Wednesday, September 21, 2016

Poesia minha: Domingos sem deus

Mash up – Domingos sem deus

1. Mirim
o tato das lembranças
lê a letra miúda
apagada no verso
dessa fotografia
desembrulhando o nada
esquadrinhando vargens vazias

2. Sem remédio
parcas palavras
muitas desconfianças

3. Trens
a saudade rói
a vida desanda
a lataria tirita
a tarde se imola

4. Sorte teve a Sandra
arrimo de um restolho de família
só havida mesmo num retrato
batido num distante sete de setembro
desmoronando, meu deus
nem tanque nem tecelagem
nem esse visgo de miséria
conformismo atávico desambição
melhor correr daqui correr o mundo
safa esperta astuta ladina pavã

5. Milagres
a galinha ara o chão
cisca o monturo
o vira-lata de lugar nenhum
alegria interesseira
cinismo estabanado
covardemente hipócrita
sonha sacos de lixo
fartos e suculentos
até abalar porta afora
para nunca mais voltar
só com os documentos e a roupa do corpo  
um homem em desespero
exilado espera

6. Outra fábula
apeou na rodoviária
pousou na pensão
enfiou a mala de papelão debaixo da cama
desabou o corpo fatigado
dormiu sono sem sonhos
rompido o passado
resta a condena
irremediável solidão




Thursday, September 15, 2016

Poesia minha: Auto-Retrato

Desenho meu: Auto-Retrato

Auto-Retrato

"E... Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; 
não este, que o senhor razoavelmente me atribui. 
Mas o ainda-nem-rosto — quase delineado, apenas — mal emergindo, 
qual uma flor pelágica, de nascimento abissal... 
E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só." 


um homem sem histórico escolar
sem currículo
sem diploma
sem título
sem carteira assinada
sem emprego fixo
sem terno sem paletó 
sem gravata sem camisa de gola
sem sapato que se engraxe
sem meio de transporte outro que os pés
sem número de telefone celular
sem casa de campo sem casa própria 
um homem de parcas
posses sem reputação alguma 
sem boa ou má fama 
sem vizinhos que o reconheçam
sem pais, sem filhos 
sem parentes sem amigos
sem nome ou sobrenome distintivo
sem sexo sem corpo sem cor
rostinho de menino
de menos-que-menino


Tuesday, September 13, 2016

Silêncios estratégicos no meio da gritaria

Desenho meu: Auto-Retrato
Enquanto presidente colombiano, em 2008 Álvaro Uribe exportou para os Estados Unidos “14 Pinochets” – líderes das milícias paramilitares – para serem julgados como traficantes de drogas. A saída desses homens em aviões dos Estados Unidos na calada da noite, antes que a justiça colombiana pudesse começar a julgá-los e sem buscar permissão da mesma chocou o país. Nos Estados Unidos, julgados apenas pelo cultivo e tráfico de drogas sem levar em conta milhares de mortes e abusos pelas quais esses homens são responsáveis. Assim, receberam sentenças relativamente curtas e, encurtando suas sentenças por cooperar com as autoridades dos Estados Unidos em suas investigações sobre o tráfico, podem até mesmo sair em menos de dez anos da prisão, com o bônus de ganhar então o direito de permanecer nos Estados Unidos. À medida em que as investigações sobre as ligações entre os paramilitares e a família Uribe avançam, os possíveis motivos da extradição súbita e sigilosa ficam mais claros, mas isso se reduz a silêncio.

No Brasil, a polícia federal apreendeu 450 quilos de pasta de cocaína num helicóptero de propriedade do filho deputado de um senador da república, numa fazenda também de prioridade da família desse senador, pilotado por um funcionário da assembleia legislativa de Minas Gerais a serviço do mesmo filho desse mesmo senador e abastecido com dinheiro da verba indenizatória do deputado. Esse homem, que chegou a senador meramente por ser suplente de um Itamar Franco que se candidatou já doente de câncer, continua impávido colosso senador da república. Seu filho foi recentemente indicado como Secretário Nacional de Futebol, possivelmente como agradecimento pelo papel do pai no golpe que tirou Dilma Rousseff do poder. O helicóptero foi devolvido à família. O silêncio como no caso da Colômbia grita a plenos pulmões.   


Um grupo de especialistas em 2012 recomendou que a agência federal que regula os medicamentos nos Estados Unidos exigisse treinamento aos médicos que receitavam remédios para alivio da dor fortíssimos como o Oxycodone e o Nalaxone. A indústria farmacêutica e a Associação Médica Americana exerceram sua influência para que nada fosse feito. Dois anos depois, de acordo com números do próprio governo americano, diariamente mais de meio milhão de receitas são preenchidas e 68 pessoas morrem de overdose. O silêncio contrasta de forma gritante, como nos dois casos anteriores, com a renovação de um barulho interminável sobre o problema das drogas e do vício.