony, Wal-Mart e outros gigantes corporativos agora resolveram fazer blogues falsos que usam como estratégia de propaganda.
É por isso que eu nunca sento na minha macia mas firme cadeira Tarantelle para passear por blogues insuspeitados no meu poderoso mas gentil computador Sumsang sem antes checar as notícias certeiras e cheias de informações úteis do site www.faltadevergonhanacara.com.br.
Como anda muito na moda usar frases de efeito de filmes nacionais para dar sabor e consistência a conversas gelatinosas, eu termino com "Jesus não mora mais aqui" [Central do Brasil].

Sunday, November 04, 2007

Apelo épico em defesa do empreendedorismo nacional

Deixem abrir as banquinhas de mercado:
são pasto hoje como foram antes pasto,
óleo azeitando a máquina do estado.
São baratas tontas, sonhando acordadas
com os frutos amargos do trabalho
cada vez mais inútil e cansado,
cada vez mais feio e desesperado
cada vez mais em si mesmo fechado.
Deixem abrir e deixem fechar,
pintem paredes e troquem telhados
dessa casa inerte e imprestável:
abençoados sejam todos os desocupados.
Mas tenham cuidado: o passado,
travestido de farsa, mora aqui ao lado.

Wednesday, October 31, 2007

Quando o que não se diz diz mais do que o que se diz

Na mídia aprende-se mais notando o que não foi dito do que lendo o que foi dito. Por exemplo, o deputado acusado de assassinato, Ronaldo Cunha Lima, é chamado apenas de "deputado federal" na imprensa em geral. Já outros deputados em seus momentos de notoriedade, por exemplo o "professor Luisinho" ou Devanir Ribeiro são sempre "deputados do PT".
E para ser mais claro: acho que TODOS os deputados em seus momentos de notoriedade deveriam ser associados a seus partidos e também acho que esses momentos de notoriedade deveriam ser revistos com alguma constância, principalmente na época das eleicões.
Meu assunto é outro: para um leitor mais atento as omissões da imprensa revelam mais do que qualquer coisa.
Outro exemplo diferente: Armírio Fraga é entrevistado em grande jornal brasileiro e fala entusiasmado sobre a "revolução capitalista" no Brasil, mas ninguém pergunta a ele sobre a necessidade de quarentena para funcionários que ocuparam altos postos nos bancos centrais.
Porque será que era "de mau gosto" falar na imprensa sobre um certo filho ilegítimo de político famoso, filho e mãe que eram sustentados por uma certa grande empresa mais ao menos na época em que Renan Calheiros era Ministro da Justiça e não se ouvia falar nada de mal a seu respeito? O filho ilegítimo do Senador é pior? O senador é pior que o ministro?

Monday, October 29, 2007

Argentina e Brasil, violência e justiça

O padre Christian Von Wernich foi condenado à prisão perpétua na Argentina por seus crimes durante a ditadura militar. Von Wernich esteve envolvido em sete assassinatos, 31 casos de tortura e 42 seqüestros.
Ninguém discute a escala muito maior da violência da ditadura argentina: em apenas 7 anos foram, nas mais conservadoras estimativas, 9.000 mortos.
Quem mata e tortura mais é pior, mas quem mata e tortura menos não é melhor por causa disso. Até quando as violências da ditadura militar brasileira vão ser varridas para debaixo do tapete? Execução sumária não é morte em tiroteio e tortura é tortura em quaquer lugar, inclusive nos Estados Unidos. Uma sociedade julga por dois motivos. Olhando para trás, a justiça julga e pune para compensar prejudicados e castigar os responsáveis por esses prejuízos; olhando para o futuro, a justiça julga e pune para evitar na medida do possível que os erros continuem ou se repitam. Mas uma sociedade também é julgada pelas gerações seguintes, por sua covardia, por sua hipocrisia, por sua omissão.

Friday, October 26, 2007

Recomendação

Quer conhecer uma poeta excelente? Rosario Castellanos:


Consejo de Celestina
Desconfía del que ama: tiene hambre,
no quiere más que devorar.
Busca la compañía de los hartos.
Esos son los que dan.

Diálogos con los hombres más honrados, 1972

Thursday, October 25, 2007

Poesia Contemporânea

Quando algumas pessoas falam sobre poesia [ou prosa] contemporânea no Brasil, sinto um certo ranço saudosista, dos bons tempos em que a produção era bem menor e os grandes mestres modernistas escreviam seus clássicos. Só que esse saudosismo é alimentado por uma visão altamente distorcida do nosso passado recente. A produção não era tão pequena assim e muita porcaria foi escrita naquela época e depois completamente esquecida e os tais clássicos modernistas não eram absolutamente vistos assim.
Há quem se queixe da falta de “direção” da poesia contemporânea e critique o “ecletismo” em vigor. Essa tal “direção” tão clara que as pessoas vêem na produção anterior é um construção feita posteriormente por pessoas que tinham um certo [não necessariamente suficiente] distanciamento e fizeram uma seleção, um corte na produção variadíssima da época. Nada contra fazer seleções ou cortes, mas não dá para achar que a seleção representa o todo. Ou alguém aqui acha mesmo que absolutamente ninguém escrevia sonetos parnasianos ou simbolistas nos anos 30?
O que acontece hoje é que as pessoas publicam com muita facilidade por causa da tecnologia acessível e mais barata, ou pelo menos enchem páginas e páginas da internet com seus poemas. Obviamente a maioria é uma porcaria. Antigamente essas porcarias seriam esquecidas em revistas literárias de poucos números encalhadas em baús mofados. Hoje vivem boiando no espaço da www ou enchendo outros baús, cheios de livros que ninguém leu e que começam a tomar bolor.
O aumento da produção em si é positivo; acho mesmo que todas as pessoas que gostam de poesia [infelizmente não são tantas assim; sou professor universitário e sei disso] deveriam escrever poemas antes de tudo para si mesmas e depois oferecê-los livremente uns aos outros. Faria bem às pessoas e não tão mal aos outros, que na pior das hipóteses podiam forrar com os poemas a gaiola dos seus passarinhos.
O que me incomoda um pouco na produção contemporânea é o corporativismo das pessoas que se organizam em grupos que se elogiam mutuamente e criam um clima em que o espírito crítico é substituído pela linguagem rasteira da resenha promocional de jornal. Também vejo em muitas pessoas o sonho meio aburguesado [e bastante ingênuo] de que elas podem um dia tornar-se escritores "profissionais", escrevendo em tempo integral e vivendo das vendas de seus livros, algo que leva muitas pessoas a toda sorte de populismos bobos em vão.

Sunday, October 21, 2007

Disfarce para a Farsa

Os japoneses têm muito medo da violência, ainda que os níveis de criminalidade no Japão sejam um sétimo dos do Estados Unidos, onde aliás as pessoas também têm medo da violência, ainda que a criminalidade no Estados Unidos tenha diminuído muito, a níveis muito abaixo da criminalidade do Brasil, onde as pessoas também têm muito medo ainda que os níveis de homicídios tenham caído muito também mas, voltando aos japoneses, eles criaram soluções sensacionais para que o cidadão comum se proteja: uma saia que se transforma em um disfarce de máquina de vender refrigerantes, uma mochila que se transforma em disfarce de extintor de incêndio e até uma bolsa que se disfarça de tampa de bueiro!
[veja os slides do New York Times no link abaixo]
http://www.nytimes.com/slideshow/2007/10/20/world/20071020_JAPAN_SLIDESHOW_index.html
No caso brasileiro, eu proporia que a classe média amedrontada adaptasse a idéia dos japoneses e se disfarçasse também. Mas, como tampas de bueiro e máquinas de vender refrigerante não são tão comuns no Brasil, que tal se essa classe média se disfarçasse de pobre, que é uma coisa que a gente encontra quase em qualquer canto no Brasil?
Para isso nossos amedrontados cidadãos contariam com a ajuda de personal fashion trainers™ recrutados diretamente nas gigantescas comunidades carentes e bolsões de miséria [veja só: combatendo o desemprego, matamos duas caixas d'água com um coelho só].
Claro que isso não resolveria muito o problema, já que as estatísticas que se encontram nas pequenas notas lá pela página 26 dos jornais indicam que não é a classe média, mas sim as pessoas mais pobres as que mais sofrem com a violência urbana. Mas um pouco de paz de espírito não tem preço, não é mesmo?
Mas outra coisa me preocupa nesse projeto de mimetização contra o crime: disfarçar esse pessoal todo de pobre colocaria a vida de muito deles mesmos em risco já que a classe média apavorada está um pouco mal acostumada e talvez não aceite ser esculachada impunemente por policiais no meio da rua sem qualquer justificativa. Eles talvez não saibam que, disfarcados de pobre, as consequências de qualquer objeção mais veemente ao esculacho policial possa redundar em ... mais violência, talvez até do tipo letal. Pois a brutalidade policial que a classe média aplaude como o melhor remédio contra os criminosos que lhes põem tanto medo dificilmente se restringe aos criminosos propriamente ditos - ainda que seja fácil dizer que todo o mundo que morreu em confrontos com as forças da lei e da ordem eram traficantes facínoras, mesmo porque quase nenhum dos presuntos em questão têm parentes que lêem jornais. Os facínoras em questão são invariavelmente pés-de-chinelo e se confundem facilmente com a maioria dos pés de chinelo, que não é facínora.
Talvez pudéssemos resolver a questão vendendo disfarces de criminoso facínora de terno e gravata aos criminosos facínoras pés-de-chinelo - eles certamente gostariam de gozar das mesmas benesses que seus companheiros de classe média gozam. Recrutaríamos mais Personal Fashion Trainers™, agora entre os moradores dos ghettos endinheirados das grandes cidades brasileiras. O problema é ter acesso a eles; teríamos que passar pela segurança na porta dos condomínios... Talvez se nós nos disfarçássemos de jardineiro ou doméstica...

Thursday, October 18, 2007

Da série os gênios da raça I

Olhem que beleza:
“Vejo o mercado de educação como um supermercado. Estou vendendo um produto. Só que, em vez de vender tomate, meu produto é um assento para o aluno estudar.”
Economista Marcelo Cordeiro, da Fidúcia Asset Management, especializado em buscar investimentos para o setor de educação em depoimento para Carta Capital.

Nosso lobo em pele de Marcelo Cordeiro vende "assento", ou seja, seu cliente preferencial é a parte da anatomia que alguns chamam de preferência nacional. Melhor eu ser mais explícito porque posso estar sendo lido por algum aluno das instutuições servidas pelo senhor Lobo em Pele de Cordeiro: a sua bunda, meus caros, é o foco da mira dessa gente! Tire o seu da reta antes que seja tarde demais!

Ou como diria o Chacrinha, "Olha o tomate, aí!"

Monday, October 15, 2007

É duro ter que dizer o óbvio

Se Cidade de Deus centra foco nos traficantes e Tropa de Elite na polícia, agora só nos falta um terceiro filme para completar a trilogia: um que fale da maioria da população que vive em favelas e bairros pobres brasileiros, que não tem envolvimento direto com crime nem polícia embora sofra as consequencias da brutalidade de AMBOS.
É duro ter que dizer o óbvio, mas o óbvio não aparece em muitos posts raivosos espalhados por aí, depoimentos de gente frustrada que vocifera contra o terceiro mundo em que vive sem perceber que o seu discurso olho-por-olho dente-por-dente é que é verdadeiramente subdesenvolvido: Bandido é bandido mesmo, e por isso deveria ser preso, julgado e condenado. Quem tortura ou elimina sumariamente quem seja, junta-se aos bandidos que supostamente combate.

Friday, October 12, 2007

Mash-up: Morte sem fim

"¡Hazme, Señor,
Un puerto en las orillas de este mar!"


Eis o meu poema,
pesadelo surdo
da carne, que queima,
punciona, rói, sangra.

Flor que se abre pra dentro,
estéril, cheia
de mim, repetindo; presa
na epiderme que me define,
cheia de mim.

Eu, seco como a sede do gesso,
padecendo a fome do ar que respira,
por um Deus inalcançável,
rancor da molécula.

Pântano de espelhos,
solidão em chamas.
Surdo pesadelo da carne.
Ilhas de monólogos sem eco.
Topo dum tempo paralítico.

Ínfimo do olho
que segue o curso da luz
pela pele da gota de orvalho.

Flor que se abre para dentro,
afogada n’água
estrangulada no copo.

Poema que se afoga na garganta –
Resta o poço ressecado,
esgar de agonia:
o poema.

Tuesday, October 09, 2007

Sobre o amor

Uma aura quase cheiro de desastre:
dois olhos duros amarelos de gato
olhando pra mim e o meu desejo inato
de esconder pelo menos uma beirinha
da verdade embaixo da manga,
do sapato, me estudando
com sobriedade especuladora
e a intenção atenta e indiferente
dum bebê (muito além desse sonoro
peido humano, tão comum hoje em dia,
que atende pelo nome de audácia).

E eu mal-acompanhado
por um desses
dessa tribo de gente que mora
na beira do mar, mas só sabe
comer sardinha enlatada
que me atira logo, cheio de certeza:
“esse tipo aí eu conheço é pelo cheiro.”

Eu retruquei afiado
e seco como um jacaré:
“caráter é caroço e casca:
punhal de que não se vê o cabo.”

Meu mau-companheiro aceitou meu truco
e pediu um longo seis em forma de aparte:
“Eu digo e repito quantas vezes você quiser ouvir o que eu sempre digo desde que virei gente: esse negócio de amor é uma bela duma balela. É tanta gente por aí dizendo que ama isso, que ama aquilo, que ama não-sei-o-quê, mas a gente só ama mesmo só o que ainda não tem; amor a gente encosta um dedinho de leve nele, ele abre as asas e vai embora. O melhor nessa vida é largar mão de tudo e não ter precisão de nada, principalmente o que não pode ser seu sem esforço além do seu próprio puro ordinário. Melhor mesmo fica tudo se o que a vida nega ao caboclo nessa vida também nunca interessa nem a ele nem a ninguém. Então a gente vai e se esconde na barra da saia da gente mesmo e finge acreditando que tudo ou é bobagem ou é obrigação e se esconde principalmente da gente mesmo, que o desprezo que a gente sente pela gente mesmo é o pior dos venenos sem soro. Esse povo todo fala de amor. Pra mim não tem nem sentido nenhum tentar satisfazer nada: tem é que arrancar tudo o que parecer amor desse corpo, que esse corpo aliás é uma outra bela duma balela, uma puta velha vendendo seu paraíso de cartolina para retardados mentais, uma porcaria duma gaiola em que a gente vive dentro assim preso sem conseguir nem se sentar nem se por de pé até chegar o dia da gente pedir arrêgo e ir embora dele e morrer.”

Mal acompanhado além da conta,
tentei de novo ser só sucinto:
“o amor não morre;
ele vai é embora,
e aí quem morre é você,
fulminado, carcomido,
cego, e pior:
sem nem saber que.
E além do mais você me desculpe,
mas coragem não existe
sem descrer na boa sorte.”

Ele não vacilaceitou nem essa minha última proposta de empate e pediu oito:
“O que eu sei é que o tal amor bate as asas e vai embora e aí ficam os dois com a carne pendurada no açougue, um de frente pro outro, tentando cada um sozinho acender um fósforo numa lata cheia d’água.”

Azar.
Eu baixei as malas no chão e tranquei
a porta do quarto brigando com as chaves
e quando eu me virei lá estava ela,
nua, descalça, nem vergonha, nem modéstia:
a fome.

Friday, October 05, 2007

Ô sujeito mais objeto, seu!

Pior do que o sujeito ter que se sujeitar a essa matilha de hienas lobotomizadas que inventam esses concursos de contos em que os contos precisam ter a palavra cactus e 1500 caracteres e coisas do tipo é o sujeito respirar fundo e se sujeitar mesmo assim e ver seus contos rejeitados!
Pior do que isso a matilha de gorilas da objetividade querer obrigar o sujeito a produzir papel que ninguém nem abre muito menos lê. Mas pelo menos esses te pagam…
Ô sujeito mais objeto, seu!

Thursday, October 04, 2007

Boas oportunidades de investimento

Boas oportunidades de investimento

O governo mexicano, com a ajuda do governo americano, acelerou o número de apreensões de drogas e prendeu gente um pouco mais graúda do tráfico. O resultado foi que o preço do papelote subiu 24% para quase US$120. No atacado o produto registra hoje preços de $30.000 dólares por quilo.
São as leis da oferta e da demanda. A mão invisível do mercado já exibiu comportamento semelhante no passado. A demanda continua firme, então logo aparece gente nova com disposição para o negócio para preencher o vácuo deixado pelos cartéis desmantelados.
De Medellin e Cali para Sinaloa e Tijuana para onde? Rio e São Paulo? Lima? Santiago? Quem se habilita?
Ah, essa notícia aparece logo antes de Bush levar ao congresso uma proposta de um pacote de ajuda de 1 bilhão de dólares para “ajudar o México a combater os narcotraficantes.” Mais uma grande oportunidade de negócio…

Wednesday, October 03, 2007

Gosta de cinema?

Gosta de cinema? Não suporta a imbecilidade rasa da sub-crítica dos jornais com suas estrelhinhas e bonequinhos e uma conversa mole de quem não entende patavinas de cinema? Então experimente a revista eletrônica Contracampo:
http://www.contracampo.com.br/

Sunday, September 30, 2007

Brasil 4 X Argentina 0 (Guayaquil 1981)

O tempo faz da história uma espetacular peça de ficção imposta pelos entusiastas do senso comum e um poeta [o mais insuspeitado no caso] pode servir de inesperado documento para baixar a bola dos ficcionistas de plantão. Um doce para quem souber quem era o técnico da época...

Brasil 4 X Argentina 0
(Guayaquil 1981)

Quebraram a chave da gaiola
e os quadros-negros da escola.

Rebentaram enfim as grades
que os prendiam todas as tardes.

Nos fugitivos é a surpresa,
vendo que tomaram-se as rédeas

(dos técnicos mudos, mas surpresos,
brancos, no banco, com medo).

Estão presos os da outra gaiola,
que não souberam abrir a porta:

ou que não o puderam, contra o jogo
dos que estavam fora, soltos.

De certo também são capazes
de idênticas libertinagens

uma vez soltos, porém como
se liberar daquele tronco

em que os aprisionaram os táticos
argentinos, também gramáticos.

E enquanto os fugitivos seguem
com a soltura, a sem lei que os regem,

nos bancos é uma indignação:
dos que vão vencendo e dos que não:

“Voltamos ao futebol de ontem?
Voltou a ser um jogo dos onze?

Voltou a ser jogar pião?
Chegou até cá a subversão?

Como é possível haver xadrez?
Sem gramática, bispos, reis?”

Thursday, September 27, 2007

Você sabia?

Você sabia: que 60% dos homicídios no Brasil acontecem por motives fúteis?
O medo é universal, mas as vítimas da violência, não. Você sabe quem está morrendo?
Você sabia que o número de homicídios no Brasil caiu nos dois últimos anos?
Visita o site www.soudapaz.org e pára de ficar reclamando da violência sem fazer nada!

Wednesday, September 26, 2007

Extrema Unção

Extrema Unção

Deus e o diabo
justo se dissolvem
e se me misturam
até desligarem
com a mesma mão
todos os relógios.

Tuesday, September 25, 2007

Mais um jogado no buraco negro dos prazos vencidos

Repórter da revista Caras toma LSD e escreve ensaio para aula de história:

A família é instituição valorizada no Brasil. O país não seria o que é sem os clãs que escreveram sua história: os Maias, Agripino, Tim e César; os Mottas, Sérgio, Zezé e Ed; os primos Mário, Oswald, Eugénio, Aloysio e Carlos Drummond de Andrade; Milton e Nílton Santos, fundadores com Sílvio Abravanel da cidade de Santos e do aeroporto Santos Dumont; Nelson, Dercy e Milton Gonçalves; os talentosos Afonso Romano, Dedé e Telê Santana; Tônia, Tião e Beto Carreiro; Hebe, Wanessa e Zezé di Camargo; o ex-presidente FH e seus pais Elizeth e Newton Cardoso; o magistrado Mário Vianna e seus filhos, Tião, Hermano e Herbert; o casal Lima e Regina Duarte; os Gomes, Mário, Ciro e Dias; os Meireles, Cecília, Fernando e Henrique; os de Morais, Vinícius e Antônio Ermírio.
Mas ninguém supera a família Ramos e vale a pena recontar aqui a sua saga.
Tudo começou quando o Cacique de Ramos ancorou sua caravela no piscinão que hoje leva seu nome, no dia em que hoje se comemora o Domingo de Ramos. O Cacique trouxe quinquilharias de Goa e seus dois filhos mais velhos, Lílian e Graciliano. Enquanto Lílian se aproveitou do carnaval e se transformou na Condessa de Itamar, Graciliano acabou seus dias na Ilha Grande, acusado de honestidade ideológica. Para o Cacique o convite para virar estátua no Madam Tussauds lhe chegou em boa hora; ele, que chegara ao país cheio de esperanças, deu com os burros n’água quando Graciliano foi preso e Lílian sumiu nas águas da Lagoa Nelson Rodrigues de Freitas. Seus netos, Nereu e Nuno Ramos, levaram o velho Cacique ao aeroporto para a despedida melancólica. Nasceriam contudo no Brasil dois outros filhos do Cacique, os imperadores da Lapa: Tony [o Grelo] e Lázaro Ramos [o Madame Satã]. Mas o pobre Cacique não soube do êxito dos seus filhos mais jovens, morrendo de disenteria no museu de cera.
A família ganharia outro ramo no Brasil com a chegada do irmão do Cacique, o Governador Celso Ramos, que para Santa Catarina atraído pelas potocas do irmão indígena. Apesar das praias infestadas de argentinos, o Governador teve melhor sorte: adaptado ao clima, casou-se com Helena e Lucy e teve com as duas três filhos: Mauro Ramos, que ganhou duas Copas [58 e 62, a última como capitão], Arthur Ramos, biógrafo de seu primo Satã, e Ofélia Ramos, cozinheira de mão boba e cabeleira cheia e mãe da dupla sertaneja Saulo e Samuel Ramos.

[dedicado a Stanislaw Ponte Preta]

Obs: Mandei essa nova versão de texto com a frase sobre o museu de cera para a Piauí e o prazo já tinha expirado [de novo]. Ficou melhor um pouco, assim que cá está.

Thursday, September 20, 2007

Tudo começa com o Cacique

Dizem as pesquisas que a família é a instituição mais valorizada no Brasil. Mas a importância da família em nossa cultura vai muito além. Nosso país não seria o que é sem os vários clãs que escreveram nossa história.
Alguns exemplos bem conhecidos:
- os irmãos Agripino, Tim e César Maia;
- a família Motta, do inesquecível Sérgio, sua digníssima Zezé e seu filho Ed;
- os primos Mário, Oswald and Carlos Drummond;
- a dupla Milton e Nílton Santos, depois completada pelo eternamente jovem Sílvio;
- o casal sensação Nelson e Dercy Gonçalves e seu filho, o ator Milton;
- os multi-talentosos Dedé, Telê e Afonso Romano de Santana;
- Tônia e Beto Carreiro;
- Hebe e Zezé di Camargo;
- o ex-presidente acadêmico Fernando Henrique e seus pais Elizeth e Newton Cardoso;
- o magistrado Mário Vianna e seus filhos Tião e Herbert;
- Lima e Regina Duarte;
- a família Gomes, com Mário, Cid e Dias;
- os poderosos Meireles, Cecília, Fernando e Henrique;
- os de Morais, Vinícius e Antônio Ermírio.

São tantas as famílias importantes para a história do Brasil, mas nenhuma família foi tão importante para o nosso país quanto a família Ramos. Por isso mesmo decidi recontar aqui brevemente a saga dessa distinta família.
Tudo começa com a chegada às terras brasileiras do Cacique de Ramos, que ancorou sua magnífica caravela conversível no piscinão que hoje leva seu ilustre nome. Desde então comemora-se em todo mundo o domingo de Ramos, que celebra a chegada da família ao Brasil. Cacique trouxe veio acompanhado de seus dois filhos mais velhos, Lílian e Graciliano. Enquanto Lílian se aproveitou de um carnaval especialmente quente para se transformar na poderosa Condessa de Itamar, Graciliano acabou seus dias preso na Ilha Grande, anonimamente acusado de honestidade ideológica. O Cacique, que chegara ao Brasil cheio de esperanças, deu com os burros n’água da praia quando sua filha Lílian, mãe dos gêmeos Nereu e Nuno, desapareceu misteriosamente nas águas da Lagoa Nelson Rodrigues de Freitas. Nasceriam contudo aqui no Brasil os dois filhos mais famosos do Cacique, os imperadores da Lapa: Tony Ramos, o “Grelo Falante”, e Lázaro Ramos, o “Madame Satã”. Tragicamente o Cacique não viveu o bastante para ver o êxito extraordinário dos seus dois filhos mais jovens, morrendo de desinteira pouco da transferência da soberania nacional de Portugal para a Inglaterra.
A família ganharia [permita-me o trocadilho acidental] outro ramo no Brasil com a chegada do irmão do Cacique, o Governador Celso Ramos, que foi parar em Santa Catarina, atraído pelas potocas do irmão Cacique e suas belas fotos da praia e do carnaval. Apesar das praias infestadas de argentinos, o Governador Celso Ramos teve melhor sorte que o irmão: adaptou-se logo ao clima temperado e casou-se duas vezes, com Helena e Lucy e teve com as duas três lindos filhos: Mauro Ramos, que ganhou duas Copas do Mundo [58 e 62, esta última como capitão da equipe], Arthur Ramos, biógrafo ilustre de seu primo Satã, e Ofélia Ramos, cozinheira de mão cheia e cabeleira formidável, mãe por sua vez de Saulo e Samuel Ramos, ambos filósofos, um no México, o outro no Brasil.

Tuesday, September 18, 2007

Coyote 15 - Inverno 2007

Saiu a Coyote e lá estou eu! Ainda doutorando - agora sou doutor - e ainda morando em Belo Horizonte - agora estou em New Haven, mas o blogue continua o mesmo...
Feliz é pouco: ser reconhecido por quem a gente admira é motivo de orgulho!!! Principalmente levando em consideração que eu não conheço ninguém lá pessoalmente nem por e-mail.

Monday, September 17, 2007

Soneto da fúria

"Porém meu ódio é o melhor de mim"

A minha fúria só viu pasto
de onde come a sua ira,
que à distância zero parecia
merda pura, contra a qual achava

que lutava a luta justa.
Injusta e errada – eu assumo –
(não é pura, a merda, nem é tudo)
é ainda a minha mesma fúria

o motor maior que me comove.
Que a minha fúria, com a sua crosta,
açucarado rancor profundo

repetente na sua sina pobre
de chocar o medo em sua cova,
não me impeça a comunhão com o mundo.

Friday, September 14, 2007

Certificado de Impunidade

Coisa que escrevi faz tempo mas...
“Nós não medimos nem pesamos esforços no sentido de promover um ambiente o mais propício possível ao desenvolvimento aqui do nosso município. É justamente com esse intuito que temos lançado uma série de políticas públicas e medidas administrativas para simplificar, agilizar, otimizar e desburocratizar os nossos processos, sempre priorizando a eficiência e a transparência em um ambiente propício ao fomento dos mais diversos empreendimentos, buscando uma máxima diversificação dentro das nossas potencialidades e das nossas vocações naturais. E agora, embuídos desse espírito, estamos aqui hoje para anunciar que a nossa administração mais uma vez sai na frente e tem o orgulho de ser a pioneira na aplicação de uma idéia que, com toda a certeza, logo se espalhará por todo o país: o Certificado de Impunidade®.
Como quase todas as grandes idéias que vêm para mudar, o nosso Certificado de Impunidade® surgiu de uma constatação muito simples: ano após ano fortunas dos nossos cofres públicos são gastas inutilmente empregando recursos valiosos e pessoal qualificado na tentativa de investigar, levar a tribunal, julgar e condenar certos indivíduos, sempre sem qualquer sombra de sucesso. Mobilizamos um verdadeiro exército de policiais, investigadores, promotores, juízes, programas de proteção a testemunhas, celas especiais para pessoas com diplomas do terceiro grau e uma imensa estrutura burocrática que drena os recursos públicos sem qualquer retorno, financeiro ou social. Esses são recursos que poderiam ser utilizados no fomento ao desenvolvimento e no cumprimento das prerrogativas básicas do estado. Casos e mais casos notórios sempre terminam sem qualquer resultado prático: no máximo um punhado de reputações levemente arranhadas, coisa que o tempo trata logo de apagar e nossa máquina com uma sensação crescente de impotência e um rombo cada vez maior nas contas públicas.
Com o nosso Certificado de Impunidade® todo esse processo dispendioso e desgastante acaba e, melhor ainda, ganhamos uma nova fonte de arrecadação de recursos com a venda desse produto no mercado de ações, lojas de conveniência, shopping centers e internet. Depois de um processo simples, rápido e seguro, obedecendo a critérios estritamente técnicos, qualquer um pode, sem maiores aborrecimentos, receber seu Certificado de Impunidade® em casa pelo correio. Assim os casos de corrupção ativa e passiva, trabalho escravo e semi-escravo, pistolagem, grilagem de terras, estelionato, fraude, desvio de recursos e tantos outros que sempre existiram, existem e existirão no nosso lindo paraíso tropical abençoado por Deus e bonito por natureza poderão estar à vista de todos sem exclusões, executados com máxima transparência e custo mínimo. Livres dos entraves burocráticos que atrasam e às vezes até paralisam o empreendedor e/ou empresário, nosso município e, logo, todo o país, estarão prontos para crescer muito rapidamente com solidez e estabilidade social, uma vez que todo o aparato legal poderá finalmente dedicar-se em tempo integral àqueles crimes que chamamos de alta punibilidade, tais como o exercício da prostituição autônoma, o pequeno varejo de drogas, batedores de carteira, cambistas e falsos mendigos e aleijados – os delitos que comprovadamente mais irritam e incomodam o cidadão comum no seu dia-a-dia, espalhando um senso geral de desrespeito às leis que põe em risco os pilares da nossa paz social.

Thursday, September 13, 2007

Deus

Deus é um poço fundo,
feio, escuro, sem viço nem cheiro.

Meu Deus
é feito de mim mesmo
e diz:

“Eu não erguerei nem um dedo.”

Wednesday, September 12, 2007

O lapso verbal e a guerra do Iraque

Os freqüentes foras de Bush, produto da óbvia dificuldade do presidente Americano em se expressar quando fala de improviso frequentemente trocando uma palavra por outra com pronúncia semelhante e sentido diferente, já renderam algumas coletâneas de “ditos” do presidente [George W. Bushisms: The Slate Book of Accidental Wit and Wisdom of our 43rd President, de Jacob Weisberg].
O tratamento da imprensa dado aos lapsos verbais do homem que veio do Texas varia muito de país para país. Enquanto jornais brasileiros deram grande destaque ao fato de que Bush chamara os australianos [dos últimos aliados fiéis dos americanos no Iraque] de alguma coisa próxima de “Australíacos”, o New York Times menciona o fato brevemente em reportagem sobre a visita lá nos confins do caderno internacional do jornal. Não é simplesmente uma questão de proteger a figura presidencial, uma vez que o New York Times tornou-se um crítico veemente de Bush [depois de apoiar, como aliás toda a mídia americana, a invasão iraquiana num surto de patriotismo exacerbado].
A questão é que a cobertura de política da mídia brasileira é cada vez mais parecida com o jornalismo feito por revistas de fofoca que fuçam a vida das tais celebridades em busca de fatos bizarros ou pitorescos. Será que essas coisas são tão importantes? Bush seria um presidente tão péssimo quanto é mesmo se conseguisse se expressar com eloqüencia e elegância. O que será mais relevante? As flores do jardim do palácio ou a política econômica ainda neo-liberal? As centenas de pessoas mortas em uma guerra baseada em justificativas fraudulentas ou as carecas simiescas do presidente? O corte de cabelo do presidente ou o corte das verbas públicas que aparecem no orçamento mas ficam “contingenciadas”?
É uma questão de ênfase...

Wednesday, September 05, 2007

KERVOKIAN2000™

Mote:
Fernanda Montenegro: “A única opção para fugir do envelhecimento é a morte.”

Glosa:
Você detesta envelhecer, não é mesmo? Você luta com as forças que tem, mas nada parece capaz de realmente parar com o envelhecimento, não é mesmo? Cada vitória contra o dragão da velhice não passa de uma ilusão fugaz, não é mesmo? Dali a pouco as águas do tempo vem e levam as baragens que construímos com tanto zelo consigo e aí então o espelho implacável nos diz que mais uma vez perdemos… Quem não daria tudo para dar um fim definitivo a esse terrível processo de enfeiamento: os músculos cada vez mais flácidos, as gorduras cada vez mais despudoradamente localizadas, as rugas cada vez mais fundas, as papadas despejando-se em dobras, os cabelos caindo aos tufos ou enbranquecendo ou então misteriosamente migrando para dentro das orelhas e narinas?
Pois nós já temos a resposta para os seus problemas: adquira hoje mesmo nosso KERVOKIAN2000™ pelo telefone ou pela internet e lhe enviaremos pelo correio uma única dose para que você possa finalmente encontrar o fim inexorável de todos os seus problemas sem contra-indicações, sem dores e sem arrependimentos.
E não ficamos apenas nisso: junto com a sua dose única do nosso KERVOKIAN2000™ você receberá em sua casa inteiramente grátis uma escritura para o cemitério mais próximo de sua residência e um pacote completo de transporte e manuseio de seus restos mortais, além de caixão, flores, roupa, e coroas nos modelos SEMPRE SOBRIO™, DESPEDIDA CHIC™ ou então nosso revolucionário conjunto ALEGRE ATE O FIM™.
Chame hoje! Não perca! Ponha fim ao envelhecimento!

Friday, August 31, 2007

Notícias do Império 1

No Brasil costumam me perguntar como vão os americanos com esse clima todo de guerra ao terrorrismo. Nunca sei bem o que responder, mesmo porque é difícil precisar o que sejam "os americanos" quando se vive no meio deles - são tantos e tão diferentes quando os brasileiros...
Bom, mas ainda dá para dar um exemplo concreto de como anda o clima por aqui. Em vários lugares, suponho eu "estratégicos" (estacionamentos, cabines de cobrança de pedágio nas estradas), vê-se placas pedem às pessoas que reportem qualquer atividade suspeita à polícia. Pois bem, outro dia aqui em New Haven viram um casal "vestido de negro" em atitude suspeita: a mulher do casal espalhava um pó branco no estacionamento de uma loja de móveis imensa, uma multinacional sueca meio tipo TokStok, a Ikea. Chamaram a polícia que chamou os bombeiros que chamaram uma equipe especialmente treinada para lidar com materiais perigosos que chamou um grupo de combate a atos de terrorrismo e mais uns tantos meganhas de cidades vizinhas treinados para esse tipo de emergência. Usando escaneadores de última geração, essa verdadeira multidão de funcionários da lei e da ordem descobriu que o tal pó branco era... farinha de trigo!
O casal faz parte de um grupo nacional chamado Harsh House Harriers, que descreve a si mesmos como "um clube de bebedores com problema de corrida" (a drinking club with a running problem, um trocadilho, aqui entre nós, infame). Pelo que entendi eles enchem a cara juntos e, nas horas vagas, saem correndo pela cidade - fazendo uma brincadeira em que um grupo pequeno (as lebres) deixa um rastro de farinha para os outros membros do grupo (os perdigueiros) seguir depois.
Farinha ou não os meganhas não quiseram saber de conversa: o casal foi preso por distúrbio à paz e pode pegar cinco anos de cadeia e ter que pagar $50,000 em restituição aos gastos com a "operação anti-farinha" dos cofres públicos.
Já consigo imaginar o júbilo dessa horda de gente de inunda de e-mails os jornais brasileiros com gritos indignados pelo fim da impunidade e pela morte por esquartejamento aos criminosos e corruptos em geral, o bombardeamento do congresso com todos os deputados e senadores dentro e coisas do tipo. Mas qual será o oposto de impunidade? Não há de ser faascismo, não é mesmo?
Aqui a sorte do casal de desperdiçadores de farinha de trigo vai depender de julgamento e provavelmente uma pequena brigada de advogados dos direitos humanos deve se apresentar para defender o casal. Diga-se de passagem que vários grupos dos HHH fazem a mesma coisa há anos em Washington D.C. e nunca foram molestados pela polícia... Mas quando se trata do sistema legal, quem sabe?

Thursday, August 30, 2007

Melodrama

Acabaram-se as minhas longas férias e volto a escrever aqui pelo menos duas vezes por semana. Enzo, a peça que vimos nas aulas de introdução à literatura inglesa era um melodrama inglês do século XIX, "A Drunkard's Dilemma" ou em bom português "O dilema de um bêbado". Muitas obras inglesas importantes como os romances de Walter Scott caíram na boca do povo na Inglaterra graças a centenas de versões teatrais melodramáticas. Como todo melodrama que se preze "O dilema de um bêbado" tem uma mocinha casta e honesta a níveis absurdos, vilão cruel e libidinoso que esfrega as mãos em júbilo enquanto trama suas maldades, um velho pai bondoso mas impotente pelo vício e finalmente um jovem belo e nobre que salva a mocinha. É despudoradamente divertido em seu exagero despudoradamente adolescente e ao mesmo tempo mexe com o espectador de forma visceral, sem permitir as defesas habituais da razão, essa senhora respeitável que insiste em nos convencer que tudo nesse mundo há de ser sempre razoável. O excelente diretor de cinema mexicano Guillermo del Toro (Labirinto do Fauno e A espinha do Diabo) bem diz que o melodrama é uma das formas mais poderosas de comunicação humana. E viva Waldick Soriano!!!

Wednesday, June 13, 2007

O ignorante, o culto e o pobre de espírito

Qual é a fronteira entre o ignorante e o culto?
Quem é pobre de espírito nunca se faz essa pergunta porque tem a si mesmo como a medida da ignorância e da cultura de todas as pessoas. Para essa figura tão comum hoje em dia saber quem é ignorante é matéria simples: o ignorante é aquele que não sabe o que ele sabe. O pobre de espírito aprende alguma coisa de manhã e à tarde já despreza todos que ainda não aprenderam uma coisa assim tão “básica”. E assim, à medida em que aprende mais e mais, esse pobre de espírito torna-se cada vez mais cheio de si e tem cada vez mais desprezo por aqueles que ele chama de ignorantes. Para ele é sempre perda de tempo explicar o que ele já sabe; é coisa de quem precisa “rebaixar-se” ao nível da patuléia ignorante.
E como se comportam esses pobres de espírito frente aos que sabem mais do que eles? Nesse caso o exército de imbecis se divide em dois grupos: os idiotas talvez menos piores idolatram fulano por ser “incrivelmente erudito” e os outros, idiotas mais completos, simplesmente desprezam fulano por ser um afetado que acumula conhecimento inútil.
Mas qual é afinal fronteira entre a ignorância e a cultura?
Talvez a pergunta esteja mal formulada. Afinal todos nós sabemos e ignoramos muitas coisas. Parece que a questão então é escolher o que é que devemos saber e o que podemos simplesmente ignorar. E mais ainda reconhecer os limites do que conseguimos aprender e do que está fora do nosso alcance por limites de acesso.
Enquanto isso os imbecis ladram lá fora...

Sunday, June 03, 2007

A natureza humana

A natureza humana

A ideia é simples. Dois voluntários que não se conhecem chegam ao laboratório no horário marcado para um experimento sobre memória anunciado no jornal da cidade. Os dois assinam documentos de obrigações contratuais típicos de experiências desse tipo. O pesquisador que os recebe então tira na sorte os papéis dos dois envolvidos: você será o instrutor e o outro sujeito, que vai para uma outra sala contígua, o aprendiz. Vocês dois se comunicarão através de um interfone. O aprendiz tem seus braços amarrados e um eletrodo fixado no seu pulso direito. Você lê de uma lista de perguntas que testam a capacidade de memorização do aprendiz. Quando o aprendiz acerta você é instruído pelo pesquisador a dizer-lhe algo encorajador como “bom” ou “isso mesmo” e quando ele erra você deve puxar uma das várias alavancas de um aparato sofisticado em cima da sua mesa. A primeira alavanca produz um pequeno choque de 15 volts no braço do aprendiz. O aparato tem trinta alavancas que indicam choques entre 15 e 450 volts.
Abaixo de algumas alavancas você pode ler pequenas legendas indicativas. Abaixo da décima alavanca (150 volts) você lê “choque forte”; abaixo da décima-sétima (255 volts), “choque intenso”; o vigésimo quinto nível (375) vem acompanhado pelo aviso “Perigo, choque severo” e
as duas últimas alavancas no topo do painel contém legendas simplesmente com a inscrição “XXX”. Antes de começar o experimento, a título de ilustração, você mesmo recebe um choque do nível 3 (45 volts) no braço direito que causa uma pequena pontada aguda de dor.
A cada erro do aprendiz, você é instruído a ministrar-lhe um choque, subindo em intensidade a cada novo erro. No começo o aprendiz vai razoavelmente bem, mas, à medida em que o teste fica mais complexo, os erros começam a aparecer com mais frequência e os choques vão subindo de intensidade. Você agora escuta o aprendiz na outra sala quando ele reclama da dor. Você olha apreensivo para o pesquisador que acena afirmativamente para que você continue. Quando os gritos do aprendiz aumentam de intensidade e transforma-se em urros de dor seguidos de súplicas, você diz ao pesquisador que não quer continuar com o experimento. Ele é firme e insiste categoricamente que você continue de acordo com as instruções recebidas, relembrando os contratos de compromisso assinados pelos dois evolvidos e assegurando que tudo está correndo dentro do esperado. Mais alguns choques seguidos de urros e súplicas e você mais uma vez hesita. Mais uma vez o pesquisador é inflexível e insiste que agora você não tem outra escolha a não ser prosseguir. Você pede pelo interfone que o aprendiz tenha mais atenção e continua com a bateria de perguntas. Os erros agora são ainda mais frequentes e o aprendiz começa a reclamar de fortes dores no peito. Você quase implora que ele se concentre no teste. Um simples olhar do pesquisador basta para compreender que é preciso prosseguir. Mesmo assim você agora reclama com veemência, dizendo que nunca fez isso e que não gostaria de machucar ninguém. O experimentador garante assumir toda a responsabilidade, menciona mais uma vez o contrato e a concordância de ambos em participar do experimento sem questionamentos e insiste que tudo está sob controle. Quando você chega aos choques de 300 volts o aprendiz já não responde mais nada. Você pede por favor ao experimentador que vá até o outro recinto e veja o que está acontecendo. Ele não se move e diz que, se não houver resposta para a pergunta em cinco segundos, você deve prosseguir com o procedimento: continuar elevando a intensidade dos choques e fazer a próxima pergunta. Você chega a se levantar da cadeira, mas o experimentador insiste: essas são as regras, continue com as perguntas e continue punindo os erros. Você faz uma nova pergunta, espera cinco segundos em um silêncio excruciante e aplica o choque da próxima alavanca até chegar ao XXX. Restam ainda três perguntas. O pesquisador manda que você repita o choque mais forte até completar o questionário.

Esse experimento, conduzido pela primeira vez nos Estados Unidos pela Universidade de Yale foi repetido com inúmeras variações: com mulheres e homens, de faixas etárias e classes sociais diferentes. Até o local da experiência foi transferido da universidade para um galpão abandonado em uma cidade vizinha para eliminar assim qualquer pretensa influência excessiva da respeitabilidade do meio. Depois dos anos 50 o mesmo experimento com todas essas variações e outras diferentes foi repetido em vários países e em épocas diferentes. O resultado foi sempre o mesmo: entre 60% e 65% das pessoas envolvidas foi até o fim com os choques. A grande maioria protestando até com veemência, mas mesmo assim passando de alavanca em alavanca até o choque de 450 volts.

Friday, May 18, 2007

Sobre Violência

Olha, tem gente que acha que o inferno de violência pelo qual a gente passa no Brasil hoje é novidade. Eu acho que ele sempre existiu, mas que agora ele foi expandido até as classes médias que se sentiam acima do resto (da maioria) da população. Chequem as estatísticas: os assassinatos em uma metrópole qualquer no Brasil em um fim de semana e depois procure saber de que bairros vêm as vítimas e compare a cobertura desproporcional da imprensa quando morre alguém da periferia e quando morre alguém de um "bairro bom".
Em 1969, um ano depois do massacre da praça de Tlatelolco, quando o governo metralhou manifestantes e quem mais estivesse por ali num gesto de violência que derrubou as últimas ilusões dos próprios mexicanos com relação a sua revolução, o poeta mexicano, José Emilio Pacheco, escreveu esse poema, que fala dessa violência brutal como uma "tradição" peculiar, quase um carma. Acho que tudo isso serve para nós também:

Tierra
La honda tierra es
la suma de los muertos.
Carne unánime
de las generaciones consumidas.

Pisamos huesos,
sangre seca, restos,
invisibles heridas.

El polvo
que nos mancha la cara
es el vestigio
de un incesante crimen.

De "No me preguntes cómo pasa el tiempo," 1969

Tuesday, May 08, 2007

Quando é que nos vamos acabar com a nossa lei seca?

Beira-Mar [Al Capone] já dizia:
Eu ganho dinheiro suprindo uma demanda pública. Se eu desrespeito a lei, meus consumidores, que são centenas das melhores pessoas do Rio de Janeiro [Chicago], são tão culpadas como eu. A única diferença entre nós é que eu vendo e eles compram. Todo mundo me chama de traficante de drogas [de bebidas]. Eu me chamo um homem de negócios. Quando eu vendo droga [bebida], é tráfico. Quando meus clientes servem essa droga [bebida] em bandejas de prata no Leblon ou na Barra da Tijuca [Lake Shore Drive], é hospitalidade.
E quando prenderam Al Capone, veio outro Al Capone no seu lugar. E quando morreram o primeiro e o segundo veio um terceiro Al Capone.
Até que a lei seca foi abolida.
Quando é que nos vamos acabar com a nossa lei seca?

Saturday, April 21, 2007

O automóvel do poema de Zaid

O poema de Gabriel Zaid que eu postei foi começado em 1974, se não me engano. Assim o automóvel que sai do mar pode assumir pelo para mim conotações mais obscuras, relacionadas à violência bruta que explode hoje mas que já implodia o Brasil desde aquela época.
Se alguém disser que aquilo tudo (torturas, assassinatos, prisões, exílio) é passado e não precisa ser rememorado, saiba que a extrema violência policial, a brutalidade desumana das prisões que só piora a violência social cada vez mais chocante das ruas, coisa que preocupa tanto ao brasileiro médio hoje em dia, não começou, mas avançou muito naquele período de repressão e autoritarismo. Toda aquela gente treinada naqueles anos tristes para fazer exatamente o que aparece no filme "Batismo de Sangue" e foi descrito em detalhes no livro "Brasil: nunca mais" anda solta por aí até hoje, trabalhando e possivelmente treinando outras pessoas.

Wednesday, April 18, 2007

Gabriel Zaid em Ipanema

Este poema é para fazer par com o poema de Carlos Pellicer que postei aqui sobre o Rio de Janeiro. A revista Letras Libres tem um artigo (disponível online) do prórpio Zaid explicando a composição do poema que começou a ser escrito nos espaços em branco do JB (Amílcar de Castro ficaria feliz com isso, suponho).

IPANEMA
El mar insiste en su fragor de automóviles.
El sol se rompe entre los automóviles.
La brisa corre como un automóvil.

Y de pronto, del mar, gloriosamente,
chorreando espuma, risas, desnudeces,
sale un automóvil.

Wednesday, April 11, 2007

Sobre o futebol

Sobre o futebol
Por mais que a gente aprecie o futebol pela sua beleza, como esporte ele pode ser tão bonito (ou feio) e emocionante (ou tedioso) como o tênis ou o basquete ou outro esporte qualquer. O brasileiro obviamente acompanha futebol antes de tudo por causa desse comprometimento visceral com um time de futebol que, seja qual for, se transforma para ele em uma instituição sagrada. Normalmente esse comprometimento acontece na infância e é um ato de integração na família ou às vezes um gesto de rebeldia contra ela.
Claro que é algo completamente irracional. Tão irracional quanto chorar pela morte de um cantor ou ator de cinema qualquer que a gente nunca conheceu pessoalmente e tão fundamentalmente absurdo como acreditar em um Deus especifico. Mas está claro faz tempo que não somos 100% racionais de qualquer jeito, não é mesmo?
Torcer por um time de futebol (na alegria e na tristeza, na vitória e na derrota até que a morte nos separe, amem) é uma experiência coletiva intensa em um mundo desumanamente individualista e cheio de ofertas de experiências superficiais. Algo que aparentemente, para o meu espanto nem o comercialismo oportunista com que essa paixão é tratada pode abalar.
Esse comprometimento apaixonado com um time de futebol civilizadamente permite a muitas pessoas extravasar sua agressividade, suas frustrações e seus ódios de uma maneira não-violenta. Infelizmente uma minoria prefere transformar sua paixão em uma caricatura de fascismo.

Sunday, April 01, 2007

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco

A Folha de São Paulo me fornece o mote:

A ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), está incitando o ódio racial.
É essa a opinião da antropóloga Yvonne Maggie, professora titular do departamento de antropologia cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a respeito das declarações da ministra publicadas na terça passada.
Questionada sobre se, no Brasil, também há racismo de negro contra branco, como nos EUA, Matilde Ribeiro disse: "Acho natural [que haja]".
São Paulo, domingo, 01 de abril de 2007

E eu trago a glosa:

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco
Eu não agüento mais ser discriminado no Brasil só por ser branco. Não se passa uma semana sem que eu sofra com o preconceito contra o meu grupo étnico, que dizem que é uma minoria por aqui, mas isso é só porque tem muito branco por aí que prefere fingir que é negro. Negam a própria raça! Imagine que outro dia eu deixei um amigo meu mais escuro que eu na porta do estádio de futebol e fui estacionar o carro e, quando eu cheguei na fila para entrar no estádio, um sujeito na fila me gritou “ei, branquelo azedo, isso aqui não é jogo de golfe, não!” E agora vem essa moça do governo incitar ainda mais o ódio contra o meu povo! Absurdo!
O dono da empresa onde eu trabalho já não queria me dar emprego por causa do meu cabelo liso e dos meus olhos claros. Quando ele me contratou disse que fez isso só porque queria me dar uma chance de provar que essa história de que “branco não gosta de trabalhar” é balela. O gerente do banco onde eu tenho conta também me olha com cara de poucos amigos; outro dia veio com um papo estranho de que não era comum ver um branco como eu com uma conta com tanto dinheiro assim naquele banco. E eu não posso pegar uma batida policial, de carro ou de ônibus, que logo me vem um policial, muitas vezes até mais branco que eu, me pedir para ver meus documentos e não sei o quê mais. Uma humilhação. E essa tal ministra deve achar tudo isso muito natural.
Um professor da escola do meu filho (que nem é tão branco assim) vive implicando com o menino, dizendo que “o ariano é assim mesmo, preguiçoso e fofoqueiro, e que os arianos em geral não têm mesmo jeito para o estudo.” Quando meu filho reclamou, sabe o que ele disse? “No dia em que o Brasil tiver um presidente branco, eu mudo de idéia.” E quando meu filho disse para ele que o FHC era branco, o professor disse para ele que todo mundo estava careca de saber que o FHC não era branco; que o próprio FHC tinha admitido que ele tinha um pé na cozinha. Quando eu fui reclamar pessoalmente com a diretora da escola, sabe o que ela me disse? Que eu era um branco com complexo e que eu estava ensinando aos meus filhos a se sentirem inferiorizados. E agora essa mulher preconceituosa vem dar uma entrevista no estrangeiro para exacerbar o ódio racial ainda mais.
Minha esposa, que tinha os cabelos mais lisos que os meus, agora frisou o cabelo. Meu filho mais novo prefere andar de cabelo raspado só para não mostrar a cabeleira escorrida dele e meu outro filho, o mais velho, vive tomando sol só para “melhorar a aparência” e agora me disse que quer fazer uma operação plástica para achatar o nariz! Ele diz que duvida que uma dessas empresárias, políticas, gerentes de empresa, chefes de repartição, todas mulheres negras como a ministra, iriam dar emprego para um homem como ele, branco que nem papel e ainda por cima com o cabelo todo escorrido. Isso mesmo com todas as qualificações que ele tem. Nesse Brasil em que os negros já dominam tudo, ministra, onde é que a senhora quer chegar?
E ainda por cima nós somos todos louros de olhos azuis!

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco

A Folha de São Paulo me fornece o mote:

A ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), está incitando o ódio racial.
É essa a opinião da antropóloga Yvonne Maggie, professora titular do departamento de antropologia cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a respeito das declarações da ministra publicadas na terça passada.
Questionada sobre se, no Brasil, também há racismo de negro contra branco, como nos EUA, Matilde Ribeiro disse: "Acho natural [que haja]".
São Paulo, domingo, 01 de abril de 2007

E eu trago a glosa:

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco
Eu não agüento mais ser discriminado no Brasil só por ser branco. Não se passa uma semana sem que eu sofra com o preconceito contra o meu grupo étnico, que dizem que é uma minoria por aqui, mas isso é só porque tem muito branco por aí que prefere fingir que é negro. Negam a própria raça! Imagine que outro dia eu deixei um amigo meu mais escuro que eu na porta do estádio de futebol e fui estacionar o carro e, quando eu cheguei na fila para entrar no estádio, um sujeito na fila me gritou “ei, branquelo azedo, isso aqui não é jogo de golfe, não!” E agora vem essa moça do governo incitar ainda mais o ódio contra o meu povo! Absurdo!
O dono da empresa onde eu trabalho já não queria me dar emprego por causa do meu cabelo liso e dos meus olhos claros. Quando ele me contratou disse que fez isso só porque queria me dar uma chance de provar que essa história de que “branco não gosta de trabalhar” é balela. O gerente do banco onde eu tenho conta também me olha com cara de poucos amigos; outro dia veio com um papo estranho de que não era comum ver um branco como eu com uma conta com tanto dinheiro assim naquele banco. E eu não posso pegar uma batida policial, de carro ou de ônibus, que logo me vem um policial, muitas vezes até mais branco que eu, me pedir para ver meus documentos e não sei o quê mais. Uma humilhação. E essa tal ministra deve achar tudo isso muito natural.
Um professor da escola do meu filho (que nem é tão branco assim) vive implicando com o menino, dizendo que “o ariano é assim mesmo, preguiçoso e fofoqueiro, e que os arianos em geral não têm mesmo jeito para o estudo.” Quando meu filho reclamou, sabe o que ele disse? “No dia em que o Brasil tiver um presidente branco, eu mudo de idéia.” E quando meu filho disse para ele que o FHC era branco, o professor disse para ele que todo mundo estava careca de saber que o FHC não era branco; que o próprio FHC tinha admitido que ele tinha um pé na cozinha. Quando eu fui reclamar pessoalmente com a diretora da escola, sabe o que ela me disse? Que eu era um branco com complexo e que eu estava ensinando aos meus filhos a se sentirem inferiorizados. E agora essa mulher preconceituosa vem dar uma entrevista no estrangeiro para exacerbar o ódio racial ainda mais.
Minha esposa, que tinha os cabelos mais lisos que os meus, agora frisou o cabelo. Meu filho mais novo prefere andar de cabelo raspado só para não mostrar a cabeleira escorrida dele e meu outro filho, o mais velho, vive tomando sol só para “melhorar a aparência” e agora me disse que quer fazer uma operação plástica para achatar o nariz! Ele diz que duvida que uma dessas empresárias, políticas, gerentes de empresa, chefes de repartição, todas mulheres negras como a ministra, iriam dar emprego para um homem como ele, branco que nem papel e ainda por cima com o cabelo todo escorrido. Isso mesmo com todas as qualificações que ele tem. Nesse Brasil em que os negros já dominam tudo, ministra, onde é que a senhora quer chegar?
E ainda por cima nós somos todos louros de olhos azuis!

Wednesday, March 28, 2007

Dinossauros

Hoje eu vou fazer diferente: nada de escrever tudo, depois revisar e aí depois postar no blogue. Hoje eu vou na lata. Tem dias em que baixa o desânimo e daí para o desespero é um pulo. Minha vida sempre foi marcada por esses longos períodos desde quando eu me lembro. Só fui diagnosticado e tratado como depressivo quando a crise chegou ao que nossa sociedade considera o único pecado imperdoável para um ser humano: quando eu não conseguia sair da cama e fazer dinheiro, há cinco anos. Um sofrimento para mim e para todo mundo que convivia comigo – minha esposa e meu filho. Um sofrimento que eu só consegui superar com a ajuda de remédios. Mas a coisa mais estúpida do mundo é pensar (como fazem muitas pessoas) que esse estado é uma doença que basta extirpar com uma boa dose disso ou daquilo no cérebro. Se o que eu tenho e tive todas as outras vezes é alguma coisa que chamam de depressão, posso afirmar: NINGUEM fica deprimido sozinho, independentemente do que se passa a sua volta. Sua tendência inata ao estado depressivo só entra em ignição em contato com a podridão, própria e circundante. O mundo humano é, no mínimo, um lugar muito difícil – basta olhar em volta e constatar – onde somos obrigados a agüentar todo o tipo de violência possível com tanta intensidade e regularidade que então como não se atirar ao desespero? Meu recurso preferido é me atirar como um louco em trabalhos que eu sei que têm significado pelo menos para mim. Mas às vezes mesmo assim é muito difícil. A corda cai se esticando até que se arrebenta e cada vez que se faz um remendo eu fiquei trinta anos mais cansado. E quem não quer compartilhar o que faz com os outros? O ser humano morreu há muito tempo e só esqueceu de se enterrar. Somos dinossauros esperando estupidamente por algum meteoro que ponha fim a essa farsa imbecil. E daí?

Monday, March 26, 2007

De como a raiva bem articulada e bem dirigida pode dar em um bom poema

Coisa mais fácil no mundo de hoje é viver com raiva. Como diz um adesivo de carro daqui: "se você não está indignado, é por falta de informação." Mas indignação sozinha não faz poesia. Jaime Sabines sabia ter raiva e quando acertava a mão... acertava a mão:

Cantemos al dinero

Cantemos al dinero
con el espíritu de la navidad cristiana.
No hay nada más limpio que el dinero,
ni más generoso, ni más fuerte.
El dinero abre todas las puertas;
es la llave de la vida jocunda,
la vara del milagro,
el instrumento de la resurrección.
Te da lo necesario y lo innecesario
el pan y la alegría.
Si tu mujer está enferma puedes curarla,
si es una bestia puedes pagar para que la maten.
El dinero te lava las manos
de la injusticia y el crimen,
te aparta del trabajo,
te absuelve de vivir.
Puedes ser como eres con el dinero en la bolsa,
el dinero es la libertad.
Si quieres una mujer y otra y otra, cómpralas,
si quieres una isla, cómprala,
si quieres una multitud, cómprala.
(Es el verbo más limpio de la lengua: comprar.)
Yo tengo dinero quiere decir me tengo.
Soy mío y soy tuyo
en este maravilloso mundo sin resistencias.
Dar dinero es dar amor.

¡Aleluya, creyentes,
uníos en la adoración del calumniado becerro de oro
y que las hermosas ubres de su madre nos amamanten!
Yuria, 1967