Saturday, May 12, 2018

O tamanho do nosso buraco

1. Um Macri que pode mal disfarçar o seu desespero anuncia na televisão a volta da Argentina ao socorro urgente do FMI como um "ato preventivo". Sua fala é quase um pastiche do desespero também mal disfarçado de entusiasmo de um presidente De La Rúa falando em "blindagem internacional" às vésperas de uma hecatombe econômica que destruiu a Argentina.

2. Um Temer canastrão roda um tronco duro como a gomalina que segura seu penteado de vilão de chanchada e pontifica desde um pódio com microfone sobre as melhorias da economia e a recuperação do país enquanto o Brasil caminha a passos largos de volta para o inferno de fome, miséria e desemprego dos anos 90.

3. O discurso político é um gênero curioso. Mesmo no caso de exemplos menos crassos que os dos nossos dois tristes palhaços neo-liberais (um eleito e o outro nem tanto) o distanciamento no tempo e espaço funciona paradoxalmente como uma lupa que vai revelando o que há de grotesco na performance dos políticos.

4. Essa sensação de grotesco no discurso político, mais aguda ainda no século XXI, vem de um contraste cada vez mais gritante entre a superfície coberta por um otimismo radiante de utopias nacionalistas e o realismo cinzento da soberania popular amputada. Quanto mais se fala em fazer do mundo um paraíso de justiça social e/ou prosperidade, mais claro fica que os "nossos" representantes representam outros interesses e poderes econômicos e que "nossos" governantes governam para os mesmos interesses e poderes econômicos.

5. Um exemplo simples de uma figura particularmente grotesca, Donald Trump. Durante a campanha e mesmo depois - já que ele vive em campanha - o presidente dos Estados Unidos prometeu combater especuladores e monopólios para reduzir os custos exorbitante dos remédios. Mas uma vez dono da cadeira e da caneta de presidente, Trump resolveu continuar, por exemplo, a dificultar a importação de remédios do México e do Canadá, onde os remédios não são tão caros. Os discursos seguem tão agressivos quanto a determinação em não incomodar o grande capital. Investidores e representantes da indústria farmacêutica ficaram felicíssimos e as ações das empresas subiram, enquanto o cidadão dos Estados Unidos continua a ser aviltado com preços exorbitantes.

6. Vários exemplos poderiam ser encontrados em vários países diferentes e com políticos de várias matizes diferentes. Não estou aqui insistindo na imbecilidade que prega que direita e esquerda são iguais em tudo. Eles se igualam na maneira como frustram consistentemente aqueles que votam neles. Claro que a insatisfação com a esquerda social-democrata teria que ser maior, já que a esquerda [pelo menos no discurso] prioriza a justiça social e a diminuição das desigualdades e isso é uma impossibilidade num estado completamente a serviço do grande Capital [também conhecido pelo eufemismo "Mercado"], que não admite qualquer contestação aos seus interesses e nos empurra assim para um abismo de onde sairão novos Hitlers, ajustados cada um a cultura de cada país.

Saturday, May 05, 2018

Z, ou a volta dos que [afinal] nunca se foram


Acabo de assistir com meu filho Samuel o filme Z de Costa Gavras, tão bom quanto o Missing com Jack Lemon, ou quem sabe um pouco melhor. Z é de 1969 e revê-lo em 2018 me deu uma medida bem vívida do retrocesso que os últimos anos representam em vários aspectos. Numa metade do mundo, tiveram pelo menos a decência que reeditar a Guerra Fria com um novo fantasma, o terrorismo patrocinado por um Islamismo Fascista. Na outra metade, voltamos a estupidez da Guerra Fria sem que exista sequer uma sombra da União Soviética e do "Comunismo Internacional". O anti-comunismo [de quem não importa] espalha seus espantalhos na rua e passa o rodo em todo o mundo em nome de Deus, da Civilização Ocidental, [pasmem!] da Democracia e dos bons costumes dos homens de bem. Apesar de vários prêmios, inclusive nos Estados Unidos, Z foi proibido no Brasil de Médici. Precisamos esperar 10 anos para finalmente ver o filme.

Foi assim que Z Tornou-se atualíssimo. Costa Gavras desloca a história do ativista pacifista e político grego Grigoris Lambrakis para uma espécie de Grécia francesa, omitindo nomes e lugares. A Grécia, como nós, tinha caído vítima da Guerra Fria no colo de uma ditadura militar brutal e energúmena em 1969. O golpe militar na Grécia aconteceu em 1967, às vésperas da nossa entrada numa nova fase, ainda mais energúmena, no nosso longo regime militar. Mas essa caída tinha sido antecipada com o assassinato de Lambrakis em 1963.

O filme nos expõe uma direita reacionária anti-semita, fanaticamente cristã, ocidentalista até as orelhas, muito machona e anti-comunista. Generais, chefes de polícia, oficiais do governo, políticos, promotores e "militantes" [as aspas aqui pela combinação de interesses pessoais e coerção que os motiva] são mostrados de forma incrivelmente ampla e com riqueza de matizes. Os milicos greco-franceses estão ali afiando seus dentes para um  massacre sem dó de pacifistas, comunistas, cabeludos, judeus, mulheres vadias e viados afeminados. Num contexto da geopolítica de Guerra Fria, inseguranças de gênero, fanatismo militarista, líderes reacionários e militares mobilizam a troca de favores e chantagens um sub-proletariado e uma pequeníssima burguesia provinciana para juntos tramar o extermínio do inimigo.

Um golpe de gênio de Gavras: o filme tem uma espécie de fim falso em que a derrota das forças reacionárias acontece pela persistência de um repórter puramente interessado no seu ofício, um par de testemunhas teimosas e um promotor nada simpático que aos poucos vai percebendo ser impossível ignorar que o tal "incidente" (a morte do líder pacifista) trata-se de um assassinato tramado. Vibramos eu e Samuel ao ver os canalhas mentirosos desgraçados caindo um a um. Só que nos créditos Gavras insere uma rápida coda com texto e fotografias em que descreve o golpe posterior, que define a morte e exílio de todas as figuras da oposição.

E que cinema! As cenas de ação com carros em movimento são simplesmente primorosas e a montagem em geral é rápida e ousada como costumava ser naquela época, mas muito clara. curiosamente as grandes estrelas do filme nos oferecem uma performance de estátua: Yves Montand e Irene Papas caminham muito lentamente e lançam olhares lânguidos para lá e para cá enquanto preenchem sua função no filme. Z não é deles, definitivamente. Os verdadeiros protagonistas são os meliantes desclassificados Vago e Yago, o imigrante russo que só quer um passaporte para ir embora, o fotógrafo/jornalista meio pilantra, o membro da oposição Manuel [Charles Denner] e o terrível General e seu círculo de governantes e militares corruptos de província.

Friday, May 04, 2018

Música: Adivinhem quem veio nos visitar ontem à noite?


This Tornado Loves You
Neko Case


My love I am the speed of sound
I left them motherless, fatherless
Their souls dangling inside-out from thier mouths...
But it's never enough
I want you

I carved your name across three counties
And ground it in with bloody hides
Broken necks will line the ditch
Till you "stop it! stop it! stop this madness! "
I want you

I have waited with a glacier's patience
Smashed every transformer with every trailer
Till nothing was standing
Sixty-five miles wide

But still you are nowhere, still you are nowhere, nowhere in sight
Come out to meet me, run out to meet me
Come into the light

Climb the boxcars to the engine
Through the smoke and to the sky

Your rails could always outrun mine so I
I picked them up and crashed them down
In a moment close to now
Cause I miss, I miss, I miss, I miss
How you'd sigh yourself to sleep
When I'd rake the springtime across your sheets

[Chorus]

My love, I'm an owl on the sill in the evening
But morning finds you
Still warm and breathing
This tornado loves you, what will make you believe me? 

Wednesday, May 02, 2018

5. O Brasil e o povo, incluem a sua pessoa?


--> No final dos anos 70 um livro com entrevistas com várias pessoas sobre a questão das patrulhas ideológicas no Brasil terminava com uma pergunta sobre as perspectivas para a implantação do socialismo no Brasil. Hélio Oiticica deu uma resposta curta que me volta à memória de tempos em tempos feito uma assombração: 
“Socialismo no Brasil? Eu estou achando quase impossível, o Brasil é um país bem fascista…”

Essa declaração destoava completamente do tom geral da época, quando uma entidade altamente idealizada chamada "povo" mobilizava as esperanças de muita gente de construir um Brasil novo logo que nos livrássemos da estupidez dos milicos. O problema é que os milicos eram só a ponta visível de um imenso iceberg de estupidez que mostraria suas garras na primeira eleição livre para presidente depois da ditadura, com a vitória de um tal de Fernando Collor. 

Mas é preciso ter um pouco de cuidado com uma espécie de reverso da idealização do povo e do Brasil como vítima e como repositório de bondade, bom senso e bons sentimentos. Esse reverso da moeda ufanista se revela cada vez que alguém perde uma eleição. Invariavelmente aparece um monte de gente inconformada lamentando a estupidez, a ingenuidade, a idiotice dos eleitores que preferiram alguma coisa que eles não queriam de jeito nenhum. A culpa é do povo; o povo é muito burro; o povo merece sofrer, ser explorado, aviltado, violentado etc. O recalque não tem endereço político fixo: o derrotado enfurecido pode ser de esquerda ou reacionário. 

Para fugir dessa moeda que num lado ufana e no outro esculhamba, podemos começar lembrando sempre que a entidade fantasmal povo ou, na formulação do Oiticica, Brasil é feito também de Hélio Oiticica, de mim e de você leitor gente boa. 

Suspeito que a sordidez [assim como a grandeza] é uma possibilidade dentro de qualquer ser humano e que um dado ambiente e momento histórico apenas favorecem que essa sordidez se realize em atos e gestos concretos, botando fogo em índios no ponto de ônibus ou jogando bombas na cara das pessoas. Não creio que os alemães sejam piores [ou melhores] que os brasileiros. O nazismo é que favoreceu a proliferação da sordidez na Alemanha. E o nazismo não foi culpa de todos os alemães e não triunfou só por causa do empenho e esperteza de Hitler e companhia. 

Então nós, que não queremos nada com sordidez, fascismo e crueldades variadas, temos que identificar e combater vigorosamente esses fantasmas promotores dos nossos piores instintos. Com urgência. É preciso fazer como o bombeiro que trabalhava no incêndio do edifício Paissandu e quando perguntado sobre o caráter ilegal dos moradores/invasores respondeu que estava para salvar vidas. Responder e contestar o nosso fascismo reafirmando a vida, a alegria e a liberdade de cada um fazer o que quiser com seu corpo e a sua vida toda a vez que um desses urubus do fascismo vierem gralhar no seu quintal. 

É pouco mas é o que temos agora.

Tuesday, May 01, 2018

4. Vivendo entre búfalos e cisnes


Em “Academias de Sião”, Machado de Assis nos oferece uma pergunta como a serpente oferece o fruto a Adão e Eva no paraíso, com aquela ambivalência característica dos narradores de Machado, essas vozes irônicas não levam nem o gesto nem a pergunta completamente a sério, sem que isso signifique exatamente uma farsa. É a pergunta que ocupa as quatro academias de Sião (que o narrador admite logo na abertura do conto serem puramente imaginárias): “por que é que há homens femininos e mulheres masculinas?” No conto não se trata de uma pergunta puramente especulativa, feita no abstrato. A motivação por trás da pergunta é “a índole do jovem rei”:

Kalafangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminilidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros siameses gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram danças, comédias e cantigas, à maneira do rei que não cuidava de outra coisa.

Como não pensar no Sião governado por Kalafangko como uma versão da utopia da Festa do Divino? Kalafangko é como aquele messias que volta à terra para reinar não como velho barbudo, não como carpinteiro nem como pomba mágica, mas como um simples menino, presidindo uma infinita mesa farta onde a tristeza e a fome ficam abolidas para sempre.

Os guerreiros sofrem e os acadêmicos se preocupam. Uma academia propõe que as almas são ou femininas ou masculinas e que às vezes pode se dar uma “anomalia”: “uma questão de corpos errados”. Não por acaso essa é a tese que prevalece, não tanto pelos seus argumentos, mas pela força mais bruta: seu presidente termina usando um colar com as orelhas arrancadas dos cadáveres dos acadêmicos das outras três. Terror e condenação vêm de todas as partes exceto da outra anomalia do Sião, a concubina favorita do rei, Kinnara, “mulher máscula, - um búfalo com penas de cisne”.

A opinião de Kalafangko é singular e uma lição para quem se sente instado a declarar seu apoio ou repúdio inequívoco a tudo o que acontece na face da terra e aparece no circo das redes sociais: A tese da alma sexual e a tese da alma neutra são para o rei equivalentes: a alma é e não é sexual e tanto faz, pois ambas teses são absurdas para Kalafangko, que só crê na boca [deliciosa fonte de sabedoria] e nos olhos [sol e luz do universo] da pessoa por ele amada. Em nome desse amor que é a única coisa que importa, Kalafangko assente ao pedido de Kinnara e decreta a alma sexual como doutrina legítima e ortodoxa, absolvendo assim os acadêmicos sanguinários dos seus crimes. Mas faz questão de deixar claro que ele simplesmente nega a importância de qualquer uma das duas teses opostas.

Qual a solução que Kinnara encontra para almas sexuais desencontradas dos seus corpos? Ora, trocar de corpo, não por uma pedestre sequência de cirurgias plásticas [Machado de Assis não está escrevendo ficção científica], mas pela invocação de fórmula mágica. Note que Kinnara não deseja trocar seu corpo pelo do marido por se sentir mais a vontade numa anatomia masculina, mas porque ela quer exercer um poder político que só estára disponível a ela se ela não habitar mais um corpo feminino. Kalafangko aceita a troca “por um semestre”. O desfecho dessa parte do conto é simplesmente sensacional:

- Realmente, disse Kalafangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me majestade é esquisito. Vossa Majestade não sente a mesma coisa?
            Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa adequada. Kalafangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara. Esta inteiriçava-se no tronco rijo de Kalafangko. Sião tinha, finalmente, um rei.

Machado de Assis escapa da armadilha que Freud antecipa apenas porque não leva muito à sério essas discussões sobre identidades essenciais. As almas têm gênero? Os gêneros têm corpos? O único fato social incontestável no conto é que vivemos nele num mundo que parece com o nosso porque só concebe o poder como o governo dos búfalos e das academias sanguinárias. Em menos de seis meses o búfalo no poder revitaliza estado e igreja ao mandar enforcar sonegadores de impostos e queimar hereges e finalmente declara uma guerra “com um pretexto mais ou menos diplomático”.

O conto é ainda mais complexo e reserva novas complicações que fazem um contraste gritante com o mundo de banalidades que se produzem sobre gênero e sexualidade. Sinto dizer que seguimos até hoje governados por búfalos, estejam eles em corpos masculinos ou femininos. E até suspeito que celebraremos um dia como uma grande evolução a chegada ao poder de um búfalo transgênero, que há de ser tão búfalo quanto todos os outros búfalos ou quem sabe até mais búfalo ainda, pelo desejo de assegurar aos donos de mundo que continuamos abertos para os negócios e fechados para a vida.

Monday, April 30, 2018

3. Esse monstro chamado "público geral"


Freud já avisava numa nota de pé de página meio melancólica que os conceitos “masculino” e “feminino” eram conceitos científicos por demais vagos e imprecisos. Os dois são difíceis de definir pela sua tendência a transformar-se em espelhos que simplesmente refletem os limites e possibilidades da cultura e da imaginação de quem os formula. Você tenta definir masculino e feminino e termina oferecendo um documento transparente e preciso daquilo que você acredita ser o masculino e o feminino.

Como o conceito de raças entre os seres humanos, a ideia de um masculino e um feminino existem objetivamente porque as pessoas acreditam neles. Como várias outras invenções culturais, essa ideia muda com o tempo e muda de lugar para lugar. Nada disso é particularmente interessante para mim, porque pertence ao campo do óbvio para quem estuda o assunto. Entretanto quem estuda as chamadas ciências humanas sabe muito bem que fora do seu meio acadêmico mais restrito é preciso reiterar todos os dias as obviedades que sequer passam pela cabeça desse monstro que é chamado de “o público em geral”.

Alguns dos meus colegas, encantados com as possibilidades que as redes sociais nos ofereceram [supostamente] para comunicar-se com o tal monstro, empenham-se com afinco em combater obviedades e destruir estereótipos. Mas não devíamos esquecer que as obviedades [que são sempre dos outros, não é de desconfiar?] e aquilo que poderíamos chamar de estereótipos, não são simplesmente mentiras que precisam ser desmascaradas pelos sábios da tribo. O estereotipo deriva seu particular poder de sedução coletiva da sua capacidade aguda de observação de um determinado comportamento.

Escravos, por exemplo, fugiam do trabalho como o Drácula foge da luz do sol e viviam em condições de higiene horríveis. O conteúdo de perversidade do estereotipo está um pouco mais adiante, na explicação para aquele comportamento, uma explicação que naturaliza aquilo que é cultural, que transforma em essência aquilo que é apenas circunstância: escravos fogem do trabalho e vivem em condições horríveis de higiene porque são negros e negros nascem desprovidos da vontade de trabalhar e de manter sua higiene. Escravos fugiam do trabalho para sobreviver [seus senhores tinham uma certa tendência a matá-los de tanto trabalhar] e não tinham condições mínimas de higiene porque não recebiam o mínimo em termos de roupa, água e sabão e eram ensinados na base da cacetada a ver sua roupa, água e sabão como propriedade de outra pessoa.

Voltemos ao masculino e ao feminino. As definições dos dois gêneros não fazem mais que nos mostrar como cada lugar em cada momento histórico diferente, via os dois gêneros. Um fantasma permanente: num mundo dominado por homens, o masculino era visto como o comandante “natural” e o feminino como subalterno também “natural”. Como acontece nas culturas ocidentais com várias dessas categorias que se montam em pares de opostos dentro de um contexto de dominação [bárbaros e romanos, cristãos e pagãos, cidadãos e imigrantes ilegais], aquela categoria que se encontra sempre do lado errado do cassetete [levando porrada] é definida em termos ou de idealização ou demonização. E eis que entendemos a complementaridade da “Virgem Inocente” e da “Destruidora de Lares” e todas as metamorfoses que vão modernizando [e assim preservando] as duas categorias.

Por isso mesmo é que esse gesto tão repetido de “contrariar” um estereotipo termina, suspeito, reforçando-o ainda mais. O que fazem todos esses filmes e programas de TV com suas super-mulheres que carregam caminhões cheio de areia com uma só mão, mulheres-soldado que atiram com duas bazucas enquanto fazem piadinhas sarcásticas, mulheres poderosas que lideram com mão de ferro imensas instituições políticas ou econômicas, mulheres detetives de capacidades dedutivas sobre-humanas e senso de justiça inabalável, mulheres justiceiras protetoras dos frascos e dos comprimidos? Será que estaremos livres para imaginar gênero e sexualidade em outros termos mantendo viva a ideia de dois opostos complementares tão cara ao universo maniqueísta da comunicação de massa [esse produtor monstruoso de melodramas anabolizados]? Será que estaremos pelo menos mais livres, e isso já é o suficiente?

Acho impressionante que uma das reflexões mais poderosas que eu conheço sobre esse assunto venha de Machado de Assis, um escritor do século XIX. “As Academias de Sião” foi escrito e publicado há mais de 100 anos! Não é um espanto que ainda acreditemos que almas são masculinas ou femininas [e nada além]? Não vou resumir aqui o conto – ele tem que ser lido com as suas sutilezas literárias. Mas termino com a seguinte constatação, também bastante simples: aqueles que tentam surfar nas ondas de um público maior, além dos muros da academia, deviam também se preocupar em não ser pautados pela ignorância que nos cerca. A conquista da aprovação do senso comum pode chegar cobrando caro, exigindo desses sábios de FCBK justamente a transformação deles em perfeitos comentaristas de CBN.