Tuesday, September 18, 2018

Kafka publica seu primeiro livro

Kafka publica seu primeiro livro, Contemplação, no fim de 1912, com uma pequena tiragem de 800 cópias. A editora paga por um anúncio de página inteira no periódico alemão da indústria do livro, explicando que o escritor, já conhecido nos círculos literários por ter publicado textos em revistas como a Hyperion [onde oito dos 18 textos de Contemplação já tinham aparecido], tinha "uma tendência compulsiva de revisar seus trabalhos", e por isso só publicava seu primeiro livro naquele ano. Menos de 450 exemplares de Contemplação são vendidos nos três primeiros anos e até 1924, ano da morte do autor, a primeira edição ainda não havia esgotado. Não se cogita portanto uma segunda edição da obra naquela época.

Kafka segue escrevendo mesmo assim e, no mesmo fim de 1912, ele escreve "A Metamorfose".

Friday, September 14, 2018

Milton entre letristas num momento luminoso



A música [sensacional, melodicamente e ritmicamente tão ousada] é de Milton Nascimento, mas a letra é dividida entre os dois parceiros mais importantes dele: Márcio Borges [que predomina na primeira parte da carreira nos anos 70] e Fernando Brant [que predomina na segunda, nos anos 80]. Ainda que eu prefira muito mais o Milton Nascimento dos anos 70, Fernando Brant era um excelente letrista, tão bom quanto Márcio Borges. São letristas excelentes e diferentes: as letras de Márcio Borges são mais ácidas, tem mais arestas e momentos de surrealismo, enquanto as de Fernando são bem mais claras, luminosas, alcançando num equilíbrio difícil entre a circunspecção e a sinceridade. 

Suponho, sem saber ao certo, que Fernando Brant começa e que Márcio Borges assume a partir de "Alertem todos os alarmas". Aqui a letra:

O que foi feito, amigo,
De tudo que a gente sonhou?
O que foi feito da vida?
O que foi feito do amor?

Quisera encontrar
aquele verso menino
que escrevi há tantos anos atrás.

Falo assim sem saudade.
Falo assim por saber:
Se muito vale o já feito,
Mais vale o que será. [Mais vale o que será!]
E o que foi feito é preciso conhecer
para melhor prosseguir.

Falo assim sem tristeza.
Falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer. [Nós iremos crescer]
Outros outubros virão.
Outras manhãs
plenas de sol e de luz.

Alertem todos os alarmas
Que o homem que eu era voltou.
A tribo toda reunida.
Ração dividida ao sol
de nossa Vera Cruz.
Quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par.

Quando o cansaço era rio
E rio qualquer dava pé.
E a cabeça rodava
num gira-girar de amor.
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz.

Hoje essa vida só cabe
Na palma da minha paixão.
Devera nunca se acabe
Abelha fazendo o seu mel. [No canto que criei!]
Nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós.

Wednesday, September 12, 2018

Só o pessimismo inconformado nos une

Pessimismo inconformado [mas progressista] de Manuel Bomfim em 1905:

Ninguém se deteve a examinar o caso e procurar os meios eficazes de se fazer a transformação na produção. Não viam, sequer, que o trabalho livre deve ser inteligente e aperfeiçoado, e que era mister, antes de mais nada, educar o trabalhador, instruí-lo, levar o produtor a melhorar os seus processos, meio único de compensar a barateza do trabalho escravo que se perdia. Disto não se cogitou. Decretou-se a libertação, e foram-se todos, considerando a reforma como acabada; e se alguém ainda se ocupou do caso – foi para pedir ou propor que se importassem braços baratos, que pudessem substituir os antigos escravos, nada se alterando nos costumes e nos processos: chineses ou italianos, que viessem ocupar as antigas senzalas – um salário baixo, equivalente à alimentação e ao juro do preço do negro... tudo mais como dantes. Quanto a essa população das classes inferiores, antigos escravos, nacionais proletários – quanto a estes: que sejam obrigados por lei a trabalhar; pedem-se leis sobre a vagabundagem, lei de locação de serviços, na convicção de que, no momento em que alguns decretos, substanciosos de artigos e parágrafos, vierem publicados, todos esses homens se tornarão logo ativos, adorando o trabalho, e dispostos a dar o seu labor ao fazendeiro ocioso e bruto, por um salário miserável. O essencial era garantir o fazendeiro tal qual ele é, criando embora dificuldades no futuro. E o fazendeiro, que viveu sempre parasita, já não quer somente braços baratos; reclama também quotas diretas, em espécie – auxílios à lavoura, compensação aos lucros cessantes... Ontem parasita do escravo, hoje parasita do Estado – é-lhe indiferente, certamente, quem o tenha de manter, contanto que não haja de alterar o viver. E os auxílios vêm; mas nem ele se sacia nem melhoram as condições da lavoura, convertida hoje em verdadeiro pauperismo, cuja miséria aumenta na proporção das esmolas e auxílios que recebe." 
(América Latina: Males de Origem, 125)



Pessimismo inconformado (e reacionário) de Oliveira Viana em 1920: 

"Há um século estamos sendo como os fumadores de ópio, no meio de raças ativas, audazes e progressivas. Há um século estamos vivendo de sonhos e ficções, no meio de povos práticos e objetivos. Há um século estamos cultivando a política do devaneio e da ilusão diante de homens de ação e de prea, que, por toda parte, em todas as regiões do globo, vão plantando, pela paz ou pela força, os padrões da sua soberania. Nesse contato, que se torna cada vez mais estreito, o nosso destino já está pré-traçado. É o das panelas de barro do apólogo, que giram e regiram no mesmo remanso ao lado das panelas de ferro, e aquelas acabam, num choque, espedaçando." 
(Populações Meridionais do Brasil, 58)

Wednesday, September 05, 2018

Traduzindo "A fórmula secreta" de Juan Rulfo

O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro já seria suficientemente triste. Quando penso que recentemente cogitei fazer concurso e tentar voltar para o Brasil, me arrepio. No momento atual me sentiria como um judeu voltando à Alemanha antes da Noite dos Cristais. As perspectivas por aqui estão muito longe de excelentes, mas é inegável que no Brasil entramos num novo ciclo de auto-destruição, ainda mais intenso que os anteriores. Sua intensidade, com direito à expulsão de refugiados venezuelanos em Roraima, não parece ter criado qualquer senso de urgência em ninguém.
Este ciclo, como aquele longo inverno que começou num 1o de abril de 1964, está sendo calmamente recebido por imprensa e judiciário, e visto por alguns como chance de "redenção" de um país perdido. A mesma dupla que apoiou 1964 e depois lavou as mãos como se não tivesse nada a ver com aquilo, hoje nos assegura que as nossas prezadas instituições republicanas continuam funcionando em perfeito estado. O incêndio do museu apenas indica para a necessidade de acelerar as "reformas" que prometem transformar o Brasil num país ainda mais selvagem em seu capitalismo neo-escravista.  O que estamos cozinhando agora no Brasil é um imenso massacre concertado como o que varreu a Argentina nos anos 70, culminando com copa do mundo e tudo.

Mas também reconheço que não foram os que ficaram se comiserando - como faço aqui agora - que nos ajudaram a sair daquele inferno de 25 anos. Aquela estúpida ditadura que acabou justamente com o derretimento de um país que se afogava entre estagnação econômica, dívida externa e hiperinflação também acabou por causa de muita luta de muita gente vigorosa e determinada. Mas fico me perguntando hoje qual o sentido daquela luta toda daquelas pessoas em vista desse novo ciclo infernal que nos assola. O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro já seria suficientemente triste. E ainda tanta estupidez exibida tão despudoradamente por todos os lados. Tantas frases de efeito, tanta barbaridade. Tanta mentira.

Traduzi não faz muito tempo um poema de Juan Rulfo usado no filme A fórmula secreta de Rubén Gámez. Volta ao poema com pesar, pensando em como ele se aplica, infelizmente, ao Brasil de 2018:


A Fórmula Secreta

I
Dirão vocês que é pura tolice a minha,
que é um desatino lamentar-se da sorte
e ainda mais dessa terra pasma
onde nos esqueceu o destino.

A verdade é que custa trabalho
aclimatar-se à fome.

E ainda que digam que a fome
repartida entre muitos
afeta menos,
o único que é certo é que aqui
todos
estamos à beira da morte
e não temos nem sequer
onde cair mortos.

Pelo que parece
vem aí desgraça da brava.
Nada que dê um nó cego
a esse assunto.
Nada disso.
Desde que o mundo é mundo
andamos com o umbigo colado à espinha,
agarrando-se contra o vento à unha.

Eles nos regulam até a sombra,
e apesar de tudo
assim seguimos:
meio aturdidos pelo sol maldito
que no diário nos distribui despedaços
sempre com o mesmo ferro,
como se ele quisesse reviver mais o rescaldo.
Ainda que saibamos bem
que nem ardendo em brasas
dará luz a nossa sorte.

Mas somos obstinados.
Talvez isso tenha conserto.

O mundo está inundado de gente como a gente,
de muita gente como a gente.
E alguém tem de nos escutar,
alguém e alguns mais
ainda que rebatam ou se arrebentem
com os nossos gritos.

Não é que sejamos metidos
Nem que estejamos pedindo esmolas à lua.
Nem é do nosso proceder meter-se depressa num buraco
ou cascar fora pras montanhas
toda vez que alguém vem nos atiçar os cachorros.

Alguém terá que ouvir-nos.

Quando deixarmos de grunhir como vespas em
enxame,
ou virarmos rabo de redemoinho,
ou quando terminarmos escorrendo sobre
a terra
com um relâmpago de mortos,
então
talvez
tenhamos todos
remédio.

II
Rabo de relâmpago,
     redemoinho de mortos.
Com o vôo que levam,
     pouco durará seu esforço.
Talvez acabem desfeitos em espuma
     ou os trague esse ar cheio de cinzas.
E até podem perder-se
     indo às cegas
          entre a escuridão revolvida.
No fim das contas já são puro escombro.

A alma haverá de se ter partido
     de tanto dar encontrões com a vida.
Vai que se embaracem entre as fibras
geladas da noite,
ou o medo os liquide
     apagando-lhes até o hálito.

São Mateus amanheceu desde ontem
com a cara ensombrecida.
Rogai por nós.

Almas benditas do purgatório.
Rogai por nós.

Tão alta está a noite e nem há com o que velá-los.
Rogai por nós.

Santo Deus, Santo Imortal.
Rogai por nós.

Já estão todos meio passados de tanto sol
     chupando-lhes o sumo.
Rogai por nós.

Santo são Antoninho.
Rogai por nós.

Rebanho de gente ruim, bando de folgados,
Rogai por nós.

Cambada de velhacos, fileira de vadios
Rogai por nós.

Trança de bandidos.
Rogai por nós.

Ao menos estes já não viverão encharcados pela fome.

Tuesday, September 04, 2018

Castro Alves fala sobre a separação de Eugenia Camara

Amália Rodrigues e Paulo Maurício
como Eugénia Camara e Castro Alves
no filme Vendaval Maravilhoso de 1949
Trecho muito interessante da última entrevista de Castro Alves, de 1871 [a entrevista completa pode ser encontrada aqui ou aqui], quando ele fala sobre o fim do seu relacionamento com a atriz Eugénia Camara:

"... lá [em São Paulo] o nosso amor chegou ao fim. O meu objetivo era terminar os estudos na Faculdade do Largo de São Francisco e o de D. Eugênia retornar aos palcos. No início retomamos a vida intelectual e boêmia, freqüentando saraus e salões, sempre com muito sucesso. Porém, rapidamente, o nosso relacionamento se deteriorou. Eram cada vez mais constantes as nossas desavenças. Cenas violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações. Sopravam-me histórias de adultério. No entanto, sei que ela me amou, como sei que, talvez, meu amor tenha sido insuficiente para sua paixão. Não a recrimino. Em determinado momento, largou a carreira para me seguir. Depois, me largou para seguir a si própria. Rompemos em 68 e a última vez que a vi foi no ano seguinte apresentando-se no Teatro Fênix Dramática, no Rio de Janeiro, quando pude lhe oferecer meus derradeiros aplausos. Despedi-me de Eugênia com a poesia 'Adeus', que termina assim (acomodando-se na cadeira):

Quis te odiar, não pude. – Quis na Terra
Encontrar outro amor. – Foi-me impossível.
Então bendisse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.
 
Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua:
Não quero mais teu amor! Porém minh’alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.
 
E Eugênia me respondeu com uma outra e que sei de cor. Vou dizer-lhe a primeira e a derradeira das 14 estrofes (a voz um pouco mais baixa):
 
Adeus, irmão desta alma, digo-te Adeus!
Mas deixa que eu evite esse – jamais! –
Que o céu se compadeça aos rogos meus
E um dia cessarão teus e meus ais!
 
Adeus! Se um dia o Destino
Nos fizer ainda encontrar
Como irmã ou como amante

Sempre! Sempre me hás de achar."

Thursday, August 30, 2018

Traduzindo o monólogo de Segismundo de Calderón de la Barca

Goya, 1799

Monólogo de Segismundo [1636]

Sonha o rei que é rei, e vive,
com este engano, mandando,
dispondo e governando;
e este aplauso, que recebe
emprestado, no vento escreve,
e em cinzas lhe converte
a morte, maldita morte!
Haverá quem tente reinar
vendo que há de despertar
no sonho da morte?
Sonha o rico na sua riqueza
que mais cuidados lhe oferece;
Sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
Sonha o que a medrar começa,
Sonha o que afana e pretende,
Sonha o que agrava e ofende,
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
ainda que ninguém o entenda.
Eu sonho que estou aqui
Destas prisões encarregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
O que é a vida? Um frenesi.
O que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção,
e o maior dos bens é pequeno:
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.


[No original de La vida es sueño de Calderón de la Barca] 
Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso, que recibe
prestado, en el viento escribe,
y en cenizas le convierte
la muerte, ¡desdicha fuerte!
¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?
Sueña el rico en su riqueza,
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.
Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño:
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.