Sunday, June 16, 2019

De Balbúrdia em Balbúrdia II

         Há alguns meses atrás, lá pelas cinco horas da tarde, eu dava minha última aula de uma sexta-feira insuportavelmente quente num terceiro ano do Ensino Médio esvaziado por muitos alunos faltosos. Não havia sinal de que a paz  estivesse por um tris, mas estava. Sem aviso prévio, um barulho de conversa e música no corredor da escola interrompeu minha linha de raciocínio. Pedi licença aos que tentavam me escutar dentro da sala e abri a porta para dizer com a voz bem empostada: - ow! Isso aqui é uma escola, estou tentando dar aula e quero silêncio e respeito! O problema foi que quando comecei a falar, eu não tinha tomado consciência nem de quantos, nem de quais alunos estavam envolvidos naquela, digamos assim, balbúrdia. O enunciado ainda se  desenrolava da minha língua a medida que eu me dava conta de que era contra muitos que eu dizia o que dizia, que seus rostos estampavam uma certa vitória prévia e que, sim!, competíamos espaço e finalidade naquele exato instante.
     
     Para quê serve uma escola pública? A quem serve uma escola pública? Qual a utilidade do conteúdo de história no Ensino Médio de uma escola pública brasileira? Essas são perguntas clichês que direta ou indiretamente estão em todos os textos oficiais sobre a disciplina história (e se repetem com adaptações nos textos sobre as outras disciplinas). Dizem que clichês são clichês por algum motivo. A verdade é que as perguntas se repetem, mas as respostas são cabeça de bacalhau: alguém aí já viu?

         A maioria dos garotos e garotas que me ouviu esbravejar por silêncio e respeito naquela tarde continuou exatamente na mesma atividade de gritaria e dança em que estava envolvida. Poucos se deram ao trabalho sequer de gargalhar em deboche à minha fúria. Indignada e irracional, caminhando para o centro da confusão, repeti aos berros - Isso aqui é uma escola e eu quero silêncio e respeito para dar aula! Quando dei por mim, eu já estava atracada à uma ponta do cilindro de plástico que era a caixinha de som, disputando com um aluno que agarrava o objeto do lado oposto e puxava para junto de si. Percebi com mais apuro a cena ridícula em que me meti quando ouvi o garoto gritar -"Sua louca, quem você pensa que é? Você é professora! Só isso!"

         Por que eu escolhi ser "só" professora? Eu escolhi, e isso é um fato. Minha mãe não queria que eu tivesse a mesma profissão que ela, eu sempre soube que o salário era uma bela mixaria, eu sempre soube dos desrespeitos, das insalubridades, das noites em claro formulando e corrigindo provas, preenchendo documentos e fichas que ninguém lê. Então, por que? Por que eu quis isso para a minha vida? E além de ter escolhido ser professora, eu me pensava capaz de nunca repetir os estereótipos ruins com os quais tive a infelicidade de me deparar quando fui apenas aluna. Assim sendo, outra pergunta que não pude deixar de me fazer foi como cheguei aqui e como me tornei a pessoa que tentava arrancar das mãos de uma quase criança adulta seu provável maior e melhor presente do ano? De que forma aquela adolescente super tímida e retraída que um dia eu fui se transformou nessa performer louca que, num instante está encenando A Liberdade Guiando o Povo do Delacroix, sozinha diante dos alunos do terceiro ano, e no seguinte disputa aos berros a posse de uma caixa de som bluetooth com um garoto de 15 anos?

       A escolha da profissão que hoje exerço se deu de forma tão complexa quanto são complexos os problemas da educação brasileira. E, claro, ela está emaranhada na minha vida escolar e acadêmica, mas não só. Também estabelece laços profundos com a minha fé, com a minha personalidade, com o meu histórico familiar, com o meu locus social e com os méritos e com os problemas da educação brasileira. Para compreendê-la melhor, eu precisaria esticar essa linha, mas nunca vou conseguir desemaranhar o novelo. Apesar disso, é uma tentação constante: sou professora de história, gosto de tecer narrativas.

         É verdade que não determino meu agora pelo fracasso no primeiro vestibular que prestei. Sequer considero que aquele raspão na faculdade de arquitetura tenha sido um fracasso. Claro que, antes, nos momentos depressivos, eu não pensei assim. E, sim! Como 40% dos docentes brasileiros, eu já estive em quadros de depressão clínica, mas... Ora vejam! Isto foi antes de eu me tornar professora de educação básica. No entanto, voltando à linha de raciocínio, depois da terapia e dos remédios, e da maturidade, eu entendi que o resultado do meu primeiro vestibular foi um sucesso considerando a escola pública em que estudei. Não que ela fosse ruim - houve professores maravilhosos, outros nem tanto -, só que quando o processo seletivo das universidades era ainda o tal do vestibular, os aprovados eram quase exclusivamente aqueles que tinham em algum momento da vida sido adestrados por cursinhos específicos, para cursos específicos, em instituições específicas. Os cursinhos que mais aprovavam na UFMG e na UFV, por exemplo, eram os que utilizavam material didático produzido pela empresa de educação de certo deputado estadual. Coincidência? Não acredito em coincidências desse tamanho. Alunos dessas instituições certamente saberiam muito sobre o incidente histórico obscuro da Bahia dos Porcos no exato ano em que isso foi exigido na parte aberta do vestibular de arquitetura da UFV. Eu, por outro lado, como tantos outros, contava só comigo mesma e com a sorte. Minha história não é única em muitos aspectos, e é completamente exclusiva em tantos outros. Particularmente, é isso o que mais me maravilha nas histórias.
     

Continua...

Friday, May 31, 2019

Poesia: Cavalos de Murilo Mendes

Foto minha: Cavalo na Janela

Cavalos 
Murilo Mendes

Pela grande campina deserta passam os cavalos a galope.
Aonde vão eles?
Vão buscar a cabeça do delfim rolando na escadaria.
Os cavalos nervosos sacodem no ar longas crinas azuis.
Um segura nos dentes a branca atriz morta que retirou das águas,
Outros levam mensagens do vento aos exploradores desaparecidos,
Ou carregam trigo para as populações abandonadas pelos chefes.
Os finos cavalos azuis relincham para os aviões
E batem a terra dura com os cascos reluzentes.
São os restos de uma antiga raça companheira do homem
Que os vão substituir pelos cavalos mecânicos
E atirá-los ao abismo da história.
Os impacientes cavalos azuis fecham a curva do horizonte,
Despertando clarins na manhã.

Monday, May 27, 2019

De balbúrdia em balbúrdia I

    Ano 2000. Lembro dos professores de história e matemática explicando que, ao contrário do que as pessoas tinham declarado para programas de televisão durante as festas de reveillon, nós não estávamos iniciando um novo milênio. Nosso mundo ocidental começou a contagem no Ano Domini, ou seja, no ano do nascimento de Cristo. Aquele foi o 1, não tivemos um ano zero. Por isso, só completaríamos  o milênio quando acabasse o dia 31 de dezembro de 2000. E foi essa a inspiração da camiseta comemorativa do nosso terceirão. De um tecido azul celeste igual ao da camisa do Cruzeiro, saltava em letras garrafais o título  "Os últimos do milênio!". 
      Nós, "os últimos do milênio", fomos os primeiros a cursar o Ensino Médio ao invés de Científico e muitos de nossos professores confessavam que não sabiam muito bem o que isto significava. Também participamos de uma das primeiras edições do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Sobre ele, aliás, líamos notícias conflituosas nos jornais. Ninguém entendia muito bem para que serviria. Uns diziam que era só uma avaliação externa do governo, outros que seria importante para a composição de um histórico escolar que ajudaria até na hora de arranjar emprego, e poucos eram os que acreditavam que seria de alguma valia para acessar uma vaga em universidade pública. Minha mãe estava entre os poucos e por isso eu viajei  mais de trezentos quilômetros até Juiz de Fora, no banco do carona da Elba do meu pai, ouvindo Janis Joplin na companhia dele e de um amigo chamado Sidney com quem rachamos a gasolina. 
     Apesar de ter feito a prova com sono e fome, eu me sai muitíssimo bem. O resultado chegou pelo correio e tinha gráficos representando minha média ao lado da média nacional. A média nacional estava em tudo abaixo de 50% de aproveitamento. A minha estava em tudo acima de 90%, exceto em matemática, que tirei 7,4 de 10. A mãe me deu beijos, meu pai passou a mão repetidas vezes na minha cabeça, eu me senti aliviada e isso foi tudo o que aconteceu como consequência. As universidades resistiam à mudança em seus processos de seleção, o governo pressionava e fazia campanha para que os alunos aderissem ao exame. Os cartazes de divulgação e as propagandas oficiais em horário nobre anunciavam uma tal educação para a vida que era bonita, que era a ideal (nisso eu ainda acredito) e diziam que o ENEM avaliaria habilidades e competências e não necessariamente conteúdos. Nos anos seguintes, com a minha média, eu conseguiria entrar em medicina na UFJF se eu quisesse, mas nós, os "últimos do milênio", estávamos adiantados: pegamos o bonde parado e saímos antes que ele partisse. 
      Dezembro se aproximava e a cada dia eu sentia mais o peso de ter que escolher ser alguma coisa. Nunca tirei notas geniais, não fiz muitos amigos, não namorei ninguém e fui uma negação em todos os esportes que pratiquei. Apesar disso, passadas tantas séries desde a primeira, finalmente, eu estava bem adaptada ao ambiente escolar e sentia que era uma pena ter de abandoná-lo agora. Eu era boa em história, português, literatura, filosofia, artes e sociologia. Eu era péssima em matemática, razoável em biologia e um zero à esquerda em química. Física, achava interessante. Minha mãe dizia que não me queria professora como ela, meu pai não dava opinião e eu me pensava incapaz de calcular a construção de qualquer coisa que não caísse, de ver sangue sem desmaiar ou de decorar leis. Todos - incluindo meus pais, os professores e os colegas de classe -, sei lá por quê, esperavam que eu fizesse uma faculdade. Para atender às expectativas deles, já que eu mesma não tinha nenhuma, fui pesquisar quantos concorrentes disputariam a mesma vaga e quais seriam as matérias cobradas na prova discursiva de cada curso. Arquitetura me acenou com a previsão de 12 candidatos por vaga e as disciplinas física e história na segunda fase, por isso me inscrevi no vestibular da UFV para esse curso. 
      Aquele foi meu único bilhete, digamos assim. A vida toda eu tinha sido aluna de escola pública, e sem aditivos. Quer dizer, com o salário de professora de minha mãe e o de fiel de armazém de café do meu pai, dava pra gente viver, viajar para a praia nas férias e ter uma Elba vermelha ano 92 na garagem, mas não dava pra pagar cursinho de inglês ou pré-vestibular. Na cidade de dez mil habitantes em que morávamos, até saber o que fazer pra entrar numa universidade pública já era privilégio de uma minoria da qual eu só fazia parte por ser filha de professora.
      Dezembro se aproximava e outra vez viajamos eu, meu pai e o Sidney, na Elba, ouvindo Janis Joplin. Minha barriga doía e vez por outra tínhamos que parar pra eu correr pra algum banheiro. Se me perguntassem, eu dizia que estava calma, porque eu realmente acreditava que estava. Só muitos anos depois fui saber que aquilo era sintoma de ansiedade. 
     Enquanto esperava a hora da prova na portaria do prédio do Coluni, uma menina meio gótica puxou papo comigo dizendo que nunca tinha visto tanta gente mal vestida num só lugar. Não comentei nada, mas internamente achei graça dela vir falar isso justo pra mim. De madrugada, antes de sair de casa, eu tinha combinado minha única calça jeans com uma camiseta preta de malha da mãe. Depois amarrei uma blusa roxa de moletom na cintura e um rabo de cavalo no cabelo imensamente comprido que eu tinha na época. Para fechar com chave de ouro o look, calcei o All Star preto de cano longo que o Tio Bauer só me deu de presente porque tinha ficado grande para o Rafael, achei que estava muito bom para o momento. Apesar de realmente considerar todos os presentes na fila muito mais bem vestidos, bonitos e preparados do que eu, concordei com o que a moça gótica disse. Estabelecido esse contato inicial,  ela se sentiu a vontade para me contar como tinha sido entediante a noite passada no hotel com aquelas pessoas mal vestidas. E dos relatos que vieram em seguida, pude aprender que existiam excursões que viajavam de cidade em cidade fazendo uma espécie de maratona, cansativa e cara, prestando vestibular atrás de vestibular. 
A inscrição para o processo seletivo do curso de arquitetura da UFV - isso eu nunca esqueci - custava R$ 70,00, foi minha mãe quem pagou a minha. Os professores de Minas ganhavam um pouco menos que dois salários mínimos que, no início dos anos 2000, eram exatos R$ 150,00. Saber que ela tinha investido mais que um quarto de seu salário mensal em mim, fazia minha cabeça rodar, sensação que eu interpretava como sono e, por estar com sono sabendo que minha mãe tinha investido tanto em mim, eu me culpava. Foi com esse sentimento que fiz os dois dias de prova. No primeiro deles, quando cheguei na parte da matemática, fui passando páginas e percebendo que nunca tinha visto nada daquilo na escola. Regra de três pra lá, regra de três pra cá, improvisei. O sono aumentou e dei umas boas pescadas. Numa delas acordei com um examinador confuso olhando pra mim e com o chicletes meio fora da boca. Apesar dos pesares, fiz a prova toda. Ao final do dia, o pai descobriu que era mais barato nós viajarmos os 200 km de volta para casa, dormirmos por lá, depois viajarmos os 200 km até Viçosa outra vez, do que pagar hospedagem na cidade. Foi o que fizemos só eu e ele, porque o Sidney ficou. 
No segundo dia de prova eu estava com mais sono e com mais dor de barriga do que no primeiro, mas física e história eram a minha língua. Bem, era isso que eu pensava até abrir o caderno. Uma questão de história sobre a Bahia dos Porcos. Eu nunca tinha ouvido falar em Bahia dos Porcos! Que porcaria era essa?!!! Física estava OK. Não consegui terminar os cálculos, porque minha base em matemática era sofrível, mas montei todas as contas tentando mostrar para quem quer que fosse corrigir que eu tinha interpretado muito bem os problemas. 
Na viagem de volta, eu não suportava mais ouvir Janis Joplin, mas não encontramos outra fita no porta-luvas. O resultado dessa prova não chegou pelo correio. Meses depois, a mãe abriu a porta de casa com a notícia de que o filho da diretora da escola onde ela trabalhava já sabia que não tinha passado. Nos idos anos 2000, as universidades divulgavam a classificação dos concorrentes às suas vagas num jornal que não chegava em nossa cidade, e pela internet. Internet, naquela época, era coisa de rico e de cidade grande. Então foi o filho da diretora que, a pedido da minha mãe, olhou se eu tinha passado. E ele não disse pra mãe qual tinha sido minha classificação. Ao invés disso, falou só que eu não tinha passado.  Como já esperava pela proclamação pública da minha derrota desde o dia da prova discursiva com a questão sobre a Bahia dos Porcos, acreditei. Alguns anos depois eu descobri que tinha passado sim, mas como o 80° excedente de 40 vagas. Também descobri que a concorrência tinha sido maior do que a prevista: ao invés de 12 por vaga, como estava no folheto que li antes de escolher o curso, fomos 40 candidatos por vaga. 

Tuesday, May 21, 2019

A velha sonata do absoluto de Machado de Assis

Desenho de Georgia O'Keefe, foto minha


Um experimento: fazer da prosa de  Machado de Assis a poesia que Machado de Assis nunca faria e ilustrá-la com desenhos à lápis de Georgia O'Keefe. Projeto de distração fuleira no meio de uma tempestade épica em Oklahoma às 4 da manhã.
Sonata do Absoluto
Machado de Assis

I
Tinha lido de manhã, 
em uma notícia de jornal, 
que há estrelas duplas, 
que nos parecem um só astro. 
Em vez de ir dormir, 
encostou-se à janela do quarto, 
olhando para o céu, 
a ver se descobria alguma delas; 
baldado esforço. 
Não a descobrindo no céu, 
procurou-a em si mesma, 
fechou os olhos para imaginar o fenômeno; 
astronomia fácil e barata, 
mas não sem risco. 

Maria Regina viu dentro de si 
a estrela dupla e única. 
Separadas, valiam bastante; 
juntas, davam um astro esplêndido. 
E ela queria o astro esplêndido. 
Quando abriu os olhos 
e viu que o firmamento ficava tão alto,
concluiu que a criação 
era um livro falho 
e incorreto, e desesperou.

Georgia O'Keefe, foto minha

II
Fechou os olhos e dormiu. 
Sonhou que morria, 
que a alma dela, 
levada aos ares, 
voava na direção 
de uma bela estrela dupla. 
O astro desdobrou-se, 
e ela voou para uma das duas porções; 
não achou ali a sensação primitiva 
e despenhou-se para outra; 
igual resultado, igual regresso, 
e ei-la a andar 
de uma para outra das duas estrelas separadas. 
Então uma voz surgiu do abismo, 
com palavras que ela não entendeu:
— É a tua pena, alma curiosa de perfeição; 
a tua pena é oscilar por toda a eternidade 
entre dois astros incompletos, 
ao som desta velha sonata do absoluto: 
lá, lá, lá…

Monday, May 20, 2019

Poesia Ilustrada: Como Construir Catedrais e "como Inglaterra amava Irlanda"







como Inglaterra amava Irlanda

“O quê foi isso? – Um sonho?”
exclamou Maxim.
“Ou realidade?”
À essa pergunta um cartãozinho responde sarcasticamente:
“Podemos afirmar, muito felizmente
...
- não foi nem sonho nem realidade.”[1]
Script de MMM de Eisenstein, 1932

ah eu sei que ele me ama
como Inglaterra amava Irlanda
curioso até os dentes
ele me disseca
cientificamente
empenhado a ferro e fogo
em me salvar de mim mesmo

ah eu sei que ele me ama
como Inglaterra amava Irlanda
a mão direita tão doce
melancólica e lírica
amorosamente triste
vertendo lágrimas argentinas
de puro mercúrio
a esquerda tão despótica
inflexível, implacável,
garras afiadas de chumbo em penca
olhos duros de estanho

ah eu sei que ele me ama
como Inglaterra amava Irlanda
seu amor é pura posse
avalanche densa e profunda
que tange os meus ossos
e tritura meus gritos de socorro

quem me ouve não me acode
e ajudar quem quer não pode
todos sabem que ele me ama assim
como Inglaterra amava Irlanda


[1] What was that? – A dream?”
cried out Maxim.
“Or reality?”
To this, a little title card sarcastically replies:
“We can say, quite happilly
...
– it was neither one, nor the other.”

Wednesday, May 08, 2019

Recordar é viver: refugiados e xenofobia


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Robert Reynolds

Num discurso feito na “American Defense Society” em maio de 1939 no hotel Astor na cidade de Nova Iorque, o senador pela Carolina do Norte Robert Reynolds condenou a proposta chamada Wagner-Rogers Bill, que seria derrotada no congresso pouco depois. A proposta teria permitido a entrada de 20.000 crianças refugiadas da Europa nos Estados Unidos.

Para que se tenha a perspetiva exata da postura de Reynolds, há que se lembrar que a famigerada “Noite dos Cristais” tinha acontecido há apenas 6 meses. Durante a Noite dos Cristais 30.000 judeus foram mandados para campos de concentração e 267 sinagogas foram queimadas em dois dias de delírio nazista.

Reynolds não representava a opinião da minoria. Uma pesquisa da Gallup naquele ano de 1939 indicava que 67% dos perguntados se opunham a receber mais refugiados da Europa.

Kristallnacht
Dois anos mais tarde, no dia 5 de junho de 1941, o mesmo Robert Reynolds usava a tribuna do senado para fazer um discurso inflamado onde afirmava:

I wish to say — and I say it without the slightest hesitation — that if I had my way about it at this hour, I would today build a wall about the United States so high and so secure that not a single alien or foreign refugee from any country upon the face of this earth could possibly scale or ascend it.

I believe we must rid our country of the alien enemies who are now here, and put up the bars so that from now on no alien of any nationality upon the face of the earth will be permitted to enter the United States...

I say we should stop — and stop now — the refugees who are seeping into this country by the thousands every single month to take the jobs which rightly belong to the native-born and naturalized citizens of the United States.

Gostaria de afirmar hoje – e o faço sem qualquer hesitação – que à essa altura se eu pudesse fazer as coisas do meu jeito, eu construiria hoje mesmo um muro em volta dos Estados Unidos, um muro tão alto e tão seguro, que nenhum forasteiro ou refugiado estrangeiro de qualquer país na face da terra poderia ultrapassar ou escalar.

Acredito que devemos livrar nosso país de inimigos estrangeiros que aqui estão agora, and construir as barreiras de forma que a partir de agora nenhum estrangeiro de qualquer nacionalidade será admitido nos Estados Unidos…

Digo que devemos impedir – e impedir já – que os refugiados que têm se infiltrado no nosso país aos milhares todos os meses ocupem os postos de trabalho que pertencem por direito ao cidadãos nativos ou naturalizados dos Estados Unidos.

Machado de Assis
Fica difícil saber ao certo, mas, entre relutâncias e hostilidades xenófobas de vários outros países [inclusive o Brasil], quantas vidas terão sido atiradas na fogueira do nazismo? Milhares, certamente. Menos de um século depois, refugiados do Iêmen, Síria, Iraque, Venezuela, Haiti, Congo, Somália, Moçambique e muitas outras partes do mundo voltam a encontrar relutância e hostilidade.

Parafraseando o refrão de conto de Machado de Assis [“Na Arca”] escrito sob o impacto do conflito entre Rússia e Turquia no fim do século XIX:

continuamos a boiar sobre as águas do abismo.


Mais detalhes sobre a carreira de Reynolds [em inglês] aqui. O conto de Machado de Assis você encontra aqui