Sunday, August 28, 2016

Obituário: Geneton Moraes Neto

22 de agosto de 1987. O Jornal do Brasil trazia no seu caderno Idéias duas entrevistas inéditas, cada uma ocupando duas páginas do jornal. Eram entrevistas feitas pouco antes da morte de Carlos Drummond de Andrade naquele mesmo ano e de Glauber Rocha, em 1981.

Cristalina a visão de dois temperamentos bastante diferentes na maneira de se colocar publicamente. Drummond dizendo que iam esquecê-lo e que ele não se importava com isso porque não tinha mesmo feito nada demais, e Glauber anunciando o artista [de preferência ele mesmo, autoproclamado “poeta, escritor, crítico, pintor […] músico” além de cineasta] como Avatar que enxerga mais longe e traça os caminhos do futuro.

A entrevista com Drummond não contém perguntas; só as falas do poeta com um título temático e seguido de trechos de poesias dele que de alguma forma se relacionavam com o que ele dizia. A entrevista de Glauber Rocha tem uma pequena introdução, que explica o contexto da entrevista dada a Manoel Carvalheiro e se completa com três depoimentos excelentes de Serge Daney, Louis Marcorelles e Jean Rouch, dispostos/entitulados como três atos na vida de Glauber.


Geneton Moraes Neto morreu com apenas 60 anos no dia 22 de agosto de 2016. Essas quatro páginas são produto do seu trabalho. Não sei até quando, elas estão disponíveis aqui. Um perfil bem completo [ainda que, como sempre, em última instância festejando a Globo] está aqui.

Saturday, August 27, 2016

Sobre texto de Leyla Perrone-Moysés no Suplemento de Pernambuco

Escrevo aqui breves comentários sobre o texto de Leyla Perrone-Moysés no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, excelente periódico cultural.

A autora fala em “elitismo” [entre aspas] como "uma seleção visando a preservar o melhor do que já foi feito até hoje, e de uma resistência ao tsunami da indústria cultural". 
Acho reveladora a ideia da autora do artigo de uma "resistência a um tsunami". Acho que a expressão concede a derrota antecipada desse campo de alta cultura que Perrone-Moyses insiste em defender como bandeira no seu embate com a odiada cultura de massas [o tsunami em questão]. No mais, pessoalmente, não tenho a menor disposição para ser porteiro de boate e ficar barrando e deixando entrar "o melhor".

Mais tarde a autora fala que "algo deve ser preservado da rica tradição literária ocidental, como resistência à indústria cultural e a uma concepção da literatura como mero bem de consumo, produzida em função de um público pouco exigente". 
Sinto aqui mais uma ponta de derrotismo [só "algo" e não "toda"?] Além disso, como uma pessoa que vive e trabalha em meio universitário norte-americano, não posso deixar de registrar o absurdo irônico de uma defesa brasileira assim tão inocente da "rica tradição literária ocidental". Uma defesa desse tipo por aqui implicaria na exclusão definitiva de qualquer autor brasileiro. A palavra mais usada no inglês para significar "ocidental" é "West" e mesmo os americanos cultos fora dos guetos especializados em literatura latino-americana se surpreenderiam com a ideia de que escritores brasileiros fazem parte da "sua" cultura ocidental.

Na última parte do texto, Leyla Perrone-Moysés fala em "Valores básicos" daqueles escritores que seguiriam levantando a bandeira da literatura no meio do tsunami de lixo da cultura de massas. São eles:


-      "o exercício da linguagem de modo livre e consciente";
-      "a criação de um mundo paralelo como desvendamento e crítica da realidade";
-      "a expressão de pensamentos e sentimentos não apenas individuais, mas reconhecíveis por outros homens como correspondentes mais exatos aos seus";
-      "a capacidade de formular perguntas relevantes, sem a pretensão de possuir respostas definitivas".
Bom, estou para encontrar algum produto cultural, alto ou baixo, literário ou não, que seja "apenas individual" - todo o texto [bom ou ruim, de massa ou não] tem necessariamente uma dimensão particular e uma dimensão universal. Essa defesa do universalismo é, na minha opinião, um espantalho desprovido de sentido. Aliás reli todos os outros "valores básicos" listados no texto e encontrei o mesmo tipo de problema - indicações de traços [escrita consciente, mundo paralelo reconhecível, perguntas relevantes sem respostas definitivas] que podem estar presentes em grandes obras primas ou em mediocridades exemplares. Não ajuda nada a sub-listinha no finalzinho do texto com "veracidade", "força expressiva" e "força comunicativa".

O final do texto, aliás, me pareceu um pouco apressado, justamente no momento em que ele poderia prometer mais. Eu tenho trabalhado com autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Faulkner e Juan Rulfo. Não estou aqui, portanto, criticando o texto a partir dessa postura que a própria Perrone-Moysés define como "anti-elitista".

Falo aqui a partir de um outro lugar, de um horizonte sem tsunamis nesse sentido de manifestações irresistíveis e avassaladoras de destruição apocalíptica. Falo também de alguém preocupado em ler [meu ofício] com os olhos limpos, encarando o poema de um autor completamente desconhecido e fuleiro e o poema do mais chefão mais "alto/ocidental/nobel/sublime" da parada exatamente com a mesma disposição inicial.

Tuesday, August 23, 2016

Gentileza e Brutalidade

Pintura de Pedro Américo de 1893 que assombrou minha infância
Valentim Alexandre resume nos seguintes termos os principais traços atribuídos aos portugueses como colonizadores pela ideologia do luso-tropicalismo:

“Uma especial capacidade de se relacionar com outros povos, em particular os das regiões tropicais, uma forma de estar marcada pela ausência de preconceitos raciais, nos contactos com esses povos; uma particular apetência pela miscigenação, dando origem ao mestiço, em contraste com a relutância de outras populações, nomeadamente as nórdicas; e como consequência de todas estas características, uma vocação para servir de ponte, de elo de ligação entre regiões e culturas diferentes.” [Fonte aqui, na excelente tese de Sandro Motta Campos]

Leio de novo então o trecho da sentença de condenação de Tiradentes:

“… condenam ao Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes Alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas a que com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas no sitio da Varginha e das Sebolas aonde o Réu teve as suas infames práticas e os mais nos sitios (sic) de maiores povoações até que o tempo também os consuma; declaram o Réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens applicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados e no mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infamia deste abominavel Réu…” [A sentença completa está aqui.]


Seria mais fácil chamar o luso-tropicalista de mentira sem-vergonha. Ou pelo menos poderíamos atribuir essa cultura monstruosa [essa ponte/elo entre culturas que ao mesmo tempo enforca, esquarteja, arrasa, salga e torna infame por três gerações] apenas aos portugueses e não aos brasileiros também, como se o moinho de gentes montado na colonização não tivesse sido aumentado e amplificado depois da independência. Esse dilaceramento extremo entre gentileza e brutalidade é nosso. E não há sequer uma redenção possível [incompleta, longe de qualquer ideal] enquanto não estivermos dispostos a encarar de frente aquilo que a sentença contra o Tiradentes exprime.