Thursday, April 26, 2012

Centros e periferias, eus e outros

Um modelo de resenhista para mim é Terry Eagleton. As suas resenhas são divertidas e informativas,  e sempre incluem comentários que são iluminações em si só, quase aforismos. Um exemplo:

"Always seeing the others as others is partly a way of avoiding this unnerving recognition, just as attending to the margins is usually a way of implying that there are no conflicts or subversions to be found at the center. In this assumption, post-modernists are rather more sanguine than the World Bank."

Tuesday, April 24, 2012

O moinho e a cruz ou o cinema e a pintura





O moinho e a cruz é um filme do polonês Lech Malewski, baseado num livro de mesmo nome de Michael Francis Gibson, todo ele dedicado a uma única pintura de Peter Bruegel Velho, O Caminho do Calvário de 1564. Um exercício altamente criativo de cinema de efeitos especiais construído em torno da pintura, com poucos diálogos. Vale a pena!

Sunday, April 22, 2012

Diário da Babilônia - Meu Claustro

São 7 ou 16 andares?
Pelo menos uma vez por semana eu invento uma desculpa para passar a tarde estudando na Sterling, a biblioteca de ciências humanas e sociais da universidade.

Saindo do elevador, o corredor principal. No fundo uma das cabines onde há as mesas de estudo.
 Silêncio absoluto, cercado de livros de todos os tipos, eu esqueço pelo menos uma tarde por semana todas as obrigações chatas que me ocupam.

Essa é uma das vistas possíveis das janelinhas.

Wednesday, April 18, 2012

Decasia

[Música de Michael Gordon, filme de Bill Morrison, Decasia é um filme-concerto inspirado pelo Fantasia de Disney]


Decasia

a orquestra de cinquenta e cinco fúrias pulsavançatravancapita

pontuando festivosinistras a película do filme

que engole e regurgita as imagens

em seqüência de sonho mecânico:

o tear nervolento que roda na mão

a manivela que roda na mão do moço

o carrossel que roda a cada dez centavos,

a roda gigante de madeira que roda,

até que chega o dançarino asceta, rodando –

suspende a orquestra em massa em suspenso o mundo

e sobra o apito sibilante.

O dançarino sufi roda

com os braços abertos em êxtase em câmara lenta

roda a saia roda o braço do outro roda

roda roda roda roda a dor

é consolo de muita gente crer

que sofrer melhora a gente mas

o sofrimento não melhora a gente em nada

e é consolo de muita gente crer

que a dor quanto mais forte

por isso mesmo melhor e mais nobre

o sofrimento não melhora a gente em nada

e é consolo de muita gente crer

que termina mais resistente aquele

que sobrevive ao pesadelo

do sofrimento agudo intenso e duro

mas do meu lote todo até agora

só tirei esse poderzinho pífio

de reconhecer nos olhos dos outros –

no caixa do banco, no padeiro,

na professora do meu filho,

no meu irmão –

a mesma marca líquida que eu tenho

aqui no canto dos olhos,

a marca líquida da corda que estica

até que arrebenta

com os braços abertos em êxtase em câmara lenta.


E aí só resta esse mesmo corpo frouxo,

esses mesmos olhos moles,

e essa mesma corda elétrica solta no ar,

balançando e chiando a mesma nota surda.

roda a saia roda o braço do outro roda

roda roda roda roda a dor



Monday, April 16, 2012

Poesia Mexicana - Jaime Sabines 3

[imagem: Cachorro de Giacometti]


La cojita está embarazada

La cojita está embarazada.

se mueve trabajosamente,

pero qué dulce mirada

mira de frente.

Se le agrandaron los ojos

como si su niño

también le creciera en ellos

pequeño y limpio.

A veces se queda viendo

quién sabe qué cosas

que en sus ojos blancos

se le vuelven rosas.

Anda entre toda la gente

trabajosamente.

No puede disimular,

pero, apunto de llorar,

la cojita, de repente,

se mira el vientre

y ríe. Y ríe la gente.

La cojita embarazada

ahorita está en su balcón

y yo creo que se alegra

cantándose una canción:

"cojita del pie derecho

y también del corazón."

Friday, April 13, 2012

Gênios da Raça: Friess

Cena 1:


Friess: "Now that they've kind of trained their barrels on President Obama I'm afraid his, I hope his teleprompters are bulletproof."

[silêncio]

"I mean that figuratively."

[silêncio]

"I'm sorry. I probably shouldn't have said that."




Cena 2:




Friess: "Well, I get such a chuckle when these things come up. Here we have millions of our fellow Americans unemployed, we have jihadists camps being set up in Latin America which Rick has been warning about, and people seem to be so preoccupied with sex that I think it says something about our culture. We maybe need a massive therapy session so we can concentrate on what the real issues are. This contraception thing. My gosh, it's so inexpensive. In my day, they used Bayer aspirin for contraceptions. The gals put it between their knees and it wasn’t that costly.”


repórter: "Excuse me, I'm just trying to catch my breath from that. Mr. Friess. Let’s change the subject to."




Conclusão:
Qual é a diferença entre Friess e eu, você, o frentista do posto de gasolina que acha que “todo mundo na Rede Globo é viado” e o motorista de taxi que acha que “Lula, FHC, Maluf e Garotinho são tudo farinha do mesmo saco”? Parece chocante que um bilionário possa ser tão imbecil quanto um pipoqueiro ou um pintor de paredes? E afinal numa democracia todo mundo pode ter uma opinião e tem o direito de expressá-la, não é mesmo? Mas Friess faz parte de um grupo recente que anda sacudindo o mundo inteiro: são russos, mexicanos, americanos, chineses, brasileiros que transformaram-se em bilionários, gente que tem muitos milhões espalhados por todo o canto, para quem o que você ou eu ganha em um ano equivale a um saquinho de pipoca na entrada do cinema. A diferença é que muitos deles acreditam na grande fé do milênio: a de que, ainda que aparentemente nada de substancial possa ser mudado, todo mundo pode “fazer a diferença”. As mesmas bocas que pronunciam com fatalismo que ou você tenta se enquadrar da melhor maneira possível ou você anda “viajando na maionese” também costumam incentivar cada um de nós a tentar mudra o mundo com um cartão de crédito na mão e um um monte de boas intenções na barriga. Só que gente como Friess, ao contrário dos outros, têm milhões para gastar. Termino com um aforismo sensacional do romancista Teju Cole, motivado pela polêmica sobre o filme Kony 2012:


I deeply respect American sentimentality, the way one respects a wounded hippo. You must keep an eye on it, for you know it is deadly.


E o que dizer da sentimentalidade armada de milhões?

Tuesday, April 10, 2012

Quem morre limpo não foi humano

A melhor versão - disparado - é a de Pepe Jara, que canta com uma contenção que deixa a dramaticidade da letra aflorar sem os exageros dos gritantes que ainda vivem suando suas camisas de linho pela América Latina afora. Infelizmente no iutúbio só tem um Pepe Jara cansado e velho, além de um peruano que faz uma versão correta acompanhado do seu próprio violão com o seu ármario embutido ao fundo.


COMO SE LLEVA UN LUNAR

Álvaro Carrillo [Oaxaca, 1921-1969]

Como se lleva un lunar

todos podemos una mancha llevar,

en este mundo tan profano

quien muere limpio no ha sido humano.

Si vieras que terrible

resulta las gentes demasiado buenas,

como no comprenden parece que perdonan

pero en el fondo siempre, siempre nos condenan.

Vuelve conmigo, mi amor,

que tus errores no me causan temor

pues mucho más que todos ellos

vale uno solo de tus cabellos

Como eres, así yo te quiero

por eso ya ves, que al sentir tu mirada

doy espaldas al mundo

para adorar tu cara.


Pepe Jara:



Sunday, April 08, 2012

Lô Borges - O que aconteceu com o Clube da Esquina?

Um disco cheio de faixas curtas, muitas delas completamente anti-convencionais em termos de arranjos e de letras. No ar, o clima pesado do Brasil no começo dos anos 70. O disco do tênis é coisa rara, desde sempre, em música popular: um bando de músicos jovens [e bons músicos] se reúnem para fazer música sem querer copiar isso ou aquilo. Essa faixa talvez seja das mais convencionais, apesar de tão curtinha. Por que Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes nunca mais fizeram coisas nem remotamente tão interessantes? Suponho que eles mesmos prefiram a baba doce que cobre muito dos seus discos a partir dos anos 80. Se é mesmo verdade que é em Minas que o caldo engrossa, alguém devia acertar o ponto desse doce de novo. São escolhas: que tipo de velhinho você quer ser? Bob Dylan fazendo discos surpreendentes de tempos em tempos até hoje ou Mick Jagger rebolando em Davos?

Não Se Apague Esta Noite

Eu queria levar você, ao deserto sem nome
Por favor não se apague esta noite
Você tem que provar o meu sangue

Seja o touro e a rosa
Seja o pão e a fome

Eu queria levar você para além dos caminhos
E andar com você pela noite
Me deitar com você no meu sangue

Eu preciso dormir em paz
Como o touro e a rosa
Eu preciso levar você
E dizer que te amo

Wednesday, April 04, 2012


La Oveja Negra
Augusto Monterroso

En un lejano país existió hace muchos años una Oveja negra. Fue fusilada.

Un siglo después, el rebaño arrepentido le levantó una estatua ecuestre que quedó muy bien en el parque.

Así, en lo sucesivo, cada vez que aparecían ovejas negras eran rápidamente pasadas por las armas para que las futuras generaciones de ovejas comunes y corrientes pudieran ejercitarse también en la escultura.

Tuesday, April 03, 2012

Recordar é viver: Os mosquiteiros da ética... entre canalhas e pusilânimes


Em 2007, em reportagem chamada “Os mosqueteiros da éticaa revista Veja destacou senadores que “têm aparecido como sentinelas avançadas da sociedade brasileira” na luta contra a corrupção. Um deles era…


“o incansável senador Demostenes Torres, do DEM de Goiás. No Conselho de, digamos assim, Ética do Senado, ele é uma das únicas vozes a exigir investigações sérias e denunciar as manobras para absolver sem apurar. Demostenes Torres entende o que muitos senadores fazem questão de não ver: o Senado está se desmoralizando numa velocidade avassaladora. A esperança que resta é que esse pequeno conselho de mosqueteiros da ética consiga derrotar as malandragens do grande Conselho de, digamos assim, Ética do Senado.”


Deixo com vocês trecho completo da entrevista de Millôr Fernandes em que fala sobre o jornalismo brasileiro:

- Obrigado pela generosidade. Você acha que o jornalismo brasileiro melhorou muito de lá pra cá?

Millôr - Muito, tecnicamente. Lamentavelmente, porém, do ponto de vista ético, moral e social, melhorou muito pouco. E já era quase criminosamente ruim naquela época. Conforme você sabe, eu não tenho nenhuma formação marxista, não acredito em excessivos determinismos históricos. É evidente, é liminar, que as forças de produção regem muitas coisas. É liminar que o contexto da sociedade reja fundamentalmente muitas coisas. Agora - o que não é liminar é o seguinte: há forças metafísicas, há entrerrelações no mundo que não estão previstas em qualquer ideologia; a isso eu chamo o anticorpo. O Marx é o próprio anticorpo dentro da sociedade em que vivia. Se as teorias de Marx fossem perfeitas, ele não existiria. Porque o contexto social e as relações de produção da época não o previam, não o permitiram. Você pode dizer que a imprensa é resultado do meio, a imprensa é resultado da sociedade em que funciona. Certo. Mas, às vezes, por força de um indivíduo, ou por força de um pequeno grupo de indivíduos, ela pode se antecipar ao seu meio e fazer progredir esse meio. Mas a imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o país. Acho que uma das grandes culpadas das condições do país, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime.




Monday, April 02, 2012

Filantropia no século XIX, digo no século XXI

O século XXI parece mesmo que vai ser dos bilionários, gente que acumula fortunas absurdamente imensas às custas da miséria ou pelo menos do empobrecimento de muitos outros. Os bilionários querem impor sua visão de mundo, sua visão de sucesso, e não tem muita paciência ou sutileza. Quem quiser entender melhor um aspecto dessa tendência, devia ler com atenção esse artigo. Deixo aqui apenas um trecho:

"What is obvious to me, as a historian of the emergence of private philanthropic foundations almost exactly a century ago, is how far we have traveled from the fears of the first foundations that they would be perceived as antiegalitarian and threatening to the democratic process. For years Rockefeller and Carnegie pussyfooted around financing economic and social efforts that might be perceived as politically sensitive. Ford got into trouble with Congress when it immersed itself in school reform in New York City and had to back down. But while Gates is often seen as antiunion and pro-charter school—politically contestable positions—it shows no signs of hesitating to push its overtly political agenda. Gates and Lumina are clearly untroubled to be, and to be seen as, players in education policy."

Não é para menos que as políticas educacionais do governo Obama são um cópia fiel das propostas dessas fundações para o setor da educação - inclusive na posição agressivamente anti-sindicatos - a fundação dos Walton, um dos maiores contribuidores no setor, pertence aos donos do WalMart, que proíbe com vigor qualquer tentativa de sindicalização do seu exército de trabalhadores com salário mínimo e sem seguro saúde.