Tuesday, November 05, 2019

Obituário: Francisco Toledo

Dia 5 de setembro de 2019 morreu Francisco Toledo, artista mexicano.

Me marcaram um par de frases dele que encontrei numa revista dessas que se distribuem grátis na porta de livrarias:

1. "no hay tranca que evite que entre la muerte a la casa".

2. "Entre las cosas que me duelen como persona y pintor, está la próstata".

Toledo fez um impressionante conjunto de sete "Cuadernos de la Mierda" e foi parte importante da vida cultural e política do México e de Oaxaca. Um artista ácido, político, preocupado com a expansão do milho transgênico, com a conversão do patrimônio do seu estado, com a invasão cultural de lixos como McDonald's em Oaxaca.

Melhor deixar aqui uma entrevista de Carmen Aristegui a Angélica Abelleyra sobre ele:

Wednesday, October 30, 2019

Bençãos e Maldições

Encontro lá nos confins da minha parca cultura clássica Germania, um livro fascinante que me deu a impressão de ser marcado pela dúvida. Os especialistas discutem até hoje se Tácito escreveu Germania como argumento a favor ou contra a invasão e colonização da Germânia pelo Império Romano.

Trago para cá dois momentos significativos para mim.

1. Descrevendo os atributos naturais da terra, Tácito diz o seguinte sobre a falta de prata e ouro naquelas terras além do império:

Argentum et aurum propitiine an irati di negaverint dubito.
Prata e ouro os deuses lhes negaram, não sei se por piedade ou por ira.

Quando a Petrobrás descobriu reservas imensas de petróleo no chamado pré-sal, muitos brasileiros comemoraram. Seria uma imensa fonte de riqueza, o ouro negro, iria nos ajudar a expandir e impulsionar a educação de todos, marca de um desenvolvimento humano que deveria mas não costuma acompanhar o tão prezado crescimento econômico. 

Depois disso tivemos um golpe parlamentar absurdo e um processo espúrio que levou um ex-presidente à prisão, tudo assistido com entusiasmo e devoção por um sarampão de alucinados com medo de serem convertidos ou contaminados pela homossexualidade alheia ou serem escravizados por um regime socialista soviético [implantado a partir da ideia "revolucionária" de escolher para diretor do Banco Central um executivo do BankBoston. 

Hoje temos um governo que chama educação de doutrinação ou balbúrdia. Vendemos os direitos de exploração do petróleo sem exigir contrapartidas e o dinheiro [uma fração do que se antecipava] vai talvez sumir nos ralos de Brasília. Enquanto isso, um outro petróleo, que ninguém sabe de onde vem até agora, destrói a costa do Brasil. 

2. Lá para o final de Germania, Tácito escreve sobre os bárbaros dos bárbaros, os fenianos que vivem espalhados pelas florestas entre o que é hoje Polônia e Lituânia. Os fenianos não são donos de nada: nem boas armas, nem cavalos, nem casas. Comem o que encontram na floresta; dormem no chão com galhos trançados por cima; fazem flechas com pontas de osso pois não dominam o ferro. 

Aí vem o incrível fecho do capítulo:

Securi adversus homines, securi adversus deos rem difficillimam adsecuti  sunt; ut illis ne voto quidem opus esset. 

A salvo dos outros seres humanos e a salvo dos deuses, os fenianos conseguiram algo infinitamente difícil: não tem motivos para rezar.

  

Friday, October 25, 2019

18 máximas que servem de norte ao meu novo livro


•We respond to material conditions with our imagination;
•Imagination is grounded in material conditions;
•Material conditions are shaped by imagination actualized in discourse;
We imagine our responses to material conditions before we actualize them;
We think and act according to a conceptual system we also imagine;
•We do not imagine things out of the blue, but from our experience and our language;
•Our language and our conceptual systems are metaphorically grounded;
•The analysis of metaphors provides us with the closest of readings;
•We do not have to stick all the time to close reading or contextualizing;
•We should be able to alternate between reading from up close and taking a few steps back to get a sense of context;
•To think through metaphors is to think by analogy [explicit or implicit];
•Analogies also set comparisons and contrasts between the old and the new;
•New conditions and experiences demand that we imagine new metaphors;
•Old metaphors don’t die just because the conditions that created them no longer exist;
•Metaphors, old and new, structure and re-structure our discourse;
•Discourse is actualized in political action, including policy;
•The way we act and the way we conceive of things never coincide perfectly;
•We always say less and say more than what we meant to utter.



Friday, October 18, 2019

Fantasmas do Rio de Janeiro em oito momentos

El espiñazo del diablo, filme de Guillermo del Toro
1. Assim começa o filme El espiñazo del diablo de Guillermo del Toro:

"¿Qué es un fantasma?

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Un evento terrible condenado a repetirse una y otra vez.
Un instante de dolor, quizás.
Algo muerto que parece por un momento vivo aún.
Un sentimiento suspendido en el tiempo,
como una fotografía borrosa,
como un insecto atrapado en ámbar."


Guillermo del ToroAntonio Trashorras y David Muñoz

2. A primeira praça pública da Cidade do Rio de Janeiro foi construída em 1843, aproveitando a estrutura de pedra e cal do cais do Valongo, único cais de pedra da cidade construído por decreto da Coroa Portuguesa, pedras do Morro da Conceição. O cais estava desativado desde 1831, mas por ali passaram centenas de milhares de almas sequestradas na África e trazidas para uma vida miserável no Brasil.

3. Assumiu o projeto da praça um orgulhoso membro do Conselho de Sua Majestade Real, Fidalgo Cavalheiro da Sua Real Casa, Comendador da Ordem de Cristo, Desembargador do Paço e Intendente Geral de Polícia da Corte e Estado do Brasil. Seu nome: Paulo Fernandes Vianna.

4. A família Fernandes Viana contava com traficantes de escravos poderosos e fazendeiros de Campos até Paraty. Ela preserva e estende seu poder com aqueles clássicos casamentos entre primos. A rede da família constitui parte importante da elite do Partido Conservador (o Partido da Ordem) durante a monarquia. Paulo Fernandes Vianna era, por exemplo, sogro de um certo Duque de Caxias.

5. Um outro Pedro Fernandes Viana, por exemplo, participou do projeto que plantou no topo do Corcovado o gigantesco Cristo que dá as costas ao subúrbio e abre os braços para a Zona Sul do Rio de Janeiro.

6. Um das penitenciárias mais notórias da Ditadura de 1964, parte do Complexo Frei Caneca (demolido neste século), chamava-se: Penitenciária Fernandes Vianna.

Correio da Manhã, Junho de 1964


7. No Morro da Conceição, de cujas Pedreiras saíram as pedras do Valongo, nasceu Machado de Assis em 1839. Ele escolheu para protagonista e narrador de um dos seus melhores contos o nome de Procópio Valongo. Homem educado, mas sem cabedal, o Valongo de Machado de Assis acaba indo trabalhar como enfermeiro de um velho fazendeiro no interior. O primeiro diálogo entre os dois é assim:


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"    Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por não dizer nada; pôs em mim dous olhos de gato que observa; depois, uma espécie de riso maligno alumiou-lhe as feições, que eram duras. Afinal, disse-me que nenhum dos enfermeiros que tivera prestava para nada, dormiam muito, eram respondões e andavam ao faro das escravas; dous eram até gatunos!
    — Você é gatuno?
    — Não, senhor.
    Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um gesto de espanto. Colombo? Não, senhor: Procópio José Gomes Valongo. Valongo? Achou que não era nome de gente, e propôs chamar-me tão-somente Procópio, ao que respondi que estaria pelo que fosse de seu agrado."

O Procópio de nome fantasmagórico sabia das coisas e termina o conto virando o Evangelho de cabeça para baixo:


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"  Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: 'Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados'."


8. Andamos pelo Rio de Janeiro resvalando em fantasmas. São fantasmas de africanos sem nome, de Procópios que avançam, de Valongos que olham para trás e de Machados rachando a lenha da compaixão e da ironia. São fantasmas de duros Fernandes Vianas demolindo e construindo com as pedras do morro da Conceição, cavando e aterrando com o Morro do Castelo e plantando um Cristo que parece abrir os braços em duro desespero e dar as costas a tanta gente. Fantasmas de pedreiras,  trapiches, portos, cemitérios e presídios. Fantasmas de golpes de estado e de caças às bruxas. Fantasmas de Duques de Caxias e Marechais de Ferro. Fantasmas.