Sunday, August 31, 2008

Friday, August 29, 2008

Elegia à mulher barbada



Zompantli, 24 x 24" woodcut © 2001 Artemio Rodriguez


Elegia à mulher barbada

Logo abaixo dos bigodes
da mulher barbada,
triunfante em sua melhor pose
fatal, em postas,
os lábios carnudos vendem a boca

e a boca rosada dessa nossa fêmea peluda
vende em fileiras seus alvos dentes

que vendem pasta de dente
que, vermelha e radiante na ponta da escova,
desce, branca e espumante,
alagando, cremosa, a baía escura do estômago
(que vende acidulantes e corrosivos
artesanais orgânicos,
inofensivos desde que se siga estritamente a bula)
e que depois sobe, num espasmo, pelo golfo
pérsico da garganta em convulsão
que, nervosa e relutante por dentro,

aqui de fora arqueja ao brilho dos holofotes e nos vende
um belo colar, uma jóia que é uma épica em surdina
impecável e diamantina,
réplica perfeita de um flexível zompantli
que pende da penugem espessa da nuca até

o poço do umbigo,
que, potencial de repente redescoberto,
vende um belo pingente dourado do Líbano,
que desce balouçante, rítmico,
até o doce meio do mar de pernas,
que, nuas, vendem fabulosos outros cremes
capazes de rejuvenescer
uma coleira de rugas indomáveis,
uma floresta de papadas,
um barril de pentelhos grisalhos,
e essas manadas rebeldes de gordura
que cismam em descer a ladeira flácida
da carne velha cansada de guerra.

Luis Fuentes Pimentel do site http://lfuentesp.deviantart.com

Thursday, August 28, 2008

Masturbação mental também é cultura

É um falso dilema, não tem grande ligações com a realidade, mas eu sou daqueles que, embora não seja um entusiasta da modalidade, acredito no valor relativo da masturbação mental [aliás já pararam para pensar no moralismo implícito de quem usa uma expressão qualquer agregada ao termo masturbação para significar algo negativo, improdutivo, inútil?]. Depois de ler um par de reportagens em jornais brasileiros sobre o que chamam [para mim num equívoco completo] de “fiasco olímpico”, textos típicos em sua fúria, no ódio e desprezo a si mesmos e no complexo de inferioridade misturado com megalomania que compõe a psique particular do meu país, imaginei a seguinte situação, assumidamente fantasiosa e quase imbecil. Se o gênio da lâmpada maravilhosa oferecesse ao Brasil um nível de vida do Canadá em troca de termos um futebol “canadense”, o que responderia o Brasil?

Tuesday, August 26, 2008

GRANDES e pequenos livros e seus leitores

[De volta à Gringolândia, melancolicamente, retomo esse meu blogue de meia-tigela.]

Eis um pequeno e significativo trecho de carta de Guimarães Rosa para Harriet de Onís em 1959:

"Ah, que lástima, não se pode preferir as frases em 'worse English', mas a bem do poder expressivo e sugestivo, à maneira de Joyce."

Se alguém quiser começar a entender o relativo ostracismo de Guimarães Rosa nos EUA, está aqui o X da questão. GR escreve em português "mal-escrito", que chuta o traseiro das boas maneiras gramaticais em nome da criação à maneira de Joyce, mas quem está disposto a render a um desconhecido do terceiro-mundo a mesma atenção amorosa que devota a Joyce?

Não quero resumir essa questão a um grito de revolta terceiro-mundista, mesmo porque, depois de quatro anos vivendo fora do país, esse estado de espírito teria me levado ao suicídio. Identifico nesse caso de GR um outro problema, que gostaria de entender em seu caráter mais geral: para os leitores em geral existem GRANDES obras e o resto. O que verdadeiramente separa umas das outras não é apenas um critério estético qualquer; é o tempo e a paciência que o leitor em geral dedica a umas e não dedica às outras. Porque se alguém lê e não tira grande proveito de Dante, a culpa é sem dúvida desse leitor que não foi capaz de aproveitar o mundo de significado que Dante lhe oferece, mas se alguém lê Josafá Pereira de Castro e não tira grande proveito dessa leitura… ora, certamente a culpa é do tal Josafá, que parece que não sabe escrever direito. [Qualquer escritor desconhecido sabe exatamente do que eu estou falando]

O exemplo que escolhi para este post é especialmente ilustrativo para nós brasileiros, justamente porque, enquanto GR é um Dante inconteste para nós, ele é um mero Josafá Pereira de Castro para os americanos. Harriet de Onís quer arrumar a bagunça lexical e sintática de GR porque pressente que o leitor americano não vai ter paciência de ler um “Joyce brasileiro”, mas sem essa tal salutar bagunça lexical e sintática GR vira um outro escritor, bem pior.

Quero deixar claro aqui que não culpo Harriet de Onís ou James Taylor [não é o cantor, não] pelo fracasso de vendas de GR nos EUA – fracasso que talvez tivesse acontecido do mesmo jeito se GR tivesse sido traduzido em toda a sua complexidade – mas culpo esses tradutores pelo fracasso estético do texto que traduziram. E explico assim o relativo êxito [estético] da tradução de Sagarana, feita apenas por Harriet de Onís, comparado ao GSV começado por ela e terminado por Taylor.

Thursday, August 21, 2008

Provérbios

"O provérbio é uma ruína que restou do que era uma velha história"
Walter Benjamin [mais ou menos, citado de memória]

Segue então um mineiro:
"O mundo acaba é para quem morre..."

Friday, August 15, 2008

Coisas óbvias

Às vezes o óbvio precisa ser dito e o novo livro de James Wood [How Fiction Works], apesar do título pretensioso, parece cheio dessas coisas óbvias que, pelo que vejo, preciusam ser ditas muitas vezes mais. Um exemplo: “Actually, first-person narration is generally more reliable than unreliable; and third-person ‘omniscient’ narration is generally more partial than omniscient.”

Wednesday, August 13, 2008

Mulheres e homens


Fiquei sabendo [por um post de um blogue que eu sempre acompanho] que o metrô do Rio de Janeiro adotou o sistema de reservar um carro só para mulheres. O sistema vigora no Mexico suponho que há mais tempo e quando estive lá esse ano, sem saber de nada e armado da minha habitual distração e ignorância, tive uma experiência sui generis. Duas ou tres viagens de metro e eu reparando que só havia uma, duas, no máximo três ou quatro mulheres em um vagão cheio. "Cadê as mulheres? Será que mulher não anda de metrô no Mexico? Será que o México é o espelho das lendas que circulavam em Belo Horizonte, onde gente me afirmava categoricamente com aquela convicção que só a ignorância permite aos seres humanos que a proporção de mulhres para homens na cidade era “sete por um”? Como é que eu explico essa falta de mulheres aqui no trem? Lá fora a presença feminina era normal, mas que diacho..." Só lá pela minha quarta viagem é que eu trombo com o espaço reservado às mulheres na estação. Ufa! Aqui estão elas. Daí para diante, sempre que podia [quando estava acompanhado da minha esposa como alibi] viajava ainda me sentindo meio penetra no “carro perfumado”. Coitados daqueles homens e mulheres que viviam em colégios internos de antigamente e das outras pessoas de um sexo ou outro que vivem por qualquer motivo sempre assim, segregados uns dos outros, em tempo integral. Não posso falar pelo outro lado, mas uma grande presença feminina sempre civiliza o homem. No caso mexicano e agora carioca a experiência de segregação é por curto prazo e sinceramente em termos de comportamento, pelo menos nos dias e horários normais, absolutamente nada diferenciava os vagões masculinos dos femininos.

Tuesday, August 12, 2008

Patriotismo de López Velarde



Efigie de Ramón López Velarde (1888-1921) na Feira Internacional do Libro (FIL) de Guadalajara em 2002 Foto: Carlos Cisneros
Fonte: La Jornada

Tenho feito uma série de autores que representam uma série de possíveis relações com esse sentimento que chamamos de patriotismo. Agora é a vez do poeta nacional mexicano, López Velarde:

La suave patria – Proemio

Yo que solo canté de la exquisita
Partitura del íntimo decoro,
alzo hoy la voz a la mitad del foro,
a la manera del tenor que imita
la gutural modulación del bajo,
para cortar a la epopeya un gajo.
Navegaré por las olas civiles
con remos que no pesan, porque van
como los brazos del correo chuan
que remaba la Mancha con fusiles.
Diré con una épica sordina:
la Patria es impecable y diamantina.
Suave Patria: permite que te envuelva
en la más honda música de selva
con que me modelaste por entero
al golpe cadencioso de las hachas,
entre risas y gritos de muchachas
y pájaros de oficio carpintero.

Ramón Lopez Velarde é considerado pelos próprios mexicanos o precursor da poesia moderna no México. Morreu jovem com apenas 31 anos em 1921 e seu poema “La suave patria” se transformou em uma espécie de hino nacionalista – uma contradição em termos principalmente se pensarmos que López Velarde vai ser canonizado pela revolução mexicana tendo sido ele um católico conservador [veja no próprio poema em questão a referência ao correio de Chuan – episódio da resstência monarquista à república francesa]. Como deixa clara a abertura desse seu poema mais famoso, seu patriotismo não tem nada de estridente; é um épico em surdina, uma evocação íntima, discreta, profundamente pessoal.

The Affair of the Fire Eaters - Nancy Kuhl


So much better the brittle ash,

better than tearing. So much

seashell gone silent, spiral, translucent


white burn.The chemical smell of it.

A struck match to a photograph —

bubbles, blackens. Run the film


backwards: the fire goes out

when he holds the match to the baton.

What we do we do with the body.


Home movies emptied on to a sheet

hung in the basement. Wife of soot, wife

of burnt hair and the man gone electric.


Everything is soaked in the slippery

smell of gasoline. The woman he loves

holds a drink like you’d hold a pistol.


A joke’s a joke so tell it.

The fire eater is reckless, head back

eyes wide open, wide open spilling


red reflection. They can’t help but

think of his salt cooled mouth.

If it’s a sideshow bring them all.


Thursday, August 07, 2008

Dr. Bruce Ivins

Saiu no New York Times um trecho de e-mail do suspeito de ter mandado cartas com antraz para um punhado de gente em 2001 logo depois dos atentados de 11 de setembro:
“I wish I could control the thoughts in my mind. It’s hard enough sometimes controlling my behavior. When I am being eaten alive inside, I always try to put on a good front here at work and at home, so I don’t spread the pestilence.”
Não deu para o Dr. Bruce Ivins continuar controlar as coisas e mostrar-se positivo e ele cometeu suicídio terça-feira. Duas possibilidades foram aventadas: ele era um homem profundamente desequilibrado há muito tempo e enviou as cartas ou ele ficou assim depois de ter sido virado de ponta a cabeça pelo FBI depois de tornar-se suspeito de enviar as cartas contaminadas com antraz.

Wednesday, August 06, 2008

A locomotiva do Brasil


Eis a sucinta descrição do Monumento aos Bandeirantes do então governador de São Paulo, fundador da USP, primo de Júlio Mesquita, herói constitucionalista [ironicamente interventor em 1933], quatrocentão de quatro costados, Armando de Salles Oliveira: "Os homens surpreendidos numa subida, caminham para o alto: é o idealismo paulista em ação. Dois bandeirantes, os chefes, vão na frente, a cavalo: é o princípio da autoridade, o mais forte esteio da civilização que o comunismo tenta destruir. As figuras decrescem de tamanho: é a hierarquia, inseparável da disciplina, e um dos mais belos princípios da organização social".

Monday, August 04, 2008

Fernando Vallejo entre o amor e a furia



Dois trechos do livro La virgen de los Sicarios do colombiano Fernando Vallejo:


"La felicidad no puede existir en este mundo de televisores y casetes y punkeros y rockeros y partidos de fútbol. Cuando la humanidad se sienta en sus culos ante un televisor a ver veintidós adultos infantiles dándole patadas a un balón no hay esperanzas. Dan grima, dan lástima, dan ganas de darle a la humanidad una patada en el culo y despeñarla por el rodadero de la eternidad y que desocupen la tierra y no vuelven más."


Esse conteúdo raivoso de quem se sente acima do lugar, do tempo e da sociedade em que vive não é novidade desde Gregório de Mattos, pelo menos. Mas quem sabe escrever sabe dar vida ao mais gasto dos conteúdos e Fernando Vallejo chega muito mais além quando seu narrador também fala apaixonadamente:


"Entre el susurro de las voces díspares mi alma se fue yendo hacia el alto como um globo encendido, sin amarras, subiendo, subiendo hacia el infinito de Dios, lejos de esta mísera tierra."




Sunday, August 03, 2008

Exame de rotina

Rivane Neuenschwander, Life on Mars
Exame de rotina

Presta a atenção: o mundo é um moinho.
Cartola


Laura tem 16 anos. Chega sozinha ao consultório ginecológico para uma consulta de rotina. A sala de espera é fria e desconfortável, decorada pela mesa marrom da secretária vestida com um jaleco dois números maior que o seu, meia dúzia de cadeiras de plástico e um único quadro, uma abstração toscamente pintada em azul e prateado, pregado alto demais na parede. Todas as cadeiras exceto uma já estão ocupadas por meninas como Laura e mulheres de várias idades, todas caladas, folheando revistas velhas e amarrotadas ou simplesmente esperando em silêncio, olhos fixos no nada.
Após uma hora e meia de espera a secretária chama Laura pelo nome completo. A menina entra no consultório e é dirigida até o banheiro para despir-se e colocar o avental branco aberto na frente. Sem cumprimentá-la, a médica começa o exame. A paciente se deita, a médica insere o espéculo na vagina – por trás dos óculos observa friamente o sexo da menina com uma atenção ao mesmo tempo intensa e profundamente impessoal. Enquanto segue com o exame a ginecologista pergunta com o tom neutro de uma secretária eletrônica se Laura é sexualmente ativa. Ela responde que sim. A médica interrompe o exame, deixando o espéculo dentro da vagina de Laura, os pés da menina ainda presos nos estribos e suas pernas desajeitadamente afastadas, aproxima-se da outra ponta da mesa onde a cabeça da paciente está recostada em um travesseiro fino e murcho e começa a falar:
“A mocinha tem a mínima idéia do que está fazendo com a própria vida, dos vários riscos que uma vida sexualmente ativa fora do casamento traz para uma moça da sua idade, do profundo desgosto que pode trazer aos seus pais se acontecer de você contrair por aí uma doença sexualmente transmissível ou engravidar ou – o tom de voz da médica sobe e torna-se um pouco mais áspero – a mocinha não deve nem sequer entender do que é que eu estou falando, não é mesmo? É como se nós falássemos uma outra língua que vocês não entendem. Vocês todas aparecem aqui sempre iguais, se parecem mais um bando de bichos, de gente de outro planeta, fazendo o que bem entendem sem querer nem parar para pensar nas conseqüências dos seus atos e vai ver que os seus pais são ainda piores que você e seu parceiro, dois inconseqüentes, se é que você se contenta com um parceiro só. Talvez seus pais até fiquem contentes se você – talvez fosse até melhor para eles se a mocinha – provavelmente você nem sabe quem é o seu pai biológico e a sua mãe tenha saído por aí parindo um moleque encardido atrás do outro desde os 13 anos de idade, cada vez com um parceiro diferente, feito um bicho, um coelho, quem sabe ela anda por aí até hoje, não é mesmo? A mocinha, sua mãe, suas amigas não devem ter a menor idéia de nada do que eu estou falando, não sabem o que é ser a melhor aluna da turma, uma das melhores da escola, desde os sete anos de idade, esforçando-se ano após ano cada vez mais até o ano do vestibular e depois estudando ainda mais feito uma louca quase dez anos seguidos dia e noite quase sem descanso para depois vir parar aqui nessa espelunca, nesse consultoriozinho vagabundo de periferia de terceiro mundo, nesse fim de mundo da periferia de Belo Horizonte, vendo e ouvindo uma imbecil atrás da outra o dia inteiro todos os dias fazendo as mesmas imbecilidades e falando as mesmas besteiras, dando as mesmas respostas idiotas, as mesmas desculpas esfarrapadas, com o mesmo português indigente de quem mal sabe ler muito menos escrever o nome ou um par de frases que seja num pedaço de papel e gasta o tempo livre assistindo a todo o tipo de lixo que a televisão pode oferecer, usando roupas de prostituta e se comportando como prostitutas sem nem sequer ter a presença de espírito de ganhar algum dinheiro em troca e se engravidando e depois abortando pelos cantos ou pior, parindo manadas de filhos encardidos com a cara cheia de catarro, filhos de um bando de débeis mentais que não têm e nem nunca vão ter um emprego decente na vida, ignorantes que não estudam nem querem estudar, que vivem bêbados ou drogados, vagabundeando, roubando ou fazendo coisa pior pelas ruas do bairro ou pelo centro quando arrumam um trocado para uma passagem de ônibus e que somem espantados ao primeiro sinal de que as imbecis com as quais eles viviam se esfregando por aí em qualquer canto escuro na rua finalmente engravidaram, só para continuarem agarrando e engravidando outras idiotas em outros cantos escuros do outro lado da cidade, isso se não ficarem por aqui no bairro mesmo, sempre achando que engravidaram as namoradas por ‘falta de sorte,’ rindo com a boca cheia de dentes tortos ou podres, com um boné desbotado mal-enfiado na cabeça ensebada, uma camisa apertada com alguma imbecilidade escrita em inglês que eles nem sonham entender, uma tatuagem mal-feita no braço e um par de jeans fedorentos arrastando a barra pelo chão. E eu aqui, falando sozinha, falando com as paredes. Não, definitivamente nós não pertencemos ao mesmo planeta, não é mesmo? A mocinha não deve ter a menor idéia do que eu estou falando, não é mesmo? E nem quer saber e tem raiva de quem sabe, não é mesmo?”
A médica encerra seu discurso. Sem esperar resposta, volta bruscamente ao outro canto da mesa e termina o exame de Laura em cinco minutos sem lhe dirigir a palavra de novo nem uma vez, novamente imersa em um estado de completa indiferença.
Laura também não diz nada. O rosto permanece impassível. Uma gota de suor escorre lentamente pelas têmporas até sumir no cabelo forte, grosso, puxado num rabo de cavalo perfeito, desprendendo um aroma suave almiscarado de sabão.