Monday, February 26, 2018

Recordar é viver: A Gaiola dos Loucos

Era uma vez a internet no começo do século. Trata-se para mim de um pular de um blogue para outro, procurando coisas interessantes, postando comentários e tentando [às vezes sem sucesso] engrenar uma conversa aqui ou ali. Alguns tinham listas intermináveis de comentários em debates bizantinos sobre política ou teoria onde o bate-boca se misturava com jargões e longas explicações. Outros compartilhavam textos dos outros e alguns só textos de autoria própria.

Passei longe do tal do Orkut e seus grupos sobre tudo quanto é assunto. Nem sequer me inscrevi.

A internet era então isso de visitar blogues e a visita periódica aos jornalões que eu conhecia no papel, desde a casa dos meus pais: Estado de Minas, O Tempo, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e Estado de S, Paulo. Eu morava fora e aquilo era uma forma surpreendente de se manter conectado ao Brasil estando tão longe, de uma maneira nova, que era antes impossível. Sabia de uma batida de carros no Anel Rodoviário antes que minha mãe comentava sobre o assunto no Skype [aliás outro acontecimento para quem mora fora].

Hoje quando leio coisas como essa análise sobre o vai e vem nas redes sociais no Brasil nesse mês de fevereiro, tenho vontade de fugir para bem longe. Bolhas disso e daquilo e tribos de linchadores virtuais passando em ritmo frenético o último meme e a última lacrada como se a vida [no mundo virtual] se transformasse num imenso pátio de escola no horário de recreio. Sinceramente eu até me divirto com vídeos de cães e gatos e bodes e ovelhas e leões que abraçam gente e tal, mas esse festival de tiradas engraçadinhas, principalmente quando eu percebo que ele é o que realmente importa, me... entedia.

Alguns "gêneros" se desenvolvem nessa selva: o anúncio solene que se está retirando das redes, a declaração orgulhosa de que bloqueou sem dó seus inimigos/malas e a ameaça de que bloqueará todos que ousarem fazer isso ou aquilo. Nunca bloqueei ninguém. Nesses anos de FCBK [única rede social que frequento, pq o twitter é lacônico demais para o meu gosto] já tive dois "personal trollers" - pessoas que resolviam/resolvem contestar cada um dos posts que eu compartilhasse na minha TL que tivessem conteúdo político. Confesso que não li [e não leio] nada que eles escrevem. Confesso que o ser humano na sua feição de personagem de rede social, com raras exceções, me entedia: os guerreiros pela justiça social, os puritanos de esquerda, os reacionários pudicos, os perfeitinhos, os comentaristas eloquentes tanto quanto ao jogo de futebol do fim de semana, quanto à Guerra Civil da Síria ou a produção de Nióbio, os indignados CAIXA ALTA etc.

Então ando cogitando. O problema é perder contato com tanta gente bacana. Sim, porque nessa Gaiola de Loucos ainda tem muita gente interessante. Mas penso que o meio pelo qual nos mantemos em contato produz burrice a granel. A produção de ignorância anda impressionante.

Friday, February 16, 2018

Cinema: O Apartamento


Image resultDuas cenas para mim são memoráveis: a esposa/atriz coadjuvante da peça abre num só gesto a porta do apartamento arranjado às pressas e some de cena, a camera persiste na porta que vai se fechando sozinha lentamente, silenciosamente, sem bater - saberemos depois que quem subia as escadas não era o marido, mas sim um homem relacionado à antiga inquilina, homem que ataca violentamente a esposa no banheiro do apartamento. Outra cena sem diálogos ou atores me impressionou, a camera registra silenciosamente a partir do ponto de vista do protagonista que precisa abandonar rapidamente seu apartamento o trabalho indiferente de um guindaste que continua a cavocar a terra do lote ao lado do prédio, como se fosse um barulhento brinquedo de crianças, indiferente à evacuação das famílias ao lado.

Image resultO filme O Apartamento do diretor iraniano Asghar Farhadi é um filme sutil e a sua sutileza fica meio fenomenal no contexto de um audiovisual completamente dominado por filmes de Hollywood de personagens de Gibis americanos onde os protagonistas são os efeitos especiais e um mais monte de séries tremendistas que se transformam em monstrengos depois de dez episódios dançando o twist grotesco das viradas "surpreendentes" de enredo. 

O título em inglês - que parece ser o mesmo do Persa - enfatiza a relação com a peça A Morte do Caixeiro-Viajante de Arthur Miller, que é encenada pelos personagens "dentro" o filme - assistimos ensaios, cenas nos camarins e partes de performances. Seriam então duas tragédias da classe média [estadounidense nos anos 50 e iraninana no século xxi]? No cerne do drama o contraste entre seus desejos e suas sensibilidades e os limites concretos da vida social. O caixeiro de Arthur Miller oprimido pela incapacidade de sustentar o mesmo ritmo de trabalho pela idade e pelas dificuldades econômicas, o professor/ator de Farhadi apertado entre dois empregos e dificuldades diárias muito facilmente reconhecidas por brasileiros, por exemplo. Espremido entre o emprego na universidade e o teatro, o protagonista ainda precisa enfrentar como pode a violência e as ineficiências cruéis de quem não tem poder aquisitivo para ser VIP - a experiência diária da vida urbana das classes médias de todo o mundo a medida em que o espectro do empobrecimento se alarga com a concentração de renda absurda deste começo de século XX. Não vale a pena ir à polícia no caso de um crime violento muito menos apelar à justiça em caso de uma injustiça que força o casal a um despejo às pressas por causa de um possível desabamento. O título no Brasil, por sua vez, enfatiza a troca de apartamentos por causa de um abalo estrutural causado por uma obra no lote ao lado.


A violência é tratada com elipses mas é contundente. O filme se propõe a enfrentar coisas difíceis do ponto de vista da representação narrativa: como humanizar vítimas e algozes sem se perder em relativismo sentimental e reafirmar as platitudes sobre a humanidade de todos os seres humanos? Como revelar os efeitos corrosivos do patriarcado além dos trogloditas que batem no peito e se proclamam machistas? Como falar dessas coisas sem projetá-las para bem longe de nós mesmos como coisas de monstros desumanos que não tem nada a ver conosco? Em vista do estado de regressão mental em que a cultura do audiovisual se encontra, não é nada fácil encarar esses desafios. Encará-los significa falar uma língua francamente alienígena para os que contam a invenção de um super-herói mulher, ou de um  paladino da justiça gay, ou de um galã de novela negro como grandes avanços culturais. O risco: ficar como esse blogue, às moscas! 

Algo interessante sobre outro filme do mesmo diretor aqui.

Tuesday, February 06, 2018

Primeiro rascunho: Onde estamos?

Onde estamos? Estamos no inferno:
Aqui a vida em baixa não vale mais nada.
As minas cavam labirintos bloqueados
e as barragens sangram merda química
que escorre pelos rios circulando febre e morte
até o mar até o mar até o mar até o mar.
Os dinossauros voltaram do fundo do oceano,
os crocodilos saem pelas manilhas do esgoto,
os escorpiões aprenderam com os dragões
fogosos do capital a voar cuspindo navalhas
e os tubarões passeiam na praia de uniforme.

As engrenagens do inferno se encaixam
e os amplificadores berram seu mantra:
“Agora, sim, tudo entra nos eixos
e que se fodam todos os parasitas inúteis
do nosso tão suado dinheirinho:
Os doentes são lixo esperando a coleta
e todos os loucos terão o seu choque elétrico.
Os que dormem debaixo da ponte são vermes,
os que pedem esmola são baratas
e os que dormem na calçada são ratos.
Quem não anda de carro é um alvo no asfalto
e quem reclama fome e frio que espere
a esteira dos tanques e depois uma carona
no caminhão da coleta até o valão dos porcos.
Vamos derrubar todas as pontes ainda em pé
e queimar todos os refúgios mais recônditos.
Vamos pôr pregos nos bancos da praça
e infectar os seus cobertores com tifo.
Os filhos dessa gente, a gente vende no açougue.
Peguem as forcas, preparem os postes:
vai começar a nova era das grandes fogueiras.
Primeiro serão os inúteis, depois os subversivos,
depois os colaboradores, depois os indiferentes
e finalmente todos os imbecis indecisos
até encher até a boca todas as crateras da lua”.

Enquanto isso lá fora
os fones de ouvido sussurram
nos ouvidos que esperam pacientes
na fila de embarque preferencial:
“pensamento positivo, vamos, em frente,
não desanime, lute, seja crente,
trabalhe mais e não reclame de nada
[seu fracasso é seu e de mais ninguém]
Se te falta sonho de prosperidade,
se te falta força de vontade,
se te falta positividade que atraia
para tua conta bancária tão temperamental
todo esse mundo de maravilhas que não tens,
repete trinta vezes mais,
sê um bate-estaca no caco de espelho
no banheiro do teu pobre aparelho:
saúde, sucesso, riqueza
pousarão no meu colo
porque eu sou bom e pertenço,
sou uma pessoa de bem e mereço
uma cadeira estofada de molas
no camarote do inferno”.