Saturday, January 12, 2019

Poesia portuguesa: Ruy Belo

Breve Sonata em Sol [Um] (Menor, claro)
Ruy Belo

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia

Friday, January 11, 2019

Nova série: Poesia Portuguesa

Lavoisier
Carlos de Oliveira

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto 
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Fonte: Trabalho Poético, 99

Tuesday, January 08, 2019

You're So Paranoid You Probably Think This Essay Is About You

Aprendendo muito com a leitura de Touching Feeling: Affect, Pedagogy, Performativity (2003) de Eve Sedgewick, principalmente com "Paranoid Reading and Reparative Reading, or, You're So Paranoid You Probably Think This Essay Is About You".

Uma questão premente: se você escreve almejando relevância política/cultural, como escrever efetivamente? Para Sedgewick trata-se de escrever afetivamente com a intenção de buscar formas de reparar danos e propor alívios possíveis. 

Qual a chave para tentar escrever assim? Primeiramente escrever sem medo de escorregar e cair. Sem medo de errar feio e se expor ao ridículo. 

Sem coragem para se expor, nos rendemos à paranóia. E assumindo uma perspectiva paranóica, sonhamos com uma voz poderosa que se levanta indestrutível e incontestável - "lacradora". Essa voz pensa seu papel cultural como um elementor desmistificador: revelando verdades e mentiras, separando o joio do trigo, iluminando o caminho das pedras. 

A voz paranóica é, na melhor das hipóteses, um pastiche da voz do poder. Assim sendo, apenas se junta ao coro monótono do GRANDE PAI.

Monday, December 31, 2018

Vieira e a força da literatura


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Por força do meu ofício tive que traduzir para o inglês o seguinte trecho do "Sermão do Espírito Santo" de António Vieira:

"Os que andastes pelo mundo, e entrastes em casas de prazer de príncipes, veríeis naqueles quadros e naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe descompõe as orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidos, uma vez que receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário — e estas são as do Brasil —, que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. É necessário que assista sempre a estas estátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não vêem; outra vez, que lhes cerceie o que vicejam as orelhas, para que não dêem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez, que lhes decepe o que vicejam as mãos e os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só desta maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural, e compostura dos ramos."

Eis a minha tradução:

Those of you who have been in the world and entered a prince’s garden pavilion may recall that in those scenes and garden paths there are two very distinct kinds of statues: those made of marble and those made of myrtle. Making a marble statue takes a lot of effort because of its raw material, which is sturdy and resistant, but once the statue is ready, it is not necessary to lay a hand on it anymore, for it will always preserve and display the same figure. A myrtle statue otherwise may be easy to shape because of how easy it is to bend its branches, but constant reforming and reworking is necessary so that it stays the same. If a gardener stops tending to the bush, in four days a branch comes out piercing through its eyes, another branch dismantles the ear, and other two turn five fingers into seven. And what used to be a man is now a green tangle of myrtle. Here is the difference between some nations and others in the doctrine of faith. There are some nations that are naturally hard, tenacious and constant. They are recalcitrant to take in a new faith or to leave behind the errors of their forefathers. They resist with weapons, they lay doubt with their reasoning, they loathe with their will, they shut themselves up, they persevere, they argue, they dispute, and they struggle greatly before they finally surrender. However, once they surrender, once they accept the faith, they stay on it, firm and constant like marble statues: there is no need to work on them anymore. There are other nations, however, — and among them there are those of Brazil —, which accept everything they get taught with great meekness and ease, without contestation, without replying, without doubting, without resisting. But they are myrtle statues which, just as the gardener lays down his hand and his scissors, soon lose their shape and return to their ancient, natural brutishness, to be once again weed. Their tutor must tend to them constantly: he has to cuts off what grew out of the statues’ eyes so that they are able to believe in what they cannot see; he has to prune what grows out of the statues’ ears so that they won’t listen to the fables of their forefathers; and he has to cut off what grows out of their hands and feet so that they abstain from the barbarous heathen actions and customs. And it is only in this manner, always working against the nature of the trunk and the humor of the roots, that we can preserve in these rude plants these non-natural forms and the composition of their branches.


Esse trecho Vieira talvez seja hoje em dia mais conhecido por ser usado na abertura do capítulo 3 de A inconstância selvagem de Eduardo Viveiros de Castro, onde o antropólogo o trata como documento histórico e aliás oferece várias outras instâncias nas quais missionários diversos se queixam mais ou menos da mesma coisa que ele define como "inconstância".

O que sempre me surpreende não é exatamente o argumento ou as capacidades críticas de Vieira, mas a inteligência da sua prosa, Essa coisa que eu chamo de inteligência da prosa acaba sustentando a sobrevivência de um texto todo marcado por ideias datadas sobre selvagens e civilizados, cristãos e bárbaros, europeus e indígenas [bom, datadas para mim pelo menos, já que aparentemente coisas como a superioridade do cristianismo e da cultura européia ainda são verdades absolutas para muita gente, inclusive gente com poderes no governo federal brasileiro].

A prosa viva de Vieira descreve de forma interessantíssima o que pode ser uma outra forma de resistência. Uma estranha resistência que aparentemente não resiste, que aceita o contato até afavelmente, mas segue lentamente de volta a uma outra coisa que o jardineiro/missionário não reconhece como forma alguma. Essa monstruosa forma sem forma parece algo como o informe de Bataille, para ele por si só indescritível. Talvez tenhamos que contar com ela a partir de 2019. Talvez seja mais do que uma resistência possível.

Ainda por cima a prosa inteligente de Vieira nos deixa espaço para pensar num outro aspecto importante no contato assimétrico entre culturas. Eu me refiro ao processo que ele descreve como uma moldagem do outro a sua própria imagem e semelhança. A imagem da poda da murta ou da lapidação do mármore nos deixa antever esse processo como algo pelo menos potencialmente destrutivo, tanto para a planta como para a pedra. No entusiasmo e afobação de moldar o outro na forma exata do mesmo, quebra-se a pedra e mata-se a murta. Isso serviria para qualquer tipo de pedagogia, aliás. Porque ensinar pode ser só mais uma instância desse encontro assimétrico de culturas ou pode ser um lugar utópico de um encontro mais simétrico, mais igualitário, menos destrutor.

Preciso muito me lembrar porque eu me meti com educação. Foi pela possibilidade de criar um espaço libertário. Tudo a minha volta na universidade vai em outra direção, tecnicista, massacrante, burocratizante, morta. Mas eu não vou me entregar.

Tuesday, December 11, 2018

Obituário: Roger Avanzi, ou o que podemos reconhecer e aprender com o cruel mundo dos palhaços




O mundo dos palhaços não é um nunca mundo gentil e pacífico. Na base das relações entre os diversos palhaços [cada um executando a sua função específica no picadeiro] frequentemente aparece a questão do subjugamento violento de um ser humano por outro e também da instabilidade precária nessa relação de dominação, já que o dominado pode de repente levantar-se e transformar-se no dominador. Tudo no mundo dos palhaços é mediado pela lógica da caricatura, do exagero, mas uma vez que se compreenda que se trata de uma convenção grotesca, a crueldade constante do mundo do picadeiro fica clara. No seu manual mínimo do ator, Dario Fo explica que todos os palhaços "lidam com o mesmo problema, com a fome: fome de comida, fome de sexo, mas também fome de dignidade, de identidade, fome de poder" [I clown, come i giullari e i «comici», trattano sempre dello stesso problema, della fame: fame di cibo, fame di sesso, ma anche fame di dignità, di identità, fame di potere"]. É o mundo da fome é, também, um mundo de desespero. 


O mundo dos picadeiros e dos palcos populares formou a comédia dramática que migrou para o cinema, por exemplo, com Buster Keaton saindo do trabalho no vaudeville como Toni de Soirée com os pais desde que era criancinha para as telas do cinema, sempre apanhando e fugindo ou perseguindo e batendo alguém. O cinema americano seria dominado por uma série de grandes comediantes judeus [Charles Chaplin, o Gordo e o Magro, os Três Patetas e até os irmãos Marx até Jerry Lewis e o primeiro Woody Allen, beberam dessa fonte. Principalmente na América Latina, até bem pouco tempo, o mundo da comédia [e do drama] ainda descendia quase todo do universo circense dos palhaços com Oscarito, Grande Otelo, Mazzaropi até Os Trapalhões.


Veja um exemplo contemporâneo do que estou dizendo. O cômico argentino Francella gravou uma série de esquetes curtos para o seu programa de televisão chamados de "Um dia de fúria". Francella faz aqui o papel do pequeno burguês risinho e bonzinho com seus sonhos infantis de consumo: comer um sanduíche no draivetrú do Maquedonaldes antes de ir ao cinema com a esposa, comprando uma televisão nova para assistir o jogo de futebol da seleção com os amigos, usando pela primeira vez uma máquina fotográfica para documentar uma festa de família. O personagem quer fazer tudo certinho para replicar na vida real a alegria eficiente dos comerciais de televisão e dos enlatados dos Estados Unidos, mas então os problemas da vida dura começam a aparecer: a moça do draivetru não entende e erra o pedido, a televisão nova não funciona bem na hora do jogo, o pequeno-burguês aparvalhado não consegue fazer funcionar o disparador automático da máquina que lhe permitiria fotografia a família inteira na hora de soprar a velhinha. O desespero vai crescendo exponencialmente e aquela calma e alegria pequeno-burguesa começa a ruir em pedaços.

Nós somos instados a rir da infatilidade dos seus sonhos de consumo [que são nossos], a gargalhar com o desespero do pequeno-burguês [que é nosso desespero também] e a esperar com antecipação pela explosão final em que o pequeno-burguês explode em revolta com o seu taco de beisebol e quebra tudo à sua frente. Essa raiva e frustração do personagem do Francella ficou para mim palpável nas ruas e nas residência da classe média brasileira dos panelaços e nos linchamentos promovidos por todos democraticamente nas ruas do Brasil. 

O palhaço ri de nós, como explica Roger Avanzi no caso do palhaço silencioso e não-risonho, o Toni de Soirée: 

"sua arte consiste em representar o erro, em cair. […] Mas enquanto o público está rindo do palhaço, o palhaço ri do povo que pensa que ele caiu. Não caiu, simulou a queda, tem técnica, não se machucou". 


Nascido em 7 de novembro de 1922, em São José do Rio Preto, Roger Avanzi morreu hoje. Ele era filho de Nerino e Armandine. Seu pai foi fundador do circo Nerino, e foi lá onde desenvolveu habilidades como acrobata, equilibrista e claro, palhaço como Picolino II, já que seu pai interpretava o mesmo palhaço. Reeditei esse velho post em sua homenagem. Mais sobre Avanzi aqui