Monday, April 22, 2019

Poesia Portuguesa: Alberto Caeiro

Foto Minha: Água em Norman
Deslumbramento foi o que eu senti quando li Alberto Caeiro, essa face mais luminosa de Fernando Pessoa. Se eu pudesse escrever como eu quisesse - uma triste impossibilidade, porque a gente não escreve o que quer como quer, a gente escreve o que dá conta como dá conta - gostaria de escrever forte e simples como Caeiro. Que Caeiro seja apenas uma das muitas faces de Fernando Pessoa me parece um exagero. Como é que Fernando Pessoa guardava tanta coisa assim dentro? Como é que ele dava conta de tanto? Eis um pedacinho do "Guardador de Rebanhos": 

IX
Sou guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso  com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheira-la
E Comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de goza-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado no realidade
Sei a verdade e sou feliz.

Sunday, March 31, 2019

Prosa minha: Vanguarda de Mercado


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- Boa tarde, meus caros ouvintes, a mais uma edição de “Investindo o Seu Dinheiro”. Eu sou seu apresentador, Jadir Sardenbörg, e hoje nós vamos conversar com Otávio Branco, consultor de investimentos da empresa Merry Lynching no Brasil, responsável pela divisão de vanguarda de mercado. Bom, o que vem a ser a vanguarda de mercado, Otávio?
- Bom, Sardenbörg, a vanguarda de mercado é um setor de investimentos de risco mas de altíssimo retorno, ideal para o investidor arrojado que gosta de fazer parte do que há de mais moderno no sistema financeiro e na economia mundial.
- Explica para os nossos ouvintes como são esses investimentos, Otávio.
- Bom, nós lidamos hoje com o que tende a ser o estágio mais avançado do capitalismo atual. São os mercados mais competitivos do planeta, marcados por um excelente nível de empreendedorismo e inovação e, o que é ainda mais importante, Sardenbörg, sem praticamente nenhuma intervenção regulatória do estado.
- Maravilha!
- Pois é. Na Vanguarda do Mercado impera antes de qualquer coisa o mérito: quem inova, quem investe em inovação, quem é mais eficiente, cortando custos e simplificando processos, ganha mais sempre. E a nossa criatividade brasileira, nesse campo, por exemplo, é impressionante. O brasileiro está se dando superbem nessa fatia do mercado já plenamente globalizado como um cidadão do mundo, Sardenbörg. A gente pode mesmo dizer que não existem barreiras de fronteiras nesse setor.
- Maravilha! E como é que o investidor comum, nosso ouvinte aqui da rádio, pode entrar nessa nova onda e investir na vanguarda de mercado?
- Ah, não é difícil. Já existem vários gueites de contato que oferecem eficiência e confiabilidade com taxas de serviço bem acessíveis, já que o setor é praticamente desregulamentado.
- E, para explicar para o nosso ouvinte, o que são isso que você chamou de gueites?
- Os gueites são os pontos de acesso criados por instituições financeiras que nós chamamos de provedoras de brídigis entre a vanguarda do mercado e qualquer investidor interessado. Brídigis são conexões que aproximam o cidadão-investidor comum e os empreendedores do setor propriamente ditos.
- Você pode nos dar um exemplo?
- Claro. Hoje mesmo um ouvinte seu pode nos procurar no nosso escritório virtual e investir seu dinheiro com transparência e segurança, por exemplo, em uma agência de prostituição infantil ou então no mercado de bódi comóditis.
- Bódi comóditis?
- É, são redes de empreendedores de todo o mundo que tratam da captação, extração, armazenamento e distribuição de diversos orgãos, como rins, córneas e até corações, para transplante em tempo real, sem filas nem burocracia. E é um serviço, Sardenbörg, que ajuda milhares de pessoas em situação econômica fragilizada a se capitalizarem e, quem sabe, poder um dia comprar órgãos também. Sabe como é, Sardenbörg: a escassez de descalços é o pior pesadelo da indústria de calçados. Nós oferecemos a oportunidade de encontrar descalços!
- Bom, e como é que o ouvinte pode aproveitar esses serviços, Otávio?
- Pois sem sair de casa, você mesmo, Sardenbörg, pode nos acessar pela internetchi pelo saitchi www.merrylynching.com ou pelo telefone 0800-vanguardji – assim, só com d sem o a no final. Nós atuaremos como seu personal-brídigi-builder e personal-gueite-ôpener e criaremos a sua carteira de investimentos na vanguarda do mercado empreendedores.
- Maravilha!

Thursday, March 21, 2019

Traduzindo fragmentos do livro de Lindsay Waters, "Enemies of Promise"

"O que se convencionou chamar de livre mercado - que de livre não tem nada - não é um conceito que sirva como arcabouço para a livre troca de odeias.
O problema é que os defensores do mercado dizem que o que não pode ser contado não é real."

"O esforço de [Stanley Fish] no sentido de apagar a diferença entre administradores e administrados não pode funcionar. Os dois grupos estão em desencontro. Não há como dourar a pílula. O pessoal do MBA está assumindo o poder da universidade."

"Fomos de um mínino de 1.250 exemplares vendidos por livro das humanidades para 275 exemplares nos últimos 30 anos. [...]
A venda anual das editoras universitárias foram de menos de 25 milhões de dólares em 1963 para 40 milhões em 1970 para 120 milhões em 1982, 350 milhões em 1992 e 360 milhões em 1994."

"Em 1985, 65% do orçamento para compras [do sistema público de Universidades da Califórnia] foi destinado a livros e 35% para revistas; em 2003 o orçamento destina 20% para a compra de livros e 80% para os periódicos. Bibliotecários não estão protegendo as verbas dedicadas a livros de editoras comerciais inescrupulosas que ganham fortunas com periódicos."

"Said reclamava que aqueles que escondiam suas ideias na obscuridade da linguagem técnica - sejam da esquerda ou da direita, tanto faz - tinham dado as costas à vida."

"Números são o veneno, não a cura nesse caso."

"A espontaneidade é essencial para o funcionamento das nossas habilidades conceituais. A censura voluntária tem sido a força dominante na universidade nos últimos 20 anos."

"A crise da monografia [...] nos oferece uma oportunidade para questionarmos como é que chegamos a esse ponto, de um tempo em que qualquer coisa parecia possível para outro em que só toleramos a menor contribuição possível contanto que ela venha num sanduíche entre capa e contracapa."

"Nesses nossos tempos - tão comprometidos, em termos superficiais, com a juventude e a inovação - tanto a censura como a defesa do status quo tem que se disfarçar. Sugiro que o principal elemento para descobrir esse disfarce são pessoas posando de rebeldes. Se eles são rebeldes sem causa, creio eu, é porque eles não são rebeldes de fato. Tais pessoas podem ser de fato os mais sutis sustentáculos do sistema. Eles são os agentes do status quo."

"... deixemos de fingir que estamos todos interessados no livre desenvolvimento das ideias e da pesquisa acadêmica. Deixemos de fingir de uma vez que todos os acadêmicos são intelectuais."

"De fato existe cumplicidade - deveríamos chamar de "sinergia", que tal? - entre um sistema de gerenciamento que não quer ser incomodado com coisas como inovação ou conteúdo e aqueles professores nos departamentos das universidades que são inimigos da inovação.
[...]
A sociedade contemporânea finge que apoia os inovadores, mas ama de verdade os conformistas."

"O abandono do pensamento crítico e a renúncia à esperança de inovações radicais são apresentadas como se fossem a mais avançada das inovações."

"Nada prejudica mais a vida da mente do que a escolha consciente da cegueira."

"De fato, não há nada mais repreensível do que do que a curiosidade [...] ela matou o gato e matará o acadêmico também. Certamente a curiosidade fará com que você nunca seja efetivado como professor. Um bom profissionalismo se destaca por ser bitolado e isolacionista. Se você acha que um acadêmico deveria ser um intelectual, você está completamente enganado. Um bom acadêmico se enterra num domínio limitado e não presta atenção a nada que acontece no campo das ideias ou das artes."

"É possível ser um grande pensador e não publicar nada."

"Na nossa fúria escolástica de estufar as bibliotecas até que elas explodam com publicações, alguma coisa se perdeu. E o que fazer agora que as bibliotecas compram cada vez menos e os livros não são lidos e resenhados mas apenas contados? Aqui presenciamos um silêncio ensurdecedor, mas me interessa um silêncio que seja fértil, como aquele que aparece no final do Tractatus de Wittgenstein."

"Um livro não é nem nunca será um depósito de lixo. Um livro emerge do silêncio não da cacofonia."

"É como se as universidades estivessem dizendo de forma implícita que para ser efetivado você tem que provar que não é uma consciência independente ao se sujeitar às regras e objetivos da alta produtividade."

"Muitas das pessoas que têm muito a dizer são as mais relutantes em abrir a boca. Acho que as universidades deviam alistar as editoras para fazer com que mais pessoas em silêncio digam o que pensam. Esqueçam os tagarelas."

"O experiência é para o humanista o que o experimento é para o cientista, o evento chave que queremos investigar."




Tuesday, March 12, 2019

Sete Considerações

1. O ateu convicto que se sente superior a qualquer religioso é fundamentalmente um tolo. Um religioso fundamentalista que finge poder prescindir da ciência é um obscurantista. Na briga furiosa entre esses dois lados, não fico nem sequer do lado da briga, porque ela não produz nada de interessante.

2. O mistério - aquilo que está além da nossa compreensão - continua a existir firme e forte mesmo com toda a ciência do mundo. Quem não tem olhos para o mistério, não está entendendo nada e costuma pegar pela presunção. 

3. Se você tem uma resposta muito bem articulada e cheia de certezas sobre o que é o divino e qual o seu lugar no mundo, pode ter certeza de que está falando de uma outra coisa.

4. A religião enquanto fenômeno social é uma estrutura de monopólio de poder. Isso vale para convento, monastério, igrejinha e igrejona, para católicos e protestantes e muçulmanos e budistas. Essa estrutura de poder pode servir para a solidariedade tanto quanto para o sectarismo. Difícil fingir só ver metade da questão e achar que está entendendo tudo. Mas a religião não se esgota como fato social.

5. As pessoas vivem a religião de várias formas muito diferentes. Alguns têm na religão uma resposta para suas inquietações existenciais. Outros vivem a religião como ajuda quando falta dinheiro ou consolo quando uma doença abate um ente querido. Outros vivem a religião como forma de cantar e dançar junto. Outros como forma de se sentirem melhor que os outros. Há quem experimente a religião como cada um desses quatro aspectos durante a vida.

6. Diferentes religiões enxergam a questão da intenção de maneira diferente. Para algumas a intenção é tudo, para outras ela vale muito pouco. Meu ponto de vista é profundamente materialista: meu pé não fica menos quebrado se eu joguei um tijolo em cima dele sem a intenção consciente de machucar. Mas há que se pensar também na necessidade de misericórdia: julgar severamente o que os outros fizeram é não se lembrar de que a gente também erra muito. E feio.

7. As redes sociais nos demandam julgamentos o tempo todo. Assim, nos acostumamos a julgar sumariamente os outros com base às vezes em uma imagem e meia dúzia de palavras. Quero repetir todos os dias feito um mantra a seguinte advertência: Paulo, meu filho, tome tento; não bote banca, não cague regra, não banque o santo e não atire nos outros nem sequer a terceira pedra. Fique na sua e não se furte a não levantar a voz. E lembre-se de sempre estar um pouco em dúvida.


Thursday, March 07, 2019

Poesia Portuguesa: "O velho abutre" de Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto minha: Detalhe do quadro
"Greenland Falcon" [1780] de George Stubbs



O velho abutre
Sophia de Mello Breyner Andresen

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

De Grades (1970)

Saturday, March 02, 2019

Poesia portuguesa: "As pessoas sensíveis" de Sophia de Mello Breyner Andresen


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As pessoas sensíveis
Sophia de Mello Breyner Andresen

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.