Thursday, July 11, 2019

Poesia minha: um soneto


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Foi um tempo cabuloso aquele
Em que vivemos em Belo Horizonte
E sempre havia alguém querendo
Mutilar os nossos brinquedos.

Hoje finalmente envelhecemos
E a cidade inteira se espanta
Com ondas de suicídios, acidentes
Escabrosos, assassinatos fúteis

E tantos deprimidos, ansiosos e dementes
Perambulando sem saber dos fantasmas
Daquele tempo que ninguém quer lembrar

Que vivem sufocando debaixo do asfalto
suportando toneladas de concreto armado
E – com razão – nos querem muito mal.


Arte: Leticia Galizzi

Tuesday, July 09, 2019

Leituras da semana - Bello


Leituras da Semana

1. Ando lendo muito Andrés Bello e lendo bastante sobre ele também. Junto com as leituras que ando fazendo de e sobre José Bonifácio de Andrada, ando vivendo no começo do século XIX por esses dias. Tendo vivido o mundo colonial, as independências e depois a dura luta pela consolidação dos novos países latino-americanos, Andrés Bello talvez seja o intelectual mais importante da época.

Era um conservador, como Bonifácio. Se não foi protagonista de qualquer independência (trabalhou no serviço diplomático de Venezuela, Colômbia e Chile), teve longa carreira no governo do Chile, onde morreu consagrado como patrono da universidade e senador da república. Acreditava que a ordem era o aspecto mais importante para a consolidação dos estados nacionais e a paz na América Latina. E a ordem para ele só poderia vir com um governo forte e centralizador – capaz de atuar sem muita interferência do legislativo ou mesmo do judiciário. Simpatizava com a monarquia liberal, não absoluta, no modelo inglês. Na impossibilidade de um regime desse tipo na América espanhola, ele tinha como ideal uma república relativamente autoritária que promovesse através do estado a educação de elites e povo com o objeto de preparar os cidadãos para exercer a vida cívica de acordo com os princípios da razão e da ciência. Também era favorável que se enfatizasse os laços tradicionais com a Espanha e a sua cultura (incluindo o catolicismo), como forma de prover um estado nacional coeso e ordenado.

Pessoalmente, não poderia discordar mais de Andrés Bello em todos esses pontos. Reconheço sua inteligência e na sua voz ponderada vejo um equilíbrio difícil de manter num mundo virado de cabeça para baixo. Aprendo com ele, mesmo que ele se refira a um mundo muito distante do meu no tempo e no espaço. Eis aí um tipo de conservadorismo que acho que vale a pena discutir e debater. Discordando dele percebo que torno meus próprios argumentos melhores, pois ele me força a levar em conta fatores e problemas que eu tenderia a descontar.

Discordar de qualquer lunático que pensa que a terra é plana, ao contrário, me parece uma tremenda perda de tempo. Sinto que o seu discurso agressivo e infantil acaba pautando os meus contra-argumentos, que assim se deixam balizar pela sua ignorância e a estupidez. Daí ter me decidido a me afundar nos livros e deixar grande parte das requisições do mundo das redes sociais.



Wednesday, July 03, 2019

Leituras da semana




1. Ainda as crônicas de um jovem Machado de Assis editadas com notas por Lúcia Granja e Jefferson Cano, livro que terminei de ler:

Ainda no quesito das críticas políticas incisivas que contradizem a versão do personagem público absenteísta e mesmo indiferente aos acontecimentos. No dia 24 de março de 1862 Machado de Assis bate duro no governo que levantava notícias falsas de uma revolta liberal. Seria aquilo que hoje se chama, por modismo, de fake news, como se isso não fosse parte do dia-a-dia político brasileiro desde o império, ou factoide, se preferirem. Apontando a absoluta falta de fontes e ainda no uso de uma apreensão de rotina de pólvora numa fabriqueta de fósforos, Machado de Assis não mede palavras:

Insisto na minha apreciação: o ministério estéril, tacanho, rameraneiro, como é, busca a confiança imperial na prevenção de revoltas imaginárias.
E o jogo é bonito e fino. Passando, como há de passar, o dia 25 sem demonstração alguma, é ao terror das medidas anteriormente tomadas que se atribuirá a tranquilidade da festa. (189)

E se no quesito das críticas literárias Machado de Assis costuma pegar leve nos seus “Comentários da Semana”, ele não se furta de ser contundente também:

Pode-se dizer que o nosso movimento literário é dos mais insignificantes possíveis. Poucos livros se publicam e ainda menos se lêem. Aprecia-se muito a leitura superficial e palhenta, do mal travado e bem acidentado romance, mas não passa daí o pecúlio literário do povo. (189)

2. Andrés Bello poeta
Andrés Bello é um nome central do século XIX na América Latina de língua espanhola. Venezuelano, Bello foi tutor de ninguém menos que Simón Bolívar e atuou como diplomata por vários anos em Londres. Na volta ao continente, Bello encontra instabilidade, violência e autoritarismo no seu país natal e acaba se estabelecendo no Chile, onde tem papel importante na construção da universidade e na cultura do país. Essa semana estou às voltas com os dois poemas mais famosos de Bello, de escopo continental, um certo romantismo meio árcade e um duro com os banhos de sangue que abrem as independências e continuam a acontecer do México até o Cone Sul. Eis alguns trechos especialmente marcantes:

Afortunados dias
de gozo y regocijo,
estación de abundancia,
alegre imagen del dorado siglo,
!Que pronto en noche oscura
os habeis convertido!
!Que tenebrosa sombra
sucede a vuestro lustre primitivo!

Numa rápida transição, Bello na estrofe acima vai do elogio à abundância da natureza da América à tenebrosa sombra da historia humana no continente. Abaixo uma das descrições mais marcantes da miséria que é a opressão colonial:   

entronizado el tribunal de espanto,
que llama a cuentas el silencio, el llanto,
y el pensamiento a su presencia cita,
que premia al delator con la sustancia
de la familia mísera proscrita,
y a peso de oro, en nombre de Fernando,
vende el permiso de vivir temblando;

Ou ainda os desastres da guerra, como um Goya fazendo arte com o document visceral da violência no trecho abaixo:

Alli noto que arrojan
al hoyo confundidos
en espantosa mezcla
con cadáveres yertos cuerpos vivos.