Monday, September 29, 2014

Receita para a fama fácil num país de MANÉS

Receita para a fama fácil num país de Manés:
Bizarro por bizarro eu fico com Gaby Amarantos
Ser um candidato bizarro que tem menos de 1% da intenção de voto e dizer um monte de babaquices num debate qualquer num espaço já absolutamente desproporcional
só para vcs ficarem todos aí arrancando os cabelos, batendo a mão no peito e praticando o uso indiscriminado de adjetivos "contundentíssimos" [ou seriam "contundentérimos"], basicamente REPERCUTINDO sem parar o discurso do cara a torto e a direito, transformando um Zé Ninguém em um novo Bolsonaro que, nas próximas eleições, garanto que se elege deputado federal fácil.

Levir por Levir fico com o Culpi...

E enquanto isso, do outro da sala da injustiça... ah, os trotskistas... você mete cinco num Chevette para ir do Rio de Janeiro até Belo Horizonte e antes de chegar a Petrópolis já são três facções que, é claro, se odeiam profundamente. Cada uma delas com seu menos de 1% de intenção de votos, é claro...

Sunday, September 28, 2014

Tim Buckley e várias versões de "Song to the Siren"

Era uma vez um sujeito tímido até não poder mais, cheio de problemas pessoais, tentando fazer sucesso em música popular sem grandes resultados. Ele tem uma chance de cantar em 1968 no programa dos Monkees, aquele clone de Beatles. Ele senta num banquinho e manda essa canção:

Song to the Siren
Tim Buckley / Larry Beckett

Long afloat
On shipless oceans
I did all my
Best to smile
Till your singing
Eyes and fingers
Drew me loving
To your isle

And you sang,
Sail to me,
Sail to me,
Let me unfold you.
Here I am,
Here I am,
Waiting to hold you.

Did I dream you
Dreamed about me?
Were you here
When I was full sail?
Now my foolish
Boat is leaning
Broken lovelorn
On your rocks.

For you sing,
"Touch me not,
touch me not, come back tomorrow:
O my heart,
O my heart
shies from the sorrow"

I am puzzled
as the newborn child
I am riddled
as the tide.
Should I stand
amid the breakers?
Should I lie with
Death my bride?
Hear me sing,
"Swim to me,
Swim to me, Let me enfold you:
Here I am,
Here I am,
Waiting to hold you"


Tim Buckley morreu em 1975 aos 28 anos de idade. Um artigo muito interessante sobre essa canção que quase não foi gravada por ele está aqui e foi ressuscitada numa interpretação original de Liz Fraser que era para ser apenas o lado B de outra canção, que aliás eu nem sei qual é.


Essa é a famosa gravação no programa dos Monkees. Tim Buckley às vezes parecia querer sabotar a própria carreira e chega macambúzio, mas quando começa a cantar...

Cocteau Twins é uma banda de que eu gosto muito e Liz Fraser é uma cantora realmente original, que não fica repetindo certas frases típicas de cantoras gospel ou de blues. Eles fazem música popular sem ficar apenas reciclando maneirismos dos outros.

Robert Plant recuperou alguns elementos da ideia original da versão de Tim Buckley.

Bryan Ferry transformou "Song to the Siren" numa canção do Roxy Music e talvez seja a primeira versão que eu conheço que não repetiu nem Fraser nem Buckley.

Sined O'Connor acho que mais ou menos repete a versão de Fraser, mas das três ou quatro que fazem isso é a melhor.

A melhor cidade do mundo

Estou de volta à Cidade do México, uma das mais sensacionais que eu já conheci. Repito aqui de novo a definição explicação que dou a meus amigos brasileiros, que às vezes parecem não entender meu entusiasmo por uma cidade que não está nem nos eua nem na Europa.

Biblioteca Central da UNAM
1. Aqui está Brasília, a arquitetura imaginativa e grandiloqüente, carregando a dura tarefa de traduzir o centro do poder político do país e o orgulho nacionalista dos projetos nacional-desenvolvimentistas.

2. Aqui está São Paulo [ainda que muita gente ache que São Paulo é Monterrey] porque aqui está aquela peculiar "força da grana que ergue e destrói coisas belas", incluindo aí coisas de cimento e coisas mais abstratas construídas por uma multidão vinda de todas as partes do México e do mundo.

Condesa
3. Aqui estão várias Ouros Pretos, cidades coloniais encrustradas na cidade monstro que as engolim sem mastigar.

4. Aqui está o Rio de Janeiro, a capital do império com seu neoclássico e a capital afrancesada da República Velha sonhando em ser Paris.

Zona Arqueológica del Centro
5. Aqui está também Machu Picchu, digamos [no Brasil não tem uma grande cidade indígena, né?], escavada do chão em pleno Zócalo, centro da cidade que já foi uma Veneza Asteca que os espanhóis aterraram e que ainda sobrevive em Xochimilco.

6. Aqui está um centro de cidade dos mais birosqueiros, cheios de lojinhas incríveis e uma multidão de gente fazendo e desfazendo de tudo, inclusive uma praça do danzón onde vai todo mundo dançar!

7. Aqui está concentrada uma das tradições culinárias mais ricas e variadas do planeta, onde você pode comer "mexicano" um ano inteiro sem repetir nenhum prato.
San Angel

Saturday, September 27, 2014

Desastres da Guerra com Goya e Lima Barreto

Um dos gravados da série Desastres de la Guerra de Goya

“Eu duvido, eu duvido, duvido da justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos milenários combates com as feras, quando disputávamos a terra a elas... Eu não vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo também fez das suas, também foi descobrir dentro de si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguém enfim... Não imaginas como isto faz-me sofrer...”
Trecho de carta de Policarpo Quaresma para a sua irmã, do romance de Lima Barreto

Friday, September 26, 2014

Música: Djavan em plena forma



Vive
Djavan

É inútil 
chorar,
noites enveredar,
ruir, 
por nada 
assim.

Minha vida é sua
como marinheiro do mar.
Sofrer, 
não há 
porquê.

Desencana, meu amor.
Tudo seu é muita dor.
Vive.
Deixa o tempo resolver
o que tem que acontecer
Livre.

Tanto o que eu sonhei
nos amar à pleno vapor.
Tanto o que eu quis
Fazê-la 
estrela
da sagração de um ser feliz.

Desinflama, meu amor.
Do seu jeito é muita dor.
Vive.
Deixa o tempo resolver
se tiver que acontecer,
vive.

Desencana, meu amor.
Tudo seu é muita dor.
Vive.
Deixa o tempo resolver
o que tem que acontecer
Livre.

Apenas três instrumentos: bateria, contrabaixo e piano, todos sincopadamente lacônicos, perfeitamente integrados ao clima de exaltação à simplicidade da letra, com destaque para o contrabaixo que abre espaços com os seus silêncios sem abrir mão de uma "pegada" forte no ritmo. E dizer que a interpretação concentradamente despojada do Djavan é melhor que a da Maria Bethânia para a mesma canção é suficiente para explicar o quanto eu gosto do Djavan cantando aqui. Há quem diga que a MPB está em decadência. Decadência é escolher não dar destaque nos meios de comunicação - principalmente os meios entregues a concessionários do rádio e da televisão - a uma produção com essa força. Quem tem disposição para dar dois passos além banca cheia de fruta meio passada que eles nos oferecem de bandeja encontra coisas da melhor qualidade sendo feitas hoje mesmo. Enfim, melhor mesmo é desencanar e ser feliz.

Thursday, September 25, 2014

Substitua "Estado Novo" por "Ditadura Militar" e veja o "hoje" se transformar em hoje

Coisa custosa arrumar uma foto da Pagu nos anos 40.
Tive que cortar o Geraldo Ferraz dessa foto que você encontra aqui.

"Agora tenho que pensar: realmente, nos anos do Estado Novo, 
era comum a justificativa: 'não posso escrever sem liberdade'. 
Hoje o 'slogan' é outro: 'preciso ganhar para viver'. 
Mas, na realidade, só excepcionalmente vive um escritor, aqui, 
de literatura. Uns tem negócios, outros um emprego."
Patrícia Galvão, "Cor Local", 1946 

Tuesday, September 23, 2014

Lima Barreto desce ao inferno: "Despeço-me de um por um dos meus sonhos"

Foto da Ficha de Internação de 1814, na qual Lima Barreto
diz ser "alcoolista imoderado, não fazendo questão da qualidade" 

Despeço-me de um por um 
dos meus sonhos. 
Trecho do diário de Lima Barreto em 20 de abril de 1914

Hoje tive um pavor burro. 
Estarei indo para a loucura?
Trecho da entrada seguinte, de 13 de julho de 1914

Estive no hospício de 18-8-14 a 13-10-1914. 
Entrada seguinte do diário, completa.


Diário de New Haven: O que é que você tem na cabeça!

Moro num bairro de classe média de New Haven onde pelo menos 40% das casas são habitadas por Hassidim do grupo Lubavitch. Eles são minoria entre os judeus da cidade, mas têm crescido de forma consistente e se concentram praticamente todos aqui no bairro.

Uma curiosidade que sempre me chamou a atenção no código de vestimenta deles: o sheitel que as mulheres usam para cobrir a cabeça. Trata-se de uma peruca completa que, ao mesmo em que [suponho] "protege a modéstia feminina", parece muito com uma cabeleira normal.
Como eu não sou maluco de sair tirando fotografia de gente na rua, ainda mais dos meus vizinhos e muito menos das minhas vizinhas, ofereço como  testemunho visual essa foto da internet que exemplifica bem o que eu vejo na rua quase todos os dias:


Sinceramente em termos de vestimenta, principalmente de mulheres, eu sou da seguinte posição: não tenho posição nenhuma, não cabe a mim dizer nada sobre o que os outros vestem; chapéu, salto-alto, gravata, biquini, careca, isso é problema deles. 

O que me desperta a curiosidade nesse caso é que essas perucas eram o gesto de modéstia feminina mais ousado que eu já conheci. É como se a pessoa vestisse na praia um maiô ou sunga que imitasse muito bem [ainda que não perfeitamente] um corpo completamente nu. Cheguei até a ler uma dessas explicações rabínicas sobre o assunto, tentando entender a lógica interna da coisa. Um ponto curioso era a afirmação de que a modéstia não significava a falta de apelo atrativo das mulheres, mas sim a criação de um espaço íntimo. Bem mais interessante eu achei esse blogue em que a dona do espaço contava das suas experiências com sheitel depois que ela se casou com um judeu ortodoxo.

Eu, que não consigo respeitar nem a mais mísera tradição religiosa ou cívica, acho tudo curioso, inclusive o costume de comer sem mastigar e de joelhos uma bolachinha sem gosto molhada no vinho todos os domingos...

Monday, September 22, 2014

Postal: Pagu traduzindo a segunda-feira braba

Foto minha da série "The Land of the Free"

"Os chinelos de cor se arrastam
sonolentos ainda sem pressa
na segunda-feira.
Com vontade de ficar para trás.
Aproveitando o último restinho
de liberdade."
Trecho de "TEARES" capítulo inicial de Parque Industrial de Patrícia Galvão 

Sunday, September 21, 2014

Joaquim Calado, filho do Lundu, pai do choro, avô do samba

Uma tal de Chiquinha Gonzaga começou tocando com ele. Joaquim Antonio da Silva Calado [1848-1880] viveu pouco tempo e não é muito conhecido hoje em dia. "Flor Amorosa" - que muito depois recebeu letra de Catulo da Paixão Cearense - é uma daquelas músicas que todo mundo no Brasil conhece, mesmo sem saber de onde nem porquê.
E aqueles poucos que conhecem bem Joaquim Calado, entretanto... valem muito!
Aqui, em três gravações de apresentações ao vivo, Altamiro Carrilho, Paulinho da Viola e Marcos Suzano são muito bem acompanhados e dão uma boa ideia do que Joaquim Calado era capaz e de que no Brasil, já no século XIX, seja na música ou na literatura, negro é a cor da excelência.




Saturday, September 20, 2014

A matéria bruta da ficção e o fim das ilusões no triste fim de Policarpo Quaresma

Lima Barreto era afilhado de Afonso Celso, o Visconde de Ouro Preto, membro da Academia Brasileira de Letras, autor do inacreditável  Porque me ufano do meu país - My Country Right or Wrong. Sua mãe deu-lhe o primeiro nome do padrinho inventor do ufanismo, que em troca ajudou o rapaz de família humilde a entrar no Liceu Popular Niteroiense, que de popular não tinha nada, era um colégio particular de elite. No seu diário o ainda jovem Lima Barreto já mostrava claramente que se recusaria a fazer o papel de afilhado agradecido, tão caro ao patriarcado brasileiro:

“E os 10$000  do tal visconde! Idiota. Os protetores são os maiores tiranos.” 

Lima Barreto logo rompe com o padrinho, mas consegue arrancar do patriotismo patrioteiro do padrinho "idiota" o cerne de um de seus melhores e mais conhecidos personagens: Policarpo Quaresma, o quixotesco patriota gentil. Em Policarpo enm sombra do católico elitista, nem do monarquista conservador, nem do escritor pedante e medíocre. Apenas o patriotismo exacerbado, que chega a levar Policarpo a um hospício que o afilhado de Afonso Celso conheceu de perto.

Na parte final do livro a guerra e os absurdos da violência repressiva de Floriano Peixoto fazem desmoronar as quixotadas sinceras de Policarpo na sua própria cabeça e ele, esperando sua provável execução como traidor, finalmente descobre na ideia de pátria uma quimera: 

"Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a pressentiu logo e se
deixou enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma
asneira! 
Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso."

A prisão e a eminência do fuzilamento de Policarpo Quaresma, e principalmente a covardia de todos que poderiam ajudar mas se recusam a fazê-lo, faz com que caia por terra também a alienação de Ricardo Coração dos Outros, personagem cujo cerne orgulhoso e promotor do então desprezado violão Lima Barreto arrancou de um vaidoso Catulo da Paixão Cearense.  

"Ricardo veio andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor. Ele que sempre decantara nas suas modinhas a dedicação, o amor, as simpatias, via agora que tais sentimentos não existiam. Tinha marchado atrás de cousas fora da realidade, de quimeras. Olhou o céu alto. Estava tranqüilo e calmo. Olhou as árvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam atingir o céu. Olhou as casas, as igrejas, os palácios e lembrou-se das guerras, do sangue, das dores que tudo aquilo custara. E era assim que se fazia a vida, a história e o heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos."

Finalmente a afilhada do Afonso Celso transformado em Quixote tem o seu momento de desalienação, mandando às favas o marido pedante e egoísta com que havia se casado apenas para agradar ao pai e tentando, com risco à própria vida, interceder pela vida do padrinho. Olga sai da tentativa lograda de encontro com Floriano Peixoto despindo-se de suas ilusões mas já também caçando alguma esperança:

"Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue
de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por
uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... Tinha havido grande e inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros."

E assim termina O triste fim de Policarpo Quaresma, esperando mais, serenamente, da vida. 

Wednesday, September 17, 2014

Kyary Pamyu Pamyu, ou confissões de um cafona excêntrico...



Podem me chamar de doido, mas eu gosto muito de Kyary Pamyu Pamyu.



Conheço todos os vídeos, cada um mais delirante que o anterior.



E acho que gosto de todos eles, principalmente porque não entendo nenhum completamente!
pudera: os vídeos de Kyary são todos bobamente superficiais e profundamente enigmáticos e misteriosos, são alegrinhos e grotescos, são macabros e às vezes melancólicos, são infantis e surrealistas, são desbragadamente americanizados e completamente japoneses, são cafonérrimos e muito sofisticados. 

Urupês, uma Stalingrado jagunça do nosso canibal bandeirante, ou a história da bonita amizade entre o neto do fazendeiro José Hipólito de Andrade e o neto do visconde de Tremembé

Já vou começar dizendo de uma vez que gosto muito de partes da obra de Oswald de Andrade [como da de Monteiro Lobato] e que não tenho a menor disposição para querer tentar linchar nem ele nem nenhum outro escritor da primeira metade do século XX. Mas fico impressionado com as viagens em que um monte de gente embarca em cima de uma leitura apressada de meia dúzia de poemas, quem sabe o Rei da Vela e sem dúvida o "Manifesto Antropófago" para fazer desse último uma espécie de pedra de toque da cultura brasileira, um milagroso texto que seria capaz de ser simultaneamente da vanguarda modernista e pós-modernista [idem com Mário de Andrade e o Macunaíma]. Ninguém, por exemplo, parece atentar para o fato do tal manifesto estar no mesmo número inaugural da revista onde figura também um texto sobre o Tupi [digno de ser assinado por um Policarpo Quaresma sem graça] do futuro pai do integralismo Plínio Salgado.

O Oswald do "sarampão" modernista e o da "maleita" comunista posterior milagrosamente se fundem sem conflitos, e ainda recebem uma pitada do Oswald posterior, recuperador senhorial do Oswald do "Pau-Brasil". Tudo isso é feito sem o menor pudor, no espírito de um tropicalismo dos mais ingênuos, mais de quarenta anos depois do Tropicalismo.

Já falei que aqui tenho pouco tempo. Então vou ficar num breve exemplo, um texto de 1943 "Carta a Monteiro Lobato", feito para comemorar o aniversário da publicação de Urupês [um sucesso impressionante; imaginem que o livro vendeu 30.000 exemplares só entre 1918 e 1925]. O texto inteiro é acessível aqui. Uso o texto porque aqueles que acham Oswald o máximo costumam achar Lobato o mínimo, como se eles fossem antípodas. Não são.

Fico com apenas quatro passagens significativas:

1. "E lendo a frase de sua entrevista: 'Os fatos provam que o verdadeiro Marco Zero de Oswald de Andrade é êsse livro', não venho retificar e sim esclarecer. De fato Urupês é anterior ao Pau-Brasil e à obra de Gilberto Freyre."

2. "Você foi o Gandhi do modernismo. Jejuou e produziu, quem sabe, nesse e noutros setores a mais eficaz resistência passiva de que se possa orgulhar uma vocação patriótica. No entanto, martirizaram você por ter falta de patriotismo!"

3. "Esqueçamos a estética e a Semana de Arte e estendamos a mão à sua oportuna e sagrada xenofobia."

4. "Que em torno do Urupês de hoje, se restabeleça, pois, Lobato, a rocha viva que Euclides sentiu na Stalingrado jagunça de Canudos."

Tuesday, September 16, 2014

OK, você venceu: aqui está um curta dos três patetas que exemplifica meu post sobre eles de ontem...

Sobre a língua portuguesa entre baiques, xópins, piqueniques e abajures

À maneira do seu ídolo Antônio de Castro Lopes,
e
is o Capitão Pelino que, cercado por alvissareiros,
fala sobre o runimol de ludâmbulos
que a Copa do Mundo causou. 
Fiz meu doutorado em literatura comparada e me considero um comparatista contumaz. Acredito piamente que reunir uma conjunto cuidadoso de comparações e contrastes entre duas épocas ou dois lugares ou simplesmente dois textos diferentes é uma estratégia excelente para produzir conhecimento. Quem não acredita em nada piamente que me atire a primeira pedra. Pratico a versão extensiva dessa prática comparativa na minha vida de professor/pesquisador universitário e uma versão muito sintética [e por isso meio atabalhoada] aqui no meu blogue. Tenho que priorizar aquilo que paga o leite das crianças. 

Quando leio qualquer pessoa veramente indignada com qualquer neologismo ou algum "erro" de português numa placa qualquer ou qualquer coisa desse tipo, sinto uma profunda preguiça. Quando fico sabendo que há até quem queira legislar sobre o assunto em pleno século XXI, tenho vontade de ir embora, mas já fui e na verdade ando até querendo voltar.

Bom, vamos à comparação que espero, valha mais que páginas e páginas de argumentos bem montados contra essa mania das chamadas elites pindorâmicas [já excluindo delas o pobre do Chico Mendes que não tem nada a ver com isso].

No conto "Nova Califórnia" Lima Barreto nos apresenta a um certo "Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista" que atendia às conversas na farmácia de Jubiacanga não para falar mas para escutar atentamente e interromper a fala dos outros apontando-lhes ofensas ao português. 

Um dos autores de cabeceira de Pelino é um tal Antônio de Castro Lopes [1827-1901], autor de [olhem que título!] Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis publicado em 1899 com o mesmo propósito de Aldo Rebelo e o capitão Pelino de apostolado de vernaculismo [que significa, conferi no dicionário, "pureza de linguagem, casticismo, purismo".

Eis então uma lista de barbarismos que indignavam os defensores da pureza do português contra as invasões de línguas estrangeiras no final do século XIX:

Abajur
Avalanche  
Assegurar

Bijuteria  
Boulevard  
Cachecol  
Chalé  
Champignon  
Claque  
Debut

Engrenagem  
Feérico  
Massagem  
Mise-en-scène  
Nuance  
Pince-nez  
Piquenique 
Reclame  
Repórter  
Turista

E agora tirem suas próprias conclusões...