Friday, July 03, 2020

Commonplace books

Como será que se chamam os "Commonplace Books" em português? São cadernos que as pessoas mantinham onde anotavam coisas que lhes chamavam a atenção: poesias, receitas, trechos de livros etc. John Locke tem até um livreto que ensina às pessoas as melhores técnicas para manter esse tipo de caderno.

Eis algumas notas de um dos meus:

"Eu penso na morte da raça humana. A longa e estranha viagem desse primata sem pelos."
Bob Dylan


"Somos um mamífero especial, único capaz de levantar falso testemunho."


"O significado de qualquer evento passado não apenas transcende sempre qualquer causa que se lhes dê; o passado em si só existe no evento em si."
Hannah Arendt


"Estamos mais em perigo por causa dos sãos que dos insanos."
Susan Nardin Vincour


"O que significa saber o que são o certo e o errado em abstrato, mas não ser capaz de fazer essa distinção na prática."
Susan Nardin Vincour


"POETA

Um sapo foi comendo vagalumes sem importar-se com o seu sabor amargo até que pela sua pança inchada brilhasse uma luz sublime."
Alejandro Jodorovsky


Thursday, June 18, 2020

Ainda Gonçalves Dias (me desculpem)

Diz a nota biográfica da Academia Brasileira de Letras sobre Antônio Gonçalves Dias que 

"A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas." 

Notem bem nos termos dessa frase que se coloca para o leitor como meramente objetiva: a frase implica claramente que a origem (mestiça, bastarda?) do escritor maranhense filho de português com mestiça era, sim, de fato, "inferior"! 

Meu primeiro instinto é exclamar, "Inferior para quem, cara pálida?" (e agora as aspas são para mim mesmo). A tal frase, tão neutra e serena, apenas nos informa que Gonçalves Dias tem "consciência" desse "fato" (embrulha-se aqui num só pacote chamado "tudo" fato, consciência do fato e "saúde precária") e que a "inferioridade" e a "consciência da inferioridade" do poeta são "motivo de tristezas" que marcam sua poesia "eminentemente biográfica".  

Fico com um trecho de uma carta do próprio Gonçalves Dias a Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, "mano e amigo", escrita do Rio de Janeiro, onde Gonçalves Dias foi professor e educador com um salário que não pagava um terço do custo de vida da capital de acordo com ele mesmo:

“Demais não sou cortesão, não o quero ser, não o pretendo ser; não queria sobretudo aparecer ao público diverso do que sou”. 

A frase vinda do próprio autor está carregada de consciência, não apenas do que ele era, mas do que ele queria que o público visse. Não vejo aqui nem o mais discreto senso de inferioridade, muito antes pelo contrário. O contexto da frase é uma subvenção de 300 contos para publicar um livro, dinheiro que vem com a exigência implícita de dedicar o livro ao "benemérito" que se fazia de mecenas com o dinheiro do estado. A exigência implícita, provavelmente, tão normal e serena quanto o tom da frase da nota biográfica da ABL, é pragmaticamente recusada por Gonçalves Dias, pois 300 contos não é tanto dinheiro assim de qualquer maneira. Prometem-lhe pagar 1000 contos no seu emprego de professor e secretário do novo Liceu de Niterói, mas depois da inauguração ele descobre que só vai receber mesmo 800 contos - imagino a naturalidade tranquila do safado que cortou em 20% o salário, já insuficiente, do mestiço que tinha se formado com louvores em Coimbra (a melhor universidade de língua portuguesa da época). O mestiço que conhecia a língua portuguesa de cabo a rabo, que era membro do IHGB, que era tradutor do alemão, que escreveu a melhor literatura do período e pertence a um grupo bem restrito de escritores que influenciaram profundamente a cultura brasileira. 

Monday, June 15, 2020

Ficções quase reais

Quando eu tinha meu blogue, era o que eu mais escrevia. Estou meio sem prática, tentando voltar. Então... eis o que tenho feito no Word.

Garotos e garotas
Há uma falta que não consigo distinguir. Ela ocupa lugar em mim. Eu sinto e é muito claro e físico, mas não, não estou falando de sexo. Se a questão fosse essa, a solução era fácil. O que eu estou falando é maior, bem maior. Maior que eu e implacável. É esse bolo na garganta, é esse grito sufocado como foi sufocar o grito no Kamikaze do parque de diversões furreca que todo ano visitava a cidade. Explico. Eu tinha onze anos e estava satisfeito. Vi os meninos mais legais da minha sala duas fileiras à frente. Planejei esbarrar neles quando o brinquedo parasse e tivéssemos que descer as escadas. Depois que me reconhecessem e me convidassem a andar com eles, eu ia me despedir da mãe e descobrir como é estar com os caras e falar com as garotas. E então, no dia seguinte, eu participaria das conversas, estaria nas rodas, faria parte delas. Estava tudo já planejado. Da primeira vez que o brinquedo ficou de cabeça para baixo, porém, eu quis chamar minha mãe. Mas era vergonhoso chamar a mãe. Eu me calei. Segurei o banco com todas as forças e empurrei meu corpo contra ele até o cinto de segurança ficar obsoleto. Os outros garotos, e mesmo as garotas, largavam seus braços estendidos no ar. Eles também gritavam, urravam e sorriam cheios de pavor. Eu não. Diferente, permaneci seguro e calado, com a boca cheia de ar e o coração aterrorizado. A cada volta do brinquedo, o ar da boca passava um pouco para o coração. Mais e mais, eu sentia que ele inchava. Quando acabou, meu peito estava a ponto de estourar. Desci devagar as escadas, segurando o corrimão preocupado em não cair. Minhas pernas tremiam. Minha mãe me esperava lá embaixo. Todos os outros garotos e garotas passaram por mim em pequenos bandos. Eu os ouvi contar uns aos outros como sentiram medo ou tiveram coragem e, sem dizer nada, segurei firme a mão de minha mãe. Ela me ofereceu sorvete de chocolate. Não aceitei e contei que estava enjoado. Então ela riu dizendo que tinha avisado sobre o Kamikaze. Demos uma volta, observando os outros brinquedos. “Só mais um?” ela me ofereceu. “Eu quero ir embora” respondi. “Nem o carrinho bate-bate?”, ela insistiu, “vamos ficar aqui e aí você vê como funciona, depois me diz se quer tentar”. Vi as pessoas entrarem no ringue: alguns adultos, muitas crianças e adolescentes, dois ou três conhecidos meus da escola e mais dois ou três vizinhos de rua. A música. As faíscas que se soltavam no encontro de uma espécie de antena que havia na parte de trás dos carrinhos e subia até tocar a tela de metal que corria rente ao teto. Os gritos. Os risos. Os nomes berrados em meio a gargalhadas de pais, mães e amigos que assistiam quem brincava. As batidas dos carrinhos. Tudo. De repente, tudo tinha se tornado demais para mim. Ninguém sabia, mas meu coração estava cheio de nada e não quis experimentar mais nenhuma emoção naquele dia. Insisti que queria ir embora, estava prestes a chorar. Mamãe mudou o jeito de me olhar e fomos para casa. Acho que foi ali que comecei a sentir essa falta. Essa falta que ocupa lugar em mim, que é clara e física, mas que não tem nada a ver com sexo. Essa falta que é maior, bem maior, bem maior do que eu e que é implacável.  Essa falta que é esse bolo na garganta, que é esse grito sufocado, que é esse monte de coisa alguma que não consigo explicar porque não é nada.

Renata M. Cordeiro

Sunday, June 14, 2020

Poesia minha

Tupis com Espírito Santo

Sonhos, sonhos. Estou vendo o que você é; o que você foi é passado.
Livro dos mortos, Luciano de Samósata


Toco agora a carne viva
da minha lembrança.
O passado que não passa
mesmo quando cansa.
Era o meio-dia
dos meus quinze anos,
na esquina de Tupis
e Espírito Santo,
a primeira vez
que senti o turbilhão
de imagens e ideias
que naufragou desde então,
tantas vezes repetidas,
minha parca consciência,
meu siso, minha alegria,
meu inquieto coração.
Ali eu era um barquinho
no meio do furacão,
me agarrando aos ferros
de uma razão cercada,
ferida e incapaz
de vestir com senso o caos.
Os meus olhos reviravam
o céu paralítico.
Ignorando tornozelos
e pulsos atados
a um flamboaiã em chamas
e o tronco cravado
de flechas quebradas,
S. Sebastião tocava
o velho tango argentino,
que é hoje bandeira e hino:
Tudo o que eu vivi morreu.
Tudo o que eu perdi é meu.
Meu veneno é meu remédio.
Não espere nada mais.

Era a sexta-feira
dos meus quinze anos
na esquina de Tupis
e Espírito Santo.
Meu amigo me largara
no meio-dia do nada.
Eu apelava em silêncio
a quem pudesse ouvir:
S. José da Boa Morte,
Carpinteiro Operário
e Ibejis de Montezuma,
Sentinelas do Acaiaca,
Me atendam em silêncio,
porque Deus nos empenhou
desde o começo dos tempos
uma só magra palavra
que contém nela o mundo.
Só se escuta essa palavra
no mais absoluto
e puro silêncio:
O hirto silêncio de muro
de pano abafando boca
de pedra esmagando ramos
de caldo grosso e vermelho
que mata o Rio Doce,
que mata o Paraopeba,
que mata o tempo.
Esse é o silêncio de Deus

Cambaleei Tupis abaixo,
ciscando tristezas
nas cardinas e canhanhas
das calçadas portuguesas
e nas cantarias planas
da pedreira Prado Lopes
lambuzadas de asfalto
revolvia minhas mágoas.
Desabalei as escadas
do Parque Municipal,
calado, cosida a mão
ao áspero corrimão.
No Teatro de Emergência
buscava ar em mim mesmo;
sorvia o medo da morte
buscando em mim um faquir
que deslembrasse da dor
pra que o tempo remexesse
os minutos devagar
e desfizesse em mim
esse sorvedouro denso,
esse ar viscoso,
esse estertor pesado,
esse sopro viciado.

Me encontrou ali um velho
articulando miséria –
a velha seca, asmática
fatal, que empenha móveis,
relógios, anéis,
sapatos e paletós
casacos, jaquetas,
até que só reste osso
de um espantalho falaz.
Na mão cacos de um livro
sequestrado dum entulho,
recheado de quimeras
que eu conhecia bem.
Entre preposições mochas
e vírgulas duvidosas,
ele me fez um convite
que meus pares me ensinavam
pedir um soco na cara
ou um borbotão de gritos:
Velho safado mais torpe;
velho rapina perverso.
Nunca fui par dos meus pares
e ali já não dava conta
de tanta força penosa.
Só dei conta de um não
como um cão se encolhe.
Sumiu minha sede viva –
água que a areia engole.
Larguei as minhas muletas –
meus sonhos mais bestas,
meus sofrimentos infantes –
e fui-me embora dali,
cobrindo pé ante pé
os dez quilômetros cinzas
entre o centro e a casa
que já não era mais minha.
No meio do meu caminho
desabou um temporal:
a água cavava a terra
de debaixo dos meus pés.
O carbono podre
da Antônio Carlos
infecciona até hoje
os meus pesadelos
e tudo o que eu sou.

O que eu sou hoje
é esse passado
que não me atravessa.
Minhas saudades são dúbias.
Amo o que detesto
e detesto o que amo
em Belo Horizonte.
As jaboticabas negras
emplastrando as calçadas.
O Arrudas berro d’água
passando o rodo no Centro.
Os rios encloacados,
o minério na garganta.
No verão todos os anos
as catástrofes das águas;
Todo dia o ano inteiro
as catástrofes dos donos
das Minas e das Gerais.

E o meu poema se abre.





Thursday, June 11, 2020

Traduções minhas: trecho de Temporada de huracanes de Fernanda Melchor

Acabei de ler Temporada de Huracanes da escritora mexicana Fernanda Melchor. Há muito tempo não leio algo tão forte e tão corajoso. Extremos da humanidade explorados com energia vital pulsante e precisão de linguagem. Traduzi um trecho que diz tanto ao Brasil dos cemitérios abarrotados e das valas comuns:

"Vovô acendeu outro cigarro e apenas sacudiu a cabeça mansamente enquanto os empregados do depósito de Villa olhavam para ele com expectativa. Queriam que ele lhes contasse uma das suas histórias, tinha certeza, mas o velho não ia dar aos dois essa satisfação. Pra quê? Pra depois eles andarem por aí dizendo que a porra do Vovô era um doido de pedra? Que eles fossem pra casa do caralho! Sobretudo esse porra desse magrelo, que foi quem começou com a fofocaria de que Vovô falava com os mortos, e isso porque o próprio velho lhe contou de boa fé, pensando que o lesado entenderia, mas não: saiu do cemitério espalhando pra meio mundo que Vovô ouvia vozes e estava gagá, quando Vovô só tinha tentado explicar a precisão de falar com os cadáveres enquanto os enterrava, caralho; porque por experiência própria as coisas saíam melhor desse jeito; porque os mortos sentiam que uma voz se dirigia a eles, que lhes explicava as coisas e se consolavam um pouco e deixavam de sacanear os vivos. Por isso esperou que os maqueiros fossem embora com a ambulância vazia antes de se atrever a dirigir a palavra aos novatos. Tinha que acalmá-los primeiro, fazer com que eles entendessem que já não precisavam ter medo, que o sofrimento da vida já tinha acabado e que não custava muito a escuridão já ia se acabar. O vento atravessava o descampado e balançava as folhas na copa das amendoeiras e fazia redemoinhos de areia entre as sepulturas mais distantes. Já vem a chuva, Vovô contou aos mortos, enquanto contemplava com alívio as nuvens gordas que se apertavam no céu. Bendito seja, já vem a chuva, repetiu, mas vocês não tenham medo, viu? Uma gota gorda caiu em cima da mão que segurava a pá. Vovô aproximou o punho da boca e lambeu a doçura da primeira chuva da estação. Tinha que se apressar, terminar de cobrir os corpos, primeiro com uma camada de cal e logo com outra de areia, antes que caísse o aguaceiro, e logo colocar a tela de galinheiro em cima da vala, e as pedras por cima da tela, pra que os vira-latas não viessem desenterrar os corpos à noite. Mas vocês fiquem tranquilos, continuou a falar, num murmurar que era só um pouquinho mais que um ronronar. Vocês não tenham medo nem se desesperem, fiquem aí bem tranquilinhos. O céu se acendeu com a luz de um raio, e um estrondo abafado sacudiu a terra. A água não pode fazer nada com vocês agora e o escuro não dura pra sempre. Já viram? A luz brilhando longe? Aquela luzinha que parece uma estrela? É para lá que vocês têm que ir, explicou; para lá é que está a saída desse buraco."   
  

Saturday, June 06, 2020

Sonhadores reconhecem sonhadores

         Certa vez conheci um Vinícius de Moraes. Ele era só um pouco mais alto que eu, tinha os cabelos muito curtos, castanhos claros, em cachos pequenos bem colados na cabeça. E olhos miúdos, cor de mel. Nós topamos um com o outro diante da porta. Ele quase sorriu tímido quando tocou o interfone. Passou um tempo que não medimos, mas ninguém lá dentro atendeu. Vinícius de Moraes apertou de novo o botão. Eu e ele em silêncio ansiávamos por uma resposta e ela não vinha. Então, eu ficava agitada me perguntando se seria mesmo ali. A placa dizia que sim, afinal, nela estava escrito Hostel Cidade Maravilhosa e era aquela a rua da Glória. Não  havia perigo de engano, é verdade. Acontece que eu sou de dúvidas e de sempre me perguntar e conferir. E era por isso que eu conferia endereço no papel amassado quando alguém abriu e saiu e,... Voltou meio corpo pra dentro e gritou: - Fulano, eles chegaram! Depois - era uma jovem bem jovem com traços orientais, sorrindo displicente como se faz em qualquer lugar aos clientes -, escancarando a madeira azul apontou para dentro e nos disse: - pode entrar, gente! Nós entramos.
         Por dentro, a porta que se fechava nas nossas costas era verde e a jovem oriental tinha ido embora. Estávamos no início de um pequeno corredor de paredes azuis, eu e Vinícius de Moraes, lado a lado. Havia um balcão ovalado onde o Fulano se meteu e nos entregou, a cada um, um retângulo em papel-cartão e uma caneta Bic. Naturalmente, eu e Vinícius de Moraes começávamos a responder por escrito as perguntas que o papel-cartão nos fazia e... Fulano explicava que estava almoçando e que era por isso que tinha demorado a nos atender. Pedia desculpas, estava mastigando ainda e era magrelo, muito alto e moreno o Fulano. Bem. Eu sou hipermetrope, e foi graças a isso que descobri que estava na Cidade Maravilhosa com Vinícius de Moraes: usando meus superpoderes de águia bisbilhoteira para ler o nome que ele escreveu no papel enquanto Fulano falava. Acabamos. Entregamos ao Fulano nossos dados rabiscados. Minha letra é um tanto ilegível - é porque sou difícil de decifrar - e o Fulano queria confirmar se meu estado de origem era mesmo Minas Gerais. Eu respondia que sim e Vinícius de Moraes finalmente sorriu sem receio, dizendo: - Eu também!

Monday, June 01, 2020

Sobre "Meditação" Gonçalves Dias: como morre uma cultura/nação/país

Em "Meditação" Gonçalves coloca em diálogo um jovem e um ancião, que discutem a partir de perspectivas diferentes questões relativas ao passado, presente e futuro do Brasil. Num dos momentos altos do texto o Ancião nos joga na cara [na cara de todos os brasileiros] o seguinte:

"A nacionalidade, que é dela? O característico de um povo, que é dele?

Não sabeis vós que a planta exótica perde o mais excelente de seu aroma, e que a roseira dos Alpes produz espinhos, plantada em vales?

Dir-vos-ei que as nações se assemelham os indivíduos.

E se milhões de indivíduos morreram sem nome; também foram povos cujos nomes se deliram dos anais da humanidade.

E como existiram homens sem gênio; povos também existirão sem ele.

Porque eles dirão em sua indolência;

– Por que plantarei um pomar se não hei de provar seus frutos?

E o mesmo dirão vossos filhos, e ainda o mesmo os filhos de vossos filhos; e não plantarão o pomar.

E dirão mais no seu egoísmo: – Se eu incendiar esta devesa*, ainda me sobra para me asilar na calma do verão.
 *devesa é o mesmo que mata

E o mesmo dirão vossos filhos, e ainda o mesmo os filhos de vossos filhos; e incendiarão as suas devesas.

E direis mais: “Não construirei uma ponte sobre este rio, porque uma árvore colossal caiu sobre ele à flor da água; e que me importa que o seu leito se encha de areias, e que não haja comunicação entre os homens que habitam a sua nascença e a sua embocadura?”

E o mesmo dirão vossos filhos, e ainda o mesmo os filhos de vossos filhos; e o tronco permanecerá à flor da água, e o seu leito se encherá de areias, e não haverá comunicação entre os homens que habitam a sua nascença e os que moram na sua embocadura." [48]

O recado é claro: sem cultivo, sem cuidado com o futuro cultivado de geração em geração, não temos caráter [gênio] e nos condenamos ao puro e simples desaparecimento sem deixar traços no futuro. É o que nos apresenta a situação presente: o meio-ambiente na mão de um agro-boy; os direitos humanos na mão de uma fanática religiosa; a diplomacia na mão de um fanático anticomunista; a educação na mão de um obscurantista; a ciência na mão de um vendedor de travesseiros; a saúde na mão de militares; a polícia na mão da milícia; a economia e a administração pública na mão de alguém odeia os pobres e o governo.