Monday, November 25, 2019

Diário da Babilônia - Crônica de um Vietnã absurdo


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O dia 7 outubro marcou o décimo-oitavo da guerra no Afeganistão. Os Estados Unidos já gastaram 850 bilhões de dólares na guerra. 750.000 pessoas foram mandadas pelas suas forças armadas para combater o aparentemente indestrutível Talibã. Pelo menos 150.000 pessoas foram mortas nos combates. Dezoito anos depois mais ou menos a metade do Afeganistão está sob controle do Talibã ou é disputado por ele. O governo oficial é uma quase ficção: metade do seu orçamento consiste de "doações" de governos estrangeiros, O Afeganistão tem 2 milhões e meio de pessoas expulsas das suas casas, inchando a capital Cabul, que triplicou de tamanho desde 2001.

A guerra no Afeganistão dura dezoito anos e não gerou nada de útil para ninguém, a não ser que você ganhe dinheiro com armamentos e serviços diversos para sustentar a máquina de guerra. Um símbolo visual poderoso dessa futilidade absurda são as fotos da gigantesca base militar de Leatherneck, construída numa província ao sul do Afeganistão. A imensa base foi abandonada no final do governo Obama – que, com todo o seu charme eloquente de ex-aluno de Ivy League, não foi capaz de melhorar em nada a situação no Afeganistão durante oito anos de governo. As fotos por satélite – pelo jeito ninguém tem coragem de ir fotografar o complexo abandonado por terra - são impressionantes. Parece que a areia do deserto vai lentamente comendo Leatherneck, indiferente a tudo. O Talibã, hoje com 60.000 guerrilheiros, tem feito pó de todos os planos e estratégias e bilhões de dólares de Bush, Obama, Trump e seu punhado de aliados europeus.
2011
2014

2015

Novidades depois de 18 anos? A presença do fanatismo internacionalista do ISIS, agora em combates frequentes contra o Talibã. O presidente laranja cancelou todas as restrições a operações como bombardeios que possam causar vítimas civis no Afeganistão, além de oferecer perdão presidencial a soldados e oficiais de baixa patente depois que a própria justiça militar americana os havia condenado por conduta criminosa no Afeganistão e no Iraque. A guerra passou a ser feita pela CIA – bombardeios com drones e “tropas especiais” que massacram civis indiscriminadamente. A nova fórmula agrada aos estadunidenses: um aumento significativo de mortos civis (um terço deles crianças) tem correspondido a uma diminuição significativa de soldados dos Estados Unidos mortos. E já há quem aposte em seguir nessa toada por mais uns dez anos.

Talvez isso pudesse explicar o que aconteceu no segundo semestre de 2019. Em setembro parecia que um acordo entre o Talibã e os Estados Unidos seria firmado: 5.400 militares americanos sairiam do Afeganistão em 135 dias e o restante 8.600 em um ano e meio. O “governo” afegão sequer participou das negociações. A paz viria em troca de promessas que o Talibã não iria mais dar abrigo a grupos como Al Qaeda e iria começar a negociar com o tal “governo” algum tipo de acordo de paz em Oslo. Aí entra o instinto de palhaço de reality show do Agente Laranja da Casa Branca, cancelando o acordo inteiro em um twitter intempestivo. É o que ele pode fazer, não o que ele gostaria de fazer. Numa bravata recente, o Agente Laranja disse que “se eu quisesse entrar e ganhar uma guerra no Afeganistão, eu poderia ganhar em uma semana. O Afeganistão seria varrido da face da terra.” Por enquanto, é o campo Leatherneck vai sendo lentamente varrido da face da terra." 

Tuesday, November 19, 2019

Pelé e a ditadura militar


“Não há ditadura militar no Brasil. O Brasil é um país liberal, uma terra de felicidade. Somos um povo livre. Nossos dirigentes sabem o que é melhor para nós, e nos governam com tolerância e patriotismo.

Trecho de entrevista dada por Pelé para o jornal La Opinión de Montevideo em 1972

Encontrável em artigo de Robert Levine chamado “Esporte e Sociedade: O caso do futebol Brasileiro” no livro Futebol e Cultura – Coletânea de Estudos.

Saturday, November 16, 2019

Um telegrama

Quis trabalhar na universidade para continuar me educando a vida inteira e hoje me vejo cercado de ignorância acomodada por todos os lados. São jovens e não tão jovens que não sabem e nem querem saber de nada, na sua grande maioria. São burocratas que querem dar uma lápide que me diga como elogio "ele nunca atrasou um requerimento e sempre fez tudo em três vias". É um povo doente, penando com dores e mil e uma moléstias, bebendo veneno, comendo veneno, respirando veneno, absorvendo venenos por todos os buracos do corpo. 
Não estou só cansado - estou exausto, completamente exaurido. Antes de dormir, envio da minha solidão, aqui nesse espaço desde sempre jogado às moscas, um telegrama em três atos: 

Haja hoje para tanto ontem.
Paulo Leminski



Grafite-poema de Alex Vallauri


"I have pulled myself free"
PJ Harvey

Tuesday, November 05, 2019

Obituário: Francisco Toledo

Dia 5 de setembro de 2019 morreu Francisco Toledo, artista mexicano.

Me marcaram um par de frases dele que encontrei numa revista dessas que se distribuem grátis na porta de livrarias:

1. "no hay tranca que evite que entre la muerte a la casa".

2. "Entre las cosas que me duelen como persona y pintor, está la próstata".

Toledo fez um impressionante conjunto de sete "Cuadernos de la Mierda" e foi parte importante da vida cultural e política do México e de Oaxaca. Um artista ácido, político, preocupado com a expansão do milho transgênico, com a conversão do patrimônio do seu estado, com a invasão cultural de lixos como McDonald's em Oaxaca.

Melhor deixar aqui uma entrevista de Carmen Aristegui a Angélica Abelleyra sobre ele: