Tuesday, March 29, 2016

Um resumo da história do debate entre vegetarianos e carnívoros

William Hogarth - O the Roast Beef of Old England ('The Gate of Calais)


Diálogo imaginário entre defensores do vegetarianismo e da carne como alimento:


- O sangue dos animais alimenta a agressividade e crueldade nos homens.
- A carne abundante dá coragem e vitalidade aos homens para a sua luta pela vida.
- Carne causa problemas de saúde.
- Carne é uma fonte importante de proteína.
- 18% do efeito estufa é causado pela criação de animais de corte. 40% dos grãos cultivados no mundo são usados para alimentar animais de corte.
- A fome é uma questão de distribuição de renda e só não come carne quem não pode. O consumo médio de carne na China passou de uns 15 kilos por pessoa por ano a mais de 50 quilos em 25 anos.
- Os estadounidenses comem o dobro de carne dos chineses e têm muito mais câncer e diabetes.
- Os estadounidenses comem o dobro de carne e têm uma expectativa de vida maior que os chineses.
- Nada melhora nesse planeta enquanto continuarmos sendo essas sepulturas ambulantes de animais assassinados.
- Quando se abre a barriga dum peixe, é comum encontrar outros peixes da mesma espécie. São canibais, portanto, merecem ser comidos.
- Os animais são seres como nós e não merecem morrer só para nos alimentar.
- Os legumes e verduras também são seres como nós. É impossível viver sem matar alguma coisa para comer.
- Gandhi era vegetariano.
- Hitler era vegetariano.
- Carne tem gosto de sangue.
- Tofu tem gosto de papel.
- Insensível.
- Ignorante.

Friday, March 25, 2016

Fatos e sentimentos, história e futuro

"Eu muitas vezes achava que o simples fato, o fato mecânico, não está mais perto da verdade do que o sentimento, o rumor, a visão imprecisa. Porque repetir os fatos senão para encobrir nossos sentimentos? O desenvolvimento desses sentimentos, o transbordamento desses sentimentos para além dos fatos, é o que me fascina. Eu tento encontrá-los, recolhe-los, protegê-los.
Essas pessoas testemunharam o que para todos os outros ainda é desconhecido. Eu me senti como se estivesse documentando o futuro."

Fim do livro "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich


Wednesday, March 23, 2016

traduzindo: Corpo em Agosto de Robin Coste Lewis

"Carità Romana" na visão de Peter Paul Rubens, a cena remete à história de um pai condenado a morrer de fome, cuja filha alimenta escondida, amamentando-o. As estranhezas meio perversas do poema me fizeram pensar nesse quadro


O Corpo em Agosto

Porque quando eu era criança, Deus me puxou para o colo dEla. Porque quando eu sentava no colo dEla, Ela lia para mim. Porque a história que Ela mais lia era a que eu menos gostava. Porque todos os dias Ela abria aquele livro verde fininho e dizia Essa é a história da sua vida. Porque do início ao fim eram só três páginas.

Eu acredito naquela estrada que é infinita e negra e cegamente segue em frente por todo o sempre. Eu acredito que crocodilos engolem pedras para ajudá-los a digerir o caranguejo. Porque até o século XX as pessoas ainda podiam morrer de uma sensação. E porque minha fome é tão profunda que eu tenho vergonha de levantar a cabeça. 

Porque a memória – não a gravidade – nos tem cravados a esse tremor. E quando Deus pôs os olhos em cima de nós pela primeira vez, Ela ficou louca de vergonha. Porque se o planeta tivesse uma porta dos fundos nós ainda estaríamos lá, esperando que ar aprovasse nossa entrada. Porque os seus olhos foram a única vez a avenca me disse que sim. Porque não importava quantas vezes eu morria, eu sempre acordava de novo – feliz.

Então ontem à noite, depois que de gritar com meu filho pela primeira vez, ele sonhou que nós fomos passear dentro das árvores. Quando encontramos um esquilo no caminho, meu filho disse que eu dei um chute no bicho. Então o esquilo se transformou num livro verde fininho, que nós lemos.

Porque quando Deus transformou-se em uma criança pequena eu a puxei para o meu colo. Porque quando  eu a pus no meu colo, para agradá-La, eu abri minha blusa. Porque a boca dEla é um lugar impossível de rosa, uma imensa catedral crua, que Ela abriu, dente-no-mamilo, e então agarrou com força. 

Original em inglês [com alguns erros] e outro poemas de Robin Coste Lewis podem ser lidos aqui.


Tuesday, March 22, 2016

Resumos didáticos e idiossincráticos: três tipos de nostalgia

Mais ou menos assim me contaram sobre três tipos de nostalgia:


Odisseu esculpe sua cama de uma árvore viva para que ela tivesse raízes firmes no chão de casa mas não consegue ficar mais de três dias em casa e parte de novo porque sua casa não é uma casa, não comporta uma família, é um convite à solidão: o emaranhado de estrada de água do Mediterrâneo.



Éneas deixa Tróia em chamas para trás carregando seu pai moribundo nas costas para cruzar uma banheira de água salgada e se transformar em algo que já não é seu, numa terra estrangeira, numa língua estrangeira. Dizem os incautos que ele funda; na verdade ele se funde.








Hannah vive dois mundos desproporcionais: na rua, no trabalho, na vida, ela perambula dentro de uma língua que a abraça e absorve mas não se transforma quando sai de sua própria boca nem quando entra pelos seus ouvidos. Em casa, sozinha, no lápis traçando linhas no papel em cima da mesa é que Hannah vive de verdade, na sua língua, língua que é também língua de uma terra madrasta que tentou incinerar Hannah e os seus da face da terra.

Tuesday, March 15, 2016

Traduzindo: "O oficio dos cadáveres" de Brenda Ríos

A Macabéa de Clarice Lispector,
Marcélia Cartaxo e Suzana Amaral
O ofício dos cadáveres
Brenda Ríos


Quando mais me afasto de Lispector mais próxima me sinto... tenho Macabéa na cabeça e me comove à media em que a vou compreendendo ainda que não a veja há quase três anos. Que coisa é a literatura que nos faz sentir compaixão por seres que não existem, que não são? Por que a construção ficcional pode ser mais verídica que o que aconteceu hoje de manhã no trabalho ou no mercado, no acidente que testemunhamos no caminho de volta para casa? Como ignoramos os detalhes da nossa própria relação com os demais e nos lembramos de detalhes mínimos, coloridos, das vidas em romance, das vidas dos personagens, dos pensamentos dos personagens? Que somos capazes de dar quando nos fechamos e preferimos a porta de outro mundo lendo do que viver com nós mesmos? ler pareceria um exercício de covardia. outro dia falava de Sándor Márai e seus romances que tratam da amizade entre homens, romances muito masculinos e cheios de nostalgia pelo império perdido da Europa; falava dele como se tivéssemos tomado o café da manhã juntos. É assim próxima e perversa a relação que estabelecemos com os livros, acreditamos que conhecemos os autores, não por eles mas pelas vidas inventadas.

Inés Arredondo
Omar Khayyam
Lispector não importa, importa Macabéa... mas as duas estão vinculadas no mesmo jogo. E o jogo literário é tal que qualquer um pode entrar nele, ler é aceitar as regras ocultas e tácitas, uma pessoa sabe que lê algo inventado: o fascínio começa quando se acredita mais no invento, mais no artifício que em tudo o mais... E é claro, a verdade nunca interessou, dela se ocupem os filósofos. Omar Khayyán, filósofo, astrônomo e poeta persa do século XI me traz unida a ele como nenhuma relação amorosa pode fazer. Suas palavras chegam e dizem coisas do tempo, dos mitos, das uvas no deserto, do amor condenado a evaporar-se e do vinho como refúgio da brevidade da vida na terra. Sua poesia julgada como herege fala da divindade que existe em cada homem se ele aprecia viver, se aprecia o gozo e se entrega ao prazer antes que nos alcance a guerra ou a miséria que existe dentro de cada um de nós. Khayyán é um amante sem corpo de quem alguém se lembra pela noite imensa do beijo que promete a si mesmo como o último. Agora há uma mulher que não sei se posso chamar de amiga, a relação que tenho com ela é mais de distância: Arredondo. Ela me parece uma mulher desagradável, inclusive. Não gostaria de tê-la próxima a mim... mas por aqui ando, pensando também nos temas e nas obsessões que não têm a ver comigo e ao mesmo tempo são tudo.


Sunday, March 13, 2016

Recordar é viver: em terra de Engels e Martin Claret quem tem um Hegel é rei


Plebiscito
Arthur Azevedo





A cena passa-se em 1890.[1]
A família está toda reunida na sala de jantar.
O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.
Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.
Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
Silêncio

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
— Papai, que é plebiscito?
O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.
O pequeno insiste:
— Papai?
Pausa:
— Papai?
Dona Bernardina intervém:
— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.
O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
— Que é? que desejam vocês?
— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
— Se soubesse, não perguntava.
O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...
— A senhora o que quer é enfezar-me!
— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!
— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.
O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
— Mas se eu sei!
— Pois se sabe, diga!
— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.
No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...

A menina toma a palavra:
— Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!
— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.
— Sim! Sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!
Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.
Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.
— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...
A mulher e os filhos aproximam-se dele.
O homem continua num tom profundamente dogmático:
— Plebiscito...
E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
— Ah! — suspiram todos, aliviados.
— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

Source: http://www.releituras.com/aazevedo_menu.asp


[1] O almirante monarquista Luis Filipe de Saldanha da Gama [1846-1895] defendia a realização de um plebiscito para a ratificação ou não da república como forma de governo no Brasil. Ele liderou a segunda Revolta da Armada em 1893, quando morreu em campo de batalha. O tal plebiscito sobre o sistema político no Brasil só seria realizado em 1993, mais de cem anos mais tarde.

Friday, March 11, 2016

Lendo sobre Chernobyl, pensando na Samarco

Bento Gonçalves
Essas são traduções apressadas de breves trechos da versão em inglês do livro de Svetlana Alexievich que estou lendo, Vozes de Chernobyl.
Soldados:

"Dei meu quepe para o meu filho pequeno. Ele pediu muito. E não tirava o quepe da cabeça o tempo todo. Dois anos depois eles fizeram o diagnóstico: um tumor no cérebro... Você pode escrever o resto sozinha. Eu não quero falar mais." [40]

Sujeito chega em casa do trabalho e diz para a mulher, "me disseram que amanhã ou eu vou para Chernobyl ou tenho que devolver a minha caderneta do Partido". "Mas você não está no Partido". "Eu sei, então fiquei pensando: como é que eu arranjo uma caderneta do Partido até amanhã de manhã?" [44]

"Tenho minhas prórias memórias. Meu cargo oficial era comandante das unidades de guarda. Algo como diretor do apocalipse. [Risos] Isso. Escreve aí isso mesmo." [46]

"Nós não entendíamos tudo, mas nós vimos tudo." [51]

Bento Gonçalves
Refugiados das guerras étnicas que foram ocupar terras abandonadas em volta de Chernobyl:

"Então, para ser honesta, não sinto que a Rússia seja minha terra natal. Nós crescemos de outro jeito, nossa terra natal era a União Soviética." [58]

"Só há um tipo de governo por lá - o homem armado. [...] [silêncio. ela então chora por um bom tempo] Existe coisa mais amedrontadora que gente? [silêncio]. [61]

"Essa vida já passou e eu não tenho mais energia para viver outra." [62]

Rio Doce
Alguns poucos velhos que voltaram clandestinamente para suas terras perto de Chernobyl:

"Isso aqui não é mais uma fazenda coletiva, é uma comuna. Nós só precisamos comprar um cavalo e aí nós não precisamos de mais nada." [75]

"Chernobyl é feito a guerra de todas as guerras. Não há como esconder-se. Nem debaixo da terrra, nem debaixo d'água, nem no ar." [75]

"Tinha uma ucraniana no mercado vendendo umas maçãs grandes bem vermelhas, "venham comprar maçãs! Maçãs de Chernobyl! Alguém disse para ela para não ficar falando assim que ninguém ia comprar as maçãs. "Não se preocupe!" Ela responde. "Eles compram mesmo assim. Uns precisam de uma maçã para a sogra em casa, outros de uma maçã para o chefe no trabalho." [76]


Wednesday, March 09, 2016

Obituário - George Martin



"Quando entrei na EMI, o critério pelo qual uma gravação era julgada era sua fidelidade ao original. Se fosse gravasse um disco tão bom que você não conseguisse diferenciar a gravação da performance de fato, aquilo era o seu ápice. Eu questionei aquilo. Pensei, muito bem, estamos todos tirando fotos de um evento existente. Mas não temos que tirar uma foto; podemos pintar. E essa ideia me incentivou a experimentar."

“When I joined EMI, the criterion by which recordings were judged was their faithfulness to the original. If you made a recording that was so good that you couldn’t tell the difference between the recording and the actual performance, that was the acme. And I questioned that. I thought, O.K., we’re all taking photographs of an existing event. But we don’t have to make a photograph; we can paint. And that prompted me to experiment.”

Friday, March 04, 2016

Tradução: "Mississippi" de William Faulkner


O Mississippi começa em um saguão de hotel em Memphis, Tennessee e se estende até o Golfo do México. É salpicado de cidadezinhas concêntricas em relação aos fantasmas de cavalos e mulas que no passado haviam sido amarrados nas forquilhas em volta da corte de justiça dos condados, e pode-se quase dizer que o estado tem apenas duas direções, norte e sul, já que até pouco tempo atrás era impossível viajar para o leste ou para o oeste a não ser que se estivesse a pé ou montado em cavalos ou mulas. Mesmo sendo um rapaz no início de sua vida adulta, para chegar de trem a uma sede de condado adjacente há trinta milhas de distância, você teria que viajar noventa milhas em três direções em três estradas de ferro diferentes.

Ilustração para edição de luxo da coletânea de contos Big Woods
No começo era terra virgem – ao oeste, nas margens do Rio Grande,[1] os pântanos aluviais perpassados por negras lagoas de água quase imóvel e impenetráveis com cana e cipó e cipreste e freixo e carvalho e eucalipto; ao leste, as serranias com madeira de lei e os prados onde as montanhas Appalachianas morriam e os búfalos pastavam; ao sul as ermas com pinho e os carvalhos pendurados com musgo vivo e os grandes pântanos, menos terra que água emboscada por jacarés e jararacas, onde a Luisiana no seu tempo começaria.

E onde no começo dos tempos os predecessores moveram-se furtivamente com seus artefatos simples, e construíram seus montes e desapareceram, legando-nos apenas seus montes nos quais a raça sucessora de que se tem documentação, os Muskhogees,[2] deixariam as caveiras dos seus guerreiros e chefes e bebês e carcaças de ursos caçados e cacos de vasos e martelos e pontas de flechas e de vez em quando uma espora pesada de prata dos espanhóis.

Naquela época bandos de veados vagavam desalarmados feito fumaça, e ursos, panteras e lobos nos matagais e baixadas de rios, e todas as criaturas menores – texugos e gambás e castores e doninhas e o rato alma-escarrado [não almiscarado: alma-escarrado]; eles ainda estavam ali e parte da terra ainda era virgem no começo do século XX quando o menino começou ele próprio a caçar. Mas exceto pelos seus traços transparecendo por detrás do rosto de algum branco ou negro, os Chickasaws e Choctaws e Natchez e Yazoos[3] já tinham desaparecido como havia acontecido com seus predecessores; e o povo com o qual o menino se arrastava pelo mato eram os descendentes dos Sartoris e dos de Spains e dos Compsons[4] que haviam sido comandantes de regimentos em Manassas e Sharpsburg e Shiloh e Chickamauga,[5] e os McCaslins e Ewells e Holstons e Hogganbecks cujos pais e avós serviram como soldados nos mesmos regimentos, e de vez em quando um Snopes também, porque no começo do século XX os Snopes estavam em todos os cantos: não apenas atrás dos balcões de lojinhas encardidas de periferia cuja clientela era principalmente de negros, mas atrás das escrivaninhas dos presidentes dos bancos e das mesas dos diretores de corporações de distribuição de varejo e nos decanatos das Igrejas Batistas, comprando as casas georgianas decadentes e repartindo-as em apartamentos e em seus leitos de morte dotando as igrejas de anexos e fontes batismais como mementos deles mesmos ou simplesmente por puro terror da morte.


[1] Big River é o apodo do Rio Mississippi.
[2] Muskogee é o tronco linguístico indígena que incluía os Chickasaws e Choctaws, povos que habitavam o estado do Mississippi e aparecem na ficção de Faulkner. A travessia forçada do Rio Mississippi pelos Choctaws expulsos do estado do Mississippi para o então território do Oklahoma em 1831 ficou conhecida como trail of tears [trilha das lágrimas] e é descrita por Alexis de Tocqueville. Os Chickasaws seguiriam o mesmo caminho em 1936. O processo de remoção duraria cerca de 20 anos.
[3] Tribos indígenas que habitavam o estado do Mississippi até o século XIX.
[4] Nomes de famílias que habitam o mundo ficcional de Faulkner. A partir daqui o ensaio histórico/geográfico sobre o estado natal de Faulkner começa a misturar elementos memorialísticos [do “menino” Faulkner] e a genealogia fictícia dos personagens dos seus contos e romances. 
[5] Batalhas da Guerra Civil nos Estados Unidos onde regimentos vindos do Mississippi lutaram, aqui citados em ordem cronológica: Manassas [Virgínia, 1861], Sharpsburg [Maryland, 1862], Shiloh [Tennessee, 1862], Chickamauga [Georgia, 1863]

Wednesday, March 02, 2016

Linton Kwezi Johnson

Ele foi o segundo poeta vivo e o primeiro poeta negro a ser publicado na coleção Penguin Modern Classics em 2002, para indignação de muitos
2002
senhores respestáveis na Inglaterra.

2006

Linton Kwezi Johnson optou escrever sua poesia em patois da Jamaica onde ele nasceu e recitar seu trabalho em cima de bases de regaae tanto em apresentações ao vivo como em discos que ele mesmo produzia na sua própria gravadora. 

Quem ama línguas e ama o inglês como eu deve se deliciar como os jamaicanos moldaram o inglês padrão numa língua cheia de vocais generosas. E essa poesia também entra numa longa tradição de reescrever a ortografia para significar um registro oral fora dos padrões oficiais que existe na língua inglesa pelo menos desde Shakespeare. Deixo um só exemplo da poesia sutil de LKJ aqui:







 

Duas versões do poema "Inglan is a Bitch", primeiro com LKJ sozinho, sem música, e depois acompanhado com música.

INGLAN IS A BITCH

wen mi jus come to Landan toun          When I just came to London Town
mi use to work pan di andahgroun          I used to work for the underground
but workin pan di andahgroun                but working for the underground
yu dont get fi know your way aroun          you don't get to know your way around

Inglan is a bitch                                        England is a bitch
dere's no escapin it                                   there's no escaping it
Inglan is a bitch                                         England is a bitch
dere's no runnin whe fram it                     there's no running away from it

mi get a likkle jab in a big otell
an awftah a while, mi woz doin quite well
dem staat mi aaf as a dish-washah
but wen mi tek a stack, mi noh tun clack-watchah!

Inglan is a bitch
dere's no escapin it
Inglan is a bitch
noh baddah try fi hide fram it

wen dem gi you di likkle wage packit
fus dem rab it wid dem big tax rackit
yu haffi struggle fi mek ens meet
an wen yu goh a yu bed yu jus cant sleep

Inglan is a bitch
dere's no escapin it
Inglan is a bitch fi true
a noh lie mi a tell, a true

mi use to work dig ditch wen it cowl noh bitch
mi did strang like a mule, but, bwoy, mi did fool
den awftah a while mi jus stap dhu ovahtime
den aftah a while mi jus phu dung mi tool

Inglan is a bitch
dere's no escapin it
Inglan is a bitch
yu haffi know how fi suvive in it

well mi dhu day wok an mid dhu nite wok
mi dhu clean wok an mid dhu dutty wok
dem seh dat black man is very lazy
but it yu si how mi wok yu woulda sey mi crazy

Inglan is a bitch
dere's no escapin it
Inglan is a bitch
yu bettah face up to it

dem have a likkle facktri up inna Brackly
inna disya facktri all dem dhu is pack crackry
fi di laas fifteen years dem get mi laybah
now awftah fiteen years mi fall out a fayvah

Inglan is a bitch
dere's no escapin it
Inglan is a bitch
dere's no runnin whe fram it

mi know dem have work, work in abundant
yet still, dem mek mi redundant
now, at fifty-five mi getin quite ole
yet still, dem sen mi fi goh draw dole

Inglan is a bitch
dere's no escapin it
Inglan is a bitch fi true
is whe wi a goh dhu bout it?
1980

Recentemente o poeta Ricardo Aleixo relembrou um casamento interessante promovido pelos Paralamas do Sucesso [que conhecem todas as curvas e becos do reggae inglês]: Linton Kwezi Johnson e Tom Zé acompanhados pelos Paralamas: