Saturday, December 22, 2007

Ainda a chuva - Agora com José Emilio Pacheco

HOMENAJE
Con esta lluvia el mundo natural
penetra en los desiertos de concreto
Escucha su música veloz
Contrapunto de viento y agua
Única eternidad que sobrevive
esta lluvia no miente

Monday, December 17, 2007

Poesia Mexicana IV - Tablada


Figura: Zompantli de Artemio Rodríguez









José Juan Tablada [1871-1945] já era um poeta simbolista mais ou menos consagrado quando encontra o Haikai e daí uma passagem para a poesia moderna.
Un día [poemas sintéticos] de 1919; Li-Po [1920], Jarro de Flores [1922] e La feria [1928] são quatro portentos, maravilhas poéticas deslumbrantes de um apaixonado pela palavra e pela superfície sensível do mundo. Vamos passar ligeiro pelos quatro.

De Un día:
Los zopilotes
Llovió toda la noche
y no acaban de peinar sus plumas
al sol, los zopilotes.

De Li-Po:
Nocturno Alterno
Neoyorquina noche dorada
Fríos muros de cal moruna

Rector's champaña foxtrot
Casas mudas y fuertes rajas

y volviendo la mirada
Sobre las silenciosas tejas

El alma petrificada
Los gatos blancos de la luna
Como la mujer de Lot

Y sin embargo
es una
misma
en New York
y en Bogotá

¡La Luna...!

A un Lémur (Soneto sin ripios)
GO
ZA
BA
YO

A
BO
GO
TA

TE
MI
RE

Y
ME
FUI

De Jarro de Flores:

Un mono
El pequeño mono me mira...
¡Quisiera decirme
algo que se le olvida!

De Feria:
Los zopilotes
Cuando sacrificaban en el Templo Mayor
las alas de los zopilotes
oscurecían el sol…

Y los remeros en sus barcas
no miraban a las alturas
si del lago las aguas zarcas
se tornaban pronto oscuras.

Pues el pávido macehual
al presagio del zopilote
de la sangre miraba el brote
bajo el filo del pedernal.

Con envidia de los coyotes
volando, de la serranía,
sobre Tenochtitlán caía
muchedumbre de zopilotes…

Cual gerifaltes en alcándara
sobre el zompantli se posaban
y adornando las calaveras
con morriones de plumas negras,

¡solían saltar
al brusco son
de panhuehuetl
o caracol…!

Saturday, December 15, 2007

Tradução, sacação, traição

Deu na Folha de São Paulo: Roberto Domênico Proença "traduziu" os contos de Voltaire - trocando uns detalhes aqui e outros dali de uma tradução antiga de Mário Quintana. A troca era pura crocodilagem - os erros contidos na tradução do poeta gaúcho continuaram. A Martin Claret, editora especializada em livros de bolso, publicou traduções igualmente plagiadas de "Os Irmãos Karamazov" e "A República". A primeira, assinada por Alexandre Boris Popov, é cópia de uma antiga versão da editora Vecchi. A tradução de "A República", assinada por Pietro Nassetti, é, na verdade, uma versão de Maria Helena da Rocha Pereira.
Essa história de tradução requentada é antiga. Eu perdi o respeito intelectual por um grande poeta [que continuo respeitando muito como poeta] quando percebi que uma das suas "traduções" eram assim mesmo, muito entre aspas. As pessoas se fiam muito na ignorância geral da nação para fazer bonito, mas esse tipo de impostura prolifera particularmente no mundo das traduções, principalmente de prosa, quando quem lê a tradução o faz porque não pode ler o original e não tem como julgar o trabalho feito. É o crime perfeito, até que se pegue o criminoso...
Quem conhece as dificuldades do ofício de tradutor, aumentadas pelas péssimas condições de trabalho, sabe: o melhor a fazer é ler, sempre que possível, o original. Digo isso consciente de que nunca vou passar do "oi como vai" em um punhado de línguas que são importantíssimas: Mandarim, Russo, Japonês, Urdu, Hebraico e Árabe, por exemplo. Portanto há que se cuidar antes de sair dizendo por aí que Dostoiévski é isso e aquilo; o Dostoiévski que eu conheço pode muito bem ser consideravelmente diferente do original Russo. Um artigo recente da New Yorker sobre as traduções "clássicas" de Dostoiévski para o inglês atestam o que eu digo: a tal influência de Dostoiévski em Faulkner é a influência dessas traduções mula-manca para o inglês em Faulkner, assim como até uns poucos anos atrás falar de influência de Faulkner na América Latina é uma piada se o escritor em questão não sabia ler inglês muito bem [e para ler Faulkner em inglês, dependendo do livro...]. A "tradução" do tal poeta de que falei é um bom exemplo do que eu estou dizendo: a tradução brasileira que o camarada copiou era uma traducão do Gogol já traduzido para o francês. Quando comparei as duas com uma tradução do Russo para o inglês, encontrei textos completamente diferentes. E Gogol à essa altura... rola na sepultura. Ou não? O mundo das traduções sempre foi assim, desde a Bíblia, um livro pelo qual as pessoas literalmente se matam e que foi traduzida das maneiras mais absurdas desde sempre até bem pouco tempo atrás. A história da relação entre línguas diferentes tradicionalmente se faz de mal-entendidos - o modelo dessas relações seriam as paródias que Moreira da Silva cantava de filmes de Hollywood:

O Rei do Gatilho [Miguel Gustavo]

Trecho falado :


'' o rei do gatilho, super bang-bang de michael gustav, com kid morangueira, o mais famoso pistoleiro de wichitta. temido pelos bandidos, pois só atirava em nome da lei.''


Começa o filme com o garoto me entregando
Um telegrama do arizona, onde um bandido de lascar
Um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona
E não deixava nem defunto descansar.
Dizia urgente que eu seguisse em seu socorro.
A diligencia do oeste neste dia ia levar
Vinte mil dólares do rancho águia de prata
Onde a mocinha costumava me encontrar


'' venha urgente, pois estou morta de medo. só tú poderás salvar-nos.
Beijos
Da tua mary.''


Botei na cinta dois revolveres que atiram
Sem que eu precise nem ao menos me coçar
Assobiei para um cavalo que passava do outro lado
E com o bandido mascarado fui lutar
Cheguei na vila, nem dei bola prô xerife
Entrei direto do saloon, fui me encostando no balcão
Com o chapéu em cima dos olhos nem dei conta
De que o bandido me esparava a traição
''-cuidado, moreira-''
Era um indio meu parceiro que sabia
Das intenções do bandoleiro contra mim
E advertia seu amigo do perigo que corria
Devo-lhe a vida, mas isso não fica assim
A essa altura o cabaret em polvorosa
Já tinha um cheiro de cadáver se espalhando
Houve um suspense de matar o hitchicock
E em close-up prô bandido fui chegando
Parou o show e as bailarinas desmaiaram
Fugiram todos só ficando ele e eu
Ele atirou, eu atirei e nós trocamos tantos tiros
Que até hoje ninguém sabe quem morreu
Eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu
Só sei dizer que a mulher dele hoje é viúva
Que eu nunca fui de dar refresco ao inimigo
Como no filme bang-bang vale tudo
O casamento da viúva foi comigo
Tem um final, mas o final é meio impróprio e eu não digo
Volte na próxima semana se quiser ser meu amigo
Eu de cowboy fico gaiato, mas não fujo do perigo.

Fonte: http://letras.terra.com.br/moreira-da-silva/962265/

Wednesday, December 12, 2007

Memórias de BH

Quem não gosta de chuva? Eu quando vivia em Belo Horizonte ficava sempre esperando o final de novembro chegar, só para ver o céu ficar cor de chumbo quase preto e de repente a chuva desabar, aliviando o calor e limpando a cidade. Em Belo Horizonte a estação das chuvas funcionava para mim como o outono ou a neve do inverno em um lugar mais frio: era a hora em que a natureza [no sentido mais visceral da palavra] resolvia dar as caras e nos lembrar que somos: um bando de formiguinhas zanzando para lá e para cá crentes que são as donas do mundo.

Tuesday, December 11, 2007

Desculpe qualquer coisa...

Essa mania de pedir perdão sem fazer patavinas sobre as injustiças pelas quais as deculpas são pedidas é um horror. Aliás, eu quero logo pedir desculpas pelo conteúdo desse blogue e por quaisquer erros de gramática que ele contiver. Aproveito para pedir perdão à todos os professores que ignorei ou ofendi antes de virar professor e compreender a corda bamba em que andamos no picadeiro da sala de aula, à minha esposa e meu filho por ser um ser humano bem ordinário em seus defeitos e qualidades e finalmente à minha mãe por ter nascido, causando naquela pobre senhora terríveis dores no parto. Enfim, como dizemos às vezes nós mineiros quando nos despedimos de alguém em um arroubo de penitência previdente: "Desculpe qualquer coisa!"

Monday, December 10, 2007

Poesía Mexicana III - Lopez Velarde

Ramón Lopez Velarde é considerado pelos próprios mexicanos o precursor da poesia moderna no México. Morreu com apenas 31 anos em 1921 e seu poema “La suave patria” se transformou em uma espécie de hino nacionalista – uma contradição em termos principalmente se pensarmos que López Velarde vai ser canonizado pela revolução mexicana tendo sido ele um católico conservador [veja no próprio poema em questão a referência ao correio de Chuan]. Como deixa clara a abertura do seu poema mais famoso, seu patriotismo não tem nada de estridente; é um épico em surdina, uma evocação íntima, discreta, profundamente pessoal. São excelentes também os poemas memorialistas de López Velarde, dignos de Drummond na sua evocação de erotismo infantil e culpa, por exemplo, no famoso “Mi prima Agueda”.

La suave patria – Proemio
Yo que solo canté de la exquisita
Partitura del íntimo decoro,
alzo hoy la voz a la mitad del foro,
a la manera del tenor que imita
la gutural modulación del bajo,
para cortar a la epopeya un gajo.
Navegaré por las olas civiles
con remos que no pesan, porque van
como los brazos del correo chuan
que remaba la Mancha con fusiles.
Diré con una épica sordina:
la Patria es impecable y diamantina.
Suave Patria: permite que te envuelva
en la más honda música de selva
con que me modelaste por entero
al golpe cadencioso de las hachas,
entre risas y gritos de muchachas
y pájaros de oficio carpintero.

Saturday, December 08, 2007

Torcer por time de futebol é uma grande perda de tempo...

Torcer por um time de futebol é mesmo uma perda de tempo, como também são perda de tempo ver novela; passear no shopping center; decorar o hino nacional; acompanhar a moda; acompanhar as “novidades” da música popular que usam os mesmos quatro ou cinco acordes há décadas; sentir nostalgia por qualquer baboseira do passado como seriados de heróis japoneses; seguir a vida pessoal de gente “famosa”; ficar criticando o governo e os políticos sem nunca fazer absolutamente nada a respeito; conversar sobre o clima e o trânsito; ler notícias sobre desastres naturais há mais de cem quilômetros de distância da residência de qualquer pessoa do seu conhecimento; cantar loas de louvor a um bairro/cidade/estado/país qualquer; ficar olhando retratos de gente famosa, estejam elas peladas ou vestidas; ficar discutindo os atributos físicos de pessoas famosas ou não, gastar fortunas com um monte de baboseiras que prometem o impossível – fazer você parar de ficar mais velho; fazer a cama que você vai desfazer de novo na noite seguinte; pentear os cabelos que vão se despentear de novo; fazer a barba que cresce no dia seguinte; ter um animal de estimação qualquer e pior ainda tratá-lo como um ser humano; ter filhos só porque os outros têm filhos e pior ainda ter dois filhos só porque todo mundo diz que o seu menino precisa de um irmão; trabalhar mais do que o estritamente necessário e ficar acumulando capital ou gastando em reformas ou hobbies; viajar até Paris e sair correndo pelo Louvre afora tirando fotografias e se espremendo na multidão para olhar a Mona Lisa ou a Torre Eiffel sem nem ter nunca tido a menor disposição nem o menor conhecimento para apreciar artes plásticas ou arquitetura; gastar muito dinheiro comendo em restaurantes caros sem nem saber qual é a diferença entre uma polenta e um prato de angu; ficar horas e horas pesquisando e discutindo todas as filigramas mais insignificantes sobre vinhos, charutos, relógios, carros, selos, instrumentos musicais, bicicletas, etc.
Enfim, o melhor mesmo seria humano absolutamente medíocre ser completamente racional e comprar o caixão mais barato da praça, se meter lá dentro e pedir para alguém colocar a tampa em cima. Mas se ele fizesse isso, provaria que não é tão medíocre assim e que portanto deveria continuar vivo.
PS. Eu reconheço que também perco o meu tempo, por isso não procuro julgar a forma que os outros escolhem para perder o seu tempo. Ah, se todos soubessem que estavam só perdendo tempo...
[essa foi uma resposta a um bom texto anti-futebol do blogue "Liberal Libertário Libertino"]

Friday, December 07, 2007

Crónicas do Império - Voltando para casa

Reportagem recente do NYT sobre brasileiros que vivem nos Estados Unidos e têm, cada vez mais, decidido voltar para o Brasil [a reportagem chega a dizer que o fluxo de volta já supera o de chegada]:
http://www.nytimes.com/2007/12/04/nyregion/04brazilians.html?ex=1197694800&en=8687361152036697&ei=5070&emc=eta1
Em vista das crescentes dificuldades diárias na vida dos brasileiros que imigraram ilegalmente para os Estados Unidos, parece que um número cada vez maior de pessoas se pergunta “Vamos voltar para casa?”
Mas e depois?
Será que essas pessoas voltam e são engolidas pelo meio e rapidamente voltam a ser como eram antes de sair de sair do Brasil? Será que essas pessoas tentam manter pelo menos uma parte da forma de vida que tinham nos Estados Unidos? E os filhos que crescem aqui e têm muito pouca identificação com o Brasil?
Imaginemos um imigrante comum: o cara tem um diploma, por exemplo, de letras e ganhava a vida aqui como bombeiro-eletricista. Ele vai fazer o quê no Brasil?
Criar cana-de-açúcar… Abrir um restaurante “serve-serve”…

Wednesday, December 05, 2007

Poesía Mexicana II - Enrique González Martínez

González Martínez escrevia sonetos e era um sujeito respeitável nos anos 20 no México. De repente ele escreve um soneto em que propõe dar cabo sem dó nem piedade dos cisnes simbolistas e substituí-los por uma circunspecta coruja, que antes de qualquer coisa, mantém os olhos bem abertos para a vida. Mais ou menos o mesmo grito de emancipação do modernismo brasileiro, mas sem qualquer traço de vanguarda - a tal coruja é da deusa Atenas...
Esses mexicanos... que loucura! Será mesmo? Será que a nossa historiografia que insiste que 1922 viu a invenção do moderno num Brasil arcaico, não merece uma revisão? Não parece um pouco forçada a idéia de simplesmente chamar qualquer escritor moderno antes de 1922, como Lima Barreto e Machado de Assis, de pré-modernistas? Vale a pena ler de novo o poema "Os Sapos" de Manuel Bandeira [lido na Semana de Arte Moderna], principalmente do ponto de vista formal. Será que "Os Sapos" é completamente diferente de "Tuércele el cuello al cisne..."?

Tuércele el cuello al cisne...

Tuércele el cuello al cisne de engañoso plumaje
que da su nota blanca al azul de la fuente;
él pasea su gracia no más, pero no siente
el alma de las cosas ni la voz del paisaje.

Huye de toda forma y de todo lenguaje
que no vayan acordes con el ritmo latente
de la vida profunda... y adora intensamente
la vida, y que la vida comprenda tu homenaje.

Mira al sapiente búho cómo tiende las alas
desde el Olimpo, deja el regazo de Palas
y posa en aquel árbol el vuelo taciturno. . .

El no tiene la gracia del cisne, mas su inquieta
pupila, que se clava en al sombra, interpreta
el misterioso libro del silencio nocturno.

Sunday, December 02, 2007

Declaração de Bens

Declaração de Bens

A vida como eu conheço é a única vida que eu sei que existe
e não vale a pena.
A vida é uma só, como acontece é assim uma vez só e nunca mais
e não vale a pena.
Querer saber porque e porque não e para que serve tudo isso aqui
não vale a pena.
É tudo um imenso desperdício de energia de ilusão de sofrimento,
a vida como eu conheço aqui e agora não vale a pena.
Estúpida e lenta passa devagar até que não deixamos mais que um traço
se deixarmos um traço e é melhor nem deixar um só traço
e ainda bem que é assim
porque se deixássemos mais que um traço depois de irmos embora
poderíamos enganar, não a nós mesmos, mas aos outros que ficam para trás,
como eu agora estou aqui atrás,
esperando a hora de ir em frente
e parar de ir em frente.
Porque ir em frente é um engano terrível,
uma completa perda de tempo.

Sinto muito, mas assim são as coisas como eu as conheço
e eu não posso saber das coisas diferentes de como eu as conheço.
Levamos quarenta, dez, sessenta anos,
a vida inteira, sem saber;
porque quando finalmente entendemos, se percebemos,
descobrimos que não vale a pena
e quando descobrimos que não vale a pena
somos mais um na imensa estatística dos perdidos
dos desperdiçados, dos banidos do céu e do inferno,
dos duramente esquecidos pelos que ficam aqui atrás.

Toma muita coragem mas é um gesto só de coragem e basta,
mas é preciso coragem demais para perder o chão e não é fácil
dar esse ultimo passo vale a pena;
tem que valer a pena porque depois não há mais nada.
Nada a perder depois; nada.
Nada a fazer depois;
Nada.