Tuesday, January 30, 2007

Carlos Pellicer sobrevoa o Rio de Janeiro

José Vasconcelos esteve no Brasil em 1921-22 em missão oficial do governo mexicano - quem quiser conferir algumas páginas de ficção científica não-intencional deveria ler o capítulo dedicado a essa viagem por Vasconcelos no famoso Raza Cósmica. Ficção científica à parte, um dos melhores poetas mexicanos - aficcionado por vôos acrobáticos - estava com Vasconcelos nessa viagem e escreveu um belíssimo poema "aéreo" sobre o Rio de Janeiro. Aqui está apenas a primeira parte dele:

SUITE BRASILEIRA – Poemas aéreos

A Francisco S. Espejel
A Julián Nava Salinas

PRIMERA VEZ
Desde el avión,
vi hacer piruetas a Río de Janeiro
arriesgando el porvenir de sus puestas de sol.

Se ponía de cabeza
sin derramar su bahía.

Y en la lotería de sus isletas
ganaba y perdía.

El cielo se llenaba de automóviles
y de sombra a las 12 del día.

El Pão de Açúcar era un espantapájaros
soberbio, de lógica y fantasía.

Las palmeras desnudas
andaban de compras por la Rúa D'Ouvidor.

De pronto la ciudad
entró en espiral
junto con el avión,
lo mismo que 300 kilates de diamantes
en el embudo de un buen corazón.

Al bajar,
tenía yo los ojos azules
y agua de mar dentro del corazón.

Friday, January 26, 2007

“Só no Brasil...”

“Só no Brasil...”

Acho ridículo quando as pessoas acreditam no poder das palavras em alterar a realidade concreta. Recorro a um exemplo absurdo: crer que dizer coisas como “sou um sucesso” ou “tenho capacidade” dez ou quinze vezes em frente ao espelho do banheiro pela manhã pode transformar a vida de alguém. Um número surpreendente de pessoas ganha a vida vendendo esse tipo de enganação para uma legião de incautos que parecem querer acreditar nos poderes transcendentais da hipocrisia – coisas assim só reforçam a minha impressão de que a imbecilidade é mesmo uma epidemia de proporções assustadoras nos dias de hoje.
Apesar disso, acredito que combater certos hábitos lingüísticos que poderíamos chamar de maneirismos ou vícios de linguagem poderia servir justamente à nobre causa da higiene mental. É por isso que proponho aos meus inumeráveis leitores que evitemos terminantemente de hoje em diante a locução “só mesmo no Brasil” e qualquer de suas variantes (“só no Brasil”, “só aqui mesmo” e congêneres).
Primeiro porque essas locuções só servem para nos separar do resto do mundo. Acreditamos meio sem querer no nosso isolamento, como se vivêssemos em um universo paralelo e todos as nossas mazelas fossem só nossas e de mais ninguém. Em geral, obviamente, não são; e valeria a pena abrir os olhos para entender como é que outros povos lidam com esses problemas e como problemas que nos parecem entraves intransponíveis ao nosso progresso não travaram o progresso dos outros tanto assim.
Esse “só mesmo no Brasil” serve como o reverso da moeda do nosso ufanismo, nossa crença no nosso destino grandioso, único. Não somos como o país A ou B – onde supostamente todos vivem o paraíso sobre a terra – só porque nos falta esse pequeno e importante detalhe. Daí esse estado de exasperação permanente beirando o ataque de nervos em que o brasileiro supostamente pensante vive. A propósito: não proponho que devamos deixar de dizer “só no Brasil” para salvarmos nosso país de qualquer buraco real ou imaginário; muito antes pelo contrário. Minha proposta modesta trata de afirmar, não apenas que o buraco é mais embaixo, mais que os buracos devem ser muitos e que estão espalhados por todo o canto.
De qualquer maneira, ainda que nada mudasse, essas locuções repetidas assim exaustivamente todos os dias cansam e deixá-las de lado nos forçaria pelo menos a um exercício de criatividade verbal, saudável no deserto de idéias que habitamos hoje em dia.

Friday, January 05, 2007

Quem bate esquece, mas quem apanha, não

De uma forma bastante típica, escrevi mas esqueci de enviar esse conto para um concurso idiota que premiava a melhor história com uma televisão - quem sabe um dia não começarão a premiar diretores de televisão ou vencedoras de concurso de miss com livros? Passou o prazo, que fazer? Ah, esse conto que é 97.5% não-ficcional serve também como homenagem torta aos nossos muitos escritores que, neo-naturalistas em pleno século XXI, sonham em ser Rubem Fonseca ou pelo menos Patrícia Mello.

Quem bate esquece, mas quem apanha, não

"Já que a grande maioria
daria um livro por dia
sobre arte, honestidade e sacrifício."

Quando mataram meu sobrinho ele ainda não tinha 17 anos. Cinco tiros, o filho da puta deu nele. O policial que o encontrou já ia colocando na ocorrência que tinha sido briga de traficantes de drogas, só que o meu sobrinho morreu aqui perto e o pessoal na rua sabia quem ele era e chamou minha sobrinha que correu lá e não deixou. O pobre do menino ainda nem bebia cerveja direito. Ele vivia com a madrinha e ela sempre levou os meninos dela na rédea curta, mas com menino é mais difícil, ainda mais hoje em dia.
Meu sobrinho quis namorar uma moça lá na escola dele e ela tinha um ex-namorado que não queria ser ex. A menina até apareceu no velório, mas eu não falei com ela não. O rapaz era um pouquinho mais velho que o meu sobrinho, já era maior. Testemunha e tudo, dando nome e endereço do sujeito e ainda assim o rapaz ficou solto bem mais de um ano, até que matou um outro sujeito e dessa vez acabou que foi pego em flagrante. Eu fui reconhecer meu sobrinho, já saindo no rabecão do IML, tarde da noite. Só aí é que eu me convenci mesmo que ele estava morto.
Um mês depois que o meu sobrinho morreu a madrinha dele conversou comigo e eu fui na polícia falar com o investigador. O cara me mostrou uma pilha de pasta cheia de papel e me disse que era só ele e mais três para cuidar daquilo tudo. Ele me disse também que aquela semana todo mundo no distrito tinha sido deslocado para resolver o assassinato de um menino que estava voltando de um jogo de futebol. Porque o menino vinha de uma família boa, meio importante e tinha dado até capa no Estado de Minas, o escambau. Antes de me dispensar o investigador ainda me disse que eu estava fazendo a coisa certa, que eu tinha que ficar em cima, encher o saco mesmo. Senão não acontecia nada. Senão o caso do meu sobrinho acabava esquecido ali no meio daquele monte de papel que não parava de crescer.
Ele me deu o que eles já tinham juntado na pasta do meu sobrinho para eu ler. Um cara dirigiu um carro onde estava o filho da puta que matou meu sobrinho e esse cara disse que tinha sido forçado pelo filho da puta a rodar o bairro procurando meu sobrinho. O filho da puta pegou esse cara desprevenido num bar onde ele estava comendo um churrasco com uns amigos. O cara disse que depois ainda teve que levar o cara até em casa; o filho da puta vivia com a mãe dele.
Depois que ele foi preso eu dei um jeito de ir lá falar com ele. Eu queria saber porquê, ouvir qualquer coisa, uma explicação qualquer da boca dele. Quando a mãe do meu sobrinho morreu – ele era moleque ainda, tinha o quê, cinco, sete anos de idade – a minha cunhada foi lá na clínica falar com a médica para saber o que é que tinha acontecido. A mãe dele estava uma cólica forte e foi nessa médica, que receitou para ela uns remédios e uns dias depois a coitada amanhece morta, crispada no chão bem no meio do quarto dela. Gravidez de trompa, um negócio assim; deu hemorragia interna. A médica disse para minha cunhada que a mãe do meu sobrinho tinha garantido que não mantinha relações sexuais fazia tempo. A médica acreditou nela, mas não devia.
Essa minha cunhada, que depois morreu num acidente de carro vindo de Ouro Preto, me ensinou isso. Então eu fui falar com o rapaz na cadeia. Eu estava com medo. Não dele, mas do que ele ia dizer. Às vezes a gente escuta umas coisas ou fica sabendo de umas coisas que fazem muito mal para a gente mesmo, que a gente não consegue esquecer depois de jeito nenhum. Quem bate esquece, mas quem apanha, não. Isso foi a primeira coisa que o rapaz me disse. O resto não interessa. O resto eu esqueci.