Monday, November 30, 2020

Diário de Babylon: O condado de Lowndes

 O Alabama é um dos cinco estados financeiramente mais pobres dos Estados Unidos. Uma das partes mais pobres do estado é o chamado cinturão negro [Black Belt], onde antes se cultivava algodão com mão de obra escrava e com meeiros miseráveis e onde agora ainda se cultiva algodão com muitas máquinas e trabalhadores sazonais. Emprego naquele meio rural é uma raridade.

80% dos habitantes do cinturão negro no Alabama não tem esgoto - o nível nacional nos meios rurais é de 20%. O estado simplesmente exige que eles "invistam" em sistema de fossa sépticas - uma bagatela de 20.000 dólares, mais do que a renda anual da maioria das pessoas ali. Não possuir uma fossa funcional expõe o morador a multas sucessivas de 500 dólares cada, despejo e até prisão. E não se brinca com isso: eu mesmo já experimentei na carne o que é viver num estado republicano que "incentiva a responsabilidade individual" - esqueci de pagar uma multa do meu carro e fui surpreendido com a notícia de que havia uma mandado de prisão contra a minha humilde pessoa; fui correndo [de carona] até a corte morrer em 180 pilas. 

Falei em pobreza material. O Alabama é também um estado com uma das mais incríveis histórias de ativismo: Rosa Parks, Martin Luther King, John Lewis. Ali também viveu Pamela Rush, que em 2018 viajou até Washington para dar seu depoimento em frente a um painel de senadores. 

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Pamela Rush vivia mais especificamente no município de Lowndes [10.000 habitantes; 7.000 deles negros], onde os pobres [todos negros] são forçados a viver literalmente na merda. A reação da responsável pelo saneamento básico no Alabama [uma mulher negra] mostra que eles vivem na merda metafórica também: "Se a pessoa tem esgoto no solo é culpa dela por jogar esgoto no seu terreno. Eu cresci pobre, mas nós tínhamos dignidade. Nós éramos limpos." Afogando-se em esgoto, eles ainda por cima lidam com as consequências sem qualquer tipo de serviço de saúde pública - o governador do Alabama recusou-se a expandir a 200.000 cidadãos do Alabama o programa Medicaid [pago quase na sua totalidade com recursos federais]. 

Pessoas como Pamela Rush, com a ajuda de ativistas também do sul, tiveram a coragem de revelar sua própria miséria [não é fácil numa cultura que santifica o orgulho admitir publicamente que vive na merda e não tem como sair dela sozinho] e assim deram visibilidade ao problema. A pobreza segregada torna-se invisível e mesmo inimaginável para quem vive num outro planeta ainda que esteja ali ao lado, enchendo o peito para falar de responsabilidade e liberdade individual enquanto seus vizinhos se afundam em doenças e miséria.

A chegada da pandemia complicou e esclareceu as coisas: 90% dos pacientes internados com Covid-19 em Lowndes são pobres e pretos. Enquanto governos municipais e estaduais relutavam em tomar medidas como a obrigatoriedade de máscaras e distanciamento em lugares públicos em nome da tal "liberdade individual" estipula-se que de cada 3 vítimas da pandemia no Alabama, 2 são negros. Pamela Rush morreu de Covid-19 sem poder aproveitar o fruto da sua coragem e sua luta: pouco depois de conseguir instalar uma fossa séptica e ganhar um trailer novo com doações que a sua "fama" garantiu.  

Não me esqueço do dia em que trabalhei como apresentador/tradutor num festival de cinema ambiental onde se mostrava o filme "Lixo Extraordinário", onde estava presente Tião, um dos protagonistas do filme.  Uma mulher com a voz trêmula de emoção perguntou ao Tião como ela poderia ajudá-los. Traduzi a resposta dele e depois me permiti a completar, dizendo que todos os dias [e noites] vejo muitas pessoas vivendo em New Haven [onde metade da população estava abaixo da linha da pobreza] da reciclagem obrigadas a levar suas latinhas aos supermercados da cidade - porque não ajudá-los também? O silêncio e o mal-estar são familiares. Os papéis estão firmemente definidos no sentido de identidade das pessoas: países ricos "ajudando" países pobres como se não houvessem pobres e ricos nos dois. 

 


Friday, November 20, 2020

Quando o presente ilumina o futuro

 Normalmente pensamos que o passado pode iluminar questões importantes do presente, mas o que aconteceu no Brasil em 2016 iluminou para mim o que aconteceu em 1964 e certas operações cosméticas que foram feitas a partir do fim da ditadura com as manifestações pedindo eleições diretas para presidente. Percebi como foi amplo o apoio ao golpe militar de 1964, como para cada crônica crítica de Carlos Heitor Cony havia dezenas de notas e colunas mais ou menos explicitamente apoiando o fim da "confusão" do governo Goulart, desde manchetes e editoriais de primeira página francamente indecentes até muxoxos e indiretas em cartas privadas de modernistas famosos.

Um golpe, militar e/ou parlamentar,  se constrói primeiro assim, na opinião pública, de forma metódica. O da Dilma foi sendo construído desde o começo do governo Lula, até que uma situação econômica desfavorável fornecesse o combustível necessária para a arrancada final: a farsa sexista, tão bem resumida no voto impotente e indignado do Jean Wyllys [alguém que nada tinha de envolvimento direto com os governos petistas, diga-se de passagem]. 

Percebo agora a maneira como o amplo apoio ao governo Bolsonaro se dissolve e penso no que aconteceu com o regime de 1964. Houve gente do campo conservador como o próprio Cony e mais ainda como Tristão de Athayde, que saltou da barca quando o golpe era uma "revolução triunfante", quando a economia tinha sido "consertada" e crescia com vigor, quando o "Brasil do Tri" se ufanava que aquele, sim, era um país que ia para a frente. Saltaram da barca porque tomaram partido contra as ameaças para intimidação, as prisões arbitrárias, a tortura, os assassinatos, a censura, a falta de liberdade de opinião e todo esse lamaçal da ditadura também afogava o país. Depois, muito depois, quando chegaram ao radar de todos [a realidade vai batendo à porta cada vez mais forte] a hiperinflação, a dívida externa insustentável, a estagnação da economia e a corrupção. Quando a gente ia lendo sobre as manifestações e os escândalos chegando às primeiras páginas de JB, Globo, Folha e Estadão, meu pai sempre me alertava [eu era bem jovenzinho]: não se deixe enganar por que todos esses quatro são profundamente reacionários e apoiaram o golpe e a ditadura. 

Tudo aquilo que meu pai me falava estava invisível nos jornais, nos discursos e até nos livros de história. Não era hora de se dividir e ficar apontando o dedo, pois todo o apoio era muito bem vindo. Tratava-se de finalmente por fim a um regime que já tinha mais de vinte anos de idade. E continuou invisível quando Sarney [um típico filhote da ditadura] chegou ao poder num golpe institucional até hoje invisível para muitos - ele era vice de um sujeito que morreu antes de tomar posse como presidente. E era ainda mais invisível quando Collor [outro filhote da ditadura] ganhou nas costas dos quatro jornalões e das televisões - indícios da corrupção mafiosa que levou ao impeachment já eram do conhecimento de todos, mas os jornais escondiam essas notícias lá na página 8 enquanto davam primeira página a lorotas absurdas a respeito de Lula e do PT. 

Foi assim com Collor [que subiu e caiu em pouco mais de dois anos] e vai sendo assim com esse desastre óbvio que é Bolsonaro [um desastre que começa em 2016 e deveria ter dois nomes: Temer/Bolsonaro]. Por isso a raiva de figuras como Pedro Bial - quase porta-voz da família Marinho - com o filme de Petra Costa. Quando o apodrecimento apontar para o colapso completo, não se espante de ver mais da metade das pessoas que tornaram Bolsonaro possível a partir daquela farsa de 2016 como renovados guerreiros pela democracia. 

Faz parte de certos padrões políticos do Brasil que datam da independência. Mas isso é assunto para outro dia.

Thursday, November 05, 2020

Alguns esclarecimentos sobre o sistema eleitoral americano:

Já que virou moda acompanhar a eleição americana passo a passo roendo as unhas, faço alguns lembretes para o "torcedor" brasileiro:

1. Cada candidato nos EUA disputa em um distrito. Ali ou ele ganha ou perde. Em outras palavras: perder com 49.99% dos votos ou com 1% dos votos dá na mesma. Cinco bilhões de votos não valem nada se seu oponente conseguir 5.000.000.001.

2. Esse sistema de "tudo ou nada" cria um ilusão de ótica simplificadora, com estados azuis e estados vermelhos, como se republicanos fossem uma minoria ínfima na Califórnia [são quase 4 milhões de votos para Trump] e democratas na Louisiana fossem ETs [mais ou menos 4 em cada dez eleitores votaram em Biden]. Podem conferir: o candidato a presidente derrotado teve pelo menos um terço do eleitorado no tal estado onde ele supostamente perdeu de lambada.

3. Quando você mora num estado [ou num distrito] em que seus adversários têm ganhado sempre com uma margem, digamos, de uns 10%, o sistema do "tudo ou nada" causa um certo sentimento de que o seu voto é um exercício fútil. Não é difícil imaginar que um eleitor democrata de Montana fique com preguiça de ir votar no Biden, sabendo que ele não tem a menor chance de ganhar nem sequer um votinho por lá. 

4. Aliás esse é outro ponto que os brasileiros tendem a esquecer: o voto nos EUA não é obrigatório, então ficar em casa é sempre uma opção que causa pesadelos nas campanhas. Um candidato precisa entusiasmar a sua base, para começo de conversa.

5. Sob esse aspecto a tal polarização que muitos lamentam com uma conversa meio vaga de "vamos dar as mãos e esquecer nossas diferenças" teve o efeito de revitalizar a participação nas eleições nos EUA, com números incríveis de aumento de votantes. Agora como é que um sujeito que quer ir ao supermercado com a sua bazuca pessoal e alguém que tem horror a armas de fogo em geral vão dar as mãos... perguntem ao Biden.

6. As campanhas arrecadam toneladas e toneladas de dinheiro e despejam quase todo esse dinheiro nos estados em que eles acham possível [mas não garantido] ganhar. Assim, enquanto a vida segue mais ou menos pacatamente em grande parte do país, eleitores de lugares como Ohio ou Flórida são mais perseguidos do que os Beatles naqueles filminhos mequetrefes da fase terninho deles.

7. Isso também acaba dando uma importância desmedida a esse estados que podem dar republicano ou democrata com maioria. Mas isso é no nível de presidente. As outras eleições - inclusive as municipais - são ainda mais complexas. O esquema seria mais ou menos gerais esse: cidade grande=muitas minorias e força democrata e cidade pequena [inclusive subúrbios]=branquitude e força republicana. 

8. No nível micro as coisas se embolam muito mais, principalmente quando se trata de agrupamentos meio artificiais como os "latinos". Um suposto grupo étnico que junta no mesmo balaio Olavo de Carvalho e o proletariado mexicano tende mesmo a ser "imprevisível".

9. Quando a gente entra no nível micro as coisas vão ficando mais complexas. Miami é composta de três distritos: Miami-Dade, Broward e Palm Beach. Nos três a maior comunidade latina é de origem cubana. Nos três Biden ganhou. Então os cubanos são todos fanáticos anti-Castro que amam Trump? Não parece.

10. A cobertura da imprensa cria uma série dessas impressões toscas: o eleitor republicano é membro da KKK armado até os dentes e o democrata é um moderninho urbano descolado. A coisa é muito mais complicada porque os dois partidos são dois tremendos MDBs, juntando sob o mesma coberta gente completamente diferente. 

11. As pessoas que vivem em lugares muito afetados pela desindustrialização e o seu consequentemente empobrecimento ficam furiosas com a falta de atenção aos seus problemas [e o sistema distrital tende a forçar essa atenção reforçada no estritamente local]. Os que viram casaca o fazem, geralmente por isso. 

12. A viração de casaca acontece desde que o outro partido se interesse em ir lá vender o seu peixe, o que nem sempre acontece. O que está acontecendo este no Texas, na Geórgia, na Virgínia e na Carolina do Norte [independente do resultado final] é fruto de anos de trabalho duro de militantes democratas que muitas vezes não contam com muito apoio dos diretórios nacionais e seus grandes estratagemas [e trambiques]. E de mudanças demográficas como o aumento nesses lugares da população urbana, menos religiosa, mais misturada. E de uma comunidade negra determinada a lutar para ser ouvida nos processos políticos.

 

Sunday, November 01, 2020

Viver no paraíso neo-liberal

Viver nos Estados Unidos num estado completamente republicano é assim: passamos já quase uma SEMANA no escuro e no frio s/ energia elétrica [e consequentemente sem internet] em casa por causa de uma chuva com gelo das que eu vivi pelo menos dez vezes por ano no Nordeste dos EUA [que está longe de ser o lugar com o pior clima de inverno nos EUA].

Ficamos todos fingindo que a culpa foi da tal "terrível" chuva, mas os serviços públicos estão todos privatizados e as empresas estão completamente livres para sucatear a infraestrutura e oferecer serviços de péssima qualidade em nome do lucro fácil.

Na universidade pública, administrada por um conselho indicado pelos governadores republicanos, e cada vez mais dependente de recursos privados, seguimos com as nossas atividades normalmente, cortando e encarecendo o seguro de saúde dos funcionários mais vulneráveis [em nome da "competitividade"] enquanto criamos novas "iniciativas" para "vender melhor nossa pesquisa". Traduzindo: criamos novos cargos administrativos com altos salários e fazemos a vida de instrutores e funcionários ainda pior do que já é.

E seguimos em frente com estádios de futebol americano, bares e restaurantes lotados de "desmascarados", apesar do aumento dramático de casos de COVID-19 e mesmo depois da morte de um aluno. E a saúde pública privatizada continua depenando os doentes [os milhões sem-seguro nenhum e os outros milhões com-seguro-de-meia-tigela] até a mais completa ruína.

Monday, October 26, 2020

Desaperfeiçoamento online de professores

No início do isolamento social, precisei comprar um microfone para gravar os áudios das minhas aulas. Não encontrei em nenhuma loja aqui, nem na cidade ao lado, nem na cidade há duzentos quilômetros. Sempre que eu comunicava o que queria, os lojistas diziam: - ah, aquele microfone de live.?.. tem não.

A única live que assisti durante o boom das lives foi a do Caetano. Enquanto eu ouvia as músicas e as coisas que ele dizia, pensava: esse país não merece esse homem. 

A essa altura da pandemia, as lives saíram de moda por aqui. Em contrapartida, estão acontecendo muitos eventos de "aperfeiçoamento" para professores. Todos os bancos, todas as indústrias, todas as associações de industriais, trabalhadores rurais, de proprietários ruais, de donas de casa, absolutamente todo mundo que não é professor quer ensinar aos professores como é que se faz para dar aulas. O interessante é que esses grupos, essas associações, essas pessoas, contratam acadêmicos da área da pedagogia para ensinar o que é educação e como é que uma aula deve ser. Ou seja, contratam formados em educação que nunca deram uma aula sequer em educação básica. Dia desses a escola reencaminhou um e-mail com propaganda de live de aperfeiçoamento para professores em que a palestrante tinha vinte e seis anos e era pós-doutorada num país qualquer da Europa. Só fazer as contas, né. Nem como pedagoga essa aí tinha experiência. O título da transmissão era blá blá blá: alguma coisa EM SALA DE AULA

Eu estava reparando que as pessoas que estão dando palestras em lives de aperfeiçoamento para professores adoram inventar terminologias. Então, ao menos três quartos do tempo dos eventos é gasto explicando a terminologia que se vai usar para pensar a educação e as aulas. No tempo que sobra, uma vez que o vocabulário inventado já esteja compartilhado, fala-se muito sobre a terminologia dos autores consagrados. Tenho a impressão de que ninguém decora a terminologia de ninguém e a coisa vira uma Torre de Babel sem tijolos. Os chats se enchem de "boas noites", "é um prazer estar aqui", "que maravilha de evento", etc. Mas é claro que, se tratando de reunião virtual de professores, sempre aparecem os revolucionários e os apocalípticos. Por isso os chats também nos presenteiam com alguns "isso nunca vai dar certo", "em que mundo essa senhora vive?", "a solução é acabar com tudo" e o clássico "por que não matam a gente de uma vez?"

Não tenho paciência com esse tipo de evento online. Ao vivo a gente ainda se distrai com a roupa alheia, analisa os penteados, faz cálculo mental dos metros quadrados do ambiente, desenha a caricatura do beiçudo que preside a mesa, procura algum conhecido na plateia, lê, compartilha experiências de sala de aula com o colega ao lado que acabou de conhecer... E, vez por outra, dá até uma olhadinha para o palestrante e anota alguma palavra nova no caderninho que comprou no boteco em frente ao ponto do ônibus. Mas online, só tem a cara do pedagogo pra gente olhar. E ele (ou ela) fica lá, ora listando o glossário do projeto que nunca é comunicado, ora elogiando o aluno, esse ser encantado. É demais para qualquer professor de verdade que queira manter a sanidade mental por mais alguns anos. 

Eu tenho uma teoria sobre a educação básica brasileira: ela nunca vai entrar nos eixos. Muita gente tem essa teoria e atribui a culpa à vontade dos dominantes de continuarem dominantes. Meu raciocínio, porém, é um pouco diferente. 

Joaquim Nabuco escreveu: "a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil". Eu vejo isso acontecer, dentre outras áreas, na forma como esse país pensa a educação. Explico: os professores  mais revolts e apocalípticos costumam divulgar em sala de aula o fato de que os dirigentes desse país não têm interesse em ver a população aprendendo a pensar por conta própria e que é por isso que as escolas não são incentivadas a irem além do ensino das quatro operações básicas e da leitura rudimentar. Como aluna, eu escutei esse discurso de vários professores, como professora, eu vi sair da boca de colegas. Mas eu observo que a própria relação do estado com o professor reflete um complexo de capitão do mato. O profissional que lida com a atividade-fim é considerado um ser menor, incapaz de opinar, de estudar e de pesquisar sua própria atividade. Ou seja, um escravo cumpridor de ordens, a quem a culpa do insucesso do processo é atribuída pela adição desobediente e criminosa do ingrediente preguiça, que por sua vez é visto como um mal congênito dessa gente que precisa ser disciplinada. 

Todos os programas governamentais que presenciei acontecerem - com exceção de apenas um, intitulado Pacto Nacional Pela Educação, que foi abortado assim que o último golpe de estado começou a se desenrolar - partiram do pressuposto de que era preciso contratar analistas, gente bem formada e sem experiência, cuja atividade seria se manter em salas bem ventiladas, tagarelando com seus pares sobre as características marcantes dos documentos governamentais que já haviam sido gerados em outras salas mais bem arejadas. Depois, eles fariam eventos, onde compartilhariam terminologias com os bossais que trabalham diretamente com o bossaizinhos que são o futuro desse país. A realidade concreta da educação brasileira nunca foi analisada por essa gente. Aliás, eles entendem por realidade aqueles números gerados pelas provas diagnósticas que eles inserem à força no calendário já apertados das escolas. 

Bem, eu tô em sala de aula. Eu esbarro na realidade todo dia e ela me machuca, ela me alimenta, ela me espanta, ela faz minha pressão arterial subir. E o que eu vejo? Muitas coisas. Dentre elas, vejo alunos míopes sem óculos porque os pais não têm dinheiro para pagarem o exame de vista, ou pagaram o exame mas não tiveram dinheiro para fazer os óculos. Vejo faltar papel higiênico. Vejo as descargas do banheiro estragarem definitivamente depois de inúmeros reparos. Vejo aluno fazer vaquinha e comprar um tanque para ser instalado no banheiro masculino que está sem pia. Vejo livros chegarem e não terem lugar para serem guardados porque a biblioteca vira lago quando chove. Vejo vizinhos entrarem na calada da noite e roubarem computadores, botijões de gás, impressoras, e tudo mais que puder ser vendido em troca de droga. E também vejo o juiz fazer vista grossa porque o vizinho que fez isso é parente de gente grande da cidade. Vejo aluno jogar carteira na direção do professor e depois postar mensagens e memes ameaçadores contra colegas e professores, dizendo que vai repetir o feito de Goiânia, o feito de Janaúba. Vejo o colegiado se reunir apavorado e decidir pela transferência do aluno, única ferramenta disponível, como sinalização de que piadas assim são intoleráveis por banalizarem e incentivarem a ação. Depois, vejo a inspetora/pedagoga vir com o pai do menino dizer que ele não fez nada de errado e que vai continuar na escola, na mesma sala, no mesmo turno, onde os colegas já estão prontos para recebe-lo, muitos com medo, outros triunfantes e dispostos a tornarem as piadas reais a qualquer tempo. Vejo professores terem dois, três empregos, para transformarem os salários de fome em um salário descente. Vejo o governo, em cumplicidade com a superintendência, destruir o planejamento anual com eventos obrigatórios surpresas para fazerem bonito e virarem notícia de jornal. Vejo o professor não ter ferramentas para fazer o aluno estudar. Vejo tanta coisa que não consigo contar! E aí, aparece o banco X me dando aperfeiçoamento online cujo conteúdo profere que todo o problema da educação brasileira ou é ideológico, ou é resultado de preguiça/má-formação do professorado. E que eles têm a solução: uma terminologia nova! 

Desculpa, mas tenho mais o que fazer.

Saturday, October 17, 2020

As coisas não está indo nada bem

 


As coisas não estão nada boas, tanto aqui nos Estados Unidos como no Brasil. Não estou querendo falar dos eventos atuais, relacionados, por exemplo, com as eleições aqui e o que vai acontecer depois. A conjuntura é um assunto exaustivo e nos desvia do fato de que as coisas não vão muito bem e tem sido assim há bastante tempo. 

Lembro-me agora da ideia de que o capitalismo precisa se expandir continuamente, sempre destruindo e construindo coisas pelo caminho, sempre incansável. Essa expansão já foi principalmente geográfica: a propriedade e o mercado e as suas prioridades. Desde algum tempo tem ficado mais clara para mim a expansão do capitalismo para dentro de espaços que, antes, ele era obrigado a compartilhar com outros valores e outras prioridades. Assim tem sido com a educação, a saúde, as relações sentimentais, o sexo. De espaços compartilhados, vamos tendo que viver em espaços onde somos totalmente subjugados pelas prioridades do capitalismo. 

Prioridade irredutível: se algo ou alguém não produz lucro, algo ou alguém não merece viver. Não há razão que se oponha a esse princípio absoluto. Se não é capaz de "gerar valor", é melhor morrer. Somos assim reduzidos a máquinas produtoras de dinheiro com os pés aparafusados dentro de fábricas produtoras de dinheiro. Dinheiro e miséria. Miséria espiritual, profunda. Os sintomas dessa miséria: depressão ou ansiedade. 

Percebo que vou mantendo essa conversa em generalidades. Não quero descer a histórias específicas, detalhadas, de como essas coisas tem afetado a minha vida. É doloroso e talvez melodramático em excesso. Pessoal, embaraçoso, talvez. Melhor continuar bem aqui em cima, na esfera das estrelas.

Quando digo capitalismo, penso em dois discursos complementares: de um lado a racionalidade austera da produção [é preciso sempre conseguir fazer mais gastando menos] e do outro a irracionalidade hedonista do consumo [quanto mais você gasta melhor você é]. São discursos que justificam as loucuras que nos atormentam: as baleias iam ser extintas pela caça indiscriminada [cada vez mais eficiente] em busca de lucro; agora vão ser extintas com os estômagos entulhados de bilhões de sacos plásticos e outros tipos de lixo humano. E o que faz uma baleia viva para o capitalismo? Em busca de uma resposta, os bem-intencionados [de cujas intenções o inferno está abarrotado] tentam promover o turismo-voyeur para atormentar os bichos no mar. 

Seria preciso muito mais para pelo menos alterar pelo menos um pouquinho um curso desastroso rumo a um colapso completo. E me espanta que os tubarões fiquem apenas esperando pela tal "volta ao normal", como se o tal "normal" não fosse justamente o que nos trouxe a essa crise.   

Tuesday, October 06, 2020

Considerações irresponsáveis de uma Renata qualquer sobre Devoção da Patti Smith



Escrevo em blogs desde 2005. Quando comecei, eu trabalhava numa agência de viagens e minha mesa ficava ao lado da mesa do chefe. Muitas vezes eu estive realmente ocupada, mas outras, na falta de clientes, convinha que eu me mantivesse concentrada, digitando, franzindo a testa enquanto olhava para a tela do computador. Foi ali que comecei a escrever. Antes, eu nunca tinha achado que pudesse fazer isso, que pudesse fazer isso por prazer e, ainda pior, deixar que os outros lessem. 

Eu não sei muito bem onde eu quero chegar com essa introdução, só intuo. Não sei onde quero chegar quando começo a escrever, quase nunca. Tenho apenas uma vaga ideia que me atormenta em forma de pensamentos rápidos, início meio e fim numa só frase, vez após vez, até que... Voilà, estou aqui escrevendo e tentando fazer sentido. Então, meus blogs sempre foram espaços onde eu pensava para fora e isso virou um hábito, um vício, uma tradição. Quero dizer que o discurso não está planejado, ele se faz, irresponsavelmente. 

Ah, lembrei o que eu queria dizer: estou lendo Devoção da Patti Smith e gostando! Bem melhor que Só Garotos

O livrinho

Devoção é estranho, difícil de classificar e, como eu disse, estou gostando. Eu não sou especialista em literatura. Sou uma leitora mediana, nada mais. De qualquer forma, não consigo lembrar de nada encadernado que  tenha estrutura parecida. O que já li de mais semelhante foi justamente um blog e - acabo de verificar - ele não foi apagado ainda. Contudo, a última postagem é de setembro de 2018. Falo de Limas da Pérsia, da Sabina Anzuategui. 

Entre 2007 e 2008, Sabina estava escrevendo seu segundo livro: O Afeto.  O Limas da Pérsia era, então, um espaço generoso de compartilhamento da experiência de escrever. Nele, ela dissertava quase todo dia sobre os motivos que a tinham levado a conceber uma determinada cena, e não outra; cortar determinado parágrafo, e não outro; escolher uma palavra, e não outra. Uma espécie de Making-of do romance que estava sendo gerado. Eu acompanhava e gostava muito. Também matei tempo, no trabalho, franzindo a testa para o computador enquanto lia o blog da Sabina. 

Na minha opinião, a melhor parte de Devoção é justamente a primeira: onde Patti Smith descreve o processo de escrita de um conto. E, digamos, a intuição que tive sobre Só Garotos e que me fez desgostar da autobiografia também está lá, na superfície palpável do texto, num capítulo denominado Como o cérebro funciona. No entanto, o tal capítulo confirmou minha intuição, mas também a explicou e dissolveu a antipatia. 

Terei muita dificuldade se quiser me fazer entender, mas essa é a graça de escrever. Prossigamos.

***

A intuição

Na minha última postagem aqui, que aconteceu em 10 de Setembro, eu escrevi : "[...] é como se esse tipo de artista se voltasse para fora e se fizesse por fora também".  E é a isso que estou definindo como intuição

Às vezes eu penso numa língua só minha, cujo vocabulário é constituído de vivências e pensamentos anteriores, e minha opinião expressa na intuição acima é um bom exemplo disso. A grande questão é que quando se têm duas línguas, elas não necessariamente mantém diálogo regular uma com a outra. Ou seja, se se pensa uma determinada coisa numa das línguas, não é preciso pensar de novo na outra, porque já está pensado. Assim, eu só percebi a necessidade de tradução da minha intuição para o bom e velho português-do-resto-do-mundo quando o Paulo me fez uma pergunta e eu precisei, para além de pensar, comunicar a coisa toda. Desde então, venho trabalhando a resposta e o resultado de tanto pensamento é o seguinte:

A tradução: acho que quando eu escrevi "[...] é como se esse tipo de artista se voltasse para fora e se fizesse por fora também" eu estava falando de um tipo específico de pessoa que lida com a/as vida/artes através de rótulos. Minha impressão sobre Só Garotos era, portanto: Patti viu Jim Morrison performando e pensou "isso é rock, isso é ser roqueiro; legal, também serei roqueiro". O processo seria: ver o rótulo, achar bonito, colar em si". E minha antipatia seria resultado de uma discordância básica, que pode ser expressada na seguinte fala indignada: - Será que não percebem?! O rótulo não é o mote e sim resultado colateral dele. 

***

A explicação da intuição sobre Só Garotos que a Patti Smith inadvertidamente me deu em Devoção

O capítulo de Devoção intitulado Como o cérebro funciona confirmou a intuição que tive sobre a autora: sim, aquele é um cérebro que lida prazerosamente com rótulos. Se para a música, na Nova Iorque de Só Garotos, o rótulo escolhido foi a performance de Jim Morrison; para a literatura, na Paris de Devoção, houve muitos outros: o hotel onde Picasso fez ou deixou de fazer sei lá o quê, a rua por onde Baudelaire caminhou, a magreza de Simone Weil numa foto (tão magra quanto a própria Patti Smith na imagem que motivou essa lenga lenga toda minha), o gorro de Voltaire no museu e a vontade narrada de pegá-lo para si e enfiá-lo na própria cabeça. Chamo tudo isso de rótulo porque andar pelas mesmas ruas que Baudelaire não faz de ninguém um Baudelaire e esse achar o contrário me enjoa, porque eu não sou assim, então me soa como esnobismo. 

A essa altura eu admito que talvez haja uma invejinha aqui dentro. Pois é... Eu reconheço a possibilidade da inveja como algo lógico que não pode ser descartado embora eu não a saiba em mim e talvez ela nem exista. Afinal, no sujeito há sempre espaço tanto para os sentimentos conhecidos quanto para os não reconhecidos. Em minha defesa, porém, apresento o fato de que, quando pude viajar, eu me enfurnei nos cafundós da Amazônia, onde só se chega uma semana por ano e não existem turistas. Minha Baudelaire (Clarice Lispector) nunca esteve lá; meu Picasso (Chagall) provavelmente nunca tenha ouvido falar em Lago do Acará. E talvez eu esteja praticando um outro tipo de esnobismo me privando de conhecer Paris. Talvez... É possível, mas agora tanto faz! Com a pandemia de covid-19 e a crise econômica que virá na sequência, esse dilema estará resolvido: vou ficar em Minas mesmo, sem alternativas.  Mas... Evitando a dispersão total e voltando ao assunto abstrato com o qual tenho tecido este texto, outra coisa que escrevi na minha última postagem sobre a Patti Smith de Só Garotos foi: "[...] esse tipo de artista que é, em constituição física, sua própria arte, contraditoriamente se revela muito pouco." 

Agora sei, depois de matutar bastante, que os rótulos demarcam até onde se pode ir com o escrutínio e é esse fato que deu origem a minha antipatia. Eu já tinha dito exatamente isso, na postagem anterior, usando minha língua interna ao reclamar  que "esse tipo de artista [...] se revela muito pouco". Acontece que ainda não tinha ficado claro no bom e velho português-do-resto-do-mundo. Não estava dito, por exemplo, que eu detesto demarcações. A interdição das áreas profundas de um sujeito sobre o qual me debruço aparece para mim quase como uma ofensa pessoal. Tudo que freia minha curiosidade detalhista me irrita e Só Garotos é um passeio pelos rótulos que Patti Smith colheu e colou em si mesma no decorrer de sua vida, sem oferecer qualquer acesso bônus a algo abaixo da epiderme. Esconjurei, portanto, aquela autobiografia que me impedia de chegar aos quartos interiores, aos espaços mais íntimos da história de vida da autora e, portanto, só rascunhava a história maior que incluía a autora. 

Minha antipatia se dissolvendo

Achei bonito o título Como o cérebro funciona, mas segui ignorando por um bom tempo o que ele anunciava. Fui pega de surpresa quando, depois de seguir a trilha de rótulos já mencionados - o hotel onde Picasso fez ou deixou de fazer sei lá o quê, a rua por onde Baudelaire caminhou, a magreza de Simone Weil numa foto - vi-me diante do seguinte parágrafo: 


Lembro de ter visto o gorro de Voltaire num mostruário de vidro num museu qualquer. Um gorrinho de renda cor da pele e muito humilde. Desejei intensamente aquele gorro, com um estranho fascínio que não me abandonou, junto com a ideia supersticiosa de que quem usasse aquela peça poderia ter acesso a vestígios dos sonhos de Voltaire. Tudo em francês, claro, tudo da época dele, e naquele momento me ocorreu que as pessoas que sonharam através dos tempos sonharam com gente de sua época. Os gregos antigos sonhavam com seus deuses. Emily Brontë, com as charnecas. E Cristo? Talvez ele não sonhasse e mesmo assim soubesse tudo que podia ser sonhado, cada combinação, até o fim dos tempos. (Devoção, p.38)

 

Eis que finalmente a autora se revela e, ao fazer isso, reconhece a incompletude dos rótulos. E mais!, ela explicou a minha intuição! Sim, era também isso que estava me incomodando no Só Garotos inteiro, mas principalmente no momento em que Patti Smith escolhia a música como carreira por causa do corpo, dos movimentos e das caras e bocas de um roqueiro menor dentre os maiores. Jim Morrison já era, assim como acontece a qualquer um quando chega a compor com outros o mainstream de alguma expressão. Portanto, era inútil tentar ser o que já estava estabelecido. Ao invés disso, era preciso ser com eles, concomitante, mas outro. Como alguém teria podido ser Patti Smith e vender autobiografia para o mundo inteiro se não tinha entendido isso?!

Ah, como eu sou arrogante! Euzinha aqui, uma renatinha qualquer, achei que tivesse descoberto a América sozinha e pela primeira vez! Mas a Patti, humildemente e sem saber de nada, já estava me dizendo no primeiro capítulo do livrinho fechado e esquecido no canto da estante que aquela era a forma que seu cérebro funciona. Eu brava porque não consegui ultrapassar a epiderme de Só Garotos, e ela concordando comigo, mas acrescentando que era preciso que eu tivesse paciência, só isso. A surpresa  boa que senti com a conclusão do parágrafo sobre o gorro de Voltaire me fez voltar algumas páginas de Devoção para reencontrar um trecho que já tinha vagamente me chamado a atenção na primeira leitura. Vou contextualiza-lo antes de expô-lo.

Antes do parágrafo em questão, Patti contou que tomou seu café da manhã, porque estava indo a Paris, daí citou títulos e o nome de James Joyce, de Simone Weil, de Nabokov e o escambau. Rótulos e mais rótulos! Esteve num jardim onde Sartre também esteve, pisou as ruas que Baudelaire também pisou, etc., etc., etc. Até que acabou exausta numa cama de hotel - o mesmo onde Picasso fez sei lá o quê - assistindo televisão. Mas, altas horas da noite, o aparelho transmitia um campeonato de patinação artística. E foi então que ela escreveu: 


No meu sono o gênio produz combinações, regenerações. O determinado rosto-coração de Simone funde-se ao rosto dessa jovem patinadora russa. Cabelo escuro curtinho, olhos escuros que atravessam céus mais negros. Escalo o flanco de um vulcão entalhado no gelo, calor extraído do poço de devoção que é o coração feminino. (Devoção, p.24)

 

Eu preciso pensar mais no significado dessa última frase. Contudo, o processo de criação de Patti Smith está descrito sem véus. É assim que seu cérebro funciona: uma cara se funde com a outra que mistura com o café da manhã, com a exaustão, com o Jardim sei lá das quantas e... Patti Smith está sendo com eles e não no lugar deles, que nunca será seu. 

Gostei de saber! Da mesma forma que me agradava saber porque a Sabina cortava um parágrafo e não outro, escolhia uma palavra e não outra. Gostei de entrar no funcionamento de um cérebro que não o meu. Mesmo! Em Devoção, diferente do que acontece em Só Garotos, a autora se revela ainda que discretamente e em meio aos rótulos. 

Conclusão

Ainda não terminei de ler o livrinho sobre o qual estou opinando. Talvez eu escreva mais sobre ele quando acabar, mas também pode ser que não. A estrutura estranha de Devoção se fez assim: o primeiro capítulo é o já mencionado Como o Cérebro Funciona (que inclusive eu disse ser o meu preferido sem ter lido o último), o segundo é o conto intitulado Devoção e o terceiro eu ainda não sei o que será, mas o título é Um Sonho Não é Um Sonho. Já li o conto e não gostei por um motivo simples: "narciso acha feio o que não é espelho". 

Dostoiévski dizia que o público é um mal necessário. Essa frase estava não sei em que página de um livro feito das cartas que ele escreveu para o irmão. Penso agora que, no final das contas, eu sou o pior tipo de público: aquele que acha que sabe o que está sendo apresentado. Na música, eu sou a chata que vai dar uma palinha porque arranha canto e violão. Numa exposição de arte eu sou a chata que estudou um pouco de perspectiva e faz desenhos medonhos, então, fica dando pitaco na tela alheia. E na literatura... Bem... Na literatura eu sou a pessoa que escreveu esse textão que não interessa a ninguém.