Friday, March 24, 2017

Miroslava Breach, Patricia Acioli, Ayotzinapa, Cabula e Valdomiro Costa Pereira e muitos outros




O México e o Brasil andam pelo mesmo caminho que muitas outras partes do mundo globalizado: longe das manchetes principais da imprensa, mensalmente, talvez semanalmente, alguém é preso, torturado, desaparecido ou assassinado em conflitos marcados pelo total desrespeito aos direitos humanos e da cidadania. 

As vítimas são indígenas, sem-terra, sem-teto, moradores de comunidades marginalizadas, crianças pobres, membros de várias minorias e de organizações que lutam pelo respeito aos direitos dessas pessoas, desde ativistas a promotores, juízes e jornalistas. E os criminosos caminham quase sempre numa linha imprecisa entre o crime organizado e os aparelhos de repressão do estado.

Mensalmente, talvez semanalmente as mortes e abusos vão se acumulando e formando na minha cabeça uma daquelas terríveis, assustadoras de pilhas de corpos dos campos de concentração nazista. Um discurso furioso de ódio que divide o mundo entre gente de bem e inimigos que merecem nada além da completa aniquilação alimenta o grande moinho de moer gente. E as pautas da grande imprensa continua a colocar no centro das atenções essa grande farsa em que grandes personalidades continuam arrotando verdades sobre a defesa do estado de direito e da democracia enquanto o crime organizado, os grandes negócios, a justiça e a classe política vão se fundindo numa grande sopa cáustica.








Friday, March 17, 2017

Obituário: Derek Walcott

Foto minha: Espelho d'água
Encerramento
Derek Walcott


Eu vivo sobre as águas
sozinho. Sem mulher nem filhos.
Circulei todas as possibilidades
para cheguar a isto:

uma casa baixa perto da água cinza,
com as janelas sempre abertas
para o mar parado. Não escolhemos essas coisas,

mas somos o que fizemos.
Sofremos, passam-se os anos,
baixamos a carga mas não a nossa precisão

de estorvos. O amor é uma pedra
que se acomoda no leito do mar
debaixo da água cinza. Agora nada quero

da poesia além de sentimento verdadeiro,
nem piedade, nem fama, nem cura. Esposa silenciosa,
podemos nos sentar e assistir a água cinza,

e numa vida inundada
com mediocridades e lixo,
viver feito pedras.

Eu desaprenderei a sentir,
desaprenderei meu dom. Isso é mais
e mais difícil do que o que aí se passa por vida.


Acesse o original e outra tradução aqui.
Comentei brevemente sobre o poema e a tradução aqui.










Friday, March 10, 2017

Prosa minha: Sonhos de Moctezuma

Sonhos de Moctezuma

Final do debate organizado em 1960
pela Escola de Arte da Philadelphia
publicado na revista Spring no mesmo ano.











Certos pecados têm precedência numa dada cultura, conferindo-lhe suas feições típicas. Moctezuma, como todas as outras cidades da região, vive fraturada entre clãs opostos provindos de uma mesma família – há quem cinicamente diga que se trata de um estratagema digno dos velhos reis portugueses através do qual os Andrades se perpetuam no poder desde a fundação da cidade. O que torna nossa cidade realmente especial é o fato que ela padece daquele pecado que um velho sábio considerava o rei de todos os demais: a Vaidade. A prevalência desse pecado entre nós nos diferencia de nossos vizinhos, tanto dos possessivos-compulsivos de Rio Pardo, escravizados entre a Cobiça de conseguir o que não têm e a Avareza de não perder o que acumularam, como dos dualistas tripolares de Taiobeiras, açoitados ora pela suavidade suicida da Ternura, ora pela inércia indiferente da Preguiça, ora pela fúria destruidora da Ira.
Essa Vaidade que é tão nossa trata-se de uma moléstia especular, um filtro que fabrica um mundo de ilusões a partir da experiência vivida. Moctezuma imagina a si mesma dividida entre dois tipos de desgraçados: os que se creem inferiores e arrastam as correntes da vergonha e os que se creem superiores e vergam a espinha sob o peso dos andaimes do orgulho. Estaríamos melhor que os nossos vizinhos, já que não sofremos com as paixões que os fustigam? Não creio. O prisma pelo qual enxergamos o mundo informa nossos atos, que por sua vez constituem nossos hábitos, que por sua vez compõem nosso caráter, que todos sabem ser o nosso destino. Como se vê, é uma questão de fugir do braseiro para cair no fogo.
Vejam, por exemplo, o sonho que me atormenta.

Sonho que por um acidente do destino sou transformado no farmacêutico da cidade. Carlos do clã da rua de Baixo, destinado por laços familiares para tal posto, havia fugido por incompatibilidade com a vida pacata do interior para se estabelecer como cronista da vida pacata do interior num jornal da capital. Por falta de outro Andrade que o substituísse, assumo o posto. Logo no meu primeiro dia aparece na loja um Paulista Turista, desses que fedem a protetor solar e andam com um chapéu enterrado na cabeça e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Mal entra no estabelecimento, o sujeito me pergunta de bate-pronto: o pessoal em Moctezuma prefere o prefeito atual, Oswaldaugusto, ou o anterior, Mário Ribamárcio? O assunto é sumamente delicado. Respondo diplomaticamente que há quem prefira um e há quem prefira o outro. Insatisfeito, o Paulista Turista me pressiona: e você, o que acha? Sem vacilações respondo ao inconveniente visitante: Eu? Eu também! A não-resposta me parece perfeita, mas no sonho ela me corrói as entranhas. Incapaz de imitar o Cristo, tenho ímpetos de seguir meu predecessor e fugir de Moctezuma na calada da noite, mas o pavor de ser pego em plena fuga da cidade me paralisa. Pior, não consigo me decidir se serei crucificado por descobrirem minhas reais simpatias ou por ser desmascarado como um sofista desprovido de opiniões. Acordo suado, cansado, ofegante. Minha esposa atribui tudo à minha apneia do sono. Eu atribuo tudo a ela, a Vaidade.  

Friday, March 03, 2017

Postais: o dentro e o fora das coisas

"Para mim, estilo é exteriorização do conteúdo, e conteúdo, a internalização do estilo; como as partes externa e interna do corpo humano, ambos caminham juntos e não podem ser separados".
Jean-Luc Godard


"... os Road Movies mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país."
Walter Salles

Desenho meu: "... the only way to survive."


"... eventos são reais não porque ocorreram mas porque, em primeiro lugar, ele alguém se lembrou deles e, em segundo lugar, porque eles encontram seu lugar numa sequência ordenada cronologicamente.
[...]
... o valor dado à narratividade na representação de eventos reais vem do desejo de ver nos eventos reais uma exibição de coerência, integridade, completude e fechamento que pertencem a uma imagem da vida que é, e só pode ser, imaginária. "
Hayden White

Monday, February 13, 2017

Sobre o discurso da eficiência e a política como gerenciamento do poder

Colagem minha: Lendo Ruffato
A preocupação central do capitalismo é o lucro/prejuízo, a grossíssimo modo, a diferença entre o custo de produzir algo e o ganho com a venda desse algo. Digamos que daí se origina todo o discurso sobre eficiência, que é o lado racionalista do capitalismo. O outro lado, o que origina um discurso irracionalista e hedonista, é aquele que alimenta a sociedade do consumo, movida além da necessidade pelo desejo gerado pelo mundo da publicidade. 

Esse texto é sobre o discurso da eficiência produtiva e é sobre ele que eu quero escrever aqui brevemente. Há muito tempo que o discurso da administração/gerenciamento é produzido pelo capital para além dele mesmo. Em uma contínua expansão, logo que é articulado ele sai das empresas capitalistas para a administração pública, e dali para a administração do lar e da vida privada. Seu vocabulário e sua sintaxe vão sendo exportados para a reflexão sobre todos os aspectos da experiência humana por divulgadores incansáveis desse discurso em todos os meios de comunicação.

De forma bastante esquemática, eis o esqueleto do seu evangelho: assim como se administra/gerencia um negócio no sentido de sua máxima eficiência produtiva, deveríamos administrar/gerenciar o estado, a saúde, a segurança, a alimentação, a educação, a carreira profissional, a vida espiritual, a vida privada, todos os relacionamentos afetivos etc. Somos convidados a imaginar que simplesmente tudo na vida se expressa em termos da relação custo e benefício numa cadeia produtiva e que essa expressão pode e deve ser mensurada numericamente em índices – do índice de eficiência ao índice de satisfação, e deste ao índice de felicidade e do desenvolvimento humano. Mensurar tudo numericamente é fundamental para que então possamos escolher o que fazer e como fazê-lo com “objetividade”. Tudo que diz respeito ao ser humano deve ser “produtivo” – trazer uma relação satisfatória entre custo e benefício que possa ser mensurada em números.


Esse discurso da administração/gerenciamento transformou a política em administração do poder. Com isso qualquer diferença radical entre um governo de direita e um governo de esquerda foi dissolvida numa disputa entre duas propostas de “gestão eficiente” que devem convencer o cliente/eleitor potencial. Essa política como administração do poder trabalha sempre em torno da mais pronta e efetiva satisfação de todas demandas do capital, que o discurso da administração/gerenciamento personaliza como um ente cheios de poder e caprichos que atende pelo nome de “Mercado”. Toda ação política é então medida pela sua eficiência em fazer com que o Mercado “reaja bem”, primeiro no curto horizonte do dia de hoje, depois desta semana, depois deste mês e finalmente deste ano - o "horizonte de expectativa" se transforma em nada mais que uma manchete vazia no jornal de hoje que embrulha o peixe velho de amanhã. Esse “reagir bem” é determinado por uma série de mensagens “objetivas” é o único norte da política como administração do poder. Os desarranjos periódicos do capital são sempre culpa de um grupo político que, estando no comando do poder, não soube administrar o estado em harmonia com os “desejos e necessidades” do Mercado. Um grupo político deve ser então substituído por outro, que promete durante a campanha eleitoral administrar com mais eficiência o mínimo de recursos e gerar com eles o máximo de benefícios. Com o passar dos anos, o sofrimento palpável que essas crises produzem faz nascer um discurso anti-institucional radical. Não é de se admirar que num contexto como esse, onde o estado invariavelmente faz o papel de vilão que “atrapalha” o mercado, a figura do homem de negócios bem-sucedido – esse mago/guru da administração/gerenciamento – seja o candidato político mais sedutor para o paradoxal posto de político anti-política.

Saturday, February 04, 2017

Postais do Inferno: Sobre tamanhos


"Eu estou tentando dizer tudo numa só frase, entre uma Maiúscula e um ponto final. Estou ainda tentando conter tudo, se possível, na cabeça de um alfinete. Eu não sei como fazê-lo. Eu só sei continuar tentando cada vez de um jeito diferente." 
“I’m trying to say it all in one sentence, between one Cap and one period. I’m still trying to put it all, if possible, on one pinhead. I don’t know how to do it.  All I know to do is to keep on trying in a new way.”
William Faulkner, carta a Malcolm Cowley

Desenho meu: Auto-Retrato

 "(…) o que me interessa, na ficção, primeiro que tudo, é o problema do destino, sorte e azar, vida e morte. O homem a “N” dimensões ou então, representado a uma só dimensão: uma linha, evoluindo num gráfico. Para o primeiro caso, nem o romance ainda não chega; para o segundo, o conto basta. Questão de economia.
João Guimarães Rosa, entrevista a Ascendino Leite

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Thursday, February 02, 2017

Postais do Inferno: soluções de Mencken, Cage e Aguilar Mora

Desenho meu: Schoenberg e Cage
“Para cada problema complexo há uma resposta clara, simples e errada”. H. L. Mencken
"For every complex problem there is an answer that is clear, simple, and wrong."


"[Schoenberg] me perguntou qual era o princípio na base de todas as soluções e eu não sabia a resposta. Isso foi em 1935 e se passariam pelo menos 15 anos até que eu pudesse responder àquela pergunta. Hoje eu responderia que o princípio na base de todas as nossas soluções é a pergunta que fazemos." John Cage
"[Schoenberg] asked me what the principle underlying all the solutions was I couldn't answer. This happened in 1935 and it would be at least fifteen more years before I could answer his question. Now I would answer that the principle underlying all of our solutions is the question we ask."

"Eu queria evitar essas reações de triste debilidade que imediatamente buscam interpretações ou argumentos para 'demonstrar' algo da obra ou que buscam analisar para revelar o seu 'sentido'." Jorge Aguilar Mora
"Yo quería evitar esas reacciones de triste debilidad que inmediatamente buscan interpretaciones o argumentos para 'demostrar' algo de la obra o que buscan analizar para revelar su 'sentido'."