Thursday, June 22, 2017

Quando o cinema fica "preso ao símbolo, incapaz de se apagar diante das coisas"

Neste mês de junho o blogue do crítico decinema do Estadão Luiz Carlos Merten traz uma série de comentários sobre o livro L’Art d’Aimer, coletâneas com textos diversos do crítico francês Jean Douchet, incuindo entrevistas com o próprio.

Especificamente no dia 11 de junho de 2017 Merten comenta as resenhas feitas por Douchet para o Cahiers du Cinema em várias edições do Festival de Cannes. e destaca um comentário pelo crítico francês sobre Buñuel, que apresentou Viridiana à Palma de Ouro em 1961. Traduzido para o português por Merten, ficamos nos seguintes termos: “Buñuel é um autor, mas não um metteur-en-scène, exceto por momentos. Fica sempre preso ao símbolo, incapaz de se apagar diante das coisas”.

Cena de Viridiana de Buñuel
Quero me ater aqui à segunda frase desse curto comentário, que me impressiona pela concisão e pela riqueza. Seríamos capazes de classificar os artistas em geral [vou além da proposição de Douchet, que se atém a diretores de cinema] pela sua capacidade de se apagar diante das coisas? Por um lado, penso na natureza desse auto apagamento e vejo nele um artifício eminentemente retórico. Seria mais pertinente, portanto, falar de uma disposição para o auto apagamento mais do que para uma capacidade de fazê-lo. Poderíamos, por outro lado, argumentar que o relativo apagamento do artista diante das coisas é o centro da questão, já que pragmaticamente pouco importa se esse apagamento é fruto da capacidade ou da disposição daquele que se apaga nas coisas. Fica a minha vontade de deslocar um pouco o comentário e transformar o termo capacidade num binômio capacidade/disposição, ainda que seja para afirmar que a atitude de Buñuel não uma incapacidade, mas sim uma disponibilidade para uma linguagem abertamente simbólica.

O que nos leva à outra parte da proposição de ­­Douchet, que é para mim ainda mais intrigante. Esse relativo apagamento implicaria na libertação do artista em relação ao símbolo – símbolo que, para Douchet, é indiscutivelmente uma prisão, pelo menos no caso de Buñuel de Viridiana. Apagar-se diante das coisas seria não fazer das coisas veículo para a expressão retórica do cineasta. Suponho aqui que Douchet imaginasse que o filme ideal nos apresentaria essas tais coisas do mundo [coisas que o diretor mete em cena] e que o simbolismo [talvez até a vontade de simbolismo] faz dessas coisas veículo para si mesmo e acaba aprisionando o diretor de cinema no papel de Autor - meio como o tradutor aparecido que insiste em chamar a atenção para si e para o seu trabalho ao invés de exercer seu ofício em silêncio estilístico. A expressão do diretor que não se apaga diante das coisas está contido numa forma de prisão – vejam que blasfêmia ouvir isso hoje, quando parece que todo mundo na face da terra precisa se expressar, se colocar, se definir, se explicar no palanque público das redes sociais.


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Acho interessante a proposição de Douchet. Mas não tenho essa preferência dele pelos diretores que são mais metteurs-en-scène, em detrimento daqueles que, como Buñuel, se comunicam simbolicamente como autores. E antes de dizer isso, devia explicar que suspeito que todo artista exerça ambos papéis ainda que em proporções diferentes, tendendo a deixar prevalecer uma ou outra faceta, não apenas como fruto da sua capacidade/disposição mas também do tipo de arte que tenta fazer. Isso é assunto para um outro dia, mas o cinema é uma arte coletiva tão complexa que é comum a gente ver um abismo entre o desejo do realizador e a realidade do filme, uma rodovia de doze pistas toda pavimentada de boas e más intenções, rumo ao inferno - e confesso que esse caráter mambembe do cinema, mas me atrai que irrita.

Wednesday, June 14, 2017

Carlos Pellicer sobrevoa o Rio de Janeiro


TERCERA VEZ

     Desde el avión,
     la orquestra panorámica de Río de Janeiro
     se escucha en mi corazón.
     Desde la cumbre del Corcovado
     hasta las olas de Copacabana,
     la dicha es una simple distancia que ha pasado
     borrando fechas próximas con sus manos
plateadas.
     Ataré mi existencia sideral
     a la divina roca del Pao de Assucar
     que ve nacer la aurora antes que el agua mar.
     El mar de Río de Janeiro
     es una antigua barcarola
     que está aprendiendo la ola
     leve de mi pensamiento.
     Guanabara su nombre. Guanabara,
     como una estrella que se alargara
     sobre le ritmo del momento.
     Ciudad naval, tus avenidas
     de orohidrográficos prodigios
     anclan mis ojos en un aire
     de eternidades sin abismos.
     Tu mar y tu montaña
     - un puñadito de Andes y mil litros de Atlántico - ,
     pasan bajo las alas
     del avión, como síntesis del continente amado.
     Las grandes rocas están de oro,
     las montañas en verde y morado.
     El agua se mueve en semitono.
     La ciudad es u libro deshojado.
     El aire está en soprano ligero.
     La escuadra va a salir a pescar.
     Un “loopoing the loop” hace pedazos el regreso
     y hace estallar la ciudad.

  

Monday, June 05, 2017

Gênesis de Belo Horizonte - Notas

E vejam como, nesse Gênesis de cidade que aparece do nada, não nos falta nem a serpente. Vejam na notícia ao lado com quem o nosso primeiro agente de correio, Sebastião Maggi Salomon, dividiu o peito materno quando era ainda um bebê e morava em Itajubá na Rua dos Remédios [onde mais?]. 

Note como a danada, uma vez saciada do leite materno, escorrega pela extensão do corpo da Dona Mariana, apanha guardas e pés da marquesa e se esconde num dos cantos da alcova. Note que não era a primeira vez. Note que provavelmente não foi a última. E que Dona Mariana “nenhuma ofensa sofreu”.

Advogado muito bem aleitado, Maggi Salomon casou-se com a irmã de um futuro presidente da república e de agente de correio chegou a ministro.