Friday, November 06, 2009

Darwin, o oráculo, e as tartarugas

Tenho uma profunda desconfiança das pessoas que tentam fazer de Darwin uma espécie de oráculo infalível e incriticável, algo que já fizeram antes com Freud e com Marx. Fico desconfiado principalmente quando as críticas a qualquer aspecto do pensamento de Darwin são imediatamente vinculadas a qualquer tipo de fundamentalismo religioso obscurantista. É como se eu tivesse que escolher entre aceitar tudo o que Darwin disse ou ir morar com Bin Laden nas cavernas do Paquistão. Entre os dois fundametalismos, entre a direita religiosa e a direita neo-liberal darwinista, eu fico com nenhum dos dois.
Vejam, por exemplo, esse trecho de The Descent of Man:

“At some future period, not very distant as measured by centuries, the civilised races of man will almost certainly exterminate, and replace, the savage races throughout the world. At the same time the anthropomorphous apes, as Professor Schaaffhausen has remarked, will no doubt be exterminated. The break between man and his nearest allies will then be wider, for it will intervene between man in a more civilised state, as we may hope, even than the Caucasian, and some ape as low as a baboon, instead of as now between the negro or Australian and the gorilla.”

Está aí bem clara a ideologia da supremacia racial ligada ao “extermínio e substituição das raças selvagens”, germe de muita coisa muito feia do século XX. Não custa também lembrar que o nome completo do grande livro de Darwin era On the Origin of the Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Não é que, uma vez que o pensamento de Darwin possa ser vinculado a Hitler, ele seja responsável por Hitler e deva ser jogado no lixo. De jeito nenhum. Mas muita gente que acha que Darwin é a salvação do mundo contra o obscurantismo religioso acha que, já que o pensamento de Marx pode ser vinculado a Stalin, ele por isso deve ser jogado no lixo…
Não dá para jogar toda a culpa em Spencer e companhia e negar que Darwin também lia Malthus com entusiasmo e justificava não apenas o imperialismo britânico em seu lado mais terrível, mas também a crueldade extrema no tratamento das terríveis desigualdades sociais dentro da própria Inglaterra. Falando, por exemplo, contra as campanhas de vacinação, Darwin diz em The Descent of Man:

“Thus the weak members of civilized society propagate their kind. No one who has attended to the breeding of domestic animals will doubt that this must be highly injurious to the race of man.”

Ajudar os mais pobres a não morrer de fome, frio e doença é, para Darwin, prejudicar a sociedade civilizada… O poder britânico está ligado com a crueldade com que ele lida com os seus fracos internamente, já que a competição sem controle. “natural”, fortalece a raça, selecionando os mais fortes. O desaparecimento das “raças selvagens” fora da Inglaterra é portanto uma questão de tempo e de bom senso e também um acontecimento “natural”. Apesar de toda a militância ateísta, não se pode negar que aqui o conceito de “natural” adquire um sentido perversamente parecido com o de “vontade divina”. Assim são as coisas, não há nada que se possa fazer sem alterar o equilíbrio “natural” das coisas.
José Emilio Pacheco tem um poema maravilhoso sobre o assunto:

Los mares del sur
Felicidad de estar aquí en esta playa
aún sin Milton ni Sheraton.
Arena como al principio de la creación, victoria
de la existencia. Mira cómo salen
del cascarón las tortuguitas.

Observa cómo avanzan sobre la playa ardiente
hacia el mar que es la vida y nos dio la vida.
Prueba esta agua fresquísima del pozo.
No comeremos ni siquiera almejas
por no pensar en nada que recuerde la muerte.

Los paraísos duran un instante.

Llegan las aves, bajan en picada
y hacen vuelos raspantes y se elevan
con la presa en el pico: las tortugas
recién nacidas. Ya no son gaviotas:
es la Luftwaffe sobre Varsovia.

Con que angustia se arrastran hacia la orilla,
víctimas sin más culpa que haber nacido.
Diez entre mil alcanzarán la orilla.
Las demás serán devoradas.

Que otros llamen a esto de selección natural,
equilibrio de las especies.

Para mi es el horror del mundo.
Ciudad de la memoria, 1986-1989

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