Wednesday, August 23, 2017

Entre o 1984 de Orwell e o nosso 2017

Estamos lendo em voz alta em conjunto e ao ritmo de um capítulo por dia o livro 1984 de George Orwell. Estamos ainda no capítulo 5 e, se algumas passagens me impressionam, não é pelo que o livro teria, supostamente, de profecia sobre o futuro. Acho que Orwell foi esperto o suficiente ao não tentar adivinhar como seria a vida de fato em 1984, mas em concentrar-se numa espécie de caricatura grotesca para coisas grotescas que já aconteciam na época mesma em que o livro foi escrito.  

Nem por isso deixei de sentir um arrepio, por exemplo, lendo em voz alta para o meu filho, que nasceu nos Estados Unidos menos de três meses antes do ataque de 11 de setembro e que, portanto, vive num país em guerra desde sempre, a seguinte passagem: 

"Winston could not definitely remember 
a time when his country had not been at war..."
"Winston não podia se lembrar com exatidão sobre um tempo 
em que seu país não estivesse em guerra..."

O curioso é que o estado de guerra permanente em que os Estados Unidos vivem desde então foi normatizado a tal ponto que todas as muitas mudanças introduzidas na cultura e na vida diária foram completamente normatizadas e por isso passam desapercebidas. A exceção é claro são aqueles que, em troca de algum sonho de ascenção numa sociedade estratificada e engessada há muito tempo, estão no campo de batalha, e de suas famílias - muito se fala sobre eles, sempre com um pieguismo culpado de filme americano, mas no fim das contas o fim do alistamento universal depois do Vietnã permitiu que a guerra seja invisível para muita gente. 

Senti outro arrepio, de outra natureza, quando li essa outra passagem que apresenta com precisão acidental um certo estado de espírito dos dias de hoje:

"The enemy of the moment always represented absolute evil, and it followed that any past or future agreement with him was impossible." [43]
"O inimigo do memento sempre representava o mal absoluto, e daí concluía-se que qualquer acordo, passado ou futuro, com ele era impossível.  

Um mundo como o nosso, aparentemente governado por conflitos sempre dispostos de forma tão absoluta e irreconciliável, rapidamente caminha para um mundo totalitário, onde o único destino aceitável para os nossos inimigos políticos [e outros inimigos também] é a cadeia. Ou pior: a morte.  

Saturday, August 19, 2017

Poesia mexicana: Muerte sin fin de José Gorostiza

Natureza Morta da pintora Janet Fish [mais dela aqui]
Como chamar a atenção de gente que não conhece literatura mexicana para um poema maravilhoso como "Muerte sin fin" de José Gorostiza? Enchê-lo de superlativos do tipo "o melhor", "o mais importante", "o mais maravilhoso"? Fazer comparações com poemas maravilhosos que o leitor brasileiro conhece? Escrever desse jeito é fazer um ritual que para mim está gasto e sem sentido, mas não fazer esses rituais significa escrever às moscas? Minha gastura ganha. Não sou hoje um bom defensor de "Muerte sin fin" nem de Gorostiza. Paciência. Hoje estou assim, "um desabar de anjos caídos à delcícia intacta do seu pesocontido dentro do meu corpo como a água do poema de Gorostiza está contida nessa primeira parte do poema dentro do copo "rede de cristal que a estrangula".  

MUERTE SIN FIN



                                    Conmigo está el consejo y el ser: yo
                                    soy la inteligencia; mía es la fortaleza
                                    PROVERBIOS, 8, 14

                  Con él estaba yo ordenándolo todo;y
                                    fui su delicia todos los días, teniendo
                                    solaz delante de él en todo tiempo.
                                    PROVERBIOS, 8, 30

                  Mas el que peca contra mí defrauda
                                    su alma; todos los que me aborrecen
                                    aman la muerte.
                                    PROVERBIOS, 8, 36

I
LLENO DE MI, sitiado en mi epidermis
por un dios inasible que me ahoga,
mentido acaso
por su radiante atmósfera de luces
que oculta mi conciencia derramada,
mis alas rotas en esquirlas de aire,
mi torpe andar a tientas por el lodo;
lleno de mí —ahíto— me descubro
en la imagen atónita del agua,
que tan sólo es un tumbo inmarcesible,
un desplome de ángeles caídos
a la delicia intacta de su peso,
que nada tiene
sino la cara en blanco
hundida a medias ya, como una risa agónica,
en las tenues holandas de la nube
y en los funestos cánticos del mar
—más resabio de sal o albor de cúmulo
que sola prisa de acosada espuma.
No obstante —oh paradoja— constreñida
por el rigor del vaso que la aclara,
el agua toma forma.
En él se asienta, ahonda y edifica,
cumple una edad amarga de silencios
y un reposo gentil de muerte niña,
sonriente, que desflora
un más allá de pájaros
en desbandada.
En la red de cristal que la estrangula,
allí, como en el agua de un espejo,
se reconoce;
atada allí, gota con gota,
marchito el tropo de espuma en la garganta
¡qué desnudez de agua tan intensa,
qué agua tan agua,
está en su orbe tornasol soñando,
cantando ya una sed de hielo justo!
¡Mas qué vaso —también— más providente
éste que así se hinche
como una estrella en grano,
que así, en heroica promisión, se enciende
como un seno habitado por la dicha,
y rinde así, puntual,
una rotunda flor
de transparencia al agua,
un ojo proyectil que cobra alturas
y una ventana a gritos luminosos
sobre esa libertad enardecida

que se agobia de cándidas prisiones!

Wednesday, August 09, 2017

Juan Rulfo por ele mesmo, entre o horror e a maravilha, desde a infância

Juan e seu irmão Severiano
Eis aqui Juan Rulfo, contando do seu encontro formador com os horrores da guerra e as maravilhas da leitura ali na infância:


Cuando se fue a la Cristiada, el cura de mi pueblo dejó su biblioteca en la casa porque nosotros vivíamos frente al curato convertido en cuartel y, antes de irse, el cura hizo toda su mudanza. Tenía muchos libros porque él se decía censor eclesiástico y recogía de las casas los libros de la gente que los tenía para ver si podía leerlos. Tenía el índex y con ése los prohibía, pero lo que hacía en realidad era quedarse con ellos porque en su biblioteca había muchos más libros profanos que religiosos, los mismos que yo me senté a leer, las novelas de Alejandro Dumas, las de Victor Hugo, Dick Turpin, Buffalo Bill, Sitting Bull. Todo eso lo leí yo a los diez años, me pasaba todo el tiempo leyendo, no podías salir a la calle porque te podía tocar un balazo. Yo oía muchos balazos. Después de algún combate entre los federales y los cristeros había colgados en todos los postes. Eso sí, tanto saqueaban los federales como los cristeros. (Vital: 2004, 36)

A Cristiada foi um levante de grupos católicos contra as reformas do governo de Plutarco Elías Calles [o laicizante de um é o anti-clérico do outro]. Lá fora as balas, os saques e os corpos pendurados pelo pescoço nos postes; ali dentro a literatura. 

Saturday, July 22, 2017

Com que idade morreu seu escritor brasileiro morto favorito?

Álvares de Azevedo morreu com 20 anos.
Castro Alves morreu com 24 anos.
Cruz e Souza morreu com 36 anos.
Lima Barreto morreu com 42 anos.
Leminski morreu com 44 anos.
Caio Fernando Abreu morreu com 47 anos.
José de Alencar morreu com 48 anos.
Mário de Andrade morreu com 51 anos.
Samuel Rawet morreu com 55 anos.
José Lins do Rego morreu com 56 anos.
Clarice Lispector morreu com 57 anos.
Gregório de Matos morreu com 58 anos.
Guimarães Rosa morreu com 59 anos.
Graciliano Ramos e Cláudio Manuel da Costa morreram com 60 anos.
Cecília Meireles morreu com 63 anos.
Oswald de Andrade morreu com 64 anos.
Monteiro Lobato morreu com 66 anos.
Sousândrade morreu com 68 anos.
Machado de Assis e Paulo Mendes Campos morreram com 69 anos.
Érico Veríssimo morreu com 70 anos.
Hilda Hilst e Moacyr Scliar morreram com 73 anos.
Murilo Mendes morreu com 74 anos.
Murilo Rubião morreu com 75 anos.
Antonio Callado morreu com 80 anos.
Manuel Bandeira morreu com 82 anos.
Carlos Drummond de Andrade morreu com 84 anos.
Mário Quintana morreu com 87 anos.
António Vieira morreu com 89 anos.
Rachel de Queiroz morreu com 82 anos.

Monday, July 17, 2017

Lembranças de uma viagem à Porto Alegre [que ainda não acabou]

"O melhor será, talvez, deixar rolar uma primeira leitura que vai fatalmente operar-se em nós segundo a tal lente que é uma espécie de falsa consciência, mas em seguida submeter essa leitura a uma apreciação que nos permita olhar para a nossa leitura de longe, vendo como é que ela se organiza e avaliando, assim  então, os compromissos e os limites que ela nos impõe."

Luis Augusto Fischer, Filosofia Mínima, 44


Talvez o melhor, sim, deveras, seja fazer esse movimento de afastamento irônico da nossa própria leitura. Mas acho que é impossível levar esse movimento  de afastamento até as últimas consequências. Como conciliar a ideia de um afastamento irônico de si mesmo com a ideia de reconhecer a si mesmo dentro de si mesmo? Aquela cara ali no espelho sou eu mesmo? Os espelhos de Machado de Assis e Guimarães Rosa dizem que não. Pelo menos não exatamente.

Friday, July 07, 2017

Sobre a Clarice de Moser

Lendo a biografia que Benjamin Moser escreveu sobre Clarice Lispector tenho uma visão aguda da forte cisão entre o estudioso crítico formado no ambiente universitário e o fabulador que todo o historiador/biógrafo necessariamente tem que ser. Um observa carrancudo os esforços em transformar a vida de Clarice Lispector numa história espetacular cheia de aventuras impressionantes cuja obra literária não é mais que um comentário cifrado, enquanto o outro se deleita exatamente com essa história e seu personagem enigmático sem se preocupar com os exageros do fabulador fabuloso.

Triste cisão.

Seria maravilhoso unir o fabular fabuloso com as exigências "científicas" da crítica literária universitária e ser esse super-escritor que ousaria fracassar como a filosofia de Schiller ameaça fracassar, afundando-se "nos abismos e nos turbilhões da imaginação poetizante" ao invés de se encalhar "nos áridos bancos de areia das secas abstrações". O que era possibilidade na carta de Schiller ao sereníssimo príncipe é certeza na carta do solitário blogueiro jogado às moscas: fracassamos todos nós, fabuladores ou cientistas - Faulkner estava absolutamente certo a esse respeito - e cabe a nós fazer desses nossos fracassos algo de alguma maneira esplêndido.

Thursday, June 22, 2017

Quando o cinema fica "preso ao símbolo, incapaz de se apagar diante das coisas"

Neste mês de junho o blogue do crítico decinema do Estadão Luiz Carlos Merten traz uma série de comentários sobre o livro L’Art d’Aimer, coletâneas com textos diversos do crítico francês Jean Douchet, incuindo entrevistas com o próprio.

Especificamente no dia 11 de junho de 2017 Merten comenta as resenhas feitas por Douchet para o Cahiers du Cinema em várias edições do Festival de Cannes. e destaca um comentário pelo crítico francês sobre Buñuel, que apresentou Viridiana à Palma de Ouro em 1961. Traduzido para o português por Merten, ficamos nos seguintes termos: “Buñuel é um autor, mas não um metteur-en-scène, exceto por momentos. Fica sempre preso ao símbolo, incapaz de se apagar diante das coisas”.

Cena de Viridiana de Buñuel
Quero me ater aqui à segunda frase desse curto comentário, que me impressiona pela concisão e pela riqueza. Seríamos capazes de classificar os artistas em geral [vou além da proposição de Douchet, que se atém a diretores de cinema] pela sua capacidade de se apagar diante das coisas? Por um lado, penso na natureza desse auto apagamento e vejo nele um artifício eminentemente retórico. Seria mais pertinente, portanto, falar de uma disposição para o auto apagamento mais do que para uma capacidade de fazê-lo. Poderíamos, por outro lado, argumentar que o relativo apagamento do artista diante das coisas é o centro da questão, já que pragmaticamente pouco importa se esse apagamento é fruto da capacidade ou da disposição daquele que se apaga nas coisas. Fica a minha vontade de deslocar um pouco o comentário e transformar o termo capacidade num binômio capacidade/disposição, ainda que seja para afirmar que a atitude de Buñuel não uma incapacidade, mas sim uma disponibilidade para uma linguagem abertamente simbólica.

O que nos leva à outra parte da proposição de ­­Douchet, que é para mim ainda mais intrigante. Esse relativo apagamento implicaria na libertação do artista em relação ao símbolo – símbolo que, para Douchet, é indiscutivelmente uma prisão, pelo menos no caso de Buñuel de Viridiana. Apagar-se diante das coisas seria não fazer das coisas veículo para a expressão retórica do cineasta. Suponho aqui que Douchet imaginasse que o filme ideal nos apresentaria essas tais coisas do mundo [coisas que o diretor mete em cena] e que o simbolismo [talvez até a vontade de simbolismo] faz dessas coisas veículo para si mesmo e acaba aprisionando o diretor de cinema no papel de Autor - meio como o tradutor aparecido que insiste em chamar a atenção para si e para o seu trabalho ao invés de exercer seu ofício em silêncio estilístico. A expressão do diretor que não se apaga diante das coisas está contido numa forma de prisão – vejam que blasfêmia ouvir isso hoje, quando parece que todo mundo na face da terra precisa se expressar, se colocar, se definir, se explicar no palanque público das redes sociais.


-->
Acho interessante a proposição de Douchet. Mas não tenho essa preferência dele pelos diretores que são mais metteurs-en-scène, em detrimento daqueles que, como Buñuel, se comunicam simbolicamente como autores. E antes de dizer isso, devia explicar que suspeito que todo artista exerça ambos papéis ainda que em proporções diferentes, tendendo a deixar prevalecer uma ou outra faceta, não apenas como fruto da sua capacidade/disposição mas também do tipo de arte que tenta fazer. Isso é assunto para um outro dia, mas o cinema é uma arte coletiva tão complexa que é comum a gente ver um abismo entre o desejo do realizador e a realidade do filme, uma rodovia de doze pistas toda pavimentada de boas e más intenções, rumo ao inferno - e confesso que esse caráter mambembe do cinema, mas me atrai que irrita.