Monday, August 03, 2020

Fakenews, histeria masculina e paranóia de direita

Em 1950 Joseph McCarthy era um senador pelo estado agrícola de Wisconsin. Antes de se eleger ele tinha trocado o partido democrata pelo republicano. Na primeira tentativa ele ainda era militar, coisa que as leis dos USA proibiam. Na segunda tentativa ele era juiz e também não poderia ter se candidatado. Durante a campanha ele mentiu sobre seus feitos durante a segunda guerra. Sua fama era de ter sido comprado pela Pepsi - ele buscou o fim do racionamento de açúcar nos EUA - e da construção civil. Fora isso, nada.

Considerado um político desimportante e inábil no seu próprio partido, McCarthy foi levado para fazer um discurso num clube no estado de West Virginia. Ele não planejou o discurso, mas trouxe umas notas sobre dois assuntos: a construção de casas para veteranos da guerra e a infiltração de comunistas no governo. Na hora H optou pelo segundo tema e, num lance típico, sacudiu as suas notas dizendo que ali estavam o nome de 250 comunistas infiltrados na Casa Civil do governo federal. 

O discurso criou sensação e saiu em vários jornais. McCarthy o repetiu - mudando o número de comunistas de um lugar para o outro - e começou a ganhar fama como caçador de comunistas. Três anos depois ele tomaria o controle de uma comissão do congresso e o transformaria numa comissão de caça aos comunistas. Os outros senadores pararam de frequentar as sessões e McCarthy transformou-se numa espécie de Silvio Santos do anticomunismo, com acusações - sempre sem provas - contra todo o tipo de pessoas no governo e em outras esferas da vida pública nos EUA, entre eles George Marshall, autor do plano que levava seu nome. Os jornais do grupo Hearst - a inspiração para o Cidadão Kane de Orson Welles - garantiam a cobertura, os barões do petróleo do Texas garantiam as verbas e os outros políticos morriam de medo da metralhadora verbal do senador. McCarthy convocou mais de 500 testemunhas para espetáculos de intimidação e esculacho, sempre feitos no caos do improviso furioso. Ninguém foi condenado oficialmente, mas muitos perderam seus empregos e passaram a viver em completo ostracismo. Gente como encadernadores de documentos oficiais ou dentistas de soldados do exército. 

A paranóia anti-comunista já existia faz tempo nos EUA e era parte fundamental da Guerra Fria. Truman - o homem que torrou 225 mil vidas em dois bombardeios em 1945 - tinha criado um programa federal de lealdade para os funcionários públicos. Entre 1947 e 1953, mais de 4 milhões de funcionários públicos tiveram que preencher formulários de auto-denúncia e desses mais de 25 mil perderam o emprego. Entre os desleais para o governo Truman estavam os homossexuais, que poderiam ser forçados a espionar os EUA por causa do seu comportamento "deplorável". O congresso não ficou atrás e lançou o House Un-American Activities Committee, condenando à prisão e condenando ao ostracismo não apenas funcionários públicos, mas de gente da indústria do cinema a professores primários. Se a promotoria geral da república listasse, digamos, uma torcida organizada do Internacional como simpática ao comunismo e se um sujeito tivesse participado, mesmo que só por um jogo, de uma festa patrocinada pela tal torcida, ele estaria marcado como alvo potencial para a caça ás bruxas. 

McCarthy acabou caindo em desgraça, acusado de favorecer amigos que queriam se livrar do serviço militar com ameaças de caça a "comunistas" no exército. O senador de uma nota só respondeu como sabia: "investigando" comunistas no exército. Aí um advogado - Joseph Welch - fez o que ninguém ainda tinha conseguido fazer: dar corda e mais corda até que McCarthy se enforcasse na frente de milhões de espectadores na televisão. O bufão bufou e espumou e xingou até cansar e aí Welch simplesmente deu um cheque-mate retórico: 

"não vamos continuar a assassinar a reputação desse rapaz; vossa excelência já fez mais que o bastante. Vossa excelência não tem senso de decência? Depois disso tudo, não restou nenhum senso de decência?[e McCarthy, como sempre, não largou o osso] Senador McCarthy, não vou mais discutir esse assunto com vossa excelência. Se Deus existe, esse espetáculo não vai  ajudar nem a vossa excelência nem a sua causa." 

Depois disso os próprios senadores se voltaram contra ele - dizem que quando ele se levantava para fazer um discurso, mais da metade da casa saía da sala. Os democratas retomaram a maioria do senado e ele perdeu o cargo de chefe da sua comissão. Em 1957, aos 48 anos, McCarthy morreu de hepatite causada pelo seu alcoolismo. Também em 1957 o Supremo limitou o poder do executivo de bisbilhotar sobre as crenças políticas dos funcionários públicos. Foram 10 anos de caça aos subversivos. 


Thursday, July 30, 2020

Notas para livros impossíveis: nos anais da malinagem


Como dizem por aí, "más Revueltas, menos Paz". Aqui Revueltas dá uma mineirada no "torito de feria":

“Pienso, pero no lo digo, porque de pronto no recuerdo de quién es la imagen: el pensamiento de Octavio Paz se dispara al aire. (Después me acuerdo que es Engels el que lo dice, en algún lugar: pensamientos que se disparan al aire). ¡Qué justo por cuanto a Paz!: todo él se dispara al aire; es un castillo pirotécnico, la pólvora de un torito de feria. Cuando menos en sus intentos de reflexión filosófica.”

O contexto maior dessa fala/não-fala está aqui 




Aqui Goethe viajando e malinando sobre o "amigo" Karl von Knebel:

"Quando ele viu as antiguidades aqui, ele gostou muito de um Júlio César que (a não ser que eu esteja muito enganado) é completamente sem valor, mas que tem uma notável semelhança com o próprio Knebel. Parece que a semelhança de carácter compensou pela falta de arte". 






Thursday, July 23, 2020

Minhas leituras: Os anos de Annie Ernaux

Acabei de ler o livro ao lado, de uma das memorialistas mais reconhecidas hoje em dia na França. Nunca vi alguém escrever uma prosa assim - uma pena eu não ter tempo de ler em francês - misturando o pessoal e a história do seu país/geração tão consistentemente. Isso porque ela evita o uso da primeira pessoa no livro. A protagonista é ou "ela" ou um impessoal "a gente" [o "on" do francês], que é traduzido frequentemente na voz passiva em inglês.  Os anos é estranhamente pessoal/específico e impessoal/vago ao mesmo tempo.

Para mim, é a radiografia do apodrecimento da França [e da Europa] no consumismo totalitário que invadiu todos os espaços da existência e vou invadindo o mundo inteiro. Mas é também uma radiografia desse novo complexo de superioridade da Europa com relação ao resto do mundo, apagando as burradas e loucuras das guerras mundiais e renovando o racismo que levantou Le Pens e suas versões atenuadas [como Sarkozy, por exemplo].

Sunday, July 19, 2020

Alfonso Reyes em tempos de guerra mundial

"La literatura, en efecto, no es una actividad de adorno, sino la expresión más completa del hombre. Todas las demás expresiones se refieren al hombre en cuanto es especialista de alguna actividad singular. Sólo la literatura expresa al hombre en cuanto es hombre, sin distingo ni calificación alguna. No hay mejor espejo del hombre. No hay vía más directa para que los pueblos se entiendan y se conozcan entre sí, que esta concepción del mundo manifestada en las letras."



"Nos negamos a admitir que el mundo de mañana, el que nazca del conflicto, pueda ser únicamente el fruto de la exasperación, de la violencia, del escepticismo. No: tenemos que legar a nuestros hijos una tierra más maternal, más justa y más dulce para la planta humana."


"La verdadera traición contra la especie está en entregar la suerte del mundo a los ignorantes y a los violentos. Esta abstención de los mejores es causa de la osadía de los peores, que hoy por hoy hacen su fiesta de sangre."



"Negarse a bajar con la verdad a la calle es tanto como desconfiar de la verdad."



"... sin un sentimiento de responsabilidad, sin un propósito definido de maturación, ni los pueblos ni los hombres maduran: el solo persistir y aun el
solo crecer no son ya madurar."


Monday, July 06, 2020

Diário de Quarentena no fim de Minas (perdi a conta)



Que a respiração siga e esteja nesse ritmo por todo o dia.



Renata.

Palavras de um crente, o entroncamento entre a democracia radical e o catolicismo

O padre Lamennais acabou sendo excomungado. Mas seu ensaio Palavras de um crente articulou ainda na primeira metade do século XIX essa conjunção poderosa entre a democracia radical e o cristianismo.

Dois trechos significativos: 

Deus não vos formou para serdes o rebanho de alguns outros homens. Ele vos criou para livre mente viver em sociedade como irmãos. Ora um irmão nada tem a ordenar a outro irmão. Os ir mãos se ligam entre si por convenções mútuas, e estas convenções constituem a lei; e a lei deve ser respeitada, e todos devem unir-se para impedir que a quebrantem, porque ela é a salvaguarda de todos, a vontade e o interesse de todos. [43]

Amai a Deus sobre todas as couzas, e o proximo como a vós mesmo, e a escravidão desapparecerá da terra. [44]

Friday, July 03, 2020

Commonplace books

Como será que se chamam os "Commonplace Books" em português? São cadernos que as pessoas mantinham onde anotavam coisas que lhes chamavam a atenção: poesias, receitas, trechos de livros etc. John Locke tem até um livreto que ensina às pessoas as melhores técnicas para manter esse tipo de caderno.

Eis algumas notas de um dos meus:

"Eu penso na morte da raça humana. A longa e estranha viagem desse primata sem pelos."
Bob Dylan


"Somos um mamífero especial, único capaz de levantar falso testemunho."


"O significado de qualquer evento passado não apenas transcende sempre qualquer causa que se lhes dê; o passado em si só existe no evento em si."
Hannah Arendt


"Estamos mais em perigo por causa dos sãos que dos insanos."
Susan Nardin Vincour


"O que significa saber o que são o certo e o errado em abstrato, mas não ser capaz de fazer essa distinção na prática."
Susan Nardin Vincour


"POETA

Um sapo foi comendo vagalumes sem importar-se com o seu sabor amargo até que pela sua pança inchada brilhasse uma luz sublime."
Alejandro Jodorovsky


Thursday, June 18, 2020

Ainda Gonçalves Dias (me desculpem)

Diz a nota biográfica da Academia Brasileira de Letras sobre Antônio Gonçalves Dias que 

"A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas." 

Notem bem nos termos dessa frase que se coloca para o leitor como meramente objetiva: a frase implica claramente que a origem (mestiça, bastarda?) do escritor maranhense filho de português com mestiça era, sim, de fato, "inferior"! 

Meu primeiro instinto é exclamar, "Inferior para quem, cara pálida?" (e agora as aspas são para mim mesmo). A tal frase, tão neutra e serena, apenas nos informa que Gonçalves Dias tem "consciência" desse "fato" (embrulha-se aqui num só pacote chamado "tudo" fato, consciência do fato e "saúde precária") e que a "inferioridade" e a "consciência da inferioridade" do poeta são "motivo de tristezas" que marcam sua poesia "eminentemente biográfica".  

Fico com um trecho de uma carta do próprio Gonçalves Dias a Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, "mano e amigo", escrita do Rio de Janeiro, onde Gonçalves Dias foi professor e educador com um salário que não pagava um terço do custo de vida da capital de acordo com ele mesmo:

“Demais não sou cortesão, não o quero ser, não o pretendo ser; não queria sobretudo aparecer ao público diverso do que sou”. 

A frase vinda do próprio autor está carregada de consciência, não apenas do que ele era, mas do que ele queria que o público visse. Não vejo aqui nem o mais discreto senso de inferioridade, muito antes pelo contrário. O contexto da frase é uma subvenção de 300 contos para publicar um livro, dinheiro que vem com a exigência implícita de dedicar o livro ao "benemérito" que se fazia de mecenas com o dinheiro do estado. A exigência implícita, provavelmente, tão normal e serena quanto o tom da frase da nota biográfica da ABL, é pragmaticamente recusada por Gonçalves Dias, pois 300 contos não é tanto dinheiro assim de qualquer maneira. Prometem-lhe pagar 1000 contos no seu emprego de professor e secretário do novo Liceu de Niterói, mas depois da inauguração ele descobre que só vai receber mesmo 800 contos - imagino a naturalidade tranquila do safado que cortou em 20% o salário, já insuficiente, do mestiço que tinha se formado com louvores em Coimbra (a melhor universidade de língua portuguesa da época). O mestiço que conhecia a língua portuguesa de cabo a rabo, que era membro do IHGB, que era tradutor do alemão, que escreveu a melhor literatura do período e pertence a um grupo bem restrito de escritores que influenciaram profundamente a cultura brasileira.