Wednesday, November 14, 2018

Os melhores da América Espanhola em 2018


A banda venezuelana La Vida Boheme pergunta no refrão [em português]:

"E o que você vai fazer?"




Já a vocalista dos colombianos da banda Bomba Estéreo diz com simplicidade no refrão:

Es amar así, 
como te amo yo.

Es amar así, 
sintiendo el calor.

Es amar así,
como te amo yo.
Es amar así,
cuerpo y corazón.




Num trabalho lindo de reviver os gloriosos clássicos do passado, a mexicana Natalia Lafourcade nos pede:

Un alma que al mirarme, sin decir nada, 
Me lo dijese todo con la mirada.



Café Tacvba não cansa de espantar e nos presenteou assim:

La muerte dijo sí,
Yo digo que no.

Yo digo que sí,

La vida dijo no.
Al final ¿qué importa,
si muerto en vida sobreviví?



Outro veterano, o Residente do Calle 13 de Porto Rico [ai, pobre Porto Rico] grita:

Somos anormales:

Lo que me gusta de ti 
Es que tu eres anormal.

¡Soy anormal!

Saturday, November 10, 2018

100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial

“(...) the old 19th century doctrines – 
Romantic humanism, liberal individualism, 
dreams of social progress – 
had all failed to survive the Somme”. 
[Figures of Dissent, 79]

“[…] as velhas doutrinas do século xix – 
o humanismo romântico, o individualismo liberal, 
os sonhos de progresso social – f
oram todos incapazes de sobreviver ao Somme”.


Amanhã comemora-se 100 anos do fim da Primeira Guerra Mundial.

A batalha de Somme, que começou no verão de 1916, consumiu quase 20.000 soldados britânicos apenas no seu primeiro dia. Depois de quatro meses 300.000 pessoas morreram num batalha que resultou, em alguns pontos da linha que dividia os dois lados, num avanço de no máximo 5 milhas na posição das trincheiras. A escala é tão monumental que os seres humanos chafurdados na lama do Somme viraram insetos insignificantes. A carnificina fútil da Batalha de Somme é símbolo da Primeira Guerra Mundial, resultado da industrialização aplicada ao ofício fútil do assassinato em massa. Uma guerra que, na minha opinião, não acaba em 1918, mas em 1945. A carnificina do Primeira chocaria o ovo da Segunda, outro espetáculo de violência no qual os brasileiros tiveram a sorte de participar muito discretamente - por exemplo, pelo menos 20 milhões de russos morreram na Segunda Guerra.

Memorial do artista Rob Heard no Parque Olímpico em Londres
No Brasil o número de assassinatos vai subindo até chegar a níveis absurdos na segunda década do século XII. Não chegamos a uma carnificina como a do Somme na sua intensidade de quatro meses, mas vamos cozinhando em fogo lento números igualmente superlativos sem que nenhuma guerra tenha sido declarada. Algumas das reflexões mais agudas sobre o assunto datam dos anos 90 - por exemplo, o documentário Notícias de Uma Guerra Particular de Kátia Lund e João Moreira Salles. Alguns poucos avanços no começo do século e entramos numa espiral de violência ainda mais intensa. Só no primeiro semestre em 2016, mais de 44.000 mortos por armas de fogo. Os números não são uniformes no país inteiro. A escala monumental mais uma vez dificulta a compreensão humana do problema. Uma carnificina inútil, e desorganizada. Na Primeira Guerra Mundial eram "leões comandados por burros" - os ingleses viam um bando de oficiais elevados ao comando por causa de seu sobrenome fazerem burradas que custavam milhares de vidas. Não temos sequer burros. Nossa guerra é "particular", privatizada, neo-liberal. A polícia, com importantes exceções, acaba apenas participando no banho de sangue matando e morrendo também como moscas. 

Deixemos por um instante essas gentes transformadas em moscas e formigas esmagadas há mais de um século e nessa cabeça de século em que vivemos. Um soldado americano, Henry Nicholas John Gunther, foi o último a morrer na Primeira Guerra Mundial, justamente no dia 11 de novembro um minuto antes do armistício começar a valer às 11 da manhã. Neto de imigrantes alemães, nascido nos EUA em Baltimore, católico. Quando era sargento, escreveu uma carta a um parente aconselhando-o a evitar o alistamento e reclamando das condições de vida precárias no front. Todas as cartas eram censuradas e qualquer crítica era muito mal-vista. Foi punido, por isso e talvez também por sua ascendência alemã que talvez o fizesse suspeito aos olhos dos outros, e perdeu a patente de sargento sendo rebaixado a soldado raso. Os países envolvidos na guerra haviam assinado o armistício às 5 horas da manhã do dia 11. Faltando 5 minutos para que o armistício começasse a valer. Gunther saiu correndo com a sua baioneta na direção da linha alemã, contra as ordens do seus superiores. Os soldados alemães a princípio apenas acenaram e gritaram para que ele parasse mas Gunther continuou correndo e disparou alguns tiros de baioneta até ser metralhado pelos alemães.

Façamos o mesmo no Brasil. Sejamos específicos e digamos Belo Horizonte. Sejamos mais específicos e digamos o bairro Floramar. Luiz Carlos Gomes Coelha era um rapaz de 17 anos voltando para casa depois da escola, quando recebeu uma saraivada de tiros e caiu morto num matagal. A polícia chega e, constatando a cor do morto, completa um boletim de ocorrência que aventa uma briga de traficantes e um ajuste de contas. Não fosse a intervenção vigorosa da irmã, o boletim de ocorrência selaria a estatística. Diariamente os mortos negros e pobres são transformados em "bandidos" e assim desprovidos de história. Morreram porque queriam morrer, mereceram morrer portanto. Luizinho não fumava nem sequer tabaco. Sequer bebia. Tinha começado a querer namorada uma colega da escola e alguém que se julgava dono da menina se julgou no direito de matá-lo. Uma tragédia tipicamente adolescente, tragédia da precipitação violenta, como Romeu e Julieta.

O quanto vale uma vida humana? Uma patente de sargento? Uma noção qualquer de orgulho e honra? Alguma noção exaltada de pátria e nacionalidade? Uma ideia estúpida de orgulho e honra masculina? O quanto vale uma vida? Uma em 45.000 vidas, quanto vale? O que nos cabe celebrar numa data assim? A estupidez humana? 

Tuesday, October 30, 2018

Recordar é viver

Meu dilema agora é o seguinte: entre 1937 e 1945 nós tivemos uma ditadura semi-fascista com a participação direta de militares vários na instalação do regime e na administração do aparato repressor. O Estado Novo acabou e nós preferimos deixar quieto, inclusive elegendo um dos generais daquele golpe como presidente da república na primeira eleição livre que tivemos. Mal conseguimos nos manter como um país democrático por 20 anos. Aí veio 1964 - e pra quem não sabe, o general comandando as tropas no primeiro de abril era o mesmo oficialzinho integralista que falsificou o tal "Plano Cohen" que justificou 1937. Filinto Müller - o carrasco-mor do Estado Novo - foi senador por Mato Grosso e logo virou líder da ARENA no Congresso expurgado por cassações múltiplas.

Aí tivemos outra ditadura que começou em 1964 e devia durar pouco - os militares do Brasil eram liberais diziam os especialistas da época. A Ditadura Militar durou pelo menos 20 anos - deveríamos contar como fim da transição a promulgação da constituição de 1988. A caça aos comunistas nas escolas e universidades e repartições e jornais destrui carreiras, vidas e famílias e criou um clima de dedo-durismo oportunista. Gente inteligente de todas as correntes, inclusive liberais moderados, foram perseguidos. Quando aquela ditadura acabou o país estava em frangalhos, com hiperinflação e recessão e saques de supermercados e bombas em bancas de jornal. Mas nós resolvemos, de novo, deixar quieto. A lei de Anistia safada em que o regime incluiu os que faziam o seu serviço sujo continua sem qualquer contestação, sendo usada para que o judiciário lave as mãos contra criminosos abomináveis daquele aparato repressor.

Meros trinta anos de democracia e em 2018 um capitãozinho de meia-tigela montado num general mequetrefe começa [a que tudo indica] mais um ciclo autoritário. O amplo apoio que hoje veio oficializado no voto, existiu também em 1937 e em 1964. As omissões e hipocrisias que nos atormentam hoje grassavam também naqueles períodos. No Estado Novo Graciliano Ramos amargou um bom tempo numa prisão decrépita por ter pisado nos calos de umas famílias elegantes em Alagoas. Casos igualmente fúteis aconteceram aos borbotões em 1964. Gilberto Gil e Caetano Veloso foram importunados e depois presos e depois forçados a um exílio de anos por falarem de coisas perigosas como "caminhar pelo vento sem lenço sem documento" ou por usar cabelo comprido e roupas "exóticas". Para não deixar que o ridículo sirva de apaziguamento vamos então a exemplos nada fúteis das duas ditaduras: Olga Benário foi deportada grávida para um campo de concentração nazista por ser comunista e o deputado Rubens Paiva foi torturado barbaramente e depois assassinado simplesmente porque não concordava com o regime autoritário. Pouco se sabe sobre os responsáveis por essas barbaridades, ridículas ou trágicas, e NADA foi feito no sentido de responsabilizá-los alguém além de um genérico pedido de perdão do Estado brasileiro. 

Espero que da próxima vez [se eu estiver vivo] a gente seja um pouco menos leviano e inconsequente com o nosso passado. Mas aí leio coisas escritas por Machado de Assis há bem mais de 100 anos atrás como "Evolução" ou "Teoria do Medalhão" e, sinceramente, acho difícil. Leviandade e inconsequência são marcas registradas da nossa cultura há muito tempo. Estamos sempre atrás de uma solução mágica para problemas complexos que não exijam muito esforço intelectual ou emocional. Basta fazermos X e todos os nossos problemas se acabam magicamente. Afinal de contas, esforço intelectual ou emocional é uma coisa "muito chata", né? Como dizia o pai-conselheiro do futuro homem de sucesso no conto do Machado, "Condeno a aplicação, louvo a denominação". Adoramos falar em coisas chiques como social-democracia ou livre-iniciativa, modernidade ou pós-modernidade, mas sair da mera denominação dá um trabalho danado e... "ai, que preguiça!" responde o Macunaíma de Mário Andrade. A cada esquina cibernética multiplicam-se os especialistas em Paulo Freire e Gramsci que nunca leram uma página dos dois autores, especialistas em educação que nunca deram uma aula, especialistas em relações exteriores que nunca estudaram diplomacia, especialistas em Venezuela que não conhecem Romulo Gallegos ou Andrés Bello.


--> Claro que a história segue mudando e cada ciclo autoritário e diferente do anterior em vários aspectos. Mas um circulo vicioso pode ser uma espiral de equívocos. Tomara que eu esteja errado. Tomara.