Monday, January 09, 2017

Obituário: Leonard Cohen

Era uma vez um velho poeta judeu que sabia que ia morrer e, sabendo que ia morrer, escreveu um último poema. Esse poema, como era do seu feitio, passava longe de slogans sentimentais e certezas, coisas que ele uma vez disse andar escurecendo o ambiente feito uma praga de gafanhotos. Ainda assim o tal poema continha um refrão ao mesmo tempo simples e poderoso: Hineni/הנני [Aqui estou!]. O refrão em hebraico era uma referência a um outro poeta judeu, de uma sensibilidade bastante diferente. Esse outro poeta, muito antigo, chama-se Isaías, e gostava de fazer falar furiosamente um Deus que anunciava a redenção dos seres humanos num futuro próximo que, séculos mais tarde, parecia ainda mais improvável. 

O velho poeta judeu, descrente de redenções grandiloquentes, transformou seu poema numa canção, e chamou para acompanhá-lo o coro da sinagoga da sua infância, Shaar Hashomayim, que significa, significativamente, "Porta dos Céus". Falava de velas votivas queimando em vão e sofrimentos cantados em cantigas de ninar, entre outras coisas.

Terminada o poema e gravada a canção o velho poeta judeu estava pronto para morrer. E morreu. Seu nome era Leonard Cohen.

Era assim a canção:



A canção/poema dizia o seguinte:

If you are the dealer, 
I'm out of the game.
If you are the healer, 
it means I'm broken and lame.
If thine is the glory, 
then mine must be the shame
You want it darker,
we kill the flame.

Magnified, sanctified
be thy holy name.
Vilified, crucified
in the human frame.
A million candles burning 
for the help that never came.

You want it darker,
Hineni! Hineni!
I'm ready, my lord.

There's a lover in the story,
but the story's still the same.
There's a lullaby for suffering
and a paradox to blame,
but it's written in the scriptures
and it's not some idle claim.

You want it darker,
we kill the flame.

They're lining up the prisoners
and the guards are taking aim.
I struggled with some demons,
they were middle class and tame.
I didn't know I had permission 
to murder and to maim.

You want it darker,
Hineni, hineni!
I'm ready, my lord.

Magnified, sanctified
be thy holy name.
Vilified, crucified
in the human frame.
A million candles burning 
for the love that never came.

You want it darker
We kill the flame

If you are the dealer, 
let me out of the game.
If you are the healer, 
I'm broken and lame.
If thine is the glory, 
mine must be the shame.

You want it darker,
Hineni! Hineni!
I'm ready, my lord!
Hineni!
Hineni! 
Hineni!
Hineni!

Tuesday, January 03, 2017

Traduzindo: Every Day is For The Thief de Teju Cole

Trecho de Every Day is For The Thief do nigeriano Teju Cole no qual o protagonista tem uma troca de incompreensões com um velho amigo que ele reencontra depois de anos:

- Estou com malária.
- Ai, não diz isso.
Fico perplexo.
- Como assim? Eu estou com malária.
- O que eu quero dizer é que você não devia dizer "estou com malária" e esse tipo de coisa. A língua é uma coisa muito poderosa, sabia?
- Bom, tudo bem, isso é muito bonito e coisa e tal. Mas o negócio é o seguinte, meu chapa: eu estou mesmo com malária. Então eu digo que estou com malária. Estou doente feito um cachorro já faz 24 horas.
- É dizer essas coisas que te faz doente. Você não está doente.
Não estou a fim de discutir com ele. Naquela altura tenho que sair correndo para o banheiro para me aliviar. Volto me arrastando para a cama e digo:
- A fêmea do mosquito Anopheles me pegou. Essa é a realidade. O parasita plasmodium ataca meus glóbulos vermelhos e me faz sentir assim, então quanto mais cedo eu admitir isso para mim mesmo, mais cedo eu começo a tratar a doença, Oluwafemi. Não faz sentido contrariar a realidade.
Busco em seu rosto, em vão, sinais de compreensão. Oluwafemi apenas balança a cabeça, como se sentisse pena de mim, preso que estou a uma visão científica do mundo. "Relaxe! Deus está no comando!" E na sua atitude reconheço a chave para entender muito do que vi nas semanas anteriores. a ideia de que dizer alguma coisa faz dela uma realidade, de que as leis da imaginação valem mais do que todas as outras. Mas é claro. Oluwafemi justifica a si mesmo: ele está em plena saúde, e sou eu, descuidado com a língua e desprovido de fé, que estou suando frio debaixo das cobertas.

Friday, December 30, 2016

Poesia minha: Águas de Belo Horizonte

Águas de Belo Horizonte


Quiero volver a tierras niñas;
llévenme a un blando país de aguas.
Gabriela Mistral

 
nascem limpas as cabeceiras
do Barreiro o Olaria e o Clemente
que depois jazem imundos
no túmulo do Arrudas

brotam doces o Jatobá
o Olhos D’Água e o Água Branca
que depois escorrem podres
da boca do Arrudas 
o Cercadinho e o Tijuco
chegam frescos ao mundo
e despencam depois moribundos
pelas barrancas do Arrudas

o Leitão e o Pastinho
saem da terra cristalinos
e depois se entrevam adoecidos
no leito do Arrudas

minam puros da encosta
o Cercadinho o Cardoso e o Serra
que dos tubos solapados vazam mortos
para o ventre duro do Arrudas

vertem água cristalina
o Itaituba o Taquaril o Cafundó e o Olaria
e escoam a fragrante bílis negra
da vesícula cancerosa do Arrudas.

o Britos e até o Acaba Mundo
são paridos água aguda branda e adamantina
que é então assassinada a sangue frio
nos intestinos dessa áspera cidade
que semeia desertos de asfalto concreto e pedra
que cobre os morros que descem
rolando até o Ribeirão Arrudas

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Friday, December 23, 2016

Pindorama copia com sinal invertido

1. Em 1987 um grupo de militares argentinos balançaram o governo Alfonsín logo depois do retorno à democracia com motins armados contra qualquer iniciativa de investigar os crimes do regime militar. O nome desses militares, por causa da tinta preta de camuflagem no rosto: caras pintadas, devidamente indultados por Carlos Menen quando este chegou ao poder.
No Brasil em 1992 muitos estudantes universitários e secudnaristas saíram às ruas para pedir pelo impeachment do presidente neo-liberal Fernando Collor, o Menen brasileiro. Nos protestos os estudantes costumavam pintar o rosto com as cores da bandeira brasileira e ficaram conhecidos como caras pintadas.

2. Em 2001 uma violenta convulsão econômica destrói economicamente a Argentina depois de muitos anos de abusos neo-liberais na Argentina sob o comando de Menen, aquele equivalente de Collor que ficou dez anos no poder e assim também foi uma espécie de FHC cafona para os argentinos. Eleito com promessas de reverter Menen, De la Rúa ofereceu aquele mais-do-mesmo aguado que caracteriza muitos dos governos ditos de esquerda no período neo-liberal. Aquele apocalipse econômico acontece sob o barulho intenso de panelas em protestos, em conjunto com as "ollas comunitarias", esforços dos próprios movimentos para mitigar a fome que se espalhava como uma epidemia pela argentina.
No Brasil os protestos que trouxeram o país no final de 2016 para a vanguarda do pesadelo neo-liberal são identificados com as panelas, agora ouvidas não tanto nas ruas mas das sacadas dos prédios da classe média enfurecida pela corrupção e pela crise econômica.

3. O que determinaria essa constante cópia de imagens políticas com sinal trocado entre Brasil e Argentina? Esse movimento de inversão de sinais é muito mais comum do que se pensa. Ele é feito, por exemplo, inúmeras vezes por Guimarães Rosa, um autor que parece nunca citar uma referência cultural antes de invertê-la ironicamente. Mas aí poderíamos falar que se trata de um indivíduo [embora eu não esteja convencido que todas as inversões feitas por GR são opções conscientes a partir de uma leitura da referência em questão]. As culturas tratam essas coisas de forma impessoal e coletivo. E o mundo neo-liberal em que vivemos adora acima de tudo o Deus Indivíduo.

Monday, December 19, 2016

Entre a pauta estridente e o ostracismo às moscas

1. Hoje mais do que nunca valorizo uma das grandes lições que aprendi da minha orientadora Candace Waid [até hoje um modelo para mim de inteligência, criatividade e humanidade nessa casa de loucos que é o meio universitário]. Quando eu discutia com ela sobre certos textos de crítica que eu achava péssimos, ela me recomendou que eu escolhesse com muito cuidado os textos com os quais eu iria me engajar criticamente, para não acabar sendo pautado por ideias desinteressantes. Acho que o conselho valeu para muita coisa, e hoje vale para uma coisa que mal existia quando ele me foi dado.

2. As redes sociais ocuparam, na minha pelo menos, todo espaço antes dedicado a jornais e televisão [é sempre bom ter isso em mente para evitar pessimismos exagerados] e elas fazem uma demanda constante aos usuários por opinião e por controvérsia. Somos instados a dar opinião sobre projetos de áreas como agricultura familiar ou ensino de ioga, investigações ou processos judiciais complexos, conflitos étnicos e religiosos e outros. Pior ainda, somos instados a dar opiniões taxativas, geradoras de polêmica. E assim somos, sem perceber, pautados por boçais geradores de bate-boca, muito frequentemente boçais que detestamos.

3. O problema de ser pautado e assim entrar barcas furadas é bem mais complexo, entretanto. Por exemplo, leio um breve artigo sobre ranking de universidades na América Latina. Na "discussão" do artigo que é um resumo apressado dos resultados do tal ranking, leio sobre o problema que representa para uma evolução dessas universidades nos rankings mundiais o "modelo napoleônico" que elas ainda adotam ao invés do "ideal humboldtiano" que é adotado no mundo anglo-saxão [e notem a nada sutil oposição entre o modelo Imperador francês malvado e o ideal humanista alemão bonzinho...]. O artigo é em inglês e foi publicado pela "Inside Higher Ed", criação de um pessoal saído do "Chronicle of Higher Education". Ambas instituições estão completamente inseridas na "indústria acadêmica" americana, onde os velhos burocratas acadêmicos com seus cachimbos e idéias "humboldtianas" sobre "artes liberais" são substituídos por novos burocratas acadêmicos com muito gel no cabelo, ternos impecáveis e muita fé na mágica dos "metrics", entre eles os que definem... rankings.

4. Bem no centro desse lindo e aparentemente altamente exportável modelo humboldtiano [tal como ele se apresenta hoje em dia nos Estados Unidos] está o sistema de efetivação dos professores universitários chamado "tenure". Ainda que ele seja cada vez menos parte do horizonte concreto da maioria dos profissionais do ensino superior, obrigados a trabalhar em condições cada vez mais precárias sem sequer a garantia de níveis básicos de sobrevivência a médio prazo, o "tenure" é o Santo Graal do sistema, a ambição primeira e o objetivo maior de todo aprendiz de professor universitário nos programas de doutorado. O longo e tortuoso processo de "tenure track" ao qual todos os professores universitários se sujeitam por pelo menos cinco anos na esperança de ter uma "carreira estável" é um longo e tortuoso processo de adestramento. Atenção constante aos regulamentos e regras, amor pelas santas convenções e hierarquias profissionais, respeito solene pelos prazos, veneração pelos títulos, condecorações e prêmios, devoção aos critérios aceitos e consolidados pela tradição, subserviência total à meta suprema de preservar e elogiar as instituições. Anos e anos seguindo à risca sem questionamentos as regras do jogo numa postura de total conformismo [essas são as regras e pronto] e servilismo [esses são os donos do seu futuro; tente agradá-los]. Não é de se admirar que a maioria dos sobreviventes do processo [uma minoria cada vez mais minoria nas universidades] sejam complacentes, carreiristas e conformistas.

5. Valeria a pena olhar um pouco mais atentamente para o tal conceito de artes liberais, tão caro ao tal sistema universitário americano. Uma "arte liberal" é concebida a arte dos homens livres - eram sete lá pelos fins da Idade Média. Elas se contrapunham às "artes aplicadas", ocupação de gente não-livre, escravos e outros pés-de-chinelo sem lenço nem documento. Nem arquitetura, nem pintura, nem escultura entravam no clube exclusivo das artes liberais [trivium e quatrivium] até que Alberti e companhia argumentassem que elas deveriam, sim, ser valorizadas como atividades dignas de "homens livres" e não de artesãos anônimos. Homens livres para praticá-las com as mãos limpas e sem suar a camisa. Para por aqui porque só uma meia-dúzia de moscas lê isso aqui e porque meu blogue não tem nem meia estrela no Guia Michelin/Qualis.

6. Só advirto que, completamente contra a corrente a qual me referi, não quero criar polêmicas boçais, mesmo sabendo que controvérsia gera tráfico de acessos e tráfico de acessos gera poder. Não quero extinguir nada. Não tenho nenhuma solução simples e definitiva para nada. Não sou nem contra nem a favor de Alberti, do Renascimento, de Humboldt, nem mesmo de Napoleão. Nessa época de declarações bombásticas e julgamentos sumários o que eu quero mesmo é ficar assim: às moscas.

Wednesday, December 14, 2016

Poesia Mexicana [em fúria]: Efraín Huerta

¡Mi país, oh mi país!
Efraín Huerta
Descenderá al sepulcro vuestra soberbia. Y
echados seréis de él como troncos abominables,
vestidos de muertos pasados a cuchillo,
 que descendieron al fondo de la sepultura.
Y no seréis contados con ellos en la sepultura:
porque destruisteis vuestra tierra, y arrasasteis vuestro pueblo.
No será nombrada para siempre la simiente de los malignos.
Libro del profeta Isaías


Ardiente, amado, hambriento, desolado,
bello como la dura, la sagrada blasfemia;
país de oro y limosna, país y paraíso,
país-infierno, país de policías.
Largo río de llanto, ancha mar dolorosa,
república de ángeles, patria perdida.
País mío, nuestro, de todos y de nadie.
Adoro tu miseria de templo demolido
y la montaña de silencio que te mata.
Veo correr noches, morir los días, agonizar las tardes.
Morirse todo de terror y de angustia.
Porque ha vuelto a correr la sangre de los buenos
y las cárceles y las prisiones militares son para ellos.
Porque la sombra de los malignos es espesa y amarga
y hay miedo en los ojos y nadie habla
y nadie escribe y nadie quiere saber nada de nada,
porque el plomo de la mentira cae, hirviendo,
sobre el cuerpo del pueblo perseguido.
Porque hay engaño y miseria
y el territorio es un áspero edén de muerte cuartelaria.
Porque al granadero lo vistende azul de funeraria y lo arrojan
lleno de asco y alcohol
contra el maestro, el petrolero, el ferroviario,
y así mutilan la esperanza
y le cortan el corazón y la palabra al hombre—
y la voz oficial, agria de hipocresía,
proclama que primero es el orden
y la sucia consigna la repiten
los micos de la Prensa,
los perros voz-de-su-amo de la televisión,
el asno en su curul,
el león y el rotario,
las secretarias y ujieres del Procurador
y el poeta callado en su muro de adobe,
mientras la dulce patria temblorosa
cae vencida en la calle y en la fábrica.
Éste es el panorama:
Botas, culatas, bayonetas, gases…
¡Viva la libertad!

Colagem minha: Prescription for Disasater
Buenavista, Nonoalco, Pantaco, Veracruz…
todo el país amortajado, todo,
todo el país envilecido,
todo eso, hermanos míos,
¿no vale mil millones de dólares en préstamo?
¡Gracias, Becerro de Oro! ¡Gracias, FBI!
¡Gracias, mil gracias, Dear Mister President!
Gracias, honorables banqueros, honestos industriales,
generosos monopolistas, dulces especuladores;
gracias, laboriosos latifundistas,
mil veces gracias, gloriosos vendepatrias,
gracias, gente de orden.
Demos gracias a todos
y rompamos
con un coro solemne de gracia y gratitude
el silencio espectral que todo lo mancilla.
¡Oh país mexicano, país mío y de nadie!
Pobre país de pobres. Pobre país de ricos.
¡Siempre más y más pobres!
¡Siempre menos, es cierto,
pero siempre más ricos!
Amoroso, anhelado, miserable, opulento,
país que no contesta, país de duelo.
Un niño que interroga parece un niño muerto.
Luego la madre pregunta por su hijo
y la respuesta es un mandato de aprehensión.
En los periódicos vemos bellas fotografías
de mujeres apaleadas y hombres nacidos en México
que sangran y su sangre
es la sangre de nuestra maldita conciencia
y de nuestra cobardía.
Y no hay respuesta nunca para nadie
porque todo se ha hundido en un dorado mar de dólares
y la patria deja de serlo
y la gente sueña en conjuras y conspiraciones
y la verdad es un sepulcro.
La verdad la detentan los secuestradores,
la verdad es el fantasma podrido de MacCarthy
y la jauría de turbios, torpes y mariguanos inquisidores de huaraches;
la verdad está en los asquerosos hocicos de los cazadores de brujas.
¡La grande y pura verdad patria la poseen,
oh país, país mío, los esbirros,
los soldadones, los delatores y los espías!
No, no, no. La verdad no es la dulce espiga
sino el nauseabundo coctel de barras y de estrellas.
La verdad, entonces, es una democracia nazi
en la que todo sufre, suda y se avergüenza.
Porque mañana, hoy mismo,
el padre denunciará al hijo
y el hijo denunciará a su padre y a sus hermanos.
Porque pensar que algo no es cierto
o que un boletín del gobierno
puede ser falso
querrá decir que uno es comunista
y entonces vendrán las botas de la Gestapo criolla,
vendrán los gases, los insultos,
las vejaciones y las calumnias
y todos dejaremos de ser menos que polvo,
mucho menos que aire o que ceniza,
porque todos habremos descendido
al fondo de la nada,
muertos sin ataúd,
soñando el sueño inmenso
de una patria sin crímenes,
y arderemos, impíos y despiadados,
tal vez rodeados de banderas y laureles,
tal vez, lo más seguro,
bajo la negra niebla
de las más negras maldiciones… 

4 de abril de 1959 [Poesía completa, 2ª edición, Fondo de Cultura Económica, México, 1995, pp. 226-229]