Saturday, December 26, 2009

Poema meu: Mash-Up de Cyril Connolly







Desconfie dos que falam
de ética o dia inteiro.

Desconfie dos charmosos
que escondem viver
do amor alheio.

Desconfie daqueles que ignoram
que sem inteligência
nem sensibilidade,
o caráter é caroço duro,
sem polpa e casca.

Desconfie dos que negam
que nada dói mais do que a dor
que dois amantes podem dar um ao outro.

Desconfie da uva que nos ensinou
o vinho que aprendemos a beber,
mas desconfie também
dos que se dizem livres das drogas,
porque tudo nesse mundo
é uma droga perigosa
exceto a realidade,
que é insuportável.

Desconfie dos que nunca se perguntaram
se a civilização de hoje
é o esterco de amanhã
e dos que não desconfiam
do passado, a única coisa morta
que não cheira mal.

Desconfie dos que vivem
nas encubadoras de apatia e delírio
da classe média
e têm medo e amam o conforto vazio
e têm medo e amam o dinheiro
e têm medo e odeiam o que temem.

Eles não se matam
por medo do que os vizinhos
vão dizer.

Desconfie dos que escrevem poemas
como esse, cheios de imperativos.
Deus ri dos nossos planos
e nos faz promessas
antes de nos destruir.
Resta ao artista
salvar o mundo
entre duas tarefas:
levar a imaginação à ciência
e a ciência à imaginação.

Wednesday, December 23, 2009

Pérolas de Sabedoria

Duas frases interessantes de Cyril Connoly, um crítico e editor muito influente nos anos 40 na Inglaterra.

"Like everyone who talked of ethics all day long, one could not trust him half an hour with one's wife."
Sobre Arthur Koestler

"There are many who dare not kill themselves for fear of what the neighbors will say."

Monday, December 21, 2009

Liar, Liar, Pants on Fire!


O www.politifact.com é um site muito interessante mantido por um jornal regional, da cidade de São Petersburgo na Flórida. A premissa é muito simples: declarações de políticos e de comentaristas da mídia são checadas pelo site que então classifica a declaração como verdadeira, verdadeira na maior parte, uma meia-verdade etc. Uma mentira deslavada ganha o nome de “Pants on Fire” [uma rima infantil muito comum que as crianças usam quando acusam alguém de mentiroso, dizendo “liar, liar / pants on fire”].
O troféu da “mentira do ano” do politifact.com vai para a mentira mais deslavada de todas no ano, de acordo com os leitores e os jornalistas do site. Em 2009 ganhou, com grande merecimento, a seguinte lorota da ex-governadora do Alaska e ex-candidata a vice-presidente Sarah Palin. No dia 7 de agosto, três semanas depois que a reforma do sistema de saúde chegou ao congresso, Sarah Palin disse que o governo de Obama iria criar “death panels”, grupos de burocratas que iriam resolver se os idosos e deficientes físicos deveriam receber tratamento medico de acordo com seu nível de produtividade para a sociedade. No original, saído do facebook de Sarah Palin:

The America I know and love is not one in which my parents or my baby with Down Syndrome will have to stand in front of Obama's ‘death panel' so his bureaucrats can decide, based on a subjective judgment of their ‘level of productivity in society,' whether they are worthy of health care. Such a system is downright evil."

A mentira deslavada do ano não ganha por ser mais mentirosa que outras mentiras deslavadas, mas pela impressionante repercussão que essa mentira conseguiu no país, a ponto de ter sido negada publicamente inúmeras vezes, até por Obama em pessoa. Muita gente aliás deve continuar acreditando nessa lorota até hoje...

O site tem, por exemplo, um acompanhamento detalhado de todas as promessas de campanha de Obama, comparando as declarações daquela época com as ações concretas do governo. Já imaginou se um site desse aparecesse no Brasil? Não seria uma boa, principalmente em ano de eleições?

Saturday, December 19, 2009

Extra, Extra!

O jornal El País da Espanha repercutiu muito positivamente a nova tradução de Grande Sertão: Veredas para o espanhol, feita por Florencia Garamuño e Gonzalo Aguilar, um argentino que conhece literatura brasileira melhor que a maioria dos especialistas brasileiros. Já no primeiro parágrafo do artigo do jornal uma surpresa:

“El carioca Guimarães Rosa (1908-1967), uno de los más grandes narradores del siglo XX, anduvo siempre obsesionado con el lenguaje.”

Ora bolas, Guimarães Rosa tem mais em comum comigo que eu pensava… deve ser o “carioca” mais mineiro de todos os tempos…
Fora essa bola fora, a reportagem é muito simpática e o site do jornal oferece as primeiras páginas da tradução nova para baixar. Também chama a atenção a iniciativa da editora Adriana Hidalgo, que também lançou há pouco tempo uma primeira tradução de Sagarana para o Espanhol. Os argentinos, enfim, estão pondo outra vez no mapa das letras hispanas o nome de Guimarães Rosa. Não consigo imaginar outro universo literário mais preparado para entender e dar valor ao autor de Grande Sertão: Veredas.

A dança dos números em Honduras de 1 a 10

1. A ONU, a OEA e mesmo o Carter Center [ONG do ex-presidente Jimmy Carter] não enviaram equipes de fiscalização para as eleições em Honduras porque não reconheciam a convocação de eleições por um governo golpista.

2. Sem essa fiscalização externa formal tradicional, as eleições foram monitoradas por duas ONGs dos Estados Unidos, o International Republican Institute (IRI), de extrema-direita, e o National Democratic Institute (NDI), digamos que de centro-direita; ambas financiadas principalmente pelo dinheiro do USAID (the United States Agency for International Development) do governo norte-americano.

3. Isso, claro, além do TSE de Honduras, que apoiava claramente o golpe. Poucos dias antes da eleição, 90 membros do TSE de Honduras pediram demissão em protesto contra o apoio do tribunal ao regime no poder.

4. O TSE de Honduras inicialmente anunciou a participação de 62% dos eleitores – informação crucial para a legitimação internacional do regime. Nesse sentido, o porta-voz do ministério de relações exteriores dos Estados Unidos declarou naquele mesmo dia:
“Turnout appears to have exceeded that of the last presidential election. This shows that given the opportunity to express themselves, the Honduran people have viewed the election as an important part of the solution to the political crisis in their country.”

5. No noite do dia da eleição o grupo hondurenho Hagamos Democracia [um consórcio de ONGs apoiado pelos Estados Unidos indiretamente através do NDI] enviou ao TSE relatório com uma estimativa de apenas 48.7% de participação do eleitorado.

6. Ainda que o TSE tenha então revisado seus números oficiais para 49% [virtualmente o número oferecido pelo Hagamos Democracia], o primeiro informe já tinha sido usado pela mídia internacional e pelo governo dos Estados Unidos como prova de que as eleições tinham sido livres e democráticas.

7. No anúncio oficial do resultado das eleições, o TSE de Honduras declarou que 1.7 milhões de votos tinham sido contados, o equivalente a 34% do eleitorado, o mais baixo nível de participação de eleitores na história de Honduras. Os 54% de votos para o candidato Porfirio Lobo, portanto, equivalem a 19% do eleitorado do país.

8. Nada disso deveria ser exatamente uma surpresa para um brasileiro minimamente informado. Mas e se o brasileiro minimamente informado só lê os principais jornais e revistas brasileiros? Poderíamos chamá-lo talvez de “brasileiro minimamente desinformado”?

9. Digo que não deveria ser uma surpresa aqui porque, afinal, a ditadura militar brasileira realizou eleições regularmente, eleições sempre reconhecidas pelo governo dos Estados Unidos. E pela maioria dos principais jornais e revistas do Brasil.

10. A luta do regime de Honduras por legitimidade é mais ou menos igual àquela luta da ditadura militar por legitimadade. Os tempos é que são outros. Bom, mais ou menos…

[Minha fonte principal aqui foi um informe do Council on Hemispheric Affairs [COHA]. Quem se interessa pela América Latina pode receber deles informes periódicos por email. O relatório sobre as eleições de Honduras está no http://www.coha.org/honduran-election-results-still-need-to-be-scrutinized-state-department-dashes-hopes-that-a-transformative-latin-america-policy-has-been-born/].

Friday, December 18, 2009

Gabriel Orozco 3


"Es un trabajo de desprejuicio, un proceso en que busco librarme de prejuicios".


Mais Gabriel Orozco aqui.

Wednesday, December 16, 2009

A voz do dinossauro




Sexta-feria passada o rádio do helicóptero que levava o casal Kirchner da sua residência à Casa Rosada sofreu interferência durante o todo o trajeto. Em cinco momentos ouviram-se vozes. No primero, uma voz diz “Maten a la yegua”; no segundo ouve-se um fragmento de ‘Avenida de las Camelias’ [marcha militar que acompanhava os anúncios oficiais da ditadura militar argentina]; no terceiro outra voz diz “Boludos, maten al pescado” [apelido de Nestor Kirchner]; e no quarto e quinto uma voz diz simplesmente, “Mátenla”.
A interferência no radio do helicóptero foi sincronizada com o início do julgamento de pessoas que trabalhavam na ESMA [Escuela de Mecánica de la Mariña], um dos principais centros de detenção clandestinos da ditadura argentina, onde estima-se que 5.000 pessoas foram “interrogadas” e de onde só sobreviveram 150. O prédio da ESMA foi aberto ao público e será transformado em um museu dos direitos humanos.
Héctor Febres, o “administrador” da “maternidade” onde centenas de bebês nasceram e foram muitas vezes adotados por famílias de gente ligada à repressão, foi o primeiro denunciado pelos crimes cometidos na ESMA, no ano passado. Mas Febres foi envenenado em sua cela depois de prometer denunciar seus companheiros.
Uma fala do governo sobre o incindente do helicóptero me chamou atenção. Chamaram os responsáveis pelas ameaças de “dinossauros”. Termino então com um micro-conto famoso de Augusto Monterroso:

El dinosaurio
Augusto Monterroso
Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.

Tuesday, December 15, 2009

Gabriel Orozco de novo


Além da foto, a escultura que aparece na fotografia também estava na exposição. O material: barro de uma olaria no México.

Monday, December 14, 2009

Poema meu


[imagem: cartão postal de 1905 do Luna Park de Long Island]

Mash-up: LUNA PARK

Nací cuando del sollozo del ultimo siglo,
No se oía ni un solo eco
Luis Cardoza y Aragón




O soluço do último século
abriu a fenda onde passaram
galopando as montanhas.

O século seguinte
ofereceu a Dom Quixote
um aeroplano,
lastre lançado ao passado.

Do trigo dos campos de batalha
um grão de loucura
germinou nas minhas entranhas.

O rio suicida me piscou um olho;
sua suave sonolenta corrente noturna
não quer os barcos que singram, fumando,
pacientes, sobre trilhos, no mar.

Nesse bosque de chaminés fumantes
escuto o músculo obediente,
fiel, sonoro, da máquina,
construindo castelos no ar.

Para as vidas sublinhadas
em vermelho pela guerra
o choro veste os rostos
com caretas de máscaras de clown:
o futuro é um feto que não vem.

E que Deus é esse
que só ouve súplicas em inglês?

Que prazer sentir-se bruto
e desfolhar a vida sem saber
nada da feira do mundo,
nada desse LUNA PARK
enorme, fantástico,
triste farsa universal!

Sunday, December 13, 2009

Gabriel Orozco

[esse é um post em fragmentos]:
- Escrever sobre artes plásticas é como fazer um quadro ou uma escultura para comentar um romance. Não é impossível, é muito interessante, mas não é nada fácil.
- Visitei uma exposição retrospectiva de Gabriel Orozco. Logo me lembrei de um amigo pintor de São Paulo que, explicando porque não se sentia latino americano, me disse que não havia nenhum pintor mexicano que lhe dissesse alguma coisa, que fosse importante para ele. Como é que você se sentiria se conversasse com um artista angolano que dissesse que não se sentia africano e que nenhum artista africano lhe dizia qualquer coisa de interessante?
- A obra ao lado [Papalotes Negros] foi a que mais gostei na exposição, mas é uma apresentação que convida a uma visão equivocada do trabalho dele. Por quê? Porque as pessoas vão logo achar que... Prefiro não dizer mais nada para não acabar reforçando o que eu não queria dizer sobre ele.
- Trabalhar com objetos encontrados ao acaso, com materiais nada nobres, sem estúdio. Transformar a vida em arte. Mais ou menos assim: uma pedrinha bonita que você encontra no seu quintal, você desenha nela sei lá o quê que a transforma mas sem destrui-la, sem fazer com que ela deixe de ser uma pedrinha. Aí você pega a pedrinha desenhada e põe na sua mesa de trabalho. A arte acabou de invadir a sua vida e você não gastou um tostão.

Friday, December 11, 2009

Unsilent Night


Ontem New Haven foi palco de um evento muito legal. Imagine um grupo de umas sessenta pessoas passeando durante mais ou menos 40 minutos pelas ruas da cidade, carregando mais ou menos trinta aparelhos de som portáteis tocando a mesma música sincronizada. É uma música instrumental estranha, cheia de sinos e notas longas, pequenos padrões vagamente natalinos encadeados sem transições bruscas. A música muda à medida em que você anda e se coloca em posições diferentes, no meio, nas pontas, no fim, no começo da “procissão de boomboxes”. O nome do evento é uma brincadeira com o natal: “Unsilent Night” [o nome da canção natalina Noite Feliz é Silent Night]. O compositor Phil Kline estava presente e ainda serviram chocolate quente antes e depois. O evento acontece em várias cidades diferentes todos os anos e tem uma página na internet com notícias e clips, de onde qualquer um pode baixar a música para participar. Encontrei um clip do ano passado no iutubi.

Thursday, December 10, 2009

Última da Sterling: Painel de Vidro na Janela

Mais Sterling: detalhe da porta principal

Afinal de contas, o que é que eu estou fazendo aqui?



Quase três horas da tarde. A temperatura agora não vai além de nove graus até abril e geralmente, como hoje, vai estar bem abaixo disso. O sol, branco e fraco como se você uma lua metida à besta, vai se por, na menos pior das hipóteses, às 15 para as quatro [3:45]. Isso mesmo: antes das quatro horas da "tarde" [sou contra o uso aspas para indicar ironia]. Preciso me lembrar porque vivo 10 meses por ano aqui nesse clima feito para Inuits [nome que os Eskimós usam para si mesmos] e protestantes masoquistas. Vou visitar a Biblioteca Sterling: são mais de 4 milhões de livros em 15 andares dentro de uma linda ainda que bizarra leitura de uma catedral gótica. No altar, Palas Atena e companhia ilustrada. Os vitrais e as esculturas vão de Santo Agostinho aos Maias, sempre se referindo à linguagem, ao saber, aos livros. Melhor ainda: aqui dentro está quentinho!

Wednesday, December 09, 2009

Katherine Anne Porter


Eis o final de “Noon Wine” de 1937

"He licked the point of his pencil again, and signed his full name carefully, folded the paper and put it in his outside pocket. Taking off his right shoe and sock, he set the butt of the shotgun along the ground with the twin barrels pointed toward is head. It was very awkward. He thought about this a little, leaning his head against the gun mouth. He was trembling and his head was drumming until he was deaf and blind, but he lay down flat on the earth on his side, drew the barrel under his chin and fumbled for the trigger with his great toe. That way he could work it."

Tuesday, December 08, 2009

Jóias da Literatura Americana: Flannery O'Connor


Flannery O'Connor é uma das escritoras mais originais que eu já li - uma católica praticante que adorava o grotesco e foi uma das figuras mais importantes do Southern Gothic. Junto com Katherine Anne Porter, Eudora Welty, Carson McCullers [todas do sul dos Estados Unidos], acho que O'Connor escreveu a melhor literatura americana do século XX, depois de Faulkner. É dela o elenco mais estranho e fascinante de personagens que eu já conheci: uma perneta niilista formada em filosofia chamada Joy Hopewell, um vendedor de bíblias que esconde pornografia e bebida em uma Bíblia oca, etc.
O'Connor é uma escritora de precisão, com uma frieza e crueldade extremas que nunca caem na banalidade, uma lição útil para muito escritor contemporâneo que quer bancar o Tarantino no papel e acaba escrevendo neo-naturalismo de quinta.
Abaixo um trecho do conto "A Good Man is Hard to Find", com o confronto final entre uma vovó mal humorada e o assassino The Misfit, que acaba de dar cabo de toda a família da velha.

Alone with The Misfit, the grandmother found that she had lost her voice. There was not a cloud in the sky nor any sun. There was nothing around her but woods. She wanted to tell him that he must pray. She opened and closed her mouth several times before anything came out. Finally she found herself saying, "Jesus. Jesus," meaning, Jesus will help you, but the way she was saying it, it sounded as if she might be cursing.

"Yes'm," The Misfit said as if he agreed. "Jesus shown everything off balance. It was the same case with Him as with me except He hadn't committed any crime and they could prove I had committed one because they had the papers on me. Of course," he said, "they never shown me my papers. That's why I sign myself now. I said long ago, you get you a signature and sign everything you do and keep a copy of it. Then you'll know what you done and you can hold up the crime to the punishment and see do they match and in the end you'll have something to prove you ain't been treated right. I call myself The Misfit," he said, "because I can't make what all I done wrong fit what all I gone through in punishment."

There was a piercing scream from the woods, followed closely by a pistol report. "Does it seem right to you, lady, that one is punished a heap and another ain't punished at all?"

"Jesus!" the old lady cried. "You've got good blood! I know you wouldn't shoot a lady! I know you come from nice people! Pray! Jesus, you ought not to shoot a lady. I'll give you all the money I've got!"

"Lady," The Misfit said, looking beyond her far into the woods, "there never was a body that give the undertaker a tip."

There were two more pistol reports and the grandmother raised her head like a parched old turkey hen crying for water and called, "Bailey Boy, Bailey Boy!" as if her heart would break.

"Jesus was the only One that ever raised the dead," The Misfit continued, "and He shouldn't have done it. He shown everything off balance. If He did what He said, then it's nothing for you to do but thow away everything and follow Him, and if He didn't, then it's nothing for you to do but enjoy the few minutes you got left the best way you can by killing somebody or burning down his house or doing some other meanness to him. No pleasure but meanness," he said and his voice had become almost a snarl.

Sunday, December 06, 2009

Poema meu

O poema - em nova versão - ainda não está completo, mas depois de ter lido os jornais hoje, ando achando que ler poesia pode ser bem mais útil e informativo . As partes em itálico são poemas de outrem [putz, acabo de perceber que o itálico sumiu do word pra internet]. A história é sensacional e o elenco é muito forte - se não deu certo a culpa é toda minha.

Kafka e Drummond



Ciego a las culpas, el destino puede ser despiadado con las mínimas distracciones.
(…)
A la realidad le gustan las simetrías y los leves anacronismos.
Jorge Luis Borges, “Sur”



1939,
quatro dias antes
da Polônia começar a cair;
imagine No meio do caminho
tinha uma pedra
traduzido por um judeu da Hungria.
“É um maluco de Budapeste”,
diziam aqui.

Preso numa ilha,
terceira margem do rio Danúbio;
condenado a levantar e, depois
de pronto, desmanchar com as mãos nuas
um prédio de pedra dura;
o tradutor louco de Budapeste
numa pausa entre arremate
e demolição,
foge e vem parar aqui, no Brasil.

Aqui pede ao poeta
funcionário de ferro e pedra,
apenas um rastro, não importa,
que o guiasse pelo labirinto,
dos jardins da gripe,
dos bondes do tédio,
das lojas do pranto
do Estado Novo.
Quer arrancar um par de vistos
para a mãe e a noiva,
morando ainda na Hungria, onde
os ferozes padeiros do mal
e os ferozes leiteiros do mal
dançam em brasa, aos pés de Hitler,
até Ferenc Szálasi chegar
e começar, pra valer,
a dança da morte.

Mas naquele tempo,
como hoje em dia,
era livre a navegação
mas proibido fazer barcos.
Mas, “tivesse encontrado
mais três como o poeta funcionário
de ferro e de pedra,
as duas estariam aqui, vivas,
comigo”; disse Paulo Rónai.
Mas aquele era um tempo de homens
partidos – como hoje em dia.

Imagine então,
anos e anos mais tarde,
lendo um artigo do amigo
de Budapeste, Drummond,
de repente, compreende,
lívido: “Kafka sou eu! Sou eu, Kafka!”
(de quem nem Rónai, nem Carpeaux, nem mesmo
Rosenfeld sabia,
até que Sérgio Buarque de Holanda
chegasse da Alemanha
com a primeira versão
de Raízes do Brasil
e O Processo na mala).

Thursday, December 03, 2009

Mais Lydia Davis: Head, Heart



Heart weeps.
Head tries to help heart.
Head tells heart how it is, again:
You will lose the ones you love. They will all go. But even the earth will go, someday.
Heart feels better, then.
But the words of head do not remain long in the ears of heart.
Heart is so new to this.
I want them back, says heart.
Head is all heart has.
Help, head. Help heart.

Wednesday, December 02, 2009

Classificar o inclassificável

Entender as categorias raciais no Brasil e nos Estados Unidos me ensinou que é preciso ter cuidado com as certezas que a gente tem sobre quem é o quê quando e como. Nada é tão simples como parece. Quem sabe dizer com certeza, sempre, quem é homem e quem é mulher? Será que todo mundo é homossexual ou heterossexual ou bissexual? Caster Semenya era uma corredora extremamente promissora da Africa do Sul. Uma pessoa humilde, do norte rural do país, Caster começou a treinar descalça e conseguiu entrar para universidade com uma bolsa e fazer carreira internacional. Sua especialidade era os 800 metros e ela parecia estar à beira de ganhar tudo nessa categoria. Mas Caster é uma italasi – uma mulher com jeito de homem, com feições masculinas – e o comitê internacional de atletismo resolveu que ela precisava ser “testada” além do trivial [e ao mesmo tempo extremamente humilhante] “abaixa a calça”. O problema é que mesmo os famosos cromossomos XX e XY são menos definitivos do que parecem – há, por exemplo, casos de pessoas que nascem com uma incapacidade congênita de “ler” a testosterona e por isso têm cromossomos de homem mas são anatomicamente super-femininas. Estima-se que mais ou menos 1.7% da população mundial é, cromossomicamente, biologicamente falando, interessexual – é mais do que a população mundial com síndrome de down, por exemplo. Caster é um super-ídolo esportivo na África do Sul e o negócio todo virou uma polêmica nacional de proporções semelhantes a uma polêmica de copa do mundo no Brasil. O que só complicou a situação ainda mais.

Tuesday, December 01, 2009

É insuportável mas é meu

Às vezes a gente escreve uma coisa que acha boa e ninguém gosta. Mesmo assim a gente continua gostando do que escreveu, às vezes. Mas às vezes a gente escreve umas coisas que nem a gente mesmo gosta. Um textos que eu classifico como insuportáveis, mas que, como filhos que a gente odeia mas também ama, a gente é obrigado a suportá-los. Segue abaixo um deles. É engraçado [ou triste] como uma idéia que a gente ser irresistível acaba gerando um texto que a gente mesmo acha insuportável - imagina os outros. Esse foi feito durante a oficina em Paraty mas não foi mostrado lá - afinal a primeira impressão é importante e ninguém quer ficar marcado como "o sujeito dos textos insuportáveis"...

o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final

I’m trying to say it all in one sentence, between one Cap and one period.
I’m still trying to put it all, if possible, on one pinhead. I don’t know
how to do it. All I know to do is to keep on trying in a new way
William Faulkner

Enfiar o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final, mas só depois de botar aquele vagabundo pra fora de casa e consertar de novo o alarme da minha alegria; aí pronto: é o mundo inteiro entre a maiúscula e o ponto final, ainda que ninguém entenda patavinas de piripitibas e ainda assim se ofendam os stalinistas do grande espírito das letras greco-latinas ocidentais e os stalinistas defensores por procuração dos frascos e comprimidos duas vezes ao dia e estejamos assim todos mal pagos e fodidos; mesmo assim tem que continuar até enfiar o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final porque, entre o universo dito e o infinito omitido o ponto final da frase onde cabe o mundo inteiro pode ser possível, sem truques baratos e sem truques raros porque entre populismos e elitismos lá vamos nós nos foder sem receber um tostão outra vez (quem nunca se fodeu mal pago não merece o papel e a caneta que tem muito menos o esplendoroso fracasso que só pode conhecer de perto quem tentar pelo menos umas trinta vezes enfiar o mundo inteiro entre a maiúscula e o ponto final; esses que não reconhecem derrota ou entendem tudo de uma vez e não sabem, por exemplo, nem que o mal existe e não precisa de motivos, que os assassinos e torturadores podem não ter nenhum trauma terrível no fundo do poço da infância, não merecem as florestas de celulose e rios de tinta preta que andam consumindo em vão), e ainda assim tem que ser assim nessa peleja descarnada até o fim porque o silêncio é uma covardia, ainda que socialmente tolerada e até incentivada, imperdoável e, como eu não acredito em reencarnação nem em livros psicografados, tem que ser da maiúscula ao ponto final no espaço de uma vida, que é, admito, um meio-soluço na história da humanidade e um trisco na história do planeta mas é tudo o que temos e, de tudo o que temos a fazer com o pouco tempo e recursos que temos, é o mais bonito e o mais divertido (e só a alegria e a beleza dadas assim completamente de graça têm esse sentido próprio que muita gente insiste em procurar no dinheiro e nos tênis e bolsas que custam um mês de aluguel), mas, veja bem, só depois de botar aquele palhaço para fora de casa e consertar o alarme da minha alegria que estragou desde o dia em que agora-não-vem-ao-caso-quem se instalou de mala e cuia na minha vida como um parêntese parasitário e infeliz, um parêntese que eu vou fechar agora, antes de começar a tentar mais uma vez enfiar o mundo entre uma maiúscula e um ponto final (pronto)

Monday, November 30, 2009

Homero Aridjis - Sobre lo irresistible de algunas frases falsas

Hay frases que llegan con fácil belleza y casi se escriben solas, no dejan de parecernos ajenas o voces impostadas de nosotros mismos, y hay algo en ellas que nos parece falso y su sentido dice cosas diferentes a las que creemos o queremos creer, o también, subrepticiamente nos refutan. Luego, porque nos gustan, se nos pone la cuestión de elegir entre lo que aparentemente es bello y mentiroso y nuestra ruda verdad.
Pero también oralmente nos visitan, nos hablan cuando nos expresamos sobre personas, libros, cosas, situaciones, y cargadas de brillo elogian, detractan, mesuran sin que concuerde su significado con la imagen interna que nosotros tenemos o queremos tener de la persona, libro, cosa o situación a los que las aplicamos, salvo que la frase que nos parece falsa sea como una caja de doble fondo que guarda bajo su apariencia un reconocimiento, una deshonestidad, una imprecisión de juicio más nuestros que los que manifestamos en nuestras frases construidas racionalmente como verdaderas.
Ajedrez-Navegaciones, 1969

Thursday, November 26, 2009

Diário da Babilônia - Gobble Gobble


Última quinta-feira de novembro, dia de ação de graças nos Estados Unidos. Sou definitivamente um estrangeiro. O rádio traz um programa especial de DUAS horas sobre como cozinhar um peru. Editor de revista de culinária fala sobre como todas as revistas culinárias "do mundo" estão atrás de uma forma nova de assar peru. Ele descreve um "exótico" método que usa sal grosso, "igual a um churrasco", penso eu. A mobilização é geral. Um faz questão de batatas doces, o outro de purê de batata. "Ó céus como agradar a todos?" Será que o meu peru vai sair "perfeito" [em português brasileiro isso soa ainda mais estranho...].
Amanhã é o "Black Friday", abertura oficial da temporada de caça ao presente de natal. Todas as lojas têm promoções e descontos "imperdíveis". Os jornais estão abarrotados de cupons "sensacionais". Algumas lojas vão abrir às 5 da manhã. Ano passado um pobre diabo morreu pisoteado na porta do Wal Mart às cinco e meia da manhã. Sou definitivamente um estrangeiro.
Não tenho a menor pretensão de me adaptar. O Dia de Ação de Graças não significa nada.

Wednesday, November 25, 2009

(Ainda que na ausência do dinheiro): Fama!!!!

Deu no blogue da FLIP: Carlito Azevedo escolheu os três melhores poemas da oficina da FLIP esse ano e um deles foi o meu.

Nós vamos afundar


Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem
ainda.
Jorge de Lima


Não é: "o que é arte?", mas, "quando é arte?"
A partir de Nelson Goodman



Antes dos remorsos
desse avião despedaçado
que nunca passeou com os filhos,
antes dos poetas míopes,
do homem de chapéu Panamá,
e dos colecionadores de nuvens,
antes que o sino dobre
e o mosquito amigo do rei
penetre a pele velada
pelo mosquiteiro furado,
nós vamos afundar
dançando devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos reencontrar
transformadas em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade
vai estar nos esperando
com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos reconhecer
e nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntas.

Paulo Moreira

Tuesday, November 24, 2009

Mais três aforismos de Mark Twain


"Man is the only animal that blushes. Or needs to."

"There is no sadder thing than a young pessimist, except an old optimist."

"All good things arrive unto them that wait - and don't die in the meantime."

Monday, November 23, 2009

Pérolas de Mark Twain 1

Fomos visitar a casa de Mark Twain em Hartford. Para mim ele é uma espécie de Dickens Americano [adoro Dickens mas conheço muito pouco Twain além do que li na adolescência, Tom Sawyer e Huck Finn]. Famoso pelos aforismos, Twain tem uma série que usam a mesma estratégia retórica: começam como sentenças de moralismo ianque e depois viram tudo de pernas para o ar. Eis um exemplo:

"Always obey your parents - when they are present."

Friday, November 20, 2009

Um exemplo de frase faulkneriana


Faulkner escreveu um ensaio chamado "Mississippi" em que se misturam autobiografia, história e ficção. Desse ensaio tirei uma frase faulkeneriana e traduzi para o português:
The Anglo-Saxon, who would stay, to endure: the tall man roaring with Protestant scripture and boiled whiskey, Bible and jug in one hand and like as not an Indian tomahawk in the other, brawling, turbulent, uxorious and polygamous: a married invincible bachelor without destination but only motion, advancement, dragging his gravid wife and most of his mother-in-law’s kin behind him into the trackless wilderness, to spawn that child behind a log-crotched rifle and then get her with another one before they moved again, and at the same time scattering his inexhaustible other seed in three hundred miles of dusky bellies: without avarice or compassion or forethought either: felling a tree which took two thousand years to grow, to extract from it a bear or a capful of wild honey. (Essays, Speeches, and Public Letters, 14)
[O anglo-saxão, que permaneceria, para persistir: o tall man rugindo com as suas escrituras protestantes e o seu whisky fervido, Bíblia e jarro numa mão e possivelmente uma machadinha índia na outra, pelejando alto, turbulentos, uxório e polígamo: um invencível solteiro casado sem destino mas provido apenas de movimento, avanço, arrastando sua esposa grávida e a maioria da família da sogra atrás de si para a mata fechada, para desovar aquele filho debaixo de um rifle e engravidá-la com outro antes de se mudar outra vez, e ao mesmo tempo espalhando sua semente incansável em trezentas milhas de barrigas morenas: sem avareza nem compaixão nem planejamento; derrubando uma árvore que levou trezentos anos para crescer para arrancar de lá um urso ou uma colméia cheia de mel selvagem.]

Thursday, November 19, 2009

"I'm still trying to put all mankind's history in one sentence"


"As regards to any specific book, I’m trying primarily to tell a story, in the most effective way I can think of, the most moving, the most exhaustive. But I think even that is incidental to what I am trying to do, taking my output (the course of it) as a whole. I am telling the same story over and over, which is myself and the world. Tom Wolfe was trying to say everything, the world plus “I” or filtered through “I” or the effort of “I” to embrace the world in which he was born and walked a little while and then lay down again, into one volume. I am trying to go a step further. This I think accounts for what people call the obscurity, the involved formless “style,” endless sentences. I’m trying to say it all in one sentence, between one Cap and one period. I’m still trying to put it all, if possible, on one pinhead. I don’t know how to do it. All I know to do is to keep on trying in a new way. I’m inclined to think that my material, the South, is not very important to me. I just happen to know it, and don’t have time in one life to learn another one and write at the same time. Though the one I know is probably as good as another, life is a phenomenon but not a novelty, the same frantic steeplechase toward nothing everywhere and man stinks the same stink no matter where in time.”

Wednesday, November 18, 2009

Poema meu ou, rindo da desgraça própria com redondilhas e rimas fáceis

Imagem: uma das aranhas de Louise Bourgeois
Fonte: blogue da Art 21

Apneia

be still be calm be quiet now my precious boy
don't struggle like that or i will only love you more
Robert Smith


As seis pernas coloridas
terminando em pontinhas
delicadas
mal deixam rastros no chão.
As seis perninhas coloridas
dançando em volta da linha
enquanto ela desce do teto,
cuidadosa, devagar.
Ela pousa em minha cama,
no escuro do meu corpo,
quando eu pego no sono
e paro de respirar.
Sua língua abre meus olhos
devagar
enquanto passa a linha
pelo buraco da agulha
e as perninhas coloridas
começam a me embrulhar
num pacote apertado
do tamanho justo
do meu punho fechado.
Subimos juntos de volta
até a teia, até o teto,
onde ninguém pode me pegar,
onde eu, calmo, espero
a hora do seu jantar
que já vai chegar.

Tuesday, November 17, 2009

Monday, November 16, 2009

Fitzgerald e Hollywood


Scott Fitzgerald era o rei da cocada literária nos anos 20 nos Estados Unidos. Mas aí chegaram os anos 30 e parecia que ninguém mais queria saber dele ou que ele não conseguia escrever mais nada que chamasse a atenção. Sem um tostão no bolso e com a mulher internada num sanatório, Fitzgerald vai para Hollywood em 1937. Não brinca em serviço, ele. Estuda minuciosamente filmes que tinham feito sucesso na época, como “A Star is Born”. Já no primeiro trabalho vêm as decepções: depois de uma primeira revisão a produção impõe que Fitzgerald trabalhe com outro roteirista e meses depois o trabalho o produtor do filme, ainda insatisfeito, resolve fazer várias outras modificações. Esse sistema de “linha de montagem” para scripts tinha sido criado nos anos 20 por um executivo prodígio, Irving Thalberg: várias equipes de escritores revisando e modificando o script até que ele chegue à forma final. Fitzgerald ficou furioso com as mudanças nos diálogos e escreveu uma carta quase desesperada ao produtor:
"To say I'm disillusioned is putting it mildly," Fitzgerald continued. "For 19 years, with two years out for sickness, I've written best-selling entertainment, and my dialogue is supposedly right up at top. But I learn from the script that you've suddenly decided that it isn't good dialogue and you can take a few cuts off and do much better. I am utterly miserable at seeing months of work and thought negated in one hasty week. I hope you’re big enough to take this letter as it’s meant – a desperate plea to restore the dialogue to its former quality…. Oh, Joe, can’t producers ever be wrong? I’m a good writer – honest."
Os diálogos não foram restaurados e “Three Comrades” foi considerado um dos 10 melhores filmes do ano. Por conta do sucesso Fitzgerald ganhou um aumento, mas continuava decepcionado:
“I am now considered a success in Hollywood because something which I did not write is going on my name, and something which I did write has been quietly buried without fuss or row – not even a squeak from me. The change from regarding this as a potential art to looking at it as a cynical business has begun. But I still think that some time during my stay out here I will be able to get something of my own on the screen that I can ask my friends to see.”

Friday, November 13, 2009

Um conto de Lydia Davies

TRYING TO LEARN

I am trying to learn that this playful man who teases me is the same as that serious man talking money to me so seriously he does not even see me anymore and that patient man offering me advice in times of trouble and that angry man slamming the door as he leaves the house. I have often wanted the playful man to be more serious, and the serious man to be less serious, and the patient man to be more playful. As for the angry man, he is a stranger to me and I do not feel it is wrong to hate him. Now I am learning that if I say bitter words to the angry man as he leaves the house, I am at the same time wounding the others, the ones I do not want to wound, the playful man teasing, the serious man talking money, and the patient man offering advice. Yet I look at the patient man, for instance, whom I would want above all to protect from such bitter words as mine, and though I tell myself he is the same man as the others, I can only believe I said those words, not to him, but to another, my enemy, who deserved all my anger.

Tuesday, November 10, 2009

Enquete: primeira ou terceira pessoa?

Em primeira pessoa fica assim:

Mal abro a boca
já falo eu mesmo
e o lugar de onde eu vim.

Mal abro a boca
já falo essa vida
que passa da minha boca
pra fora, onde nasce
vive e morre o mundo.

Mal abro a boca
já mexo com quem escuta,
não pelo que disse aqui
mas pelo que se ouve aí,
desse outro lado
onde eu não posso entrar.

Mal abro a boca
e bordo som e palavra,
num tipo de música
sutil, que às vezes transborda,
mas quase sempre não.

Mal abro a boca.


Em terceira pessoa, assim:

Mal abre a boca o sujeito
já falaram ele mesmo
e o lugar de onde ele vem.

Mal abre a boca o sujeito
já fala essa vida
que passa da sua boca
pra fora, onde nasce
vive e morre o mundo.

Mal abre a boca o sujeito
já mexeu com quem escuta,
não pelo que disse lá
mas pelo que se ouve aqui,
desse outro lado
onde ele não pode entrar.

Mal abre a boca o sujeito
e borda, som e palavra,
um tipo de música
sutil, que às vezes transborda,
mas quase sempre não.

Mal abre a boca o sujeito.

Monday, November 09, 2009

Alma masculina em corpo de mulher




Não deve ser fácil ser atriz em Hollywood, onde papéis femininos são chamados de “handbags” [uma espécie de adereço para o personagem masculino principal] ou, menos poeticamente, “girlfriend parts.” James Cameron ficou famoso, além da xaropada multi-milionária chamada “Titanic,” pelos filmes da série “O exterminador do futuro” e por dirigir filmes da série “Alien”, e seus filmes chamam a atenção justamente por não terem nada de comédias românticas mas terem personagens femininos marcantes e importantes. Olha que interessante a descrição da técnica de Cameron para escrever para esses papéis femininos:

“As a young writer, Cameron borrowed a trick from Walter Hill, who, working on the outer-space horror movie ‘Alien,’ took a character (a young ensign named Ripley) that was originally male and, with minimal revision, made the character female. (Sigourney Weaver played the role, Ellen Ripley.) As Cameron described the technique, ‘You write a dialogue for a guy and then change the name.’” New Yorker, October 26, 2009

Friday, November 06, 2009

Darwin, o oráculo, e as tartarugas

Tenho uma profunda desconfiança das pessoas que tentam fazer de Darwin uma espécie de oráculo infalível e incriticável, algo que já fizeram antes com Freud e com Marx. Fico desconfiado principalmente quando as críticas a qualquer aspecto do pensamento de Darwin são imediatamente vinculadas a qualquer tipo de fundamentalismo religioso obscurantista. É como se eu tivesse que escolher entre aceitar tudo o que Darwin disse ou ir morar com Bin Laden nas cavernas do Paquistão. Entre os dois fundametalismos, entre a direita religiosa e a direita neo-liberal darwinista, eu fico com nenhum dos dois.
Vejam, por exemplo, esse trecho de The Descent of Man:

“At some future period, not very distant as measured by centuries, the civilised races of man will almost certainly exterminate, and replace, the savage races throughout the world. At the same time the anthropomorphous apes, as Professor Schaaffhausen has remarked, will no doubt be exterminated. The break between man and his nearest allies will then be wider, for it will intervene between man in a more civilised state, as we may hope, even than the Caucasian, and some ape as low as a baboon, instead of as now between the negro or Australian and the gorilla.”

Está aí bem clara a ideologia da supremacia racial ligada ao “extermínio e substituição das raças selvagens”, germe de muita coisa muito feia do século XX. Não custa também lembrar que o nome completo do grande livro de Darwin era On the Origin of the Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Não é que, uma vez que o pensamento de Darwin possa ser vinculado a Hitler, ele seja responsável por Hitler e deva ser jogado no lixo. De jeito nenhum. Mas muita gente que acha que Darwin é a salvação do mundo contra o obscurantismo religioso acha que, já que o pensamento de Marx pode ser vinculado a Stalin, ele por isso deve ser jogado no lixo…
Não dá para jogar toda a culpa em Spencer e companhia e negar que Darwin também lia Malthus com entusiasmo e justificava não apenas o imperialismo britânico em seu lado mais terrível, mas também a crueldade extrema no tratamento das terríveis desigualdades sociais dentro da própria Inglaterra. Falando, por exemplo, contra as campanhas de vacinação, Darwin diz em The Descent of Man:

“Thus the weak members of civilized society propagate their kind. No one who has attended to the breeding of domestic animals will doubt that this must be highly injurious to the race of man.”

Ajudar os mais pobres a não morrer de fome, frio e doença é, para Darwin, prejudicar a sociedade civilizada… O poder britânico está ligado com a crueldade com que ele lida com os seus fracos internamente, já que a competição sem controle. “natural”, fortalece a raça, selecionando os mais fortes. O desaparecimento das “raças selvagens” fora da Inglaterra é portanto uma questão de tempo e de bom senso e também um acontecimento “natural”. Apesar de toda a militância ateísta, não se pode negar que aqui o conceito de “natural” adquire um sentido perversamente parecido com o de “vontade divina”. Assim são as coisas, não há nada que se possa fazer sem alterar o equilíbrio “natural” das coisas.
José Emilio Pacheco tem um poema maravilhoso sobre o assunto:

Los mares del sur
Felicidad de estar aquí en esta playa
aún sin Milton ni Sheraton.
Arena como al principio de la creación, victoria
de la existencia. Mira cómo salen
del cascarón las tortuguitas.

Observa cómo avanzan sobre la playa ardiente
hacia el mar que es la vida y nos dio la vida.
Prueba esta agua fresquísima del pozo.
No comeremos ni siquiera almejas
por no pensar en nada que recuerde la muerte.

Los paraísos duran un instante.

Llegan las aves, bajan en picada
y hacen vuelos raspantes y se elevan
con la presa en el pico: las tortugas
recién nacidas. Ya no son gaviotas:
es la Luftwaffe sobre Varsovia.

Con que angustia se arrastran hacia la orilla,
víctimas sin más culpa que haber nacido.
Diez entre mil alcanzarán la orilla.
Las demás serán devoradas.

Que otros llamen a esto de selección natural,
equilibrio de las especies.

Para mi es el horror del mundo.
Ciudad de la memoria, 1986-1989

Wednesday, November 04, 2009

Trecho






























Imagem retirada de http://homepages.wmich.edu/~p3morefi/heart.html, com a legenda:
"This is the human heart.
This is the organ that keeps blood running throughout your body.
You must have one of these."


Trecho de romance que ando escrevendo nas parcas horas vagas:

Montezuma, Minas Gerais, existe. Está no mapa, pode procurar. Fica no norte do estado, perto da Bahia. Parece que ninguém sabe disso, nem em Belo Horizonte, que é um lugar que também existe, ainda que aqui fora, onde eu vivo, há quem duvide. Meu projeto pessoal, minha contribuição social, estadual, nacional, universal enfim, é convencer primeiro Belo Horizonte, depois o Brasil (metonímia de Rio de Janeiro e São Paulo, pelo menos para quem vive em São Paulo ou Rio de Janeiro) e finalmente o mundo inteiro, que Montezuma existe.
Mas, você deve se perguntar, por que? Aqui nunca nasceu alguém importante, nunca houve ouro nem diamante, nenhuma grande batalha, nenhum bandido famoso, nenhum desastre terrível, nenhuma igreja barroca, nenhum metal radioativo, nada. Se eu dissesse que temos termas e fontes de água mineral, eu sei o que você pensaria: “viajar 600 kilômetros prá tomar banho de cachoeira?”
Nada disso. O que temos é um modo de vida, de paz e harmonia.
Aqui, uma vez por ano, escolhemos a dedo um jovem saudável e belo para o Auto das Flores, que alguns chamam de aniquilamento seletivo e outros, de execução extra-judicial. É sempre alguém da mesma família, os Moreiras, porque os Moreiras são muitos e não fazem a menor falta nos outros 364 dias do ano.
O coração humano, como o conhecemos, é uma carne fibrosa mas doce. Não recomendaria um assado porque a carne fica dura e não entranha bem o tempero, por mais forte que seja. Por melhor que seja a aparência do orgão quando extraído de um corpo vivo anda pulsante (por um breve instante de jorro e gozo, mais vivo que o corpo de que o separamos) não se engane: inteiro o tempero não entranha direito. Certamente o coração em seus últimos extertores é muito mais bonito que o miserável cérebro humano (essa carne amarga, babosa, arenosa, que apenas moemos e damos aos porcos; mas não se esqueça: o mineiro dá o milho, o porco come o milho e o mineiro come o porco), mas não se engane: assado, a carne cordial fica dura. De volta ao que interessa, o coração limpa-se com faca de ponta; corta-se em filetes bem finos; refoga-se com alho, cebola, sal e um par de folhas de louro; acrescenta-se um bom molho de orapronobis; depois duas xícaras de água morna e então pelo menos trinta minutos na panela de pressão.
E depois a paz.

Monday, November 02, 2009

Diário da Babilônia – Em busca de segurança


Esse post de certa forma foi inspirado por um post interessante do Diego Viana, “A ‘sensação de segurança’ é um engodo”.

Vários estados americanos adotaram variações da lei conhecida popularmente como “Three-Strikes Laws”, em que uma pessoa que é condenada criminalmente três vezes recebe na terceira vez uma sentença de prisão perpétua, ou seja, pelo menos 25 anos antes da liberdade condicional.
Desde 1994, a Califórnia tem uma das versões mais severas dessa lei, já que lá a natureza do terceiro crime não importa. A maneira como a lei é aplicada dentro da Califórnia varia bastante, como sempre acontece apesar de todas as garantias que não da parte das pessoas que acham que novas leis resolvem qualquer problema. Variam, principalmente, de acordo com as convicções políticas do promotor público, e por isso os casos mais notórios vêm do Vale Central, que é o berço político de coisas como Nixon e Reagan, para quem acha que a Califórnia é um paraíso de surfistas e hippies relaxados no sul e gênios da computação e homossexuais politizados no norte.
Já em 1995 Jerry Dellaney Williams pega prisão perpétua por roubar uma fatia de pizza de quatro crianças. Outro sujeito que roubou um biscoito doughnut foi condenado à prisão perpétua; um viciado em drogas que tinha roubado a própria casa entrou pelo cano porque estava com um punhado de cocaína; um outro vai passar a vida atrás das grades por roubar três tacos de golfe; e um tal de Leonardo Andrade roubou $150 em fitas de vídeo casssete e recebeu por isso duas sentenças de 25 anos.
Mais ou menos um quarto da população carcerária do estado da Califórnia está cumprindo sentenças originadas pela Three Strikes Law (4000 pessoas), das quais mais ou menos dois terços cometeram crimes não violentos. Em um estado à beira da bancarrota, cortando gastos com educação a ponto de por em risco uma das melhores redes universitárias do mundo, essa população carcerária custa quase $200 milhões de dólares, custos que vão subir à medida em que essas pessoas, que ficam pressas 600% mais tempo do que deveriam por seus crimes, envelhecem atrás das grades. Em 2006 uma revisão da lei tinha grande apoio popular até que o governador exterminador do futuro, então ainda muito popular, gravou um anúncio aterrorizante em que alertava para a orda de maníacos sanguinários que sairiam livres pela Califórnia fazendo picadinho dos cidadãos honestos do estado. O texto, gravado com aquela voz de Conan, dizia: "Under Proposition 66, 26,000 dangerous criminals will be released from prison, child molesters, rapists, murderers. Vote 'No' on 66. Keep them behind bars."

Wednesday, October 28, 2009

Diário da Babilônia: Rakkasans


Trechos do discurso feito pelo Coronel Michael Dane Steele, comandante dos Rakkasans de 2004 a 2006, quando essa divisão de paraquedistas ficou famosa pela execução sumária de homens desarmados e por manter um quadro onde contavam o número de iraquianos que haviam matado:

“I am talking about the moment of truth, when you’re about to kill the other son of a bitch. I do not want you to choke.”

“The guy that is going to win is the one who gets violent the fastest.”

“Think of yourselves as apex predators: ‘if you mess with me, I will eat you.’”

[Os Rakkasans costumavam referir a si mesmo como “carnívoros” e aos militares envolvidos na reconstrução e nas relações com civis iraquianos como “herbívoros.”]

“Men, it is time to go hunting. You’re the hunter. You’re the predator. You’re looking for the prey. Rakkasans!”

Finalmente, o lema do 101st Airborne Division do exército Americano chamados “Rakkasans”:
“We give the enemy the maximun opportunity to give his life for his country”

E ainda há os que acreditam em fatalidades...

Monday, October 26, 2009

Literatura Coletiva, Literatura de Massa: Alloy Entertainment


Alloy Entertainment é um grupo editorial que se especializa no público adolescente e pré-adolescente. Eles não publicam livros; criam coletivamente ideias para livros, programas de TV e filmes. Depois que uma ideia inicial se desenvolve e é aprovada pelos dois sócios da Alloy, um resumo do conceito aparece e é enviado a um escritor free-lancer que escreve um primeiro capítulo/amostra. Se o pessoal da Alloy gosta do tal capítulo/amostra, o escritor monta um enredo completo junto com três editores da empresa, em sessões diárias de brainstorming coletivo. Com o enredo pronto, o escritor escreve sozinho os primeiros 10 capítulos do livro que, depois de aprovados pela Alloy, são enviados como proposta a uma editora. A Alloy produz assim uns trinta livros por ano e alguns são grandes sucessos com o público adolescente feminino, como Gossip Girl [12 livros], que virou seriado de TV [3 temporadas]. O segredo do sucesso, de acordo com uma editora de livros infantis e juvenis: “Editors and publishers get humg up about what’s good for kids. At Alloy, they always think first about what kids want to read.”

Saturday, October 24, 2009

Crise?

Uma citação sobre o conceito de crise na historiografia do historiador Francisco Iglésias que eu acho muito interessante:
"A regra é a mudança, que pode ser mais ou menos acelerada, pois não há igualdade no fluxo temporal. Todas as fases são críticas, há uma crise permanente, de modo que a afirmativa comum de que determinada época é de crise é a-histórica, pois todas o são: apenas em algumas o ritmo se acelera, há o salto - são as revoluções. A nota constante, porém, é a mudança."

Thursday, October 22, 2009

Diário da Babilônia: "Brazil"


A professora de artes dramáticas da escola do meu filho organizou com os alunos de 5a e 6a séries uma apresentação sobre o "Brazil" no dia internacional da escola. Obviamente o foco foi o "Carnival" e o "Samba". Descobri coisas interessantes sobre meu país: por exemplo sobre as origens "espanholas" da nossa festa mais importante e, principalmente, que o nosso "Samba" é , pelo que vi no palco, uma versão bem simplificada da Macarena! And Let's Dance!

Tuesday, October 20, 2009

Levi Stubbs


Levi Stubbs era o cantor principal do Four Tops, um dos grupos vocais mais conhecidos da era clássica da gravadora Motown. Aqui você pode ver e ouvir Levi Stubbs com Aretha Franklin ao piano no iutúbio.
O que é que Billy Bragg, um cantor super politizado que mistura folk com atitude punk, tem a ver com a Motown? A Motown é um produto do mundo negro industrializado, de um tempo em que a música negra americana conquistou o mundo além dos muros do gueto. Cantores de jazz como Levi conquistaram o mundo de língua inglesa basicamente com canções de amor. Mas não são canções de amor simplesmente, são uma canção de amor como Reach Out (I'll Be There).

Monday, October 19, 2009

Era uma vez Billy Bragg


Há séculos e séculos atrás, quando eu sonhava acordado [e sozinho] com música e fingia estudar arquitetura, Billy Bragg era um dos meus modelos. Mas não fui eu mas sim um companheiro de viagem que quis que a gente tocasse "Levi Stubb's Tears" de Billy Bragg. E assim foi.
Aqui a letra:
Levi Stubb's Tears
With the money from her accident
She bought herself a mobile home
So at least she could get some enjoyment
Out of being alone
No one could say that she was left up on the shelf
Its you and me against the world kid she mumbled to herself

Chorus:
When the world falls apart some things stay in place
Levi stubbs tears run down his face

She ran away from home with her mothers best coat
She was married before she was even entitled to vote
And her husband was one of those blokes
The sort that only laughs at his own jokes
The sort that war takes away
And when there wasnt a war he left her anyway

Norman whitfield and barratt strong
Are here to make everything right thats wrong
Holland and holland and lamont dozier too
Are here to make it all okay with you

One dark night he came home from the sea
And put a hole in her body where no hole should be
It hurt her more to see him walking out the door
And though they stitched her back together they left her heart in pieces on the
Floor

When the world falls apart some things stay in place
She takes off the four tops tape and puts it back in its case
When the world falls apart some things stay in place
Levi stubbs tears...

E aqui o original no IUTúBi:
Billy Bragg no iutubi

Sunday, October 18, 2009

Poetas Méxicanos - Efraín Huerta


EL TAJÍN
a David Huerta
a Pepe Gelada

...el nombre de El Tajín le fue dado por
los indígenas totonacas de la región por la
frecuencia con que caían rayos sobre la pirámide...


1
Andar así es andar a ciegas,
andar inmóvil en el aire inmóvil,
andar pasos de arena, ardiente césped.
Dar pasos sobre agua, sobre nada
—el agua que no existe, la nada de una astilla—,
dar pasos sobre muertes,
sobre un suelo de cráneos calcinados.

Andar así no es andar sino quedarse
sordo, ser ala fatigada o fruto sin aroma;
porque el andar es lento y apagado,
porque nada está vivo
en esta soledad de tibios ataúdes.
Muertos estamos, muertos
en el instante, en la hora canicular,
cuando el ave es vencida
y una dulce serpiente se desploma.

Ni un aura fugitiva habita este recinto
despiadado. Nadie aquí, nadie en ninguna sombra.
Nada en la seca estela, nada en lo alto.
Todo se ha detenido, ciegamente,
como un fiero puñal de sacrificio.
Parece un mar de sangre
petrificada
a la mitad de su ascensión.
Sangre de mil heridas, sangre turbia,
sangre y cenizas en el aire inmóvil.

Friday, October 16, 2009

Recordar é viver


Estou lendo um livro meio despretensioso e maravilhoso como documento dos anos 70 no Brasil. Patrulhas Ideológicas é composto de uma série de entrevistas com artistas e intelectuais em 1978 sobre o assunto das patrulhas. Coloco aqui um trecho da resposta de Antônio Calmon para uma pergunta bem típica da época sobre "a crise em termos de pensamento de esquerda no Brasil e no mundo". Ele diz que prefere contar uma história e manda bala. Abaixo só um trechinho, já no meio da resposta:

"Quando cheguei em Copacabana minha namorada abriu a porta da casa e anunciou que o Jango tinha se mandado. Choros, palavrões, etc... até que o pai dela veio buscá-la para levá-la para casa, em Santa Teresa. Pegamos a Nossa Senhora de Copacabana e como se não bastasse o bode que estávamos, ainda ficamos dentro da passeata de automóveis que ia queimar a UNE. A classe média comemorava com bandeiras, papel picado e outras frescuras, essa mesma classe média que hoje está aí, na merda! Bem feito! Deixamos eles queimando a UNE e seguimos para a Cinelândia, onde estava havendo uma concentração popular. A gente ia chorando dentro do carro. Aí na Cinelândia o pai da minha garota disse que ela tinha que voltar para casa e eu fiquei por ali com uns amigos. Tinha muita gente e já soldados do exército armados. Gritos, provocações, movimentos de massa e o resultado foi um puta tiroteio. Vi um cara perder a orelha do meu lado. Saímos todos correndo e entramos pela rua da Lapa, seguidos de perto por soldados atirando. Das janelas dos velhos casarões as putas viam tudo e morriam de rir. Acho que foi a partir desse momento que comecei a me perguntar o que o povo tinha a ver com aquilo tudo. [...] Aí resolvemos subir para Santa Teresa, para a casa da minha menina. Aqui acaba o filme de Einsenstein e começa o filme de Bertolucci. Acontece que eram bodas de prata dos pais dela e estava havendo jantar com champagne e strogonoff, que na época ainda era uma coisa chic. Pois ficando lá de cima vendo a UNE pegar fogo e bebendo champagne. Eu estava meio sem apetite."

Tuesday, October 13, 2009

Diário da Babilônia - Há também os que vivem para não consumir

Nos Estados Unidos, considerado o centro mundial do consumismo mais extremado, há um curioso movimento radical chamado Freeganism [a palavra mistura de Veganism com Free]. É um movimento de anti-consumismo radical que define uma forma de vida: os freegans variam muito de uma comunidade para outra mas, em geral, eles costuram suas próprias roupas de roupas [usadas e descartadas pelos outros], aprendem a comer coisas como cogumelos e frutas silvestres que encontram pelos parques e florestas daqui, se locomovem apenas a pé ou de bicicleta [reciclada a partir de bicicletas abandonadas] ou, em ultimo caso, de transporte público. Trabalham sempre o mínimo possível. Alguns organizam “free, really free markets” onde as pessoas fazem trocas e dão presentes umas às outras, outros ocupam edifícios abandonados e fazem hortas comunitárias em terrenos baldios. Outros ainda complementam sua dieta com o que encontram em lixeiras, geralmente de restaurantes.
Sinceramente admiro as pessoas que têm a coragem de fazer escolhas num mundo de teleguiados como é o nosso. Além do mais, os Freegans não fazem mal a ninguém.
Mas não deixa de ser triste a primeira idéia que me veio a cabeça: caramba, no Brasil (e em outros países ricos ou pobres cheios de gente miserável) há um exército de Freegans compulsórios, obrigados a viver dos restos e a consumir o mínimo possível.
Me lembro de uma passagem no excelente livro que li recentemente que comentava sobre as mudanças do capitalismo contemporâneo nos EU, onde os magros com o corpo disciplinado por uma rotina metódica de exercícios eram os ricos e os pobres eram gordos como as caricaturas dos burgueses na virada do século 19 para o 20.

Saturday, October 10, 2009

José Juan Tablada







Tablada [1871-1945] é um outro poeta mexicano genial. Um daqueles poetas de duas vidas, um pouco como Manuel Bandeira. A primeira vida, como poeta do modernismo hispanoamericano, que é mais ou menos como o nosso parnasianismo/simbolismo; e a segunda vida como um iconoclasta amante das letras japonesas e introdutor do haiku na America Latina.











Poemas de Un día…



La mañana
Pajarera
Distintos cantos a la vez;
La pajarera musical

Es una torre de Babel.

Los zopilotes
Llovió toda la noche
y no acaban de peinar sus plumas
al sol, los zopilotes.

Las abejas
Sin cesar gotea
Miel el colmenar;
Cada gota es una abeja…


El saúz
Tierno saúz
casi oro, casi ámbar,
casi luz...


La tarde
La palma
En la siesta cálida
ya ni sus abanicos
mueve la palma…

Hojas secas
El jardín está lleno de hojas secas;
nunca vi tantas hojas en sus árboles
verdes, en primavera.


El crepúsculo
La buganvilia
La noche anticipa
y de pronto arde en el crepúsculo
la pirotecnia de la buganvilla.

Mariposa nocturna
Devuelve a la desnuda rama,
nocturna mariposa,
las hojas secas de tus alas.


La noche

La araña
Recorriendo su tela
esta luna clarísima
tiene la araña en vela.

Friday, October 09, 2009

Gripe Suina

378,000 pessoas infectadas no mundo inteiro > o.ooooo5% da populaçao mundial
4.525 mortos > 1.19% dos infectados
=ai, que medo!

Extra! Extra!

Final da minha fala daqui ha pouco no simposio sobre literatura latino americana contemporanea "mas alla de la nacion":

As ethnographers, as poets, as tourists in search for “love stories,” a bestseller turned into a movie, or simply a good grant: what is the best stance for new Latin American writers as their fictional imagination moves them beyond their national borders? In other words, for what reasons and with what purposes are Latin American writers going to travel in the 21st century? The answers to these questions – I am sure that there will be many – will shape the work of several contemporary Latin American writers.

Thursday, October 08, 2009

Poesia Mexicana - Alfonso Reyes

Os tarahumaras [rarámuri é o nome que eles dão a si mesmos] vivem nas montanhas do norte do México, de onde veio o poeta Alfonso Reyes. São famosos por correr distâncias impressionantes nas montanhas [tipo 160 km em uma só corrida] e por terem sido objeto de veneração do surrealista Artaud que escreveu um livro sobre suas experiências com o alucinógeno Peyotl. O melhor texto sobre os tarahumaras que eu conheço até hoje é esse poema.







YERBAS DEL TARAHUMARA
Han bajado los indios tarahumaras,
que es señal de mal año
y de cosecha pobre en la montaña.

Desnudos y curtidos,
duros en la lustrosa piel manchada,
denegridos de viento y de sol, animan
las calles de Chihuahua,
lentos y recelosos,
con todos los resortes del miedo contraídos,
como panteras mansas.

Desnudos y curtidos,
bravos habitadores de la nieve
—como hablan de tú—,
contestan siempre así la pregunta obligada:
—"Y tú ¿no tienes frío en la cara?"

Mal año en la montaña,
cuando el grave deshielo de las cumbres
escurre hasta los pueblos la manada
de animales humanos con el hato a la espalda.

Los hicieron católicos
los misioneros de la Nueva España
—esos corderos de corazón de león.
Y, sin pan y sin vino,
ellos celebran la función cristiana
con su cerveza-chicha y su pinole,
que es un polvo de todos los sabores.

Beben tesgüiño de maíz y peyote,
yerba de los portentos,
sinfonía lograda
que convierte los ruidos en colores;
y larga borrachera metafísica
los compensa de andar sobre la tierra,
que es, al fin y a la postre,
la dolencia común de las razas de los hombres.
Campeones de la Maratón del mundo,
nutridos en la carne ácida del venado,
llegarán los primeros con el triunfo
el día que saltemos la muralla
de los cinco sentidos.

A veces, traen oro de sus ocultas minas,
y todo el día rompen los terrones,
sentados en la calle,

entre la envidia culta de los blancos.
Hoy solo traen yerbas en el hato,


las yerbas de salud que cambian por centavos:
yerbaniz, limoncillo, simonillo,
que alivian las difíciles entrañas,
junto con la orejela de ratón
para el mal que la gente llama "bilis";
y la yerba del venado, del chuchupaste
y la yerba del indio, que restauran la sangre;
el pasto de ocotillo de los golpes contusos,
contrayerba para las fiebres pantanosas,
la yerba de la víbora que cura los resfríos;
collares de semillas de ojos de venado,
tan eficaces para el sortilegio;
y la sangre de grado, que aprieta las encías
y agarra en la nariz los dientes flojos.

(Nuestro Francisco Hernández
—El Plinio Mexicano de los Mil y Quinientos—
logró hasta mil doscientas plantas mágicas
de la farmacopea de los indios.
Sin ser un gran botánico,
don Felipe Segundo
supo gastar setenta mil ducados,
¡para que luego aquel herbario único
se perdiera en la incuria y el polvo!
Porque el padre Moxó nos asegura
que no fue culpa del incendio
que en el siglo décimo séptimo
aconteció en El Escorial.)

Con la paciencia muda de la hormiga,
los indios van juntando sobre el suelo
la yerbecita en haces
—perfectos en su ciencia natural.

Wednesday, October 07, 2009

Mash-up 4 – Robert Browning


Ele fez essa carne de gente,
essa bolha inflada, essa massa
socada que engarrafa e gruda
no chão dessa terra essa alma
humana, esse bafo da boca
dEle, vaporosa vertigem de cinza e nada.

Mas Ele faz aparecer nessa
mesma massa esses picos e rachos
por onde esse vapor engenhoso,
esse fogo esbelto, essa música
delgada, essa coluna de silêncio
puro, esse rio assombroso
que se levanta do leito e flui
pelos ares, que escapa assim de volta,
sempre um pouco antes da hora.

Isso e tudo mais nesse inferno
que é o artesanato Seu aqui
na terra me aparece assim:
torcido e torneado com tinta
que escorre da Sua boca e condensa
no papel jornal dum livrinho vagaba
jogado num canto
cheio de entulho sobre-humano.

Ele nos quer assim:
formigueiros
crescendo dentro
de uma caixa de ferro,
sem caber dentro.

Tuesday, October 06, 2009

Narrador Monstruoso

Uma só cabeça e vários tentátulos, várias pernas tentáculos que se assentam em terras diversas e variados e variados mares, deles sugando o que podem oferecer e ofertando o produto à cabeça de um olho ciclópico, montada em um dorso gigantesco de onde saem braços, de onde saem mãos que selecionam caminhos pelas teclas do computador. A cabeça vive dilacerada pelos tentáculos que se distanciam em busca de novos apoios. Cada novo apoio, se não for uma caravela, é uma terra, se não for uma terra, é uma caravela. Se não for caravela ou terra, é uma tela de computador a ser preenchida.

Silviano Santiago, Viagem ao México

Monday, October 05, 2009

O Diabo

é escravo do trabalho que despreza.

Esclarecimento breve

Só para explicar: republicanos e democratas são em geral muito diferentes e a maioria dos republicanos e uma boa parte dos democratas correspondem às generalizações que se fazem deles na imprensa. Mas qualquer partido político grande abriga debaixo de um mesmo guarda-chuva muita gente diferente em qualquer lugar, inclusive nos Estados Unidos. A tendência das bases republicanas de rejeitar candidatos moderados e favorecer candidatos super-conservadores [frequentemente fanáticos, seja por oportunismo ou por crença mesmo] é uma das razões dos recentes fracassos do partido, que tinha maioria nas duas casas do congresso e agora é "minoria folgada" nas duas. Para não falar no caso de sujeitos construirem carreiras políticas como super-conservadores em termos de comportamento e serem presos caçando aventuras gays num banheiro público ou arrumando emprego para o marido da amante...

Saturday, October 03, 2009

Diário da Babilônia - As coisas são mesmo complicadas...



Jefferson Finis Davis (1808 – 1889) era senador pelo Mississippi quando a Guerra Civil eclodiu – os estados do sul dos Estados Unidos quiseram separar-se do resto do país para manter sua “soberania” – o sistema escravista. Jefferson Davis renunciou no senado e foi o único presidente dos “Confederate States of America” entre 1861 to 1865. Do outro lado na Guerra Civil estava o presidente Abraham Lincoln. Bem, Lincoln era do Partido Republicano e Jefferson Davis do Partido Democrata…
Uma simplificação pode mesmo ser pior que uma inexatidão - a política não é cheia de contradições e heterodoxias só no quintal da gente.


Thursday, October 01, 2009

Diário da Babilônia – uma simplificação pode ser pior do que uma inexatidão

Sheila Bair, ou como as coisas são mais complicadas do que parecem ser nos Estados Unidos

Sheila Bair é atualmente a pedra no sapato das grandes corporações americanas e chegou a ganhar um “Profile in Courage Award” da Biblioteca Kennedy por ter chamado na responsa os grandes banqueiros de Wall Street em 2007 ANTES da coisa toda explodir.
Na verdade, bem antes disso, Sheila Bair foi o único voto, vencido mas valente, na comissão que decidiu liberar a ENRON da regulação anti-fraude. Em 2001 a ENRON, queridinha da revista Forbes [ganhou por seis anos consecutivos o prêmio de “America’s Most Innovative Company], quebrou levando 22.000 empregos e milhões de dólares dos investidores [mas não dos diretores da empresa que venderam todas as suas ações antes].
E Sheila Bair, atualmente trabalhando no FDIC [Federal Deposit Insurance Corporation], é uma voz combativa na luta para enquadrar os grandes bancos americanos, que apesar dos bilhões do contribuinte que os salvaram da bancarrota, não querem agora saber de “interferência” do governo nos seus negócios.
Bom, Sheila Bair, meus amigos, é membro de carteirinha do Partido Republicano do estado do Kansas…

Wednesday, September 30, 2009

Resumo de novela brasileira - Sábado:


São todos convidados para a grande festa regada à pizza do Frôscolo’s: Adoração, Argentino, Aeronauta, Agrícola, Aleluia, Adegesto e o doutor Cafiaspirina, além da própria Abrilina, Aricléia, Anatalino, Asteróide e Bananéia. Em um momento de ternura exacerbada, entre beijos e abraços, Abrilina quase estende o convite para a festa a uns dois ou três da turma do Coronel Marimbondo. Ela pensa em convidar especificamente Antônio Testa, Jovino de Almeida e Amável da Costa, amigos de Militão de Souza, amor de infância de Abrilina. Ao final, Abrilina decide ser prudente e não arriscar terminar a festa sem sua fatia de pizza.
Percilina nega a garrucha e Amazonino tem que se contentar com uma faca sorocabana. Amazonino decide visitar Darcília no hospital. Felicidade, vestida de enfermeira, coloca veneno no suco de goiaba de Darcília. Darcília sai do quarto para conversar com Amazonino e conta que está grávida. Dentro do quarto, Dosolina toma o suco de goiaba envenenado.

Monday, September 28, 2009

Resumo de novela brasileira - Sexta-feira:


Abrilina respira fundo e pede a Aricléia, Anatalino, Asteróide e Bananéia que liguem para a melhor pizzaria da cidade, Frôscolo’s, de propriedade de Benedito e Benigna Frôscolo, e mandem trazer seis dúzias de pizzas fresquinhas, de vários sabores. Benedito e Benigna vem entregar pessoalmente as pizzas. “Melhor um canalha imbecil da família do que outro, associado com Marimbondo Trindade e família”, diz Abrilina à sua irmã.
Felicidade promete ajudar Danúbio. Felicidade e Danúbio se beijam. O doutor Tropicão adverte a Darcília que ela pode perder seu bebê. Preocupado, Amazonino pede uma garrucha a Percilina Santos.