Friday, December 25, 2015

Feliz Natal

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Foto minha: Quadro de Avisos

Spectre
Radiohead

I'm lost,
I'm a ghost,
dispossessed,
taken host.
My hunger burns
a bullet hole,
a spectre of
my mortal soul.
These rumors
and suspicion,
anger is
a poison.
The only truth
that I could see
is when you put
your lips to me.
Futures tricked
by the past.
Spectre,
how he laughs.

Fear puts
a spell on us,
always second-
guessing love.
My hunger burns
a bullet hole,
a spectre of
my mortal soul.
The only truth
that I can see:
Spectre
has come for me.

Wednesday, December 23, 2015

Música/Testamento

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Há dois momentos marcantes em que dois artistas que eu admirei muito como adolescente rasgaram aquela capa que insiste em ficar entre a arte e a vida. Esse limite ganhava urgência e se transformava também em limite entre a vida e a morte, já que as duas são canções que falam sobre uma morte como uma coisa eminente e concreta, não como uma abstração impactante para impressionar adolescentes.

O primeiro foi em 1989, quando eu tinha vinte anos, sonhava com o Lula barbudão sem gravata presidente revolucionário, era o pior estudante universitário que eu já conheci, tinha uma banda de roque e ainda comprava vinis com meus caraminguás como professor de inglês. Foi assim que comprei Burguesia, o último disco do Cazuza. Um disco difícil de ouvir por causa da debilidade física do artista que fica registrada feito um fantasma na voz trêmula e vacilante do cantor. A faixa fantasmagórica mais impressionante daquele disco é “Cobaias de Deus”, música de Ângela Ro-Rô e letra amarga de um Cazuza desesperado com a morte e a doença:

O segundo foi em 1996, sete anos depois. Aí eu já não era nada daquilo do que eu era em 1989. Se Cazuza viveu em público seu calvário e deu um testemunho duro do seu fim, Renato Russo viveu o calvário dele escondido num mundo pré-internet e morreu logo depois do lançamento do CD [já CD] A Tempestade, cheio de canções melancólicas sobre um fim que vem chegando aos poucos. A voz também fraqueja e em alguns momentos a capa entre vida e obra se rompe, por exemplo em “Esperando por mim”, quando a tempestade distrai o doente que não esteve nada bem e um passeio com o pai traz um "momento de paz". A noite as coisas se esclarecem e a negação da solidão ["o mal do século"] nos verdadeiros amigos, no pai, no filho, em todos que "esperaram por mim":


Um morre sozinho o outro morre proclamando docemente que esperam, esperaram e esperarão por ele. 

Monday, December 21, 2015

A malandragem de terno e gravata

Outro dia um pessoa amiga e inteligente se queixava publicamente dos achaques diários a que várias empresas sujeitam seus clientes no Brasil e sugeria que isso seria resultado da nossa incapacidade de reproduzir no nosso país os padrões de eficiência do capitalismo de lugares como os Estados Unidos. Eu, como morador há quase dez anos nos Estados Unidos pensei comigo mesmo que esse modelo de achaque ao cliente é uma cópia perfeita do sistema daqui. Se você não pode ser um cliente VIP/Gourmet/Primeira-Classe, que paga um extra, não vai conseguir livrar-se do inferno a que estão sujeitos todos os outros, meros mortais. Com a gentalha todo mundo dá o preço errado, erra no troco, não cumpre prazo nem atende o telefone sem pelo menos 20 minutos de musiquinha. Trata-se de um sistema de malandragem sistematizada, regulamentada em cartório, oficializado nas letras cada vez mais miúdas dos contratos cada vez mais longos.

Nos tempos, digamos, do meu pai, os malandros eram os que movimentavam, por exemplo, o mercado sujo e inclemente da agiotagem, não é mesmo? A agiotagem nos Estados Unidos se transformou em "payday loans", curiosamente chamado no Brasil de "factoring". E a medida em que alguns estados puseram obstáculos aos payday loans, a malandragem foi se diversificando.

O sujeito apertado com as contas do fim do ano liga a TV e vê um anúncio de uma empresa chamada TitleMax [O websaite da empresa está aqui] ao som de uma música animada em que a Miss Estados Unidos segura dois punhadões de dinheiro é oferece "dinheiro, dinheiro de verdade":

 “Turn your car title into holiday cash!” [Transforme o título do seu carro em dinheiro para as festas de fim de ano!] diz outro anúncio:


Trata-se de um empréstimo usando o título [daí o nome da empresa] de propriedade do carro da pessoa como garantia, mas outros "produtos" [empréstimos] são infalivelmente oferecidos aos clientes/otários em busca de uma graninha para pagar as contas atrasadas ou para fingirem que Papai Noel também frequenta os pés-de-chinelo da cidade. O anúncio declara que a empresa aceita qualquer pessoa como cliente independente da sua ficha de empréstimos e qualquer furreca como colateral de empréstimo. Livre de qualquer limitação ligada ao controle de empréstimos predatórios depois da crise de 2008, os juros são de 300% [num país em que os juros são, há muito tempo, zero por cento neste caso.

Foram 1.1 milhão de famílias que fizeram esse tipo de empréstimo só em 2013. Só no estado da Virgínia foram 177.775 empréstimos concedidos, uma alta de 612% em relação a 2010. Os juros de fato [contando várias facadas contadas nos contratos] variam de quase 80% a mais de 500% [mais números aqui]. Um em cada seis famílias que fazem esse tipo de empréstimo perdem seu carro, o que em quase todo os Estados Unidos significa tornar-se um cidadão de terceira classe, impossibilitado de trabalhar pela falta de transporte público. Quem não perde o carro paga, paga, paga, paga e paga.

Lojas oferecendo o produto aparecem todos os dias, principalmente nos bairros mais pobres e nos estados em que o aperto financeiro é pior. Os investidores na bolsa de valores adoram e investem seus bilhões no negócio com base nos retornos fabulosos. Trata-se de uma avaliação "neutra" de investidores em busca de um maior retorno. Veja portanto se o conto que escrevi trata-se de uma fantasia escalafobética ou de realismo simples:


Moctezuma Holding

There is not anything which contributes more to the reputation of particular persons, or to the honour of a nation in general, than erecting and endowing proper edifices for the reception of those who labour under different kinds of distress.
Jonathan Swift

Caro Cliente Elite VIP Diferenciado Gourmet,
Peço que você leia com calma a brochura que tem às mãos. Ela contém informações importantes sobre a nova linha de investimento da Moctezuma Holding™, uma opção com atrativos únicos para aqueles que, como você, não se contentam com nada menos que o melhor do melhor.
Primeiro, algumas palavras sobre a Moctezuma Holding™. Sabemos que o homem de negócios do século XXI não tem tempo para poesia. Objetividade e simplicidade são o segredo do nosso sucesso. Analisamos o Mercado, a partir dos conceitos da objetividade absoluta e implacável e do ideal capitalista de gastar sempre o mínimo para obter um produto que se venda sempre pelo máximo. Nosso ideal é fabricar com ar algo que vale ouro. Isso se traduz em opções de investimento assim:
custo de produção minimizado + valor de mercado máximizado = lucro otimizado
Esse é o nosso mantra. Essa é a mola do nosso mundo.  
Nossa nova linha exclusiva de investimento se chama: 21st Immigrant Slave Sex Worker. Sabemos que a escravidão como sistema econômico global é ineficiente, reduzindo o público consumidor e travando o consumo, mas como opção de investimento dentro de um sistema não-escravista, a escravidão oferece oportunidades fabulosas de conjugar custo mínimo e valor máximo. A conjuntura atual, com um fluxo constante de imigrantes sem permissão de trabalho cruzando fronteiras, garante o fornecimento dessa mão-de-obra (além de outro extraordinário campo de investimento – o transporte e a facilitação da entrada desse capital humano – que será objeto de uma nova linha de investimento que esperamos oferecer aos nossos clientes em breve). O imigrante ilegal é o escravo natural, não no sentido dos que usavam argumentos religiosos ou raciais para a escravidão de outrora. Basta seguirmos fielmente nossos princípios norteadores de investimento com absoluta objetividade: o imigrante ilegal é o escravo natural do século XXI pois é um indivíduo que vem a nós por sua própria iniciativa, por livre e espontânea vontade. Num sistema não-escravista o uso de mão de obra escrava oferece uma vantagem competitiva incontestável. Por mais miseráveis que sejam os asiáticos enfurnados em fábricas 24 horas por dia, não são páreo para os nossos imigrantes ilegais escravizados, que trabalham de graça! Um outro componente fundamental: escaparemos dos marcos regulatórios que sufocam e constrangem o gênio e a beleza dos negócios. Livre de regulamentos, punições, taxas, impostos e toda essa teia parasítica que o estado lança à nossa volta, o dinheiro cresce vigoroso e produz um jorro glorioso de riqueza, que esperamos compartilhar com você!
Seguindo nossa opção preferencial pela simplicidade objetiva absoluta, analisamos o mercado da escravidão e fizemos a opção por um ramo básico, fundamental, ancestral: o sexo, uma necessidade básica permanente desde os tempos mais remotos da humanidade, constituindo portanto um mercado de consumo também ideal. Nesse ramo de serviços a mão de obra estrangeira adiciona, mais uma vez naturalmente, o tempero exótico que gera um valor agregado apreciável. A “ilegalidade” da imigração, da escravidão e da prostituição aumenta riscos mas os modelos de testes que fizemos com matrizes as mais sofisticadas mostram que essa mesma para-legalidade multiplica lucros. Os custos operacionais para eventualmente torcer com sutileza e bom senso os braços da lei são muitíssimo menores que os custos com impostos e taxas de negócio legalizados.
A combinação em uma linha de investimento do ramo de serviços sexuais e do trabalho não-remunerado feito por imigrantes ilegais num ambiente de negócios sem qualquer marco regulatório dá a esse investimento um retorno sem igual. Por isso, caro investidor Elite VIP Diferenciado Gourmet da Montezuma Holding™, não hesitamos em oferecer a você essa nova linha de investimentos, porque sabemos que você não se contenta com nada menos que o melhor em termos de lucratividade, com custos e perdas minimizados e gastos e ganhos maximizados, seguindo o princípio fundamental que nos trouxe das cavernas até aqui.   
Permita-nos um breve devaneio. Imagine um mundo natural em que o estado desaparecesse e a eficiência absoluta reinava soberana. Livres, vicejariam os fortes e ricos como nós, enquanto cairiam e serviriam de adubo os fracos e pobres. Seria ainda um mundo de oportunidades: os pobres fortes, cultivando um implacável ódio e desprezo pela pobreza poderiam alçar-se além por seus próprios méritos e vir um dia a substituir aqueles ricos que porventura tenham se tornado fracos. Sobreviveriam sempre e apenas os mais aptos. Isso é bom e natural: é a integração do homem à sua natureza primeira, ao que nos torna uma espécie imbatível na luta pela vida no planeta. Infelizmente ainda estamos muito longe desse sonho e talvez nunca cheguemos lá. Mas é esse sonho que orienta nossos esforços na Moctezuma Holding™.




Thursday, December 17, 2015

Um fragmento de um diário


Uma pessoa amiga me mostrou em confidência esse belíssimo fragmento do seu diário. Insisti e ela permitiu que eu compartilhasse aqui o que ela escreveu, mas em anonimidade. Espero que vocês gostem tanto quanto eu.

2004

Prometo não me esconder atrás de mim mesmo. Prometo deixar no papel nada que não seja meu sangue.
A onda vem e eu perco o pé, mas não me desespero. Solto o corpo e sinto o silêncio vibrar nele a paz do esquecimento. Um vento denso de água e sal balança meu corpo feito um saco plástico vazio de mim. Imagino meu esqueleto solto dançando por dentro em ondas de sangue ainda mais denso. A próxima onda chega e me puxa mais longe. Respirar me custa, me cansa subir. Devagar aos poucos tomo ar e volto para baixo d’água. Não me sinto preso. Não estou me afogando ainda, agora. Não estou vencido ainda que passe agora por mim o salva-vidas que vem ajudar alguém mais longe da praia que eu. Não peço ajuda. Não é orgulho. Estou à deriva por bem mais de meia hora. Na volta o salva-vidas me vê e me oferece carona de volta à praia. Não quero dizer que sim, quero me calar, por meio instante vacilo em aceitar. Meio instante, não mais. Não mais que meio instante. O salva-vidas me puxa bruscamente. Saio andando sozinha com a água na altura da barriga. Eu me sento no sol mudo do mormaço na areia branca na praia da minha infância. Volto no dia seguinte. E cada vez o meu corpo fica mais mole: pele, carne, osso um pouco mais frouxos. Um monte de pedras desmorona uma vez e fica mais difícil refazer o monte. Remontado meio frouxamente ele acaba caindo outra vez, ainda mais desconjuntado. O meio instante de vacilo fica um pouco mais longo. A saudade da leveza, de estar vazia, da paz, do silêncio, do esquecimento do mundo e si mesma fica um pouco maior. Uma progressão lenta, gradual. Acréscimos ínfimos. Uma paciente erosão por dentro. E sempre o medo de morrer. Um pouco menos de medo a cada mergulho. Mas sempre o medo. Estar viva vale? Antes da chegada de uma nova tormenta, no prazer de estar deitada na praia no sol na areia, penso que sim, que vale tanta pena.
Só dei conta de contar aqui a melhor parte do teorema. Ia deixar sangue, prometi, eu sei. Não é por zelo que paro por aqui. É por que para lá desta linha fica o extremo da tensão que rompe a corda que me prende a mim mesma. E a tensão dói cada vez mais ou a corda fica cada vez mais fraca.
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Monday, December 14, 2015

O pequeno psicopata que vive dentro de cada um de nós

Martin Shkreli sucesso das finanças para a indústria farmacêutica
Estamos num mundo que promove sem tréguas a ideia de que a cobiça em estado puro não é apenas um valor positivo [o que já seria uma proposição temerária] mas um valor supremo, que deveria nos "libertar" das "distrações" da empatia e do remorso. Livre das patéticas amarras da moral, o capitalismo puro ou selvagem nos ofereceria uma meritocracia radical capaz de trazer a felicidade suprema, mas apenas aos que a merecem de verdade, por darem os maiores "retornos" aos seus "investidores" produzindo o máximo "valor" no mínimo de tempo. Vide Martin Shkreli, que aumentou o preço do Daraprim, um remédio essencial para o tratamento da AIDS e da Toxoplasmose, de US$13,50 para US$750 e promete fazer o mesmo com um remédio para tratar do Mal de Chagas viu as ações de sua empresa aumentarem US$1.50 para US$28 por ação. Como se vê, o Senhor Mercado aprova a psicopatia de Shkreli.


Philippe Pinel falava em "manie sans delire"
Este mundo cada vez mais descarnado provoca entre nós uma epidemia de psicopatia. Porque para os psicopatas palavras como "gostar" ou "amar" são nada além de um aglomerado de vogais e consoantes, sem a menor ressonância afetuosa. E hoje em dia eles são legião. Dizem os cientistas que 1% da população masculina adulta [quase todos os psicopatas são homens] padece do "sofrimento da alma" [tradução literal do termo psicopatia, inventado na Alemanha no século XIX]. O termo desde sua origem esteve ligado ao comportamento criminoso e à ideia corrente no século XIX da criminalidade sem remorsos como uma terrível doença da alma. 

Ted Bundy
Mas quando me refiro a uma epidemia, não me refiro aos diagnosticados, os catalogados, os devidamente registrados no sistema jurídico legal e encarcerados. Nos Estados Unidos, entre 15 e 25% da população carcerária foi diagnosticada como psicopata e serve de cobaia para pesquisas sobre o assunto, recebendo os costumeiros 1 dólar por hora que um preso recebe quando trabalha. Sobram ainda um milhão de sujeitos psicopatas vivendo por aí. Aposto que muitos fazem imenso sucesso e são mesmo objeto de inveja nos ambientes sofisticados de Wall Street e em muitos outros ambientes em que a vida significa nada além da luta de todos contra todos pelo poder e pelo seu símbolo supremo, o dinheiro. A fantasia coletiva sobre a psicopatia postula uma eficiência implacável, que não se curva a absolutamente nada na busca dos seus objetivos. Os psicopatas produtivos são nossos modelos de conduta, modelos de sucesso nas capas de revistas e jornais.

O psicopata eficiente em 1991
Dizem que uma em cada três pessoas que entrevistaram um psicopata sentiram na presença dele uma aversão visceral. Os mesmos cientistas que constataram esse fenômeno de reconhecimento dão uma explicação patética, muito em moda entre cientistas sociais hoje em dia: essas pessoas estariam exercendo uma capacidade primal de identificar um predador perigoso. Acho que se trata de um reconhecimento instintivo da parte de um terço de nós de que estamos na presença de um psicopata frente a frente com a representação mais perfeita do mundo em que vivemos. Isso explicaria também a fascinação da nossa cultura pela figura do psicopata, objeto de uma ambígua fascinação horrorizada. 

O psicopata eficiente em 2013
Note que a fantasia cultural atribui aos psicopatas uma eficiência sobre-humana que os psicopatas de carne e osso [pelo menos os que acabam na prisão] geralmente não têm. E estamos todos sendo constantemente requisitados a copiar o comportamento implacavelmente eficiente que associamos aos psicopatas em nossas fantasias midiáticas. Os psicopatas de carne e osso, pelo menos aqueles que cairam na rede do sistema legal, estão longe desses gênios que ninguém consegue capturar muito menos incriminar: eles têm três vezes mais possibilidade de voltar para a prisão um ano depois de serem libertados. Livres só aqueles capazes de, nas palavras de um dos pioneiros no estudo da psicopatia, "esconder atrás de uma mímica de emoções normais, inteligência fina e responsabilidade social uma personalidade grosseiramente incapacitada e irresponsável". Esse mesmo
Hervey Cleckley
pioneiro, Hervey Cleckley, já em 1943, alertava também que o extremo individualismo e competitividade da cultura dos Estados Unidos promoviam a psicopatia. Seu trabalho foi esquecido e retomado pelo canadense Robert Hare que afirmou que os negócios são a vocação mais conveniente para os psicopatas, que ali estariam livres dos mecanismos de controle que potencialmente poderiam inibí-los em outras profissões. Crueldade, completa falta de consciência social e dedicação absoluta ao sucesso não são apenas
Robert Hare
características dos atuais capitães da indústria de finanças; são qualidades que eles propagam com absoluta convicção nas escolas de economia e administração de empresas como necessárias para dar direção e sentido às "reformas" de setores em "crise" como a educação e a saúde. Não sei mas acho provável que a psicopatia tenha o mesmo "sucesso" da depressão, que tinha critérios clínicos durante os anos 50 e 60 que quase ninguém atendia e que hoje afeta todo mundo, inclusive o cachorro da vizinha. São duas metades da mesma terrível moeda que circula hoje com mais vitalidade e violência do que nunca. Quem não tem estômago para libertar seu "psicopata interior" e vencer na vida talvez tenha o destino de ser mesmo um eterno deprimido. Tendo em vista que a medicação dos deprimidos tem antes de tudo o objetivo de mantê-los como indivíduos produtivos, talvez a indústria farmacêutica na mão de Shkreli e companhia invente novas drogas que ao invés de combater aumentem e fortaleçam o pequeno psicopata que vive dentro de cada um de nós.




Tuesday, December 08, 2015

Música

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Bulería  
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Paco de Lucía / Pepe de Lucía

¿Para qué quiero yo llorar
si no tengo prima quién me oiga?                                       [“primo” é um termo de apreço por 

                                                                                             companheiro de mesma geração; 
                                                                                              os mais velhos são 
                                                                                             respeitosamente chamados “tíos”]
 La que me tenía que oír                                                                        
está viviendo en la Gloria
y no se acuerda de mí.

¿Quién ha visto a una pastora
adornada con ricas pieles
y por coronita le han puesto
una matita de laurel verde?                                                            [“matita” é um ramalhete]

Al de la puerta real
que me alivie las duquelas                                                  [“duquelas” são preocupações,
que no las puedo aguantar.                                                 dores da alma]

Yo le estoy pidiendo a Dios
que me quite las duquelas que tiene mi corazón.

Monday, December 07, 2015

O que podemos reconhecer e aprender com o cruel mundo dos palhaços

O mundo dos palhaços não é um nunca mundo gentil e pacífico. Na base das relações entre os diversos palhaços [cada um executando a sua função específica no picadeiro] frequentemente aparece a questão do subjugamento violento de um ser humano por outro e também da instabilidade precária nessa relação de dominação, já que o dominado pode de repente levantar-se e transformar-se no dominador. Tudo no mundo dos palhaços é mediado pela lógica da caricatura, do exagero, mas uma vez que se compreenda que se trata de uma convenção grotesca, a crueldade constante do mundo do picadeiro fica clara. No seu manual mínimo do ator, Dario Fo explica que todos os palhaços "lidam com o mesmo problema, com a fome: fome de comida, fome de sexo, mas também fome de dignidade, de identidade, fome de poder" [I clown, come i giullari e i «comici», trattano sempre dello stesso problema, della fame: fame di cibo, fame di sesso, ma anche fame di dignità, di identità, fame di potere"]. É o mundo da fome é, também, um mundo de desespero.



O mundo dos picadeiros e dos palcos populares formou a comédia dramática que migrou para o cinema, por exemplo, com Buster Keaton saindo do trabalho no vaudeville como Toni de Soirée com os pais desde que era criancinha para as telas do cinema, sempre apanhando e fugindo ou perseguindo e batendo alguém. O cinema americano seria dominado por uma série de grandes comediantes judeus [Charles Chaplin, o Gordo e o Magro, os Três Patetas e até os irmãos Marx até Jerry Lewis e o primeiro Woody Allen, beberam dessa fonte. Principalmente na América Latina, até bem pouco tempo, o mundo da comédia [e do drama] ainda descendia quase todo do universo circense dos palhaços com Oscarito, Grande Otelo, Mazaroppi até Os Trapalhões.


Veja um exemplo contemporâneo do que estou dizendo. O cômico argentino Francella gravou uma série de esquetes curtos para o seu programa de televisão chamados de "Um dia de fúria". Francella faz aqui o papel do pequeno burguês risinho e bonzinho com seus sonhos infantis de consumo: comer um sanduíche no draivetrú do Maquedonaldes antes de ir ao cinema com a esposa, comprando uma televisão nova para assistir o jogo de futebol da seleção com os amigos, usando pela primeira vez uma máquina fotográfica para documentar uma festa de família. O personagem quer fazer tudo certinho para replicar na vida real a alegria eficiente dos comerciais de televisão e dos enlatados dos Estados Unidos, mas então os problemas da vida dura começam a aparecer: a moça do draivetru não entende e erra o pedido, a televisão nova não funciona bem na hora do jogo, o pequeno-burguês aparvalhado não consegue fazer funcionar o disparador automático da máquina que lhe permitiria fotografia a família inteira na hora de soprar a velhinha. O desespero vai crescendo exponencialmente e aquela calma e alegria pequeno-burguesa começa a ruir em pedaços.

Nós somos instados a rir da infatilidade dos seus sonhos de consumo [que são nossos], a gargalhar com o desespero do pequeno-burguês [que é nosso desespero também] e a esperar com antecipação pela explosão final em que o pequeno-burguês explode em revolta com o seu taco de beisebol e quebra tudo à sua frente. Essa raiva e frustração do personagem do Francella ficou para mim palpável nas ruas e nas residência da classe média brasileira dos panelaços e nos linchamentos promovidos por todos democraticamente nas ruas do Brasil. O palhaço ri de nós, como explica Roger Avanzi no caso do palhaço silencioso e não-risonho, o Toni de Soirée: " sua arte consiste em representar o erro, em cair. […] Mas enquanto o público está rindo do palhaço, o palhaço ri do povo que pensa que ele caiu. Não caiu, simulou a queda, tem técnica, não se machucou". 

Sunday, November 29, 2015

Notas para um livro impossível sobre crítica

John Updike, que teve uma longa carreira como escritor de resenhas para jornais e revistas, dizia que não fazia o menor sentido reclamar que um autor "não havia atingido o que nunca quis atingir" com uma determinada obra. Trocando em miúdos: é tolice esperar que Spielberg faça um filme de Godard ou que Godard faça um filme de Spielberg. Mas nem sempre é tão fácil assim discernir a partir da obra o que é que o seu autor queria que ela fizesse. Sem falar que muitas obras interessantes acabam fazendo coisas que seus autores nunca quiseram que elas fizessem; uma vez soltas pelo mundo, as obras sofrem metamorfoses impressionantes na cabeça dos seus vários leitores diferentes. Se há um "eu-autor" numa resenha crítica, ele pertence ao crítico antes de tudo.

Mas para isso há que encontrar um público, inclusive um público crítico. Oscar Wilde, com aquela ironia habitual, disse o seguinte: "Minha peça foi um sucesso absoluto. O público é que foi um fracasso". Que muitos artistas hoje trabalhem apesar de uma inquietante falta de público para o que eles estão fazendo não é um problema em si. Mais difícil que discernir as intenções de um autor na sua obra é saber que diacho é esse negócio de público. Não é por nada que Oscar Wilde se refere ao teatro, uma dessas artes em que o contato com o público é visceral e direto, ali, no momento da performance e nas contas da bilheteria. O que eu acho problemático é tomar o que Oscar Wilde disse sem a ironia do autor da frase  [cá estou eu interpretando intenções, ou me escondendo atrás do espantalho do autor - a ironia é  do dito, é minha, ou é do Oscar Wilde?]. A ausência ou indiferença do público não é pouca coisa, não é um problema desimportante. É um grande desafio que devia preocupar muito o artista. 

Junto as pontas [crítica, intenção e público] com uma frase do diário de Witold Gombrowicz; "Nunca assinei contrato para servir aos leitores ideias inéditas. Em mim certas ideias que circulam pelo ar que todos respiramos são combinadas num sentido todo especial e unicamente Gombrowicziano e esse sentido sou eu". Gombrowicz não apenas junta as pontas para mim, mas ainda toca em outro ponto delicado dessa complicada equação. Arte é, sim, feita de ideias [além de outras coisas], mas o seu tratamento para as ideias não é o que se espera de qualquer uma dessas coisas que se arvoram o nome ciência [um rótulo mágico já que tanta gente o preza com fervor religioso]. E muito menos serviço de mensagens. Mas veja bem: Gombrowicz ao mesmo tempo trata de chutar com o bico do sapato a canela de muitos dogmas do estranho puritanismo formalista do século XX [e faz isso nos anos 50 quando ele estava no seu apogeu!]: o "eu" do autor existe e está, sim, entranhado na obra, a presença das ideias e o tratamento dado a elas pelo artista é, sim, importante e não dá para negar a existência de um certo contrato de prestação de serviços entre o artista e o seu público.

Monday, November 23, 2015

Ser pai de uma menina de 6 anos em 2015

Ter uma filha de 6 anos como a minha [cada uma deve ser de um jeito, com certeza] é mais ou menos o seguinte [pelo menos se você quiser aprender e se divertir com ela de verdade]: um sujeito casca grossa feito eu, que cresci com três irmãos mais velhos todos muito ogros, tem que começar a aprender sobre pincéis de maquiagem e fazer sessões de salão de beleza enquanto ela toma banho de banheira para passar 3 xampús diferentes e pentear o cabelo dela, além de aprender a ver desenhos animados "harcore" como Strawberry Short Cake e Monster High e tudo mais quanto interesse a ela. E ela vai pulando de lá pra cá, e eu vou seguindo os novos interesses e obsessões, aceitando tudo com a melhor cara do mundo. Foi assim com meu filho, que hoje é um adolescente e já não quer mais muito saber dos pais. No caso dele eram Pokemóns intermináveis e Changemen e companhia limitada. No caso dela isso inclui um bilhão de gritantes e rebolantes cantoras POP que hoje movimentam o rádio sonhando em ser a próxima Kátia Perry ou Taylor Presunto Swift. Mas música Pop sempre foi assim: no 1/2 de 700.000 produtos de plástico vagabundo aparece uma jóia:







E é melhor aproveitar porque ela só tem mais um mês com 6 anos. A partir de 15 de dezembro a aventura de ser pai de uma menina de 7 anos começa.

E se você, quarentão mofado, não acredita que P!nk é fera, aqui dois vídeos canções pop apropriadamente velhuscas:




Thursday, November 19, 2015

A vida continua: Kara Walker e Titus Kaphar

Talvez o mais importante a fazer antes de tentar escrever algo sobre o trabalho de outra pessoa seja entender como esse trabalho me afeta, entender porque ele me afeta, descobrir meu interesse ao invés de fingir que existe um desinteresse científico da minha parte. Titus Kaphar e Kara Walker são artistas contemporâneos que me interessam muito - já mencionei eles aqui brevemente. O trabalho deles me interessa porque os trabalhos dos dois têm um forte componente narrativo, porque eles trazem visibilidade e inteligência para assuntos que são ignorados tradicionalmente, porque eles falam com inteligência crítica de coisas que eu considero importantes e urgentes. Gostaria de escrever sobre eles e sobre Claudia Rankine e Robin Coste Lewis e talvez aproveite esse meu período de reavaliação das prioridades na minha vida para fazer isso. Ou talvez nada disso passe desse rascunho apressado, escrito nos Estados Unidos em português [essa língua tão "exótica"] sobre artistas estadounidenses que os brasileiros em geral não têm o menor interesse em conhecer. Que eu me dedique a rascunhos apressados então.









Wednesday, November 18, 2015

Burrice e fascismo ou esperteza e fundamentalismo?

Li há pouco tempo um artigo de Eliane Brum sobre a suposta “burrice” nacional, em parte uma resenha bastante positiva do livro de Márcia Tilburi Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. Achei interessante e gostaria mesmo de ler o livro quando puder, mas tenho objeções com o uso de termos como burrice e fascismo. Tenho muita simpatia por tudo o que ela disse, mas acho que chamar o que está acontecendo no Brasil de resultado de "burrice" ou até mesmo de "fascismo" pode ser tentador mas, em última instância, é dar um rótulo meio fácil e antigo a um fenômeno bem mais complexo. Burrice é um termo que subtrai do burro a responsabilidade pelo que diz ou faz, já que o que fala e age é a falta de conhecimento ou de capacidade cognitiva do pobre coitado. Há muita esperteza nessa tal burrice que trata de garantir um debate-boca sempre curto e grosso em torno das mesmas cortinas de fumaça [kit-gay, foro de são paulo, etc]. E nem todo o autoritarismo ou brutalidade política são fascismos. O moralismo que apela para cruzadas dos homens de bem contra mares de lama e o infame "bandido bom é bandido morto" que tem tanta visibilidade no discurso político hoje não são novidades na nossa cultura. E quase 50 anos de infantilização sentimental jogada nos sofás da nação-rivotril no horário nobre sete dias por semana não são só burrice. E já se finge que não houve uma ditadura tosca e brutal com amplo apoio civil há uns 25 anos pelo menos, como se fingiu antes que não houve colonização, que não houve genocídio e etnocídio, que não houve escravidão, que não houve Canudos ou Contestado – a amnésia não é um acidente e sim uma estratégia muito inteligente de perpetuação das coisas que pretensamente são esquecidas. 
Mercadante e Kátia Abreu tramam bolivarianismos

Busco nos confins dos confins um exemplo de simplicidade fabricada para me explicar melhor [quase sempre acabo me explicando pior, mas, paciência…]
Era uma vez um simplório colecionador amador de fatos curiosos chamado Richard Saunders, pródigo em frases cheias de sabedoria popular e bom senso. Saunders publicava um almanaque anual chamado Poor Richard's Almanac, que vendia horrores nas colônias inglesas na América do Norte lá pelos anos 30 do século XVIII. O que ninguém sabia era que a sabedoria simplória do almanaque era obra de um dos homens mais brilhantes das colônias, um tal de Benjamin Franklin, que aliás ficou podre de rico com as vendas do seu almanaque. 

Entre centenas de máximas dispostas em ordem alfabética estão as seguintes:

"Half the truth is often a great lie."
Uma meia verdade cosutma ser uma grande mentira. 

"Half wits talk much but say little."
Gente sem noção fala muito mas diz muito pouco.

“Happy Tom Crump, ne'er sees his own hump.”   
Feliz do Tonico Covas, nunca vê sua própria corcova.
 
“Haste makes waste.” 
A pressa causa o desperdício.
 
He has chang'd his one ey'd horse for a blind one.
Ele trocou seu cavalo caolho por um sem olho. 
 

A internet é uma maravilha para essas coisas e o velho almanaque está disponível para quem quiser.  

Enfim: é fácil finger-se de bronco quando finger-se de bronco me garante um debate-boca onde eu sempre saio ganhando. O fascismo era uma forma de autoritarismo e por ser assim compartilha obviamente algo com os nossos autoritarismos, mas os nossos autoritarismos são muito mais espertos, mais insidiosos. Se há um fenônemo MUNDIAL [e vou sempre brigar para que os brasileiros saiam de sua auto-obsessão e vejam que não são assim tão excepcionais nem para bem nem para mal] com o qual temos que nos preocupar, não é o fascismo e sim o fundamentalismo e não vamos entender as coisas melhor confundido Musolini com Médici.

Sunday, November 15, 2015

Sobre terror, sobre culpa, sobre solidariedade.

Quando alguém emposta a voz e diz que a França ou o Líbano ou qualquer nação foi atacada/ferida/ofendida por um ato de terrorismo, além de um tom épico-fajuto, essa pessoa entra em uma estranha sintonia com o discurso desse tipo de terrorrismo, que sustenta que todo e qualquer cidadão de uma determinada nação é parte responsável pelos atos daquela nação como um todo. Trocando em miúdos, um vendedor de cachorro quente na Praça do Papa é responsável por tudo o que o governo brasileiro faz ou deixa de fazer, por exemplo, com os povos indígenas que habitam o país. Assim sendo, seguindo esse raciocínio, um grupo terrorista que lutasse contra o genocídio dos indígenas no Brasil consideraria explodir esse vendedor de cachorro quente na Praça do Papa e os dois pipoqueiros ao lado como um alvo legítimo para um protesto de natureza violenta.

Um certo Picasso pintou no mesmo 1937 um quadro/protesto que só voltou à Espanha depois que Franco caiu fora
Isso não foi inventado pela escalada do terrorismo dos anos 70. Em 1937 aviões alemães e italianos que apoiavam Franco na Guerra Civil espanhola decidiram testar a teoria de Bombardeio de Terror e escolheram uma cidade sem qualquer importância estratégica na guerra chamada Guernica para testar sua teoria. Os aliados usaram, obviamente sem nunca assumi-lo, o mesmo princípio nos bombardeios que devastaram Dresden, Hiroshima e Nagazaki. Nesses três atos de assassinato em massa de civis durante uma guerra, o rótulo de Bombardeio de Terror foi negado veementemente. Uma fábrica aqui ou ali justificariam esses ataques como "táticos".

É claro que acabou a política de "tolerância" que França e companhia tinham adotado contra o ISIS na Síria - havia um contraste imenso entre a intensidade de bombardeios no Iraque e a timidez em atacar o ISIS na Síria "para não fortalecer Bashad". Quem acha que só vão morrer soldados malvados em Raqqa, deve também acreditar que só morreram nazistas de carteirinha em Dresden ou japoneses sanguinários em Hiroshima. Mas é claro que a imprensa já vai começar a repetir as potocas de que bombardeios são "cirúrgicos" e mísseis são "inteligentes" e que civis e gente inocente nunca morre quando o grande ocidente-varonil-rivotril ataca.

Sou totalmente contra todas as patrulhas da solidariedade alheia. Leão Famoso ou anônimo, natureza de perto ou de muito longe, gente de perto ou muito de longe, solidariedade vazia ou cheia. Eu me solidarizo com vítimas de agressão e violência, não com países. Eu, particularmente, parei de jogar WAR quando era adolescente e não fico aqui vibrando quando alguém mata israelenses ou palestinos ou russos ou soldados ou policiais ou favelados como se estivéssemos contando figurinhas ou apostando para ver quem faz xixi mais longe. Em nome da civilização cristã ou dos os valores do mundo ocidental, então, nem me fale. Não dou meia pataca de entusiasmo por nada disso e se alguém me dissesse que era possível se livrar dessas coisas sem transformar o mundo num tsunami de sangue inocente, eu até apoiaria. Meu negócio é a gente e o meio ambiente; bandeira e hino nacional de onde for, eu até respeito, mas estou fora. Mas só para enfatizar eu repito: cada um devia poder fazer o que bem entendesse com a sua empatia e vontade de solidariedade. O mundo já tem ódio demais.

Thursday, November 12, 2015

Trechos do Diário de Witold Gombrowicz

Estou muito, muito lentamente lendo o diário do escritor polonês Witold Gombrowicz, traduzido para o inglês Lillian Vallee e publicado em 2012. Não gosto de traduzir coisas que foram traduzidas para o inglês mas não sei dizer "oi" em polonês mas a importância dos diários de Gombrowicz para mim foi comprovada quando cruzei recentemente com referências a Gombrowicz no livro FUNDAMENTAL de Eduardo Subirats Mito y Literatura, baseado numa leitura instigante de cinco autores centrais para mim: Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, José María Arguedas e Augusto Roa Bastos. Leio os dois tão lentamente que é capaz de eu nunca chegar ao final dos dois livros, mas chegar ao final das coisas acho que nunca foi meu forte de qualquer jeito...

1953
Quarta-Feira [pg. 67]
O artista que se realiza dentro da arte nunca será criativo. Ele deve permanecer nas periferias onde a arte encontra a vida, onde perguntas desagradáveis como as seguintes aparecem: quanto da poesia que escrevo é convencional, e quanto dela é verdadeiramente real? Até que ponto aqueles que me admiram estão mentindo e até ponto estou mentindo quando me admiro como poeta?

Terça-Feira [pg. 73]
Já viveu um homem em qualquer outro lugar que não em si mesmo? Você está em casa mesmo que se encontre na Argentina ou no Canadá, porque sua terra natal não é um ponto num mapa mas a essência viva de um homem.

1954
Segunda-Feira [pg. 80]
O "eu" não é um obstáculo para estar com as pessoas. O "eu" é aquilo que elas desejam. Tenha certeza, entretanto, que o "eu" não é passado como contrabando. Se há algo que o "eu" não tolera é falta de entusiasmo, timidez, cautela.


Monday, November 09, 2015

Simone de Beauvoir e as definições essencialistas do feminino

A falha principal da humanidade não é a ignorância, mas a recusa do saber.
Tenho dado para ler a vários alunos meus o capítulo introdutório de O segundo sexo de Simone de Beauvoir. Gostei muito que tivessem citado um pedacinho dele no exame do ENEM. Acho paradoxal que algumas pessoas se queixem de reações, digamos, toscas sobre o assunto ao mesmo tempo em que dão máxima visibilidade a essas declarações, em alguns casos óbvias e em outras vindas de ilustres desconhecidos que são alçados a um destaque imenso por sua imbecilidade. 
Acho fundamental ler o texto, voltar ao texto, sempre. Mesmo porque o assunto está longe de ultrapassado, ainda que o livro seja de 1949. Uma grande amiga esteve semana passada numa palestra na universidade sobre « Negociação Para Mulheres », palestra criada provavelmente pela constatação de que as mulheres ganham menos em posições semelhantes na universidade e no mundo corporativo [será que ainda vale a pena diferenciar ?] e pela suposição de que é assim porque os homens negociam melhores que as mulheres. A palestra estava toda baseada numa diferenciação básica : os homens negociam pensando « the world is my oyster » e as mulheres pensando « you can’t draw blood from a turnip » e daí ladeira abaixo com a ideia de que as mulheres não deveriam se « masculinizar » no trabalho, completo com ilustrações comparando mulheres com cabelo preso e terninho a mulheres com batom, vestidos fru-frus e cabelo « arrumado ». 
Ofereço aqui no meu canto, no original e em duas traduções, um trecho fundamental em que Simone de Beauvoir fala sobre a articulação entre essencialismo e dominação . As partes interessantes/problemáticas da tradução estão em negrito:

Pour prouver l’infériorité de la femme, les antiféministes ont alors mis à contribution non seulement comme naguère la religion, la philosophie, la théologie mais aussi la science : biologie, psychologie expérimentale, etc. Tout au plus consentait-on à accorder à l’autre sexe « l’égalité dans la différence ». Cette formule qui a fait fortune est très significative : c’est exactement celle qu’utilisent à propos des Noirs d’Amérique les lois Jim Crow [arrêtés et règlements établissant la ségrégation raciale aux USA, 1876-1964] ; or, cette ségrégation soi-disant égalitaire n’a servi qu’à introduire les plus extrêmes discriminations. Cette rencontre n’a rien d’un hasard : qu’il s’agisse d’une race, d’une caste, d’une classe, d’un sexe réduits à une condition inférieure, les processus de justification sont les mêmes. « L’éternel féminin » c’est l’homologue de « l’âme noire » et du « caractère juif ». Fonte

In proving woman’s inferiority, the anti-feminists then began to draw not only upon religion, philosophy, and theology, as before, but also upon science – biology, experimental psychology, etc. At most they were willing to grant ‘equality in difference’ to the other sex. That profitable formula is most significant; it is precisely like the ‘equal but separate’ formula of the Jim Crow laws aimed at the North American Negroes. As is well known, this so-called equalitarian segregation has resulted only in the most extreme discrimination. The similarity just noted is in no way due to chance, for whether it is a race, a caste, a class, or a sex that is reduced to a position of inferiority, the methods of justification are the same. ‘The eternal feminine’ corresponds to ‘the black soul’ and to ‘the Jewish character’. Fonte

A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia experimental etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo "a igualdade dentro da diferença". Essa fórmula, que fêz fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizam em relação aos negros dos E.U.A. as leis Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações. Esse encontro nada tem de ocasional: quer se trate de uma raça, de uma casta, de uma classe, de um sexo reduzidos a uma condição inferior, o processo de justificação é o mesmo. O "eterno feminino" é o homólogo da "alma negra" e do "caráter judeu”. Fonte

Que aconteceria se a gente passasse a partir daí a definir a mulher brasileira não pelo seu jeitinho ou jeitão de fazer ou deixar de fazer isso ou aquilo mas sim, por exemplo, como uma das que mais morrem assassinadas no mundo? Fonte