Monday, March 31, 2008

Profecia

A noite há de remendar
o que o dia arrebentou
e remendar e arrebentar
outra vez amanhã e depois
e assim dia e noite,
em sucessão finita,
alheios a qualquer um de nós
até que o sol, velho e cansado,
finalmente se apague de vez
e só reste então
a pequena e fria lua,
muda, sozinha,
em seu humilde trajeto amoroso
em volta da terra,
as duas finalmente livres.

Tuesday, March 25, 2008

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 6

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No começo Otilina tentara não transparecer enfado ou irritação durante os agora intermináveis almoços de domingo. Em silêncio, assistia os filhos, a nora, o genro e os netos encadear, um atrás do outro, assuntos frívolos que não levam a lugar nenhum, só para não dar tréguas ao silêncio. Lutavam contra o silêncio para que a farsa convencional não se desmanchasse e a verdade não viesse à tona na frente de todos, com o ímpeto de um tronco que se solta de repente do fundo de um lago silencioso e salta sobre a água, furioso. Lutavam todos contra o silêncio e escondiam a solidão.
Melhor era quando eles levavam a falsidade embora com eles e Otilina podia estar sozinha,. Sozinha em casa ela podia chorar, como uma criança, pela solidão, pelo desamparo, pela crueldade da indiferença humana, pela crueldade maior da dura ausência indiferente do seu Deus naquela que era a sua hora mais difícil. Depois da constatação do estado terminal, sua desilusão se espalhava, insidiosa, em direção ao passado. Aquilo que lhe parecera serem os melhores momentos da sua vida revelavam-se agora como uma série de trivialidades quase repugnantes. A longa re-ascensão depois do “desastre” – uma sucessão ininterrupta de sucessos econômicos e manobras sociais bem sucedidas que tanto orgulho lhe tinham dado – aparecia-lhe agora de forma completamente diferente, quase o contrário: aquela tinha sido exatamente a época em que a vida deslizara-lhe sob os pés.
E apesar de tudo isso, Otilina ainda estava disposta a lutar até o fim, paciente e inflexível, contra a morte invisível e implacável que lhe comia por dentro. Mesmo sabendo que não podia vencer, que a derrota era inevitável e eminente, ela continuava a se submeter aos longos e dolorosos rituais da medicina, com a mesma paciência estóica com que se submetera aos advogados e suas misteriosas coreografias depois que o marido desaparecera de repente com o dinheiro da família.
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Saturday, March 22, 2008

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 5

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Agora a sua mãe estava à beira da morte, categoricamente desenganada com aquela circunspeção típica que os médicos compartilham com os advogados. Garantiam que Otilina não tinha mais que seis meses de vida; que não havia mais nada a fazer a não ser fingir e tentar minorar o sofrimento de todos. Agora Eduardo dissimulava paciente a hostilidade que sentia pela mãe, esperando que ela finalmente partisse e libertasse a todos eles do constrangimento daquele sofrimento público. Mas a doença modificara também Otilina, tornando-a fria, distante e até rancorosa com todos da família, principalmente com o antes adorado primogênito. As visitas semanais, obrigatórias, vinham se tornando exercícios cada vez mais complicados de diplomacia.
Durante os almoços de domingo ela irritava-se com as coisas mais triviais, e não aceitava que os acessos de cólera só lhe faziam ainda mais mal. Volta e meia lhes oferecia o espetáculo lamentável de uma crise aguda e dizia impropérios, levantava-se subitamente da mesa, trancava-se no quarto e recusava-se terminantemente a sair, deixando a família inteira em situação constrangedora, olhando-se sem saber o que fazer ou dizer. Voltavam-se todos instintivamente para Eduardo, mas ele não tinha mais qualquer ascendência sobre a mãe nem sabia contornar aquela inusitada irascibilidade da mãe que feria-lhe o orgulho perante a família. Parecia-lhe que todos, irmã, cunhado e sobrinhos, mulher e filhos, sorriam com os olhos, em silêncio, intimamente satisfeitos ao vê-lo reduzido ao nível comum dos meros mortais, tão impotente como eles, batendo à porta do quarto da mãe, pedindo para entrar, para que ela abrisse a porta, para que parasse de gritar.
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Thursday, March 20, 2008

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 4

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Morando com os avós, ele e sua irmã continuavam a freqüentar as mesmas escolas, clubes e festas que os seus pares narcisisticamente chamavam de “os melhores”. Eduardo sabia, e sabia que os outros sabiam, que ele, ali entre os melhores, era o pior: o mais pobre entre os mais ricos e marcado por um pai desaparecido nas piores circunstâncias. Essa pobreza, tão relativa, tão francamente ridícula para quem tem que suar pelo pão de cada dia, tornou-o diferente da maioria dos seus companheiros de geração. Enquanto muitos deles passariam a vida torrando dinheiro com entusiasmos passageiros, passatempos absurdos e paixões ridículas que invariavelmente desembocavam em tédio indiferente, ele se aproveitaria ostensivamente de todos os privilégios e isenções da sua classe ao máximo, até recuperar e depois dobrar o patrimônio familiar e se tornar membro de um outro grupo ainda mais seleto, dos mais ricos do país.
Quem o conhecia nos negócios reconhecia nessa objetividade a sua maior virtude. Eduardo Viotti Leão tinha uma capacidade prodigiosa de eliminar o que não pertencesse ao aspecto estritamente pragmático de cada questão que se apresentava, depurando de interferências indevidas a elaboração e execução perfeitas do plano mais eficiente para resolver qualquer problema. Na cabeça de Eduardo Viotti Leão tudo podia ser reduzido a uma cadeia impessoal de causas e conseqüências, na qual ele eventualmente interferia ou não, conforme a sua conveniência, no momento mais adequado.
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Tuesday, March 18, 2008

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 3

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Otilina sempre adorara ao seu filho como um santo ou herói que salvara a família do abismo abominável da pobreza e da vergonha. Com os olhos marejados e a voz embargada, ela, até bem pouco tempo, não perdia a oportunidade de fazer o mesmo discurso, longo e constrangedor, em que Eduardo e ela, Otilina, figuravam como mártires:
“Criei e eduquei meus dois filhos, o Eduardo e a irmã, sozinha. E agüentei tudo, sempre sozinha, sem a ajuda de ninguém. Agüentei meus próprios pais me olhando com um olhar superior e condescendente, querendo decidir o nosso futuro todo sem sequer me consultar. Agüentei todos os falsos amigos, cochichando e rindo pelas minhas costas, fazendo pelas minhas costas comentários falsamente chocados, cheios de inveja e prazer, sobre a nossa desgraça. Ficamos os três sozinhos no mundo depois do desastre. O bom de cair assim, como nós caímos, de uma vez, de repente, é que assim a gente descobre o valor de cada um e descobre que quase ninguém vale nada nesse mundo e aprende de um jeito que não dá para virar o rosto e tentar se enganar que não é bem assim. Éramos nós três contra o mundo inteiro, mas valeu a pena não se entregar. Valeu o esforço porque, graças ao talento e à perseverança do meu filho, nós nos reerguemos da lama em que aquele monstro nos atirou, de uma maneira que ninguém imaginava, nem meus pais nem todos os meus falsos amigos. Porque nós fomos muito além. Valeu a pena cada minuto de cada hora de cada dia do meu esforço naqueles primeiros anos tão duros, quando os dois ainda eram quase crianças. Valeu a pena a minha luta e a minha insistência para que nós três não aceitássemos a lama em que os outros queriam nos atirar, para que nós não nos conformássemos e nos rebaixássemos como o resto do mundo queria.”
A casa nova, “de cinema”, na cidade ainda quase um canteiro de obras, onde viveram os três com o pai anos de glória e deslumbramento dos quais Eduardo tinha vagas recordações, seria vendida em leilão. Eduardo ainda não completara doze anos quando seu pai migrou repentinamente das colunas sociais para as páginas policiais dos jornais da cidade e desapareceu completamente, sem deixar rastros além de uma penca de negócios absurdos completamente falidos e um rombo nas finanças da família que lhe custariam os primeiros oito anos da vida adulta para tapar. A casa seria comprada pela família de um colega de escola, numa cidade em que todos os que valiam a pena conhecer se conheciam desde a infância. Nos primeiros anos, Eduardo evitava qualquer proximidade com o tal menino que aceitava a distância de bom grado.
Dois meses depois do “desastre” eles já moravam na casa dos avós. Eduardo travava então com a mãe um embate diário. Otilina rondava sua mesa de estudo, fingindo arrumar um quadro torto na parede ou um arranjo de flores num vaso e, sem olhá-lo, perguntava:
- E então, qual é o seu nome?
- Eduardo Viotti, Ele respondia. Ela testava:
- Leão? Ele dizia:
- Não; Viotti.
O filho tentava sufocar seu ressentimento e concentrar-se de novo nos livros; sua mãe, paciente e inflexível, contava dez minutos no relógio da cozinha e voltava a chamar o filho com o sobrenome do pai:
- Eduardo Leão? O menino, agora absorto no estudo, levantava instintivamente a cabeça e, ao perceber o ato falho, suspirava quase desesperado. Era o sinal para que Otilina, tranqüila e implacável, repetisse sua homilia diária:
- Para você eu sei que isso deve parecer uma brincadeira, Eduardo. Aliás eu sei que no fundo tudo para você ainda é uma brincadeira – você só tem doze anos e na verdade não passa mesmo ainda de uma criança. Mas isso aqui, meu filho, não é brincadeira, infelizmente. Infelizmente nós três dependemos disso, dessa ‘brincadeira’, para poder começar de novo. Os erros daquele monstro, terríveis, absurdos, imperdoáveis, são dele; não são nossos. Não são. Nós não vamos fugir, meu filho. Não fomos nós que erramos, ainda que sejamos nós os que estão aqui pagando por todo esse desastre. Mas não é justo que você ou eu ou a sua irmã paguemos pelo resto das nossas vidas pelas inconseqüências e traições daquele monstro. E eu sei, meu filho, que você só vai realmente entender a importância de tudo isso bem depois, quando talvez já seja tarde demais. Otilina fazia então uma longa pausa dramática sublinhada por um suspiro e arrematava:
- Então, não entenda nada agora. Se você não quiser ou não puder, meu filho, não entenda nada agora. Nem tente. Mas, mesmo sem tentar, meu filho, mesmo sem compreender o sentido disso tudo, você vai ter que aprender.
Otilina fazia então mais uma longa pausa dramática e recomeçava, calma, paciente e inflexível:
- Eduardo Viotti? O menino começando a entrar na puberdade levantava os olhos injetados de rancor e voltava-se mudo para a página que devia ler, mas que agora era um emaranhado incompreensível de letras e espaços em branco. A mãe ignorava o ódio e a frustração que Eduardo pensava transmitir com absoluta clareza em seu silêncio taciturno e chamava mais uma vez:
- Eduardo Leão? Com olhos enterrados no livro que já não lia, Eduardo fingia que aquele não era o nome e o sobrenome do seu registro civil e de batismo; como se Eduardo Viotti Leão não fossem nome e sobrenomes pelos quais ele tinha sido chamado por todos que conhecia, toda a sua vida, até dois meses atrás. Alheia ao filho, a mãe retomava, implacável, indiferente, ainda mais uma vez:
- Eduardo Viotti? E o filho levantava mais uma vez a cabeça, humilhado, um rato de laboratório cujo ressentimento subia até a garganta com o sorriso de aprovação condescendente da mãe, uma bola dura de ressentimento que ainda lhe amargava a boca trinta nove anos mais tarde.
Para Eduardo, Otilina tinha sido mais um obstáculo a superar. Só ela não via a futilidade daquele exercício diário sufocante. Que sentido fazia apagar aquele nome se dias antes do “desastre”, há dois meses atrás, seus avós recebiam naquela mesma casa honesta de classe média, entre orgulhosos e humilhados, a visita mensal da sua família? Chegavam então todos em grande estilo. Seu pai, principalmente, chamava a atenção até dos vizinhos, atraindo admiração e inveja com seu carro alemão, seu terno italiano, seu relógio suíço, seus charutos cubanos, suas frases em francês impecável e sua carteira, sempre recheada de dinheiro e sempre inquieta. E sua mãe não ficava atrás, comportando-se na casa dos pais como se fosse uma estrela de cinema, vestida de branco, de luvas, imaculadamente penteada e maquiada, olhando para o resto da família embasbacada com empáfia condescendente.
Os dois meses que antecederam a mudança para a casa dos avós tinham sido ainda piores. Eduardo chegava da escola no fim da tarde e ia relutante até o quarto da mãe. Lá encontrava Otilina invariavelmente sentada na beira da cama desfeita, os olhos brilhando, confusos, com medo. Logo que o via ela tomava ares de uma heroína de melodrama, os mesmos vestidos brancos agora deliberadamente sujos e amarrotados, o olhar fixo perdido na janela por onde a cidade acendia suas primeiras luzes amareladas. Num desses primeiros dias quando Eduardo chega da escola, Otilina lhe pergunta, sem tirar os olhos da janela:
- Sabe no que é que eu venho pensando, meu filho? Com a mão ela o puxa para o seu lado e responde, solene, à própria pergunta: Eduardo, eu vou me matar – um suspiro, uma lágrima solitária rola devagar pelo lado direito rosto – e quero que você se mate comigo.
Eduardo escuta a própria voz respondendo de imediato, por instinto, um pouco rápido demais:
- Não, mãe, eu não quero me matar. O complemento vem ainda mais apressado: E eu não quero que você se mate também, mãe, nunca. Olhos fixos na janela, a mãe continua como se não estivesse escutado:
- Vamos então combinar tudo. Vamos pensar como é que nós vamos fazer isso; como é que você gostaria de fazer isso?
Ele repete:
- Eu não quero me matar, mãe. Eu não quero morrer. Otilina vira-se, segura seu rosto com as duas mãos e diz, enquanto rola uma segunda lágrima, igual, do lado esquerdo:
- O que você acha? Fazemos tudo junto, com as mãos dadas, para que nenhum dos dois se sinta sozinho? Ele quase se irrita em seu desespero:
- Não, mãe, não. Não. Pára com isso. Ela prossegue:
- Que bela lição nós dois daríamos ao monstro, você não acha? A voz lhe vem embargada de amor e ódio intensos (será possível separar?) que ele sente naquele momento pela sua mãe:
- Não, mãe. Ela insiste mais uma vez:
- Nós dois nos damos as mãos e nos jogamos lá embaixo agora, que tal?
Ele se pega pensando que seria muito melhor usar o estoque absurdo de remédio de dormir que a mãe guarda no armário do banheiro – a imagem da mãe saltando no ar e puxando-o pela mão passa-lhe pela mente num relâmpago de horror – tomariam uma cartela cada um e se deitariam na cama, de mãos dadas, esperando o sono chegar. O pânico sobe-lhe pela boca do estômago e lhe aperta o coração – ele vacilaria no último instante e a sua solidão no momento em que ela caísse sozinha e se estatelasse lá embaixo seria pior que a morte. O menino fala agora tentando resguardar sua sinceridade, que ele sente persistentemente erodida por uma vontade de manipulação calculada que ameaça revelar-se na escolha cuidadosa de cada palavra:
- Mãe, eu ainda não tenho nem doze anos. Eu quero viver, muito. Eu te amo, mãe. Eu te amo muito, mais que tudo nesse mundo. Eu não quero morrer. E nem quero que você morra.
Finalmente ela desaba em lágrimas e o abraça chorando. Ele sente as mãos de Otilina acariciando as suas costas suavemente e, com o rosto enterrado nos cabelos desgrenhados da mãe, ele não consegue evitar a constatação perversa que lhe dá náuseas: bom sinal. A mãe fala agora em um tom de voz familiar, de resignação:
- Tudo bem, meu filho. Tudo bem. Vai ficar tudo bem.

Sunday, March 16, 2008

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 2

Severiano Leão, o pai de Eduardo, desaparecera deixando a família em situação precária quando o filho tinha doze anos e reaparecera brevemente naquele mesmo escritório quinze anos mais tarde. Eduardo já era então um homem feito de 27 anos, casado com dois filhos, estabelecido, preparado, no lugar certo e na hora certa para lucrar espetacularmente com a avalanche de dinheiro do governo e dos estrangeiros que inundaria o estado (e afogaria muita gente também) nos próximos anos. Severiano pareceu-lhe um velho feio, com a pele manchada, magro, desgastado, quase inofensivo: uma sombra da autoridade onipresente que dominara a sua infância e da ausência sufocante que marcou a sua adolescência. Aquele velhote magrelo parecia atolar-se na cadeira de mogno, escorregando devagar no assento de couro até o rosto quase sumir por baixo da mesa. Nervoso, mas completamente concentrado, Severiano falava num tom monocórdio, mastigado, pastoso, as órbitas dos olhos correndo a sala de um lado para o outro, mecânicas, um par de autômatos; do outro lado da mesa o filho, as mãos impecáveis pousadas uma sobre a outra, escutava silencioso e impassível o monólogo do pai:
- Cheguei a Paris escorraçado daqui meu filho era meia-dúzia de famílias donas de fazendas cada vez mais imensas e cidades cada vez mais sonolentas espalhadas pelo estado afora e em 20 anos vivendo na capital nova todas estavam já casadas entre si e donas do governo e da política eles mal toleravam os imigrantes turcos e italianos com suas lojas de tecidos e padarias quanto mais com um banco e eu tive que ir embora com os bolsos vazios e fui determinado a reconstruir a minha vida do zero trabalhei imagine eu como varredor servente pintor de paredes lava-pratos assistente de cozinha faxineiro vigia zelador de prédio vivi nos piores tugúrios de Paris em quartos úmidos e escuros onde mal cabiam uma cama estreita sem colchão nem roupa de cama e um armário com a porta quebrada sem cabide nem espelho tudo coberto de mofo e pó imagine eu sofria demais com a chuva e o frio horríveis no inverno e a fome bateu algumas vezes à minha porta (Eduardo escutava impassível enquanto Severiano tentava contrapor com as suas próprias fantasias absurdas as fantasias também absurdas que a esposa abandonada repetira semanalmente há quinze anos para os dois filhos. Da boca da mãe, Eduardo conhecia aquele homem como o monstro – esse o termo que ela sempre usava. Aquele velhote magrelo propunha-lhe algo ainda mais absurdo. Desenhava apressado na frente do filho que praticamente não conhecia um retrato tosco de si mesmo como um pobre homem injustiçado, transformando, delirante, a sua covardia no sacrifício supremo de um abnegado para demandar, melodramático, reconhecimento de seu filho pelo abandono da própria família, correndo, atropelando as palavras para poder finalmente clamar, afoito e atabalhoado, pela glória improvável de uma ressurreição triunfante concedida pelo filho rico.) pastando ainda o pão que o diabo amassou quase igual em Paris ainda quase 10 anos depois que eu cheguei chegaram os alemães entraram em triunfo na cidade ocupada de 4 e eu com muito custo já tinha conseguido alguma coisa já um emprego fixo e um lugar um pouco mais decente para morar uma cama com colchão e um espelho no armário e espaço para uma penteadeira simples e uma pia no quarto e logo começaram as buscas e as prisões e depois as deportações sempre organizados metódicos detalhistas ao extremo os alemães e as oportunidades muitas começaram a aparecer para qualquer um Francês ou não-Francês agora tanto fazia agora éramos iguais não sendo judeu cigano comunista preto homossexual bastava a vontade e o senso de oportunidade aguçado que eu sempre tive desde que eu cheguei a Belo Horizonte com minhas economias de anos de caixeiro viajante desde menino e então em Paris eu consegui um emprego mesmo uma oportunidade excelente que era mesmo um sonho de muita gente ali naquela hora.
O serviço era simples: logo depois que um apartamento qualquer era evacuado alguém da Controladoria de Bens Requisitados aparecia e pregava um selo na porta para que ninguém entrasse ali e aí no máximo duas semanas depois meu serviço começava nossa equipe chegava lá e fazia a limpeza completa que acontecia logo antes da chegada do pessoal da fumigação e eu jogava fora no lixo tudo o que tivesse quebrado rasgado apodrecido ou mofado e juntava tudo o que tinha ficado para trás – móvel panela luminária tapete cortina coberta lençol almofada vaso roupa toalha pote copo papel fotografia carta às vezes até um filhote um cachorro um gato um passarinho a gente achava ou até – absolutamente tudo encontrado até o último potinho de geléia no fundo da última prateleira da despensa tinha que ser recolhido embrulhado encaixotado selado etiquetado e levado a um dos cinqüenta depósitos espalhados pela cidade inteira onde cada item era então retirado desembalado limpo classificado registrado re-etiquetado e guardado em prateleiras imensas e tudo tinha que ser feito em perfeita limpeza e ordem alfabética e ai de quem depois mexesse e tirasse dali um copo quebrado que fosse sem permissão da Controladoria e foram 4 anos maravilhosos para mim com trabalho ininterrupto garantido 8 até 10 horas por dia 7 dias por semana dinheiro no bolso e a vida começa de novo e a vida melhorava rápido bastando o sujeito ser disposto e ter em quantidade generosa o que os alemães acham que é a maior das qualidades humanas que é a absoluta falta de curiosidade com o que não lhe dizia respeito diretamente e isso eu tinha mais a concentração intensa de quem almeja acima de tudo a longevidade e uma vida se possível um pouco mais tranqüila e confortável e eu sou assim admito não tenho vergonha de dizer que eu adoro viver muito se eu fosse eterno para mim o mundo seria perfeito e eu não vivo no passado nunca sou de viver amargurado com lembranças o passado para mim não serve para nada se não servir para nada e é só por isso que quando as coisas melhoraram e a vida começou de novo eu conheci uma moça e me casei de novo em Paris e é por isso que eu acabei constituindo lá uma outra família para mim que eu de novo não pude trazer comigo tragicamente pela segunda vez porque eu mal consegui sair de Paris muito às pressas escondido em 1944 ironicamente fugindo de novo só com uma mão na frente e outra atrás: os franceses todos inclusive os que trabalhavam comigo todos na rua procurando feito chacais loucos para livrar a própria cara procurando qualquer estrangeiro como eu ou qualquer prostituta de meia pataca para jogar a culpa de tudo que aconteceu e chutar e raspar a cabeça e rasgar as roupas e pintar a cara e contar para o resto do mundo essa história da carochinha que eles inventaram para explicar como um exército inteiro equipado e pronto para combate vira pó em seis semanas e uma semana depois 40 milhões de franceses são completamente dominados por míseros 7.500 alemães sem a ajuda de ninguém além de uma meia-dúzia de prostitutas vagabundas porque agora parece que os 40 milhões de franceses estavam todos enfurnados em buracos na resistência escondidos nos porões haja porão e sótão para essa tanta gente toda mas Eduardo você talvez não me acredite mas eu sou um homem de família eu amo a minha família e eu só voltei para incomodar vocês porque os franceses e só saí do Brasil porque eu não podia mais ficar depois da sacanagem que fizeram comigo – aqui eu vivi o tempo todo espremido de um lado gente graúda tradicional inclusive na família da sua mãe um bando de carcamanos mas ninguém se lembra chegam de navio com uma mão na frente e outra atrás e essa gente queria se ver livre de mim e do outro lado toda essa gente miúda que tinha inveja do meu sucesso – a família da sua mãe sempre foi assim – escondendo tudo debaixo da mesa dentro dos armários com medo do que os outros iam pensar da inveja dos pedidos de empréstimo dos falsos amigos mas o triste é que você não me conhece meu filho e isso é muito triste mas é verdade foi um sacrifício que eu fiz duas vezes nessa vida eu não quero me gabar mas eu não sou o que dizem de mim nunca fui assim para mim o que importa é estar aqui vivo e ser feliz e o resto que se –
Eduardo sabia que o pai abandonara de novo esposa e dois filhos antes da tomada de Paris pelos aliados, levando o que pudera carregar sem chamar a atenção. Longe da cidade onde poderia ser reconhecido como colaborador, Severiano esperou escondido pela retração dos alemães e quando se viu do lado dos aliados, saiu o mais rápido que pôde da Europa. Quando soube do sucesso inacreditável do seu filho brasileiro, decidiu voltar. Eduardo não se deu ao trabalho de contestar as fantasias nem o desejo delirante de seu pai “reassumir os negócios da família”: ofereceu-lhe uma modesta mesada com a condição que ele se mantivesse longe dali, fora do estado, para sempre.

Saturday, March 15, 2008

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 1

He once called her his basil plant;
and when she asked for an explanation,
said that basil was a plant that flourished
wonderfully on a murdered man’s brains.
George Eliot

¿donde está la fuerza que causa tanta miseria?
Juan Rulfo

A chuva tinha parado. Afrouxou a gravata de seda com as mãos impecáveis, levantou-se e foi até a janela do seu escritório. Lá embaixo o vapor se desprendia do asfalto. Sozinho no céu sem nuvens o sol torrava inclemente as cabeças que passavam como pontinhos de um lado para o outro na calçada. É um problema atrás do outro, a vida. O sujeito resolve um e já fica esperando pelo próximo. Um cofre cheio, escondido há anos debaixo da sua cama de casal no apartamento de Laura, desaparecera. Seis sujeitos, vestidos com uniforme de firma de mudança, entraram no apartamento no meio da tarde quando Laura não estava e levaram o cofre numa Kombi com placa fria, que foi abandonada sem deixar vestígios em um lote vago no Céu Azul. Serviço de gente qualificada e informada.
Parado em frente à parede de vidro temperado onde a vista desimpedida da cidade se estendia até o horizonte, ajeitando os punhos da camisa, alisando com a ponta dos dedos as sobrancelhas finas e depois os cabelos grisalhos, impecáveis, Eduardo olhava as cabeças apressadas trançando lá embaixo na calçada enquanto sua atenção dispersa voltava-se à sua revelia para um passado remoto, irrelevante.

Wednesday, March 12, 2008

Decasia


Recomendo com força o blogue da revista Modo de Usar & Co para quem gosta de poesia e quer conhecer coisas interessantes.
Inspirado pelo blogue, resolvi ressuscitar um poema antigo. O título refere-se à um projeto que tem música contemporânea e filmes corroídos, digamos, pelo tempo. Com música de Michael Gordon e filme de Bill Morrison, dá para ver clips do filme e do filme-concerto – inspirados pelo Fantasia de Disney em http://www.decasia.com. A leitura da primeira parte faz mais sentido depois
de ver pelo menos um clipe - a primeira estrofe descreve trechos de Decasia. A segunda parte dispensa comentários.

Decasia

a orquestra de cinquenta e cinco fúrias pulsavançatravancapitando em massa minimalesca
e os trombones glissando festivosinistros
pontuam o ácido que vem e passa e volta pela película do filme
engolindo e regurgitando as imagens
em seqüência de sonho mecânico:
o tear nervolento que roda na mão
a manivela que roda na mão do moço
o carrossel que roda a dez centavos,
a roda gigante de madeira que roda,
até que vem dançarino asceta rodando –
suspende a orquestra em massa em suspenso o mundo –
e sobra o apito sibilante e o dançarino sufi roda
com os braços abertos em êxtase em câmara lenta
roda a saia roda o braço do outro roda
roda roda roda roda a dor

eu sei que é consolo de muita gente crer
que sofrer melhora a gente mas
o sofrimento não melhora a gente em nada
e eu sei que é consolo de muita gente crer
que a dor quanto mais forte
por isso mesmo melhor e mais nobre
no seu efeito de fazer da gente
gente mais forte, melhor e mais nobre mas
o sofrimento não melhora a gente em nada
e eu sei que é consolo de muita gente crer
que termina mais resistente aquele
que sobrevive ao pesadelo
do sofrimento agudo intenso e duro
mas do meu lote todo até agora eu só tirei esse poder pífio
de reconhecer nos olhos dos outros –
na caixa do banco, no peixeiro,
na professora do meu filho, no meu irmão –
a mesma marca líquida que eu sei
estar aqui dentro dos meus olhos,
a marca líquida da corda dos nervos que estica
e estica até que arrebenta
e aí só nos resta a todos nós pobres coitados
esse mesmo corpo típico,
frouxo,
e esses mesmos olhos típicos,
moles,
e essa mesma corda elétrica solta no ar,
balançando a mesma nota aguda e surda
para sempre.

Monday, March 10, 2008

Diário do Império - Tudo muito "lógico"

Moro nos EUA e faz algum tempo e vivendo o dia a dia aqui dá para compreender com clareza que a lógica do mercado capitalista aqui é criar demandas onde elas não existiam antes, para continuar expandindo o consumo mesmo depois que todas as necessidades básicas de consumo tenham sido satisfeitas. Absolutamente TODAS as ofertas e promoções em um supermercado americano são do tipo “compre dois pelo preço de um” e se você quer [ou precisa] “economizar” tem que, paradoxalmente, comprar mais do que precisa e levar para casa dois potes de sorvete ao invés de um só; e dois frangos, dois pacotes de cereal, duas garrafas com o dobro de refrigerante, etc. Não é por nada que a obesidade é um problema nacional, mas é um problema pior entre as minorias que são maioria da camada mais pobre do país. Os ricos enquanto isso compram alimentos orgânicos, sempre mais caros e embalados em porções menores por causa do seu “valor agregado”.
O desafio para o capitalismo americano é fazer consumir [e endividar-se] uma população que já tem tudo e que já gastou tudo o que tem. Aqui quem não se endivida, se trumbica: se você nunca teve um cartão de crédito você não pode parcelar a compra de um computador – seu pedido de parcelamento é negado por falta de “histórico de crédito” [credit history]. A crise do mercado imobiliário americano está relacionado com esse processo de endividamento – muito “lógico” em curtíssimo prazo e uma completa insanidade do ponto de vista de quem pensa um pouco mais à frente. O consumidor americano é uma vaca ordenhada até a exaustão, e o pior é que o seu leite, cada vez mais ralo, é quase todo usado na compra de produtos de consumo importados, que geram renda e riqueza fora daqui, mais especificamente na China. Do ponto de vista dos “cosmopolitas de Wall Street” está tudo indo muito bem, porque suas ações se valorizam na medida em que as mega corporações transferem suas operações para a China. Um processo de concentração de renda muito “lógico”. Em uma loja do Wal-Mart, o monstro do comércio a varejo americano, quase tudo foi feito em alguma outra parte do mundo, principalmente a China e nenhum emprego ganha mais que um salário mínimo sem direito a ferias ou seguro médico. Tudo muito “lógico,” dizem eles; até que tudo desapareça de repente no ar. Essa crença fundamentalista na mão invisível do mercado, absolutamente livre para encontrar uma solução “lógica” para tudo é devastadora. Foi assim que a Inglaterra passou de império mundial a uma ilha destruída pela guerra e uma economia ultrapassada; foi assim que o desastre de 1929 atirou o mundo inteiro em uma recessão desesperadora. Ainda que um pouco de pragmatismo seja restaurado depois que Bush for embora, talvez seja tarde demais.

Saturday, March 08, 2008

Poesia Mexicana - Rosario Castellanos



Rosario Castellanos era de uma familia rica do sul do México. Nasceu em 1925 e vivia à sombra do irmão herdeiro do nome e das terras, até mesmo depois que ele morreu ainda jovem – a família ia visitá-lo no cemitério uma vez por semana. Já aos 15 anos deu mostras de que, apesar de tímida e retraída, não iria aceitar passivamente as regras do jogo – recusou-se ir à festa de debutantes do clube chique de Comitlán. Seus pais e professores desprezavam a literatura, mas ela foi para a o DF, formou-se em filosofia, dedicou-se de corpo e alma aos indígenas de Chiapas e doou todas as terras da família quando os pais morreram em 1948. Foi poeta, ensaísta, romancista, dramaturga. Casou-se tarde para a época, teve três filhos, perdeu dois, separou-se. Traduziu Emily Dickinson. Morreu cedo demais, no auge de sua carreira, em um acidente doméstico trágico, enquanto servia como embaixadora do México em 1974.

Destino

Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca.
Ninguno está tan cerca. A ningún otro hiere
un olvido, una ausencia, a veces menos.
Matamos lo que amamos. ¡Que cese ya esta asfixia
de respirar con un pulmón ajeno!
El aire no es bastante
para los dos. Y no basta la tierra
para los cuerpos juntos
y la ración de la esperanza es poca
y el dolor no se puede compartir.

El hombre es animal de soledades,
ciervo con una flecha en el ijar
que huye y se desangra.

Ah, pero el odio, su fijeza insomne
de pupilas de vidrio; su actitud
que es a la vez reposo y amenaza.

El ciervo va a beber y en el agua aparece
el reflejo de un tigre.
El ciervo bebe el agua y la imagen. Se vuelve
-antes que lo devoren- (cómplice, fascinado)
igual a su enemigo.

Damos la vida sólo a lo que odiamos.
De la vigilia estéril, 1950

Nocturno
Amigo, conversemos.
desde hace ¿cuántos años?, desde el día
en que a un tiempo rompimos la tiniebla
y con vagido entramos en el reino del aire;
desde que los mayores nos pusieron
la sal sobre la lengua
y nos soplaron al oído un nombre
(no de amor, de destino),
un nombre que repites todavía
y que repito yo y repetiremos
hasta el fin, hasta el fin, sin entenderlo
hemos estado juntos.

Espalda con espalda. El uno viendo
nacer el sol y el otro
posando su mejilla en el regazo
materno de la noche.

Atados mano contra mano y vueltos
–forcejeando por irnos–
uno hacia el sur, hacia el fragante verde
y el otro a la hosquedad de los desiertos;
desgarrados; sangrando yo con la herida tuya
y tú quizá doliéndote
de no tener ni siquiera una pequeña brizna
e dolor que no sea también mía,
hemos sido gemelos y enemigos.

Nos partimos el mundo. Para ti
ese fragmento oscuro del espejo
en que sólo se ve la cara de la muerte;
los hierros, las espinas del sacrificio, el vaso
ritual y el cascabel violento de la danza.

Y para mí la túnica parda de la labor,
la escudilla de barro torneado con las manos
en que no cabe más que un sorbo de agua
y el sueño sin ensueños de la sierva.

Pero fuimos desleales al pacto. Tú acechabas
–lobo hambriento – el plantel y los rediles
y aullabas profecías intolerables
y hacías resucitar maldiciones y textos
rescatados de no sé qué catástrofe.

O incendiabas, de pronto, mi faena
con un enorme resplandor sagrado.

Y yo la hormiga. Yo
cosquilleando en tu brazo, hasta abatirlo,
cada vez que querías alzarlo hasta los cielos.

Y yo, Marta, pasando la punta de los dedos
sobre el altar, para encontrar la huella
del polvo mal limpiado.

Y yo, la tos que rompe
la redondez entera de la bóveda
en el instante puro de la consagración.

Y yo en la fiesta. Párpados esquivos,
Trenza apretada, labios sin sonrisa.
De espaldas a la música, con esa cicatriz
que el ceño del deber me ha marcado en la frente;
pronta a extinguir las lámparas, ansiosa
de despedir la huésped
porque en la soledad yo te escupía a la cara
el nombre de la culpa.

Ah, que duelos a muerte.
Hasta el amanecer luchábamos y el día
nos encontraba aún confundidos en nudo
ciego de odio y de lágrimas.

Como el convaleciente, tambaleándonos,
Nos poníamos de pie, lívidos y desnudos.
Y ni así, al contemplar nuestras llagas, subió
jamás a nuestra boca
una palabra de piedad, un gesto
en que se nos volviera perdón el sufrimiento.

Pero hoy e tiemblan tus rodillas; late
tu pulso enloquecido entre mis sienes
y siento que el orgullo se nos va deshaciendo
como un sudor que escurre adentro da médula.

Porque la noche es larga. Nada anuncia su término
y acaso
para nosotros dos ya no hay mañana.

Demos la fatiga una tregua y hablemos.

Ayúdame a decir esa sílaba única
–tú, yo – ¡pero no dos, nunca más dos!
cuya mitad posees.
Materia memorable, 1969

Thursday, March 06, 2008

Aparências



Curioso como a gente pode fazer um paralelo com o blues e o jazz nos Estados Unidos e o Samba no Brasil. Inicialmente consideradas música “selvagem” ou “primitiva” e relegadas a espaços marginalizados, essas expressões musicais “renascem” [aspas porque nunca morreram, só foram varridas para baixo do tapete] com músicos e cantores brancos, gerando lucros fantásticos para uma nascente indústria da música e do entretenimento. E o que era “aviltante” e “tosco” de repente vira “charmoso”, “chique” e até reconhecidamente sofisticado. Músicos e cantores, brancos, ingleses e norte-americanos de classe média, que se apaixonaram pela música negra americana não são culpados; e foram eles foram até responsáveis por ajudar a resgatar da miséria os mestres do blues americano e levá-los, às vezes pela primeira vez, a um registro em estúdio com condições minimamente decentes. No Brasil devemos a essa redescoberta os sensacionais discos do Cartola. O problema é um processo que se repete no Brasil: quando o partido chamado de pagode explodiu no Brasil, muita gente da elite branca torcia o nariz e dizia que aquilo era, ironicamente, um samba degenerado. Vinte anos depois Zeca Pagodinho virou “chique”? A verdade é que as pessoas ainda hoje mascaram como julgamentos estéticos os seus preconceitos de classe e raça. Julgam a qualidade da música como um produto que se julga pela embalagem ou pelo rótulo: principalmente pelo lugar de onde ela aparenta vir e pela aparência de quem a produz. Não é por nada que os cantores sertanejos vivem produzidos, disfarçados na medida do possível de uma classe social e de um grupo étnico que não é o deles – disfarçados de elite branca eles passaram a ganhar muito mais dinheiro, com a mesma música que faziam antes [para mim uma bela porcaria na maioria das vezes], só que agora com o “valor agregado” da “boa aparência”.

Tuesday, March 04, 2008

Hilda Hilst
















Controversa o escambau! Hilda Hilst está é lá encima, meus amigos. HH tem que ser lida, e muito, e com inteligência, simplesmente porque é uma das melhores artistas da literatura em português, incluídos aí homem, mulher, velho, novo, vivo, morto.

Dez Chamamentos ao Amigo
I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.