Tuesday, March 22, 2016

Resumos didáticos e idiossincráticos: três tipos de nostalgia

Mais ou menos assim me contaram sobre três tipos de nostalgia:


Odisseu esculpe sua cama de uma árvore viva para que ela tivesse raízes firmes no chão de casa mas não consegue ficar mais de três dias em casa e parte de novo porque sua casa não é uma casa, não comporta uma família, é um convite à solidão: o emaranhado de estrada de água do Mediterrâneo.



Éneas deixa Tróia em chamas para trás carregando seu pai moribundo nas costas para cruzar uma banheira de água salgada e se transformar em algo que já não é seu, numa terra estrangeira, numa língua estrangeira. Dizem os incautos que ele funda; na verdade ele se funde.








Hannah vive dois mundos desproporcionais: na rua, no trabalho, na vida, ela perambula dentro de uma língua que a abraça e absorve mas não se transforma quando sai de sua própria boca nem quando entra pelos seus ouvidos. Em casa, sozinha, no lápis traçando linhas no papel em cima da mesa é que Hannah vive de verdade, na sua língua, língua que é também língua de uma terra madrasta que tentou incinerar Hannah e os seus da face da terra.

2 comments:

sabina anzuategui said...

Muito bonito.

Paulodaluzmoreira said...

Estou lendo "Nostalgia: When Are We Ever at Home?" da Barbara Cassin e este foi um resumo nada fiel do ponto de vista acadêmico. É uma das razões pelas quais eu mantenho o blogue.