Friday, March 31, 2017

Memórias da sala de aula: sobre os usos possíveis da meta-história

Me marcou muito certas leituras que fiz de Hayden White nos meus tempos de aluno, particularmente o momento em que enfurece os historiadores com aquele enquadramento de grandes clássicos da disciplina no século XIX num esquema de análise de gêneros literários no seu Metahistória. Desde então, com certas adaptações à teoria de gêneros dele [prefiro usar a farsa no lugar da sátira] e sem aquela empáfia quase-formalista que White tem para com a história, tenho feito usos variados de algumas ideias dele.

Tenho ensinado aos meus alunos em diversas oportunidades que eles devem se aproximar não apenas de literatura e do cinema de ficção mas também de textos jornalísticos e/ou científicos com um olhar atento para o gênero que é escolhido ali e nas implicações que essa escolha tem na visão geral do mundo que fica subjacente naquele texto.

Também às vezes aproveito para um exercício mais arriscado, bom para praticar protegido pela impunidade da sala de aula [aquele lugar de onde ninguém se lembra de nada duas semanas depois, além do professor]. Trata-se de uma pequena provocação: um exercício  de comparativismo cultural entre Brasil, Estados Unidos e México [meus alunos geralmente tendem a gravitar entre essas três culturas] . Digo a meus alunos que, em termos bem gerais, a história nos Estados Unidos é contada/compreendida pela chave da épica, no
Niños Héoes
México pela chave da tragédia e no Brasil pela chave da farsa. Nos três países essas escolhas não são vistas como tal, e sim como consequência lógica/natural "do que aconteceu de fato", e aí eu venho com aquela coisa incômoda de Hayden White de ver a narrativa organizando de forma particularizada a matéria prima da história, refletindo desejos/tendências culturais, pelo menos parcialmente inconscientes às
Titus Kaphar, "The Myth of Benevolenve"
vezes. Jefferson, um escravocrata dotado daquele infalível sadismo/racismo estrutural, meio pernóstico na sua idealização de um suposto espírito democrático do Anglo-Saxão desde as mais priscas eras e francamente ridículo na hipocrisia de suas "duas famílias" se transforma num heróico arauto da liberdade e das luzes para o mundo inteiro. Dom João VI, aquele tirano violento e indiferente à injustiça, vira um gorducho palhaço bufão casado com uma manca histérica, quase atirando abacaxis e bacalhaus da sacada do Paço feito um Chacrinha/Trapalhão que supostamente "gostava da bagunça do Brasil". No México, entre centenas de batalhas ganhas e perdidas, os reais heróis são sempre mártires desde a independência até a imagem de um punhadinho de soldados/meninos imberbes que cometem uma espécie de suicídio em nome da pátria ao decidir enfrentar sozinhos um batalhão inteiro de invasores sanguinários.

Finalmente, costumo usar Hayden White para advertir meus alunos que eles mesmos constroem narrativas todos os dias, mesmo nas conversas mais banais, sempre que contam alguma coisa que aconteceu a um amigo, namorado ou familiar. Nessas narrativas frequentemente eles mesmos figuram como protagonistas e, em nome do autoconhecimento valeria a pena registrar e depois examinar essas narrativas com que eles se constroem para si mesmos e para os amigos, com olho vivo para o predomínio de um ou de outro gênero.

Wednesday, March 29, 2017

Filme argentino: La mirada invisible

La mirada invisible é um filme dirigido por Diego Lerman [diretor ainda jovem de grandes filmes do cinema argentino] e lançado em 2010. É um dos melhores filmes sobre a ditadura argentina, mais especificamente sobre o seu fim, no período das Malvinas e de Leopoldo Galtieri, que aparece brevemente na televisão da casa da protagonista. O script se baseia no romance Ciencias Morales de Martín Kohan [1967], livro que ganhou o importante prêmio Herralde de 2007.
O filme é quase todo centrado na rotina sufocante de um Colegio Nacional de Buenos Aires fundado por Bartolomé Mitre, onde tudo gira em torno do conceito de ordem. Nem uma lapela fora do lugar no uniforme dos alunos passa pela vigilância constante de um exército de inspetores que auxiliam os professores. Um grupo imenso de adolescentes mal se contendo num clima pesado, onde nem um fio de cabelo ou uma meia abaixada, nem uma tossida ou um risinho, nem uma revista de quadrinhos muito menos um beiijnho no corredor é permitido.
Lá de fora ouvimos as batucadas que marcam os protestos de rua de uma Argentina farta das loucuras dos seus generais celerados; ficamos com a câmera aqui dentro, onde o hino nacional é cantado como uma espécie de canção fúnebre que celebra a morte de quem canta. O filme é profundamente político sem nenhum eloquente discurso explicativo sobre lutas políticas nem de grandes menções sobre figuras importantes da época. A única voz é a da repressão. Dentro do colégio ninguém resiste explicitamente. Os meninos são repetidamente autuados e punidos pelas falhas mais mínimas. O conformismo impera.
A protagonista é uma jovem inspetora da escola, obviamente produto desse caldo de opressão, um poço fundo e escuro de silêncio e repressão que agora se dedica a manter a ordem. Ela tenta impressionar o inspetor chefe que chegou à escola no início do regime militar e era conhecido por ter fornecido ao aparato sinistro do Proceso de Reconsctrucción Nacional listas de "alunos subversivos". O filme não se cansa de mostrar a protagonista de perto e Julieta Zylberberg corresponde com uma atuação contida mas brilhante para um papel difícil por trafegar num território já demarcado por clichês antigos do melodrama e da comédia: a mulher sufocada por repressão à beira da histeria. Sufocada, Maria Teresa mergulha na repressão com empenho de quem quer ser o melhor da classe, mas o desejo sexual/afetivo subverte o desejo de repressão, que não caminha para uma libertação [que seria outro clichê] mas para a perversidade. A vigilância vira então em parte disfarce para um silencioso e torturado voyeurismo que a inspetora tem dificuldades em ocultar. Maria Teresa espreita e depois se esconde no banheiro dos homens com a desculpa de buscar descobrir alunos que fumam escondido na escola e ali dentro arde de desejo doloroso por um dos alunos que ela espreita obsessivamente.
Diretor e atores trabalham juntos para trafegar nesse terreno minado e fazer algo diferente do comum. É muito baixa hoje em dia a tolerância para com o que é diferente do comum no cinema [e entenda-se comum aqui como o tratamento habitual de Hollywood ou da televisão para tudo da linguagem do audio-visual, do script à atuação, passando pela iluminação e trilha sonora]. Também é muito baixo o nível do discurso que discute a política nesses meios e nos meios de comunicação, incluídos aí as redes sociais. Para quem requer "socos no estômago" e "porradas na cara" como recursos retóricos para discutir a política, o filme nem sequer vai registrar como filme político. No meu entender, o filme desvenda de maneira profunda todo o discurso da ordem que marca a extrema-direita moralista de cariz cristão de Franco a Bolsonaro. Inclusive quando, sem grandes surpresas o chefe dos inspetores estupra a sua pupila mais apreciada no mesmo fatídico banheiro. A vítima não deixa barato a truculência do agressor e o gesto final mostra coragem frente à dificuldade em se livrar do ferrolho abusivo da Ordem.

Friday, March 24, 2017

Miroslava Breach, Patricia Acioli, Ayotzinapa, Cabula e Valdomiro Costa Pereira e muitos outros




O México e o Brasil andam pelo mesmo caminho que muitas outras partes do mundo globalizado: longe das manchetes principais da imprensa, mensalmente, talvez semanalmente, alguém é preso, torturado, desaparecido ou assassinado em conflitos marcados pelo total desrespeito aos direitos humanos e da cidadania. 

As vítimas são indígenas, sem-terra, sem-teto, moradores de comunidades marginalizadas, crianças pobres, membros de várias minorias e de organizações que lutam pelo respeito aos direitos dessas pessoas, desde ativistas a promotores, juízes e jornalistas. E os criminosos caminham quase sempre numa linha imprecisa entre o crime organizado e os aparelhos de repressão do estado.

Mensalmente, talvez semanalmente as mortes e abusos vão se acumulando e formando na minha cabeça uma daquelas terríveis, assustadoras de pilhas de corpos dos campos de concentração nazista. Um discurso furioso de ódio que divide o mundo entre gente de bem e inimigos que merecem nada além da completa aniquilação alimenta o grande moinho de moer gente. E as pautas da grande imprensa continua a colocar no centro das atenções essa grande farsa em que grandes personalidades continuam arrotando verdades sobre a defesa do estado de direito e da democracia enquanto o crime organizado, os grandes negócios, a justiça e a classe política vão se fundindo numa grande sopa cáustica.








Friday, March 17, 2017

Obituário: Derek Walcott

Foto minha: Espelho d'água
Encerramento
Derek Walcott


Eu vivo sobre as águas
sozinho. Sem mulher nem filhos.
Circulei todas as possibilidades
para cheguar a isto:

uma casa baixa perto da água cinza,
com as janelas sempre abertas
para o mar parado. Não escolhemos essas coisas,

mas somos o que fizemos.
Sofremos, passam-se os anos,
baixamos a carga mas não a nossa precisão

de estorvos. O amor é uma pedra
que se acomoda no leito do mar
debaixo da água cinza. Agora nada quero

da poesia além de sentimento verdadeiro,
nem piedade, nem fama, nem cura. Esposa silenciosa,
podemos nos sentar e assistir a água cinza,

e numa vida inundada
com mediocridades e lixo,
viver feito pedras.

Eu desaprenderei a sentir,
desaprenderei meu dom. Isso é mais
e mais difícil do que o que aí se passa por vida.


Acesse o original e outra tradução aqui.
Comentei brevemente sobre o poema e a tradução aqui.










Friday, March 10, 2017

Prosa minha: Sonhos de Moctezuma

Sonhos de Moctezuma

Final do debate organizado em 1960
pela Escola de Arte da Philadelphia
publicado na revista Spring no mesmo ano.











Certos pecados têm precedência numa dada cultura, conferindo-lhe suas feições típicas. Moctezuma, como todas as outras cidades da região, vive fraturada entre clãs opostos provindos de uma mesma família – há quem cinicamente diga que se trata de um estratagema digno dos velhos reis portugueses através do qual os Andrades se perpetuam no poder desde a fundação da cidade. O que torna nossa cidade realmente especial é o fato que ela padece daquele pecado que um velho sábio considerava o rei de todos os demais: a Vaidade. A prevalência desse pecado entre nós nos diferencia de nossos vizinhos, tanto dos possessivos-compulsivos de Rio Pardo, escravizados entre a Cobiça de conseguir o que não têm e a Avareza de não perder o que acumularam, como dos dualistas tripolares de Taiobeiras, açoitados ora pela suavidade suicida da Ternura, ora pela inércia indiferente da Preguiça, ora pela fúria destruidora da Ira.
Essa Vaidade que é tão nossa trata-se de uma moléstia especular, um filtro que fabrica um mundo de ilusões a partir da experiência vivida. Moctezuma imagina a si mesma dividida entre dois tipos de desgraçados: os que se creem inferiores e arrastam as correntes da vergonha e os que se creem superiores e vergam a espinha sob o peso dos andaimes do orgulho. Estaríamos melhor que os nossos vizinhos, já que não sofremos com as paixões que os fustigam? Não creio. O prisma pelo qual enxergamos o mundo informa nossos atos, que por sua vez constituem nossos hábitos, que por sua vez compõem nosso caráter, que todos sabem ser o nosso destino. Como se vê, é uma questão de fugir do braseiro para cair no fogo.
Vejam, por exemplo, o sonho que me atormenta.

Sonho que por um acidente do destino sou transformado no farmacêutico da cidade. Carlos do clã da rua de Baixo, destinado por laços familiares para tal posto, havia fugido por incompatibilidade com a vida pacata do interior para se estabelecer como cronista da vida pacata do interior num jornal da capital. Por falta de outro Andrade que o substituísse, assumo o posto. Logo no meu primeiro dia aparece na loja um Paulista Turista, desses que fedem a protetor solar e andam com um chapéu enterrado na cabeça e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Mal entra no estabelecimento, o sujeito me pergunta de bate-pronto: o pessoal em Moctezuma prefere o prefeito atual, Oswaldaugusto, ou o anterior, Mário Ribamárcio? O assunto é sumamente delicado. Respondo diplomaticamente que há quem prefira um e há quem prefira o outro. Insatisfeito, o Paulista Turista me pressiona: e você, o que acha? Sem vacilações respondo ao inconveniente visitante: Eu? Eu também! A não-resposta me parece perfeita, mas no sonho ela me corrói as entranhas. Incapaz de imitar o Cristo, tenho ímpetos de seguir meu predecessor e fugir de Moctezuma na calada da noite, mas o pavor de ser pego em plena fuga da cidade me paralisa. Pior, não consigo me decidir se serei crucificado por descobrirem minhas reais simpatias ou por ser desmascarado como um sofista desprovido de opiniões. Acordo suado, cansado, ofegante. Minha esposa atribui tudo à minha apneia do sono. Eu atribuo tudo a ela, a Vaidade.  

Friday, March 03, 2017

Postais: o dentro e o fora das coisas

"Para mim, estilo é exteriorização do conteúdo, e conteúdo, a internalização do estilo; como as partes externa e interna do corpo humano, ambos caminham juntos e não podem ser separados".
Jean-Luc Godard


"... os Road Movies mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país."
Walter Salles

Desenho meu: "... the only way to survive."


"... eventos são reais não porque ocorreram mas porque, em primeiro lugar, ele alguém se lembrou deles e, em segundo lugar, porque eles encontram seu lugar numa sequência ordenada cronologicamente.
[...]
... o valor dado à narratividade na representação de eventos reais vem do desejo de ver nos eventos reais uma exibição de coerência, integridade, completude e fechamento que pertencem a uma imagem da vida que é, e só pode ser, imaginária. "
Hayden White