Friday, October 30, 2015

Música: "I sure hope Gabriel likes my music, when the day is done"


"I sure hope Gabriel likes my music, when the day is done" é o final de Daniel Variations, que Steve Reich compôs em 2006 sob o impacto da morte do jornalista Daniel Pearl, sequestrado e depois assassinado no Paquistão em 2002.

Essa é música composta no século XXI. Aqueles que insistem em dizer que vivemos uma crise cultural porque não se faz mais música/poesia/romance/conto/cinema como antigamente, não entendem que vivemos uma crise cultural, sim, mas de outra natureza. É uma crise na distribuição e recepção da excelente produção cultural do nosso tempo. Nos anos 60, quando ninguém queria dar espaço para as composições de gente como Steve Reich no circuito consagrado de música erudita, o que ele fez foi escrever peças para poucos músicos e apresentar sua música em lugares alternativos.

Antes da internet seria necessário um grande esforço para encontrar e escutar música como Daniel Variations. Agora basta um par de cliques. Espaços como o Netchfliques, o Gúgol e o FCBK [que eu uso diariamente] são todos marcados por um discreto mas imperativo sistema de seleção feita por eles mesmos.  Mesmo o Iutúbio é assim. Toma um certo tempo para aprender a "forçar" esses lugares a oferecer mais do que o BigMac de todo dia e mesmo assim há limites. A questão é insistir em espaços um pouco mais anárquicos e também dar uma certa banana para a questão do "tráfico". Essa gravação de "I sure hope Gabriel likes my music, when the day is done" teve 1.453 acessos. Parece pouco. Mas a primeira edição de Macunaíma teve 500 exemplares distribuídos mal e porcamente.

Saturday, October 24, 2015

Sobre Svetlana Alexievitch

Svetlana Alexievitch é o quinto Nobel Russo.

Li trechos em inglês dos seus livros e achei muito interessante. A entrevista dela que eu li, sinceramente, não acho que acrescente muito. Dois trechos:

"Vivemos um ambiente de banalidades. Para a maioria das pessoas isso basta. Mas como é que você se comunica? Como é que você arranca esse verniz de banalidade? Há que fazer as pessoas descer até as profundezas delas mesmas."
e
"Não acredito que 'novos fatos' possam nos ajudar a compreender as coisas."

Mas também escritor não tem que necessariamente ser bom de entrevista, mas sim bom de livro. Frequentemente falar eloquentemente sobre a própria obra não implica numa obra em si com o mesmo interesse. E Alexievitch tem um método de trabalho muito interessante. Pelo que eu entendi, é assim:

1. Ela escreveu quatro livros sobre momentos significativos da história recente da Rússia no século XX: a segunda guerra mundial, Chernobyl, a guerra no Afganistão.

2. Ela então parte para as entrevistas com pessoas qaue viveram esses eventos, grava essas pessoas, transcreve as conversas e escreve a partir das transcrições, à lápis, lendo em voz alta como se ensaiasse um monólogo.

3. As intervenções na voz da autora são reduzidas ao mínimo, normalmente fornecendo laconicamente nome, idade e profissão do entrevistado.

4. Cada livro representa as vozes de mais ou menos cem pessoas num total de 300 a 500 entrevistas, ficando pronto em entre cinco e dez anos. Entre dez ou vinte dessas pessoas são escolhidas para ser os pilares do livro, e essas pessoas podem ser entrevistadas até 20 vezes.

PS. Apesar dela recusar veementemente o rótulo de jornalista, uma breve olhada nos sites de língua inglesa indica que a sanha rotuladora já decidiu. Pelo menos para a maioria das pessoas.

Thursday, October 22, 2015

Cordeiro de deus que dá clitóris aos pecados do mundo

Dois trechos da entrevista da linguista Yeda Pessoa Castro para a revista de história da Biblioteca Nacional me chamaram a atenção:

"Fui ver a estrutura silábica do português arcaico e a formação silábica e o processo fonológico das línguas faladas em Angola e no Congo, e reparei numa extrema coincidência: é o mesmo tipo de estrutura silábica: consoante-vogal-consoante-vogal o tempo inteiro. Houve o mesmo tipo de encontro do português arcaico com essas línguas, que eram faladas majoritariamente no Brasil. Em vez de haver um choque, em vez da necessidade de emergir outro falar, um falar crioulo, não: houve simplesmente uma acomodação, devido às coincidências dessas estruturas linguísticas."

O que mais me marcou foi o trecho que falava em acomodação ao invés de choque como marca do encontro dos sistemas linguísticos do ocidente africano sub-saariano e do português. Porque sem dúvida somos, para bem e para mal, uma cultura de acomodação. A questão é que a nossa cultura de acomodação não deixa de fazer uso do choque. Ironicamente os choques aparecem justamente em nome das nossas acomodações. Mas a análise linguística fala para mim de uma forma curiosa pela qual aqueles que sofrem os choques também trazem muito para a mesa das nossas acomodações.

"O nível mais próximo que tínhamos de vestígios de línguas africanas é o das linguagens religiosas: a dos vissungos em Minas Gerais, a do candomblé da Bahia, a da umbanda. A linguagem estava lá, não mais como competência linguística, mas como competência simbólica. Esta foi outra descoberta do meu trabalho: a competência simbólica. [...] fomos cantar para santo Antônio: ele estava num cantinho do altar, com aquelas flores azuis e brancas de papel crepom, e eles começaram a cantar a ladainha em latim acompanhada de tambor. O trecho “Agnus Dei qui tollis peccata mundi” foi cantado “Agnus dê clitóris peccata mundi”. Agnus passou a ser uma entidade que nos deu clitóris. Dizem que quem não sabe rezar xinga Deus, eu não concordo. Quem não sabe rezar que continue rezando dentro de sua competência simbólica, a competência linguística não tem nenhuma importância."

Foto minha: Clitóris dos Pecados do Mundo
É coisa já antiga a constatação de que as palavras não significam uma coisa só e ainda por cima não significam nada inteiramente. Em outras palavras e linguagem de dia-de-semana, mesmo na nossa língua mãe falamos muito mais e muito menos do que queremos o tempo todo, mesmo quando usamos a mais dicionarizada e gramatizada versão da nossa língua.  Uma oração pede mais e faz mais [e menos] que pensamos quando abrimos a boca e juntamos a mãos. A linguista fala em competência simbólica na sua entrevista. Quero também acreditar numa competência poética, que é profundamente irônica e que não depende de ninguém. Afinal de contas, como não ver que pedir ao cordeiro de deus que dê clitóris aos pecados do mundo numa oração a um santo que ficou conhecido como "martelo dos hereges" é um ato de ironia poética sublime? Eu como ser humano do sexo masculino devidamente marcado pelo complexo de desclitorização que Freud não conseguiu ver, fiquei maravilhado com a imagem de um deus que, recebendo meu pedido através desse orgão tão sensual que é a língua, pudesse me conceder, como pecado do mundo que sou, um clitóris.



Monday, October 19, 2015

Compulsão pela repetição

Não seria difícil crer na compulsão a repetir certos gestos retóricos dentro de uma dada cultura nacional. Uma observação atenta e percebo em cada figura política de sucesso, apesar de algumas novidades, a repetição de certos temas e certos giros retóricos do passado, mesmo que essas repetições sejam feitas em nome de coisas bem diferentes.

Eis o nosso repertório numa lista de samba enredo:

Foto minha: Cicatriz
Dom Pedro I da independência ao exílio de volta à casa portuguesa, a farsa da regência, as várias revoltas regionais, o ano da fumaça em Carrancas, os malês, o nativismo gaúcho, Dom Pedro II o culto, a Guerra no Paraguay, Dom Pedro II o caduco, a proclamação golpista da república, a ditadura de Floriano Peixoto, Canudos, a Revolta da Vacina, a política do café-com-leite, o Contestado, os tenentes nos anos 20, Washington greve-é-caso-de-polícia Luís, Getúlio Vargas e seus acordos e desacordos com deus e o diabo, o nativismo paulista, a CSN, o Estado Novo e o DIP, a dança da guerra mundial, a derrubada de Vargas pelos milicos, as idas e voltas entre quase golpes e contra-golpes entre 45 e 64, o rádio, o suicídio de Getúlio, a Petrobrás, JK, a Bossa Nova, Brasília, Jânio e suas vassouras, Jango e seus comícios, as ligas camponesas, Paulo Freire, 1964, o Cinema Novo, 1968, a Jovem Guarda, a MPB, as aulas de tortura, a Rede Globo de Televisão, o desenvolvimentismo dos milicos, as comunidades de base, a hiperinflação e o FMI, a farsa do Tancredo, a farsa do Sarney, o MST, o plano Cruzado, Collor o caçador de Marajás, o plano Real, as chacinas candelária/vigário geral/Eldorado dos Carajás/Carandiru, as privatizações, a ascenção do pentecostalismo, Lulinha Paz e Amor, o Bolsa Família, o Mensalão, o Petrolão, a Dilmamãe/Dilma Coragem/DilmaGeisel e toma cartas forjadas, falsos planos e massacres de indígenas do começo ao fim.

Cada acréscimo inclui também uma repetição em chave absurda de muitos aspectos de coisas que vieram antes. Mesmo que errando muito, tenho a impressão de que já fomos mais criativos do que temos sido ultimamente. Anti-comunismo? Desenvolvimento tipo-Geisel? 

Wednesday, October 14, 2015

Cinco pontos de reflexão sobre a gravação da vida

Arte minha: Auto-Retrato
1. A biografia é um gênero literário. Não basta ser fidedigno e fazer pesquisa. É preciso montar com os dados que se tem e as interpretações que se inventa um livro que conta a história da vida de alguém de um jeito que toca e provoca o leitor. Nesse sentido a biografia de Benjamin Moser da vida de Clarice Lispector é muitíssimo superior à biografia de Eduardo Jardim da vida de Mário de Andrade.

2. Uma autobiografia é sempre um livro incompleto pelo simples motivo de contar a história de uma vida que não chegou ao ser ponto final. Há apenas uma gloriosa exceção: o Brás Cubas de Machado de Assis.

3. Todo autor consagrado sofre com os amigos de sua obra. Nada pior do que virar santo/gênio. Nem virar monstro, como acontece com frequência em biografias escritas nos EUA. Como o biógrafo de Lou Reed, que chama o músico de "monstro" com base em detalhes sórdidos da vida pessoal do cantor. Mas as obras do santos do panteão literário tem tantas arestas como as obras do Zé Ninguém. E eles eram humanos como todos nós.

4.Hayden White fala sobre a transformação da matéria bruta da vida em texto nos seguintes termos:
“... o problema de como fazer a tradução do que se sabe no que se conta, o problema de dar à experiência humana uma forma assimilável a estruturas de sentido...” 
Eu acho qeu o problema é um pouco outro. Aquilo que não se conta, não se sabe. Quem não conta, não sabe; na melhor das hipóteses tem uma vaga intuição. Mas a matéria bruta da vida existe e bate no cangote dos inarticulados com a mesmo força. O agravante é que os inarticulados têm a cabeça enterrada na areia. 
5. Hayden White é um desses sujeitos que, mesmo quando erra, de certa forma acerta. Máio de Andrade também é assim e mais, raramente o brasileiro incorreu nesse terrível hábito acadêmico que é comportar-se olimpicamente com relação ao seu objeto de estudo.
6.  Num dos seus lirvos auto-biográficos mais interessantes, Primo Levi fala não de traduzir o que se conta no que se conta, mas sim de revestir de palavras o amigo querido.
Hoje sei que é um empreendimento sem esperança de sucesso revestir um homem de palavras, fazê-lo reviver em uma página escrita: um homem como Sandro tal e qual.”
[o original: “Oggi so è un’impresa senza speranza rivestire un uomo di parole, farlo rivivere in una pagina scritta: un uomo come Sandro in specie”. ]

Por quê insistir num empreendimento sem esperança de sucesso? A resposta eu encontro em Faulkner, que dizia que quem só conhece o sucesso é um imbecil. Escrever fazendo jus sobre a matéria vivida é um desafio impossível. Viver é escrever uma biografia inacabada, um fracasso. Com a palavra Brás Cubas:
Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior, e que será corrigida, também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.” 

Ainda assim Primo Levi e Brás Cubas e todo mundo real ou fictício que "abre a boca" na página de um livro ou conta uma história na TV ou no cinema ou numa canção, insistem em contar o que dizem ser incontável, em evocar o que dizem ser indescritível. 

Estamos todos buscando um milagre. Roland Barthes nos dá seu testemunho que, sim, às vezes o tal empreendimento impossível tem êxito. No caso dele acontece num momento de luto, num encontro fortuito com uma fotografia antiga com base na qual Barthes diz: Observei a menina e enfim reencontrei minha mãe.” A ciência impossível utopicamente de repente se concretiza: "... a Fotografia do Jardim de Inverno, esta era bem essencial, ela realizava para mim, utopicamente, a ciência impossível do ser único.”

Friday, October 09, 2015

Um longo trabalho de luto

1. Uma das maiores dificuldades em se inserir numa cultura que você não viveu é que muitas vezes você não sabe o quê perguntar e é pego de suspresa ao pegar de surpresa os outros por não ter tratado de coisas que a eles parecem tão elementares. Nem veio à sua mente perguntar a pergunta nem muito menos veio à mente do seu interlocutor que essa seria uma das coisas que você não saberia.
2. Assim um jovem brasileiro há vinte anos atrás iria para os Estados Unidos sem cartão de crédito e se espantaria ao ter que fazer um depósito de $5,000 para poder ficar num quarto de hotel pelo qual ele já pagara no Brasil por não poder apresentar um cartão de crédito no momento do registro.
3. Assim nunca passaria pela cabeça de uma pessoa que fez toda a sua carreira acadêmica nos Estados Unidos que ela precisaria trazer uma carta assinada e autenticada em cartório do seu ex-chefe confirmando que ela tinha trabalhado por nove anos como professor. E nem passaria pela cabeça de um brasileiro que alguém pagaria caro para perder uma semana de trabalho e um bom e precioso dinheirinho para cruzar o globo terrestre de sul para o norte e não apresentaria entre os seus documentos comprobatórios esse comprovantezinho que parece tão banal.
4. Assim meu sonho de voltar para Belo Horizonte virou fumaça. Esperei nove anos por um concurso compatível, que só apareceu ironicamente quando o Brasil parece que vai derreter. Com certeza não tenho tempo para esperar mais nove anos e não há outra instituição viável aqui em Belo Horizonte. Nunca mais vou voltar, fora as férias. É fato, agora. Meus filhos crescerão lá naquele cemitério das almas e serão integralmente estadounidenses, por bem e por mal. E eu viverei até uma aposentadoria [que nunca vai acontecer] muito longe da minha terra. O motivo: eu não forneci um documento comprobatório que comprovasse o óbvio. A ausência de um prosaico pedaço de papel muda completamente as perspectivas da minha vida daqui para frente.
5. O negócio agora é pegar uma faca bem afiada e arrancar de vez esse meu longo e dolorido banzo. Acabou. Tenho uma família e uma pancada de contas e dívidas e não posso me dar o luxo de ficar sonhando com coisas impossíveis. Sei que não vale pena viver com os olhos grudados na falta.
6. O curioso foi sentir que todo o curso foi para mim um campo minado. Cheguei para fazer a prova e vi embasbacado muitos dos candidatos arrastando imensas malas cheias de livros. Eu tinha concentrado tudo o que precisava num caderno que escolhi para me preparar para o concurso e qual não foi a aminha surpresa ao ouvir a ordem de que era proibido consultar qualquer coisa que não fosse um livro? A sorte no caso me soprou uma oportunidade: o tema sorteado para a prova era um para o qual eu já tinha me preparado bem, e mais, me preparado recentemente. Com as ideias e os dados básicos [sobrenomes e datas aproximadas por décadas] escrevi 9 páginas de texto que recebeu notas que teriam me feito passar.
7. Mas nem toda a ironia é benfaseja: vejam que o documento que me faltou era justamente aquele que comprovava que durante nove anos eu tinha dado meu sangue e minha alma a um outro sonho que também virou fumaça, neste caso por motivos bem feios. Aquele fracasso parecia ter se combinado com a primeira oportunidade  viável de volta. Mais um difícil trabalho de luto pela frente, sem tempo para frescuras.
8. Dirigindo o carro emprestado na volta escuto um pastor com aquela dicção típica da IURD falando sobre um jejum dos desesperados - para aqueles que haviam tentado de tudo e tudo havia dado errado e não viam uma voz no fim do túnel. Neste sábado trazendo para o templo o estômago vazio, o coração cheio de fé e [o pastor não diz isso] a carteira cheia de reais, o pastor prometia uma luz no fim do túnel. Infelizmente eu só teria como levar o estômago vazio e não vai dar para me juntar aos outros desesperados nesse "toma lá da cá" [essa a expressão usada por ele] em que o raio do espírito santo nos iluminaria o fim do túnel,

Tuesday, October 06, 2015

Da série "Lista de coisas que me recuso a compartilhar com os outros" ou "Marte, lá vou eu":

Um apanhado de apenas SETE dias:
 
Revortados Online  
1. Lutador de sei-lá-o-quê com problemas cognitivos se revolta contra Dilma na frente de uma obra inacabada do governo estadual de Goiás, que é do PSDB. 
 
2. Malucos espalhando panfletos e falando grosserias no enterro de um ex-presidente da Petrobrás dizendo que Petista bom é petista morto. 
 
3. Qualquer coisa exaltando que 50% da população concorda com a frase "Bandido bom é bandido morto" e qualquer pessoa usando qualquer variação dessa infâmia para comentar sobre bombardeios na Síria ou no Afganistão.
 
4. Colunista acusando político de usar as últimas palavras do filho que morreu de câncer para lançar campanha. 
 
5. Gente dizendo que Obama está politizando o enésimo massacre estadounidense para tirar as armas do povo e que não adianta fazer nada porque "stuff happens". 
 
6. Chefe de Gabinete inglês dizendo que os imigrantes destroem a coesão da sua nação e roubam empregos. 
 
Ednardo Pulha
7. Político acusando o governo suiço de ser bolivariano por revelar contas de Ednardo Pulha em complô petista. 
 
8. Gente jogando carro em cima de bicicletas comunistas em São Paulo. 
 
9. Saconauro relinchando na frente de um Stephen Fry horrorizado [esse eu não dei conta de chegar até o fim com medo de ver o Saconauro dar uma bifa no pobre Fry]. 
 
10. Gente criticando o governo porque o Brasil por não fazer parte de um acordo comercial entre países do Pacífico. 
 
Donaldo Trompa
11. Qualquer trapo verbal articulado pelo Donaldo Trompa de Cabelo Doido. 
 
Onze coisas que cruzaram meu caminho virtual em uma semana. Muita gente compartilha essas coisas acompanhadas de comentários esculhambando o que está acontecendo. Eu às vezes clico um "curtir" mas me recuso a compartilhar. Porque as ideias de gente como Saconauro, Trompa, Pulha, Infeliciano, Si las Mal-sem-saia e companhia são assim divulgadas e passam assim a dominar as conversas. Uma das melhores professoras que eu tive me disse: busque interlocutores críticos que valham a pena, não perca tempo refutando gente que você acha que tem uma opinião que não tem a menor validade, porque do contrário você acaba nivelando o seu discurso por baixo.

Thursday, October 01, 2015

Prazer e Dever

O prazer estético em si não é necessariamente subversivo porque não tem ideologia. Mas também o prazer estético em si não existe fora do laboratório. Fora do laboratório o prazer estético tem ideologia. Sempre. Mas esse prazer estético não é necessariamente subversivo. Ele pode ser até reacionário. O mesmo pode ser dito sobre o prazer sexual. O mesmo pode ser dito sobre qualquer prazer. O princípio do prazer pode nos levar a coisas maravilhosas ou a coisas atrozes. Não devíamos nem demonizá-lo nem santificá-lo. 

Do outro lado da mesa, o princípio da realidade tem um imenso potencial para reprimir a felicidade dos outros e promover a felicidade perversa daqueles que sentem prazer em estragar o prazer ou mesmo em provocar o sofrimento alheio. A raiz desse potencial está precisamente na noção de realidade, no caso uma realidade produzida por um discurso que sempre serve a um poder que sempre pretende nos controlar, nos conter, nos formar. 
  
A respeito dessa relação entre poder e discurso, permitam-me uma terrível confissão. Terrível porque sei que São Foucault é objeto de adoração de muita gente. Terrível porque adoro Foucault também. Mas então me perdoem a blasfêmia: quando leio aquelas descrições sobre o Poder-Todo-Poderoso, me lembro das descrições que os Jesuítas faziam do Espírito Santo. Suponho que a trindade no caso seja composta pelo pai-discurso, o filho-instituição e espírito santo-poder. Tome um sermão de Vieira sobre a trindade, faça as substituições e receba grátis um texto de Foucault escrito originalmente em português setecentista.