Saturday, December 26, 2009

Poema meu: Mash-Up de Cyril Connolly







Desconfie dos que falam
de ética o dia inteiro.

Desconfie dos charmosos
que escondem viver
do amor alheio.

Desconfie daqueles que ignoram
que sem inteligência
nem sensibilidade,
o caráter é caroço duro,
sem polpa e casca.

Desconfie dos que negam
que nada dói mais do que a dor
que dois amantes podem dar um ao outro.

Desconfie da uva que nos ensinou
o vinho que aprendemos a beber,
mas desconfie também
dos que se dizem livres das drogas,
porque tudo nesse mundo
é uma droga perigosa
exceto a realidade,
que é insuportável.

Desconfie dos que nunca se perguntaram
se a civilização de hoje
é o esterco de amanhã
e dos que não desconfiam
do passado, a única coisa morta
que não cheira mal.

Desconfie dos que vivem
nas encubadoras de apatia e delírio
da classe média
e têm medo e amam o conforto vazio
e têm medo e amam o dinheiro
e têm medo e odeiam o que temem.

Eles não se matam
por medo do que os vizinhos
vão dizer.

Desconfie dos que escrevem poemas
como esse, cheios de imperativos.
Deus ri dos nossos planos
e nos faz promessas
antes de nos destruir.
Resta ao artista
salvar o mundo
entre duas tarefas:
levar a imaginação à ciência
e a ciência à imaginação.

Wednesday, December 23, 2009

Pérolas de Sabedoria

Duas frases interessantes de Cyril Connoly, um crítico e editor muito influente nos anos 40 na Inglaterra.

"Like everyone who talked of ethics all day long, one could not trust him half an hour with one's wife."
Sobre Arthur Koestler

"There are many who dare not kill themselves for fear of what the neighbors will say."

Monday, December 21, 2009

Liar, Liar, Pants on Fire!


O www.politifact.com é um site muito interessante mantido por um jornal regional, da cidade de São Petersburgo na Flórida. A premissa é muito simples: declarações de políticos e de comentaristas da mídia são checadas pelo site que então classifica a declaração como verdadeira, verdadeira na maior parte, uma meia-verdade etc. Uma mentira deslavada ganha o nome de “Pants on Fire” [uma rima infantil muito comum que as crianças usam quando acusam alguém de mentiroso, dizendo “liar, liar / pants on fire”].
O troféu da “mentira do ano” do politifact.com vai para a mentira mais deslavada de todas no ano, de acordo com os leitores e os jornalistas do site. Em 2009 ganhou, com grande merecimento, a seguinte lorota da ex-governadora do Alaska e ex-candidata a vice-presidente Sarah Palin. No dia 7 de agosto, três semanas depois que a reforma do sistema de saúde chegou ao congresso, Sarah Palin disse que o governo de Obama iria criar “death panels”, grupos de burocratas que iriam resolver se os idosos e deficientes físicos deveriam receber tratamento medico de acordo com seu nível de produtividade para a sociedade. No original, saído do facebook de Sarah Palin:

The America I know and love is not one in which my parents or my baby with Down Syndrome will have to stand in front of Obama's ‘death panel' so his bureaucrats can decide, based on a subjective judgment of their ‘level of productivity in society,' whether they are worthy of health care. Such a system is downright evil."

A mentira deslavada do ano não ganha por ser mais mentirosa que outras mentiras deslavadas, mas pela impressionante repercussão que essa mentira conseguiu no país, a ponto de ter sido negada publicamente inúmeras vezes, até por Obama em pessoa. Muita gente aliás deve continuar acreditando nessa lorota até hoje...

O site tem, por exemplo, um acompanhamento detalhado de todas as promessas de campanha de Obama, comparando as declarações daquela época com as ações concretas do governo. Já imaginou se um site desse aparecesse no Brasil? Não seria uma boa, principalmente em ano de eleições?

Saturday, December 19, 2009

Extra, Extra!

O jornal El País da Espanha repercutiu muito positivamente a nova tradução de Grande Sertão: Veredas para o espanhol, feita por Florencia Garamuño e Gonzalo Aguilar, um argentino que conhece literatura brasileira melhor que a maioria dos especialistas brasileiros. Já no primeiro parágrafo do artigo do jornal uma surpresa:

“El carioca Guimarães Rosa (1908-1967), uno de los más grandes narradores del siglo XX, anduvo siempre obsesionado con el lenguaje.”

Ora bolas, Guimarães Rosa tem mais em comum comigo que eu pensava… deve ser o “carioca” mais mineiro de todos os tempos…
Fora essa bola fora, a reportagem é muito simpática e o site do jornal oferece as primeiras páginas da tradução nova para baixar. Também chama a atenção a iniciativa da editora Adriana Hidalgo, que também lançou há pouco tempo uma primeira tradução de Sagarana para o Espanhol. Os argentinos, enfim, estão pondo outra vez no mapa das letras hispanas o nome de Guimarães Rosa. Não consigo imaginar outro universo literário mais preparado para entender e dar valor ao autor de Grande Sertão: Veredas.

A dança dos números em Honduras de 1 a 10

1. A ONU, a OEA e mesmo o Carter Center [ONG do ex-presidente Jimmy Carter] não enviaram equipes de fiscalização para as eleições em Honduras porque não reconheciam a convocação de eleições por um governo golpista.

2. Sem essa fiscalização externa formal tradicional, as eleições foram monitoradas por duas ONGs dos Estados Unidos, o International Republican Institute (IRI), de extrema-direita, e o National Democratic Institute (NDI), digamos que de centro-direita; ambas financiadas principalmente pelo dinheiro do USAID (the United States Agency for International Development) do governo norte-americano.

3. Isso, claro, além do TSE de Honduras, que apoiava claramente o golpe. Poucos dias antes da eleição, 90 membros do TSE de Honduras pediram demissão em protesto contra o apoio do tribunal ao regime no poder.

4. O TSE de Honduras inicialmente anunciou a participação de 62% dos eleitores – informação crucial para a legitimação internacional do regime. Nesse sentido, o porta-voz do ministério de relações exteriores dos Estados Unidos declarou naquele mesmo dia:
“Turnout appears to have exceeded that of the last presidential election. This shows that given the opportunity to express themselves, the Honduran people have viewed the election as an important part of the solution to the political crisis in their country.”

5. No noite do dia da eleição o grupo hondurenho Hagamos Democracia [um consórcio de ONGs apoiado pelos Estados Unidos indiretamente através do NDI] enviou ao TSE relatório com uma estimativa de apenas 48.7% de participação do eleitorado.

6. Ainda que o TSE tenha então revisado seus números oficiais para 49% [virtualmente o número oferecido pelo Hagamos Democracia], o primeiro informe já tinha sido usado pela mídia internacional e pelo governo dos Estados Unidos como prova de que as eleições tinham sido livres e democráticas.

7. No anúncio oficial do resultado das eleições, o TSE de Honduras declarou que 1.7 milhões de votos tinham sido contados, o equivalente a 34% do eleitorado, o mais baixo nível de participação de eleitores na história de Honduras. Os 54% de votos para o candidato Porfirio Lobo, portanto, equivalem a 19% do eleitorado do país.

8. Nada disso deveria ser exatamente uma surpresa para um brasileiro minimamente informado. Mas e se o brasileiro minimamente informado só lê os principais jornais e revistas brasileiros? Poderíamos chamá-lo talvez de “brasileiro minimamente desinformado”?

9. Digo que não deveria ser uma surpresa aqui porque, afinal, a ditadura militar brasileira realizou eleições regularmente, eleições sempre reconhecidas pelo governo dos Estados Unidos. E pela maioria dos principais jornais e revistas do Brasil.

10. A luta do regime de Honduras por legitimidade é mais ou menos igual àquela luta da ditadura militar por legitimadade. Os tempos é que são outros. Bom, mais ou menos…

[Minha fonte principal aqui foi um informe do Council on Hemispheric Affairs [COHA]. Quem se interessa pela América Latina pode receber deles informes periódicos por email. O relatório sobre as eleições de Honduras está no http://www.coha.org/honduran-election-results-still-need-to-be-scrutinized-state-department-dashes-hopes-that-a-transformative-latin-america-policy-has-been-born/].

Friday, December 18, 2009

Gabriel Orozco 3


"Es un trabajo de desprejuicio, un proceso en que busco librarme de prejuicios".


Mais Gabriel Orozco aqui.

Wednesday, December 16, 2009

A voz do dinossauro




Sexta-feria passada o rádio do helicóptero que levava o casal Kirchner da sua residência à Casa Rosada sofreu interferência durante o todo o trajeto. Em cinco momentos ouviram-se vozes. No primero, uma voz diz “Maten a la yegua”; no segundo ouve-se um fragmento de ‘Avenida de las Camelias’ [marcha militar que acompanhava os anúncios oficiais da ditadura militar argentina]; no terceiro outra voz diz “Boludos, maten al pescado” [apelido de Nestor Kirchner]; e no quarto e quinto uma voz diz simplesmente, “Mátenla”.
A interferência no radio do helicóptero foi sincronizada com o início do julgamento de pessoas que trabalhavam na ESMA [Escuela de Mecánica de la Mariña], um dos principais centros de detenção clandestinos da ditadura argentina, onde estima-se que 5.000 pessoas foram “interrogadas” e de onde só sobreviveram 150. O prédio da ESMA foi aberto ao público e será transformado em um museu dos direitos humanos.
Héctor Febres, o “administrador” da “maternidade” onde centenas de bebês nasceram e foram muitas vezes adotados por famílias de gente ligada à repressão, foi o primeiro denunciado pelos crimes cometidos na ESMA, no ano passado. Mas Febres foi envenenado em sua cela depois de prometer denunciar seus companheiros.
Uma fala do governo sobre o incindente do helicóptero me chamou atenção. Chamaram os responsáveis pelas ameaças de “dinossauros”. Termino então com um micro-conto famoso de Augusto Monterroso:

El dinosaurio
Augusto Monterroso
Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.

Tuesday, December 15, 2009

Gabriel Orozco de novo


Além da foto, a escultura que aparece na fotografia também estava na exposição. O material: barro de uma olaria no México.

Monday, December 14, 2009

Poema meu


[imagem: cartão postal de 1905 do Luna Park de Long Island]

Mash-up: LUNA PARK

Nací cuando del sollozo del ultimo siglo,
No se oía ni un solo eco
Luis Cardoza y Aragón




O soluço do último século
abriu a fenda onde passaram
galopando as montanhas.

O século seguinte
ofereceu a Dom Quixote
um aeroplano,
lastre lançado ao passado.

Do trigo dos campos de batalha
um grão de loucura
germinou nas minhas entranhas.

O rio suicida me piscou um olho;
sua suave sonolenta corrente noturna
não quer os barcos que singram, fumando,
pacientes, sobre trilhos, no mar.

Nesse bosque de chaminés fumantes
escuto o músculo obediente,
fiel, sonoro, da máquina,
construindo castelos no ar.

Para as vidas sublinhadas
em vermelho pela guerra
o choro veste os rostos
com caretas de máscaras de clown:
o futuro é um feto que não vem.

E que Deus é esse
que só ouve súplicas em inglês?

Que prazer sentir-se bruto
e desfolhar a vida sem saber
nada da feira do mundo,
nada desse LUNA PARK
enorme, fantástico,
triste farsa universal!

Sunday, December 13, 2009

Gabriel Orozco

[esse é um post em fragmentos]:
- Escrever sobre artes plásticas é como fazer um quadro ou uma escultura para comentar um romance. Não é impossível, é muito interessante, mas não é nada fácil.
- Visitei uma exposição retrospectiva de Gabriel Orozco. Logo me lembrei de um amigo pintor de São Paulo que, explicando porque não se sentia latino americano, me disse que não havia nenhum pintor mexicano que lhe dissesse alguma coisa, que fosse importante para ele. Como é que você se sentiria se conversasse com um artista angolano que dissesse que não se sentia africano e que nenhum artista africano lhe dizia qualquer coisa de interessante?
- A obra ao lado [Papalotes Negros] foi a que mais gostei na exposição, mas é uma apresentação que convida a uma visão equivocada do trabalho dele. Por quê? Porque as pessoas vão logo achar que... Prefiro não dizer mais nada para não acabar reforçando o que eu não queria dizer sobre ele.
- Trabalhar com objetos encontrados ao acaso, com materiais nada nobres, sem estúdio. Transformar a vida em arte. Mais ou menos assim: uma pedrinha bonita que você encontra no seu quintal, você desenha nela sei lá o quê que a transforma mas sem destrui-la, sem fazer com que ela deixe de ser uma pedrinha. Aí você pega a pedrinha desenhada e põe na sua mesa de trabalho. A arte acabou de invadir a sua vida e você não gastou um tostão.

Friday, December 11, 2009

Unsilent Night


Ontem New Haven foi palco de um evento muito legal. Imagine um grupo de umas sessenta pessoas passeando durante mais ou menos 40 minutos pelas ruas da cidade, carregando mais ou menos trinta aparelhos de som portáteis tocando a mesma música sincronizada. É uma música instrumental estranha, cheia de sinos e notas longas, pequenos padrões vagamente natalinos encadeados sem transições bruscas. A música muda à medida em que você anda e se coloca em posições diferentes, no meio, nas pontas, no fim, no começo da “procissão de boomboxes”. O nome do evento é uma brincadeira com o natal: “Unsilent Night” [o nome da canção natalina Noite Feliz é Silent Night]. O compositor Phil Kline estava presente e ainda serviram chocolate quente antes e depois. O evento acontece em várias cidades diferentes todos os anos e tem uma página na internet com notícias e clips, de onde qualquer um pode baixar a música para participar. Encontrei um clip do ano passado no iutubi.

Thursday, December 10, 2009

Última da Sterling: Painel de Vidro na Janela

Mais Sterling: detalhe da porta principal

Afinal de contas, o que é que eu estou fazendo aqui?



Quase três horas da tarde. A temperatura agora não vai além de nove graus até abril e geralmente, como hoje, vai estar bem abaixo disso. O sol, branco e fraco como se você uma lua metida à besta, vai se por, na menos pior das hipóteses, às 15 para as quatro [3:45]. Isso mesmo: antes das quatro horas da "tarde" [sou contra o uso aspas para indicar ironia]. Preciso me lembrar porque vivo 10 meses por ano aqui nesse clima feito para Inuits [nome que os Eskimós usam para si mesmos] e protestantes masoquistas. Vou visitar a Biblioteca Sterling: são mais de 4 milhões de livros em 15 andares dentro de uma linda ainda que bizarra leitura de uma catedral gótica. No altar, Palas Atena e companhia ilustrada. Os vitrais e as esculturas vão de Santo Agostinho aos Maias, sempre se referindo à linguagem, ao saber, aos livros. Melhor ainda: aqui dentro está quentinho!

Wednesday, December 09, 2009

Katherine Anne Porter


Eis o final de “Noon Wine” de 1937

"He licked the point of his pencil again, and signed his full name carefully, folded the paper and put it in his outside pocket. Taking off his right shoe and sock, he set the butt of the shotgun along the ground with the twin barrels pointed toward is head. It was very awkward. He thought about this a little, leaning his head against the gun mouth. He was trembling and his head was drumming until he was deaf and blind, but he lay down flat on the earth on his side, drew the barrel under his chin and fumbled for the trigger with his great toe. That way he could work it."

Tuesday, December 08, 2009

Jóias da Literatura Americana: Flannery O'Connor


Flannery O'Connor é uma das escritoras mais originais que eu já li - uma católica praticante que adorava o grotesco e foi uma das figuras mais importantes do Southern Gothic. Junto com Katherine Anne Porter, Eudora Welty, Carson McCullers [todas do sul dos Estados Unidos], acho que O'Connor escreveu a melhor literatura americana do século XX, depois de Faulkner. É dela o elenco mais estranho e fascinante de personagens que eu já conheci: uma perneta niilista formada em filosofia chamada Joy Hopewell, um vendedor de bíblias que esconde pornografia e bebida em uma Bíblia oca, etc.
O'Connor é uma escritora de precisão, com uma frieza e crueldade extremas que nunca caem na banalidade, uma lição útil para muito escritor contemporâneo que quer bancar o Tarantino no papel e acaba escrevendo neo-naturalismo de quinta.
Abaixo um trecho do conto "A Good Man is Hard to Find", com o confronto final entre uma vovó mal humorada e o assassino The Misfit, que acaba de dar cabo de toda a família da velha.

Alone with The Misfit, the grandmother found that she had lost her voice. There was not a cloud in the sky nor any sun. There was nothing around her but woods. She wanted to tell him that he must pray. She opened and closed her mouth several times before anything came out. Finally she found herself saying, "Jesus. Jesus," meaning, Jesus will help you, but the way she was saying it, it sounded as if she might be cursing.

"Yes'm," The Misfit said as if he agreed. "Jesus shown everything off balance. It was the same case with Him as with me except He hadn't committed any crime and they could prove I had committed one because they had the papers on me. Of course," he said, "they never shown me my papers. That's why I sign myself now. I said long ago, you get you a signature and sign everything you do and keep a copy of it. Then you'll know what you done and you can hold up the crime to the punishment and see do they match and in the end you'll have something to prove you ain't been treated right. I call myself The Misfit," he said, "because I can't make what all I done wrong fit what all I gone through in punishment."

There was a piercing scream from the woods, followed closely by a pistol report. "Does it seem right to you, lady, that one is punished a heap and another ain't punished at all?"

"Jesus!" the old lady cried. "You've got good blood! I know you wouldn't shoot a lady! I know you come from nice people! Pray! Jesus, you ought not to shoot a lady. I'll give you all the money I've got!"

"Lady," The Misfit said, looking beyond her far into the woods, "there never was a body that give the undertaker a tip."

There were two more pistol reports and the grandmother raised her head like a parched old turkey hen crying for water and called, "Bailey Boy, Bailey Boy!" as if her heart would break.

"Jesus was the only One that ever raised the dead," The Misfit continued, "and He shouldn't have done it. He shown everything off balance. If He did what He said, then it's nothing for you to do but thow away everything and follow Him, and if He didn't, then it's nothing for you to do but enjoy the few minutes you got left the best way you can by killing somebody or burning down his house or doing some other meanness to him. No pleasure but meanness," he said and his voice had become almost a snarl.

Sunday, December 06, 2009

Poema meu

O poema - em nova versão - ainda não está completo, mas depois de ter lido os jornais hoje, ando achando que ler poesia pode ser bem mais útil e informativo . As partes em itálico são poemas de outrem [putz, acabo de perceber que o itálico sumiu do word pra internet]. A história é sensacional e o elenco é muito forte - se não deu certo a culpa é toda minha.

Kafka e Drummond



Ciego a las culpas, el destino puede ser despiadado con las mínimas distracciones.
(…)
A la realidad le gustan las simetrías y los leves anacronismos.
Jorge Luis Borges, “Sur”



1939,
quatro dias antes
da Polônia começar a cair;
imagine No meio do caminho
tinha uma pedra
traduzido por um judeu da Hungria.
“É um maluco de Budapeste”,
diziam aqui.

Preso numa ilha,
terceira margem do rio Danúbio;
condenado a levantar e, depois
de pronto, desmanchar com as mãos nuas
um prédio de pedra dura;
o tradutor louco de Budapeste
numa pausa entre arremate
e demolição,
foge e vem parar aqui, no Brasil.

Aqui pede ao poeta
funcionário de ferro e pedra,
apenas um rastro, não importa,
que o guiasse pelo labirinto,
dos jardins da gripe,
dos bondes do tédio,
das lojas do pranto
do Estado Novo.
Quer arrancar um par de vistos
para a mãe e a noiva,
morando ainda na Hungria, onde
os ferozes padeiros do mal
e os ferozes leiteiros do mal
dançam em brasa, aos pés de Hitler,
até Ferenc Szálasi chegar
e começar, pra valer,
a dança da morte.

Mas naquele tempo,
como hoje em dia,
era livre a navegação
mas proibido fazer barcos.
Mas, “tivesse encontrado
mais três como o poeta funcionário
de ferro e de pedra,
as duas estariam aqui, vivas,
comigo”; disse Paulo Rónai.
Mas aquele era um tempo de homens
partidos – como hoje em dia.

Imagine então,
anos e anos mais tarde,
lendo um artigo do amigo
de Budapeste, Drummond,
de repente, compreende,
lívido: “Kafka sou eu! Sou eu, Kafka!”
(de quem nem Rónai, nem Carpeaux, nem mesmo
Rosenfeld sabia,
até que Sérgio Buarque de Holanda
chegasse da Alemanha
com a primeira versão
de Raízes do Brasil
e O Processo na mala).

Thursday, December 03, 2009

Mais Lydia Davis: Head, Heart



Heart weeps.
Head tries to help heart.
Head tells heart how it is, again:
You will lose the ones you love. They will all go. But even the earth will go, someday.
Heart feels better, then.
But the words of head do not remain long in the ears of heart.
Heart is so new to this.
I want them back, says heart.
Head is all heart has.
Help, head. Help heart.

Wednesday, December 02, 2009

Classificar o inclassificável

Entender as categorias raciais no Brasil e nos Estados Unidos me ensinou que é preciso ter cuidado com as certezas que a gente tem sobre quem é o quê quando e como. Nada é tão simples como parece. Quem sabe dizer com certeza, sempre, quem é homem e quem é mulher? Será que todo mundo é homossexual ou heterossexual ou bissexual? Caster Semenya era uma corredora extremamente promissora da Africa do Sul. Uma pessoa humilde, do norte rural do país, Caster começou a treinar descalça e conseguiu entrar para universidade com uma bolsa e fazer carreira internacional. Sua especialidade era os 800 metros e ela parecia estar à beira de ganhar tudo nessa categoria. Mas Caster é uma italasi – uma mulher com jeito de homem, com feições masculinas – e o comitê internacional de atletismo resolveu que ela precisava ser “testada” além do trivial [e ao mesmo tempo extremamente humilhante] “abaixa a calça”. O problema é que mesmo os famosos cromossomos XX e XY são menos definitivos do que parecem – há, por exemplo, casos de pessoas que nascem com uma incapacidade congênita de “ler” a testosterona e por isso têm cromossomos de homem mas são anatomicamente super-femininas. Estima-se que mais ou menos 1.7% da população mundial é, cromossomicamente, biologicamente falando, interessexual – é mais do que a população mundial com síndrome de down, por exemplo. Caster é um super-ídolo esportivo na África do Sul e o negócio todo virou uma polêmica nacional de proporções semelhantes a uma polêmica de copa do mundo no Brasil. O que só complicou a situação ainda mais.

Tuesday, December 01, 2009

É insuportável mas é meu

Às vezes a gente escreve uma coisa que acha boa e ninguém gosta. Mesmo assim a gente continua gostando do que escreveu, às vezes. Mas às vezes a gente escreve umas coisas que nem a gente mesmo gosta. Um textos que eu classifico como insuportáveis, mas que, como filhos que a gente odeia mas também ama, a gente é obrigado a suportá-los. Segue abaixo um deles. É engraçado [ou triste] como uma idéia que a gente ser irresistível acaba gerando um texto que a gente mesmo acha insuportável - imagina os outros. Esse foi feito durante a oficina em Paraty mas não foi mostrado lá - afinal a primeira impressão é importante e ninguém quer ficar marcado como "o sujeito dos textos insuportáveis"...

o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final

I’m trying to say it all in one sentence, between one Cap and one period.
I’m still trying to put it all, if possible, on one pinhead. I don’t know
how to do it. All I know to do is to keep on trying in a new way
William Faulkner

Enfiar o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final, mas só depois de botar aquele vagabundo pra fora de casa e consertar de novo o alarme da minha alegria; aí pronto: é o mundo inteiro entre a maiúscula e o ponto final, ainda que ninguém entenda patavinas de piripitibas e ainda assim se ofendam os stalinistas do grande espírito das letras greco-latinas ocidentais e os stalinistas defensores por procuração dos frascos e comprimidos duas vezes ao dia e estejamos assim todos mal pagos e fodidos; mesmo assim tem que continuar até enfiar o mundo inteiro entre uma maiúscula e um ponto final porque, entre o universo dito e o infinito omitido o ponto final da frase onde cabe o mundo inteiro pode ser possível, sem truques baratos e sem truques raros porque entre populismos e elitismos lá vamos nós nos foder sem receber um tostão outra vez (quem nunca se fodeu mal pago não merece o papel e a caneta que tem muito menos o esplendoroso fracasso que só pode conhecer de perto quem tentar pelo menos umas trinta vezes enfiar o mundo inteiro entre a maiúscula e o ponto final; esses que não reconhecem derrota ou entendem tudo de uma vez e não sabem, por exemplo, nem que o mal existe e não precisa de motivos, que os assassinos e torturadores podem não ter nenhum trauma terrível no fundo do poço da infância, não merecem as florestas de celulose e rios de tinta preta que andam consumindo em vão), e ainda assim tem que ser assim nessa peleja descarnada até o fim porque o silêncio é uma covardia, ainda que socialmente tolerada e até incentivada, imperdoável e, como eu não acredito em reencarnação nem em livros psicografados, tem que ser da maiúscula ao ponto final no espaço de uma vida, que é, admito, um meio-soluço na história da humanidade e um trisco na história do planeta mas é tudo o que temos e, de tudo o que temos a fazer com o pouco tempo e recursos que temos, é o mais bonito e o mais divertido (e só a alegria e a beleza dadas assim completamente de graça têm esse sentido próprio que muita gente insiste em procurar no dinheiro e nos tênis e bolsas que custam um mês de aluguel), mas, veja bem, só depois de botar aquele palhaço para fora de casa e consertar o alarme da minha alegria que estragou desde o dia em que agora-não-vem-ao-caso-quem se instalou de mala e cuia na minha vida como um parêntese parasitário e infeliz, um parêntese que eu vou fechar agora, antes de começar a tentar mais uma vez enfiar o mundo entre uma maiúscula e um ponto final (pronto)