Sunday, August 25, 2019

Toni Morrison sobre Trump


“Assustam tanto as possíveis consequências de um colapso do privilégio branco que muitos estadunidenses têm sido atraídos por uma plataforma política que apoia e que entende a violência contra os indefesos como demonstração de força. Essas pessoas não estão tão raivosas como estão apavoradas, com um tipo de pavor que faz os joelhos tremerem.

No dia da eleição, chamou-me a atenção a avidez com que os eleitores brancos – tanto os pobres como os de bom nível de educação – abraçaram a vergonha e o medo semeados por Donald Trump. O candidato cuja empresa foi processada pelo ministério público por não alugar apartamentos para pessoas negras. O candidato que tinha questionado se Barack Obama tinha nascido nos Estados Unidos, e que é visto aprovando o espancamento de um militante do Black Lives Matter em um dos seus comícios. O candidato que mantinha trabalhadores negros longe da vista do público nos seus cassinos. O candidato que conta com a admiração de David Duke e o apoio da Ku Klux Klan”.

Toni Morrison, logo após o resultado das eleições em 2016


Sunday, August 18, 2019

Café Tacvba e Juan José Tablada: Urubus mexicanos desde Tenochtitlán até a carniça extra-terrestre



Zopilotes
 Joselo Rangel

Lo vieron caer del cielo
bola de metal y fuego.
Cayó arriba allá en el cerro,
carne para carroñeros.

Los zopilotes en círculo van
localizando el sitio fatal.
Los zopilotes en círculo van
hoy de la muerte se alimentarán.

Los cuerpos ya chamuscados,
alguno cortado en tajos
- no parecen ser humanos -
dijo un zopilote sabio.

Los zopilotes en círculo están.
Nadie se atreve el primero a probar.
Los zopilotes admirados están,
nadie esperaba esto encontrar...

¡Ay, metal retorcido!
Sangre de otro color.
¡Ay, lo desconocido!
dijo un zopilote: -Yo me voy-
Lo siguieron todos con temor, con mucho temor

para ver que carroñea.
No teme la diferencia,
al contrario la venera.

Un zopilote picoteando está,
carne que tiene un sabor especial.
El zopilote comienza a pensar:
- allá en las estrellas que más habrá?

Vuelas estrellas,
vamos hacia allá...


Tzompantli: Fileira de caveiras em exposição. Descobriu-se recentemente um Tzompantli no Templo Mayor na cidade do México com mais de 650 caveiras enfileiradas!
Los zopilotes
Juan José Tablada
Cuando sacrificaban en el Templo Mayor
las alas de los zopilotes
oscurecían el sol…

Y los remeros en sus barcas
no miraban a las alturas
si del lago las aguas zarcas[1]
se tornaban pronto oscuras.

Pues el pávido macehual[2]
al presagio del zopilote
de la sangre miraba el brote
bajo el filo del pedernal.[3]

Con envidia de los coyotes
volando, de la serranía,
sobre Tenochtitlán caía
muchedumbre de zopilotes…

Cual gerifaltes en alcándara
sobre el zompantli[4] se posaban
y adornando las calaveras
con morriones de plumas negras,

            ¡solían saltar
al brusco son
de panhuehuetl
o caracol…!


[1] Azul claro
[2] hombre común del pueblo
[3] sílex, variedad de cuarzo utilizado como instrumento cortante.
[4] un altar de calaveras, lo constituían las cabezas de los sacrificados atravesadas por varas.

Wednesday, August 14, 2019

Três versões de Gracias a la vida

Todo mundo conhece a gravação de Mercedes Sosa para "Gracias a la vida", para mim a canção mais maravilhosa de Violeta Parra:



Nessa gravação a voz aveludada da cantora argentina está no seu melhor e o acompanhamento ao violão é simples mas muito bem feito. Na segunda metade, o violão explicita a cueca [ritmo chileno/boliviano] da canção. Na voz de Mercedes Sosa "Gracias a la vida" é uma canção de amor quase derramada.

Há pelo menos duas versões de "Gracias a la vida" que eu acho superiores, ainda que bem menos conhecidas.

Chavela Vargas faz com que a canção seja sua [ou seja, mexicana], com aquela mistura inigualável de dramaticidade rascante e clareza de dicção na voz, mudando o ritmo para um quase bolero. Aqui a melancolia da canção se acentua, o existencialismo que declara que seu canto é feito [como o nosso] de alegria e pranto:



Agora para mim melhor versão de todas é da autora Violeta Parra, por causa do "desencontro" entre canto e ritmo do acompanhamento e do contraste entre uma execução quase mecânica e a voz de um lirismo contido da autora:



Qual é a sua preferida?

Thursday, August 01, 2019

Flanando pelo New York Times


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No dia 31 de julho voltei aos Estados Unidos. No aeroporto tratei de comprar a edição de quarta do New York Times. Eis o que aprendi:

-       51% dos americanos reconhecem que Trump é um racista. A opinião dividida (apesar de demonstrações frequentes do seu racismo) esconde a polarização política americana: quanto 86% das pessoas que se declaram democratas acham mesmo que o presidente é um racista, 91% dos republicanos acha que ele não é. Sou tentado mas ainda reluto a relacionar a cegueira sobre o assunto como uma forma de racismo. De qualquer maneira a persistência do racismo depende dessa cegueira.

-       Em 2018 418 crianças com menos de 10 anos de idade foram separadas dos seus pais em detenções de imigrantes sem documentos. Desses 185 tinham menos de 5 anos. Como política oficial, as separações acabaram; como prática corriqueira do estado, não.

-       O colombiano Egan Bernal foi o primeiro latino americano a ganhar o Tour de France, mais importante corrida de bicicletas do mundo. Com 22 anos de idade ele é o campeão mais jovem desde 1909. Até 2015 sua especialidade era o mountain bike, praticado com afinco nos arredores de Bogotá. Bernal já aperou clavícula, rosto e mandíbula e perdeu vários dentes – o esporte é saúde, dizem aqueles que transmitem eventos esportivos.

-       A Etiópia organizou a maior campanha de plantação de árvores do mundo: mais de 350 milhões de árvores foram plantadas no país africano no dia 29 de julho. O objetivo do governo é plantar 4 bilhões de árvores. A África dando exemplo.

-       Antes de ser presa pela acusação de ter hackeado o banco Capital One e roubado informações de mais de 100 milhões de pessoas, a programadora Paige Thompson postou no seu Twitter:
“Fiz uma série de coisas que vão garantir meu confinamento involuntário para longe desse mundo. O tipo de coisa que eles não vão poder ignorar ou varrer para debaixo do tapete com uma clínica de internação temporária. Eu nunca mais vou voltar para esse mundo.”
            O mal do século é a solidão?

-       No obituário da filósofa Agnes Heller encontro uma frase dos anos 60: “O que nós precisamos é de uma revolução da vida, da vida cotidiana”. Uma revolução que não transforma a vida cotidiana em fonte de liberdade e alegria não merece esse nome.

-       No obituário do filósofo inglês Bryan Magee encontro a seguinte citação:
“If you make serious demands on viewers, it is feared, you are bound to drive most of them away”.
Magee teve dois programas de TV sobre filosofia, um nos anos 70 (“Men of Ideas”) e outro no final dos anos 80 (“The Great Philosophers”). Descubro também que ele escreveu um livro famoso sobre Wagner e a filosofia chamado The Tristan Chord. 50 anos depois a lógica torpe do entretenimento (que Magee afrontava com o seu programa ostensivamente “chato”) invadiu a sala de aula e todos os outros espaços da cultura. Vale tudo, menos ser "chato", que muitas vezes é exigir da inteligência alheia sem apelar para gracinhas ou belezas de comercial de shampoo.

-       Em 1983 Jean Pierre Basquiat pintou um Quadro chamado “Desfiguração – A morte de Michael Stewart”, onde figuram dois policiais que batem com cassetetes numa figura negra que parece estar de desmanchando no chão. O Quadro está relacionado com a morte de um artista negro de 25 anos nas mãos de policiais dentro de uma viatura. Eles levaram Stewart ao hospital onde ele entrou em coma e morreu duas semanas depois. 40 anos depois continuamos desfigurando gente nas prisões, nas ruas, nos hospitais, nas escolas.

-       Eu e Olívia resolvemos tentar fazer o risotto e o macarrão que aparecem no caderno de culinária do jornal.