Thursday, April 30, 2015

Requebra minha gente!!

Devo ser o único ser humano vivo lendo jornais do Rio de Janeiro nos anos 80 do século XIX. Coisas do ofício, no qual me afogo como forma de desafogo do mundo. Esse anúncio de "linda e graciosa polka chula para piano, muito chic e muito engraçada, com todos os seus requebradinhos" não é irresistível?

Gazeta de Notícias, 1880

Sobre o espancamento de professores da rede pública estadual em Curitiba

De certa forma, o post de hoje vai quebrar uma longa tradição aqui nesse meu quintal empoeirado: falar sobre eventos correntes, que estão sendo comentados agora. Meu quintalzinho pode até ser de vez em quando meio metido a besta, mas não costuma esquecer o que é: um cantinho mixuruca esquecido do bafafá do dia-a-dia onde eu falo única e exclusivamente em meu nome.

Das tais redes sociais só conheço o já [suponho] bolorento FCBK, mas com base nele, além do acesso diário a portais de informação de certos jornais, sinto que a opinião pública em sua versão internet parece um cachorro neurastênico correndo de lá para cá compulsivamente: um dia todo mundo tecla furiosamente sobre um terremoto do outro lado do mundo, dia seguinte todos riem da cantora aposentada que cantou o hino nacional bêbada e esqueceu a letra, mais um dia e rimos/choramos o político que esqueceu o nome de dois estados do seu próprio país ou o candidato a candidato que esqueceu até a própria promessa de campanha no meio de um debate. Por aí vamos e voltamos, movidos muito frequentemente por ódio disfarçado de indignação ou sarcasmo. Então fica difícil fazer o que Diego Viana no seu blog ou mesmo o que a Camila Pavanelli de Lorenzi faz no próprio FCBK - não se deixar levar por essa correria sem fim e tentar botar a cabeça para pensar. Continuo achando que a palavra escrita vale muito e que falar bobagem na mesa no bar [um esporte popular e perfeitamente legítimo] vira uma temeridade teclado na internet.

Enfim, ao que interessa: professores da rede pública fazendo manifestação pública foram tratados hoje de forma truculenta pela PM do Paraná. Imagens chocantes de gente sendo mordida por cachorro até arrancar sangue e coisas do tipo. Tudo em nome de não deixar os manifestantes entrar na assembléia estadual. Os jornais contribuem com o de sempre: chamam de "confronto" uma série de espancamentos violentos em professores "armados", quando muito, de celulares e pedaços de papel, uma chuva de bombas de gás de pimenta, um massacre. 150 feridos, alguns em estado grave.

Para os que não compreendem a minha recusa radical de votar ou apoiar qualquer candidato do PSDB mesmo quando a outra opção não me entusiasma em nada, eu digo: acompanhem as imagens e depoimentos do que aconteceu em Curitiba. Eu digo aqui o seguinte eu também sou professor brasileiro [apesar de trabalhar fora] e antes de ser professor fui aluno brasileiro. Isso que está acontecendo no Paraná [no dia da educação] não é fora do normal. Essa gente quer que a educação pública vá para o ralo. Professor para essa gente é lixo. Ainda mais professor de escola pública, que só ensina gente que essa gente também considera lixo. Você já foi tratado feito lixo? Sinceramente espero que não. Eu já fui e não é nada, nada agradável.

Agora uma lembrança importante: não quero aqui contribuir para o FLA X FLU político como não quero contribuir para o discurso imbecil "são todos farinha do mesmo saco". Não são santos nem são iguais os dois lados desse embate, mas o comportamento do governador do Paraná está bem dentro da média dos governadores e prefeitos e mesmo do governo federal com seus "confrontos" e seus "desdobramentos" assim como seus grandes planos e novos slogans grandiloqüentes.

Não acho que os professores devam esperar muita solidariedade muito menos ajuda de ninguém nessa guerra. Todo o brasileiro é a favor da educação assim como todo o brasileiro é contra a corrupção e o racismo: o Brasil em geral é profundamente conivente com o racismo, a corrupção e com o sucateamento da educação e o aviltamento da profissão. Fui uma vez patrono de uma turma de letras da UFMG - é um dos meus maiores orgulhos. Na mesa em cima do palco ao meu lado estava o sujeito [professor] que me disse que eu tinha que começar a dar 3 cursos ao invés de 2 na Letras para continuar ganhando os mesmo R$500 por mês. Eu disse ao alunos mais ou menos o seguinte: ninguém vai reconhecer o valor que vocês têm lá fora; vocês têm que saber disso e têm que lutar com unhas e dentes para receber o reconhecimento que vocês merecem. Acho que continua valendo.  

Wednesday, April 29, 2015

Tudo distante, tudo deserto. Belo Horizonte, capital universal da melancolia



Le Flanêur
Jennifer Souza

Hoje sou só eu
Correndo da mesma solidão
Tentando evitar o chão
Parado

Outro gole amargo
Quem sabe esqueço o que eu guardo
Ou encontro
Algum plano

Tudo distante
Tudo deserto
Tem nome esse lugar?
Talvez eu grite
E alguém escute
Enquanto ensaio
Rodopios
Soltos a flanar
Meus olhos vão se enxergar
Tudo isso vai mudar
Eu sei

Hoje sou só eu
Correndo da mesma solidão
Tentando evitar o chão
Molhado

Tudo distante
Tudo deserto
Tem nome esse lugar?
Talvez eu grite
E alguém escute
Enquanto ensaio
Rodopios
Soltos a flanar
Meus olhos vão se enxergar
Tudo isso vai mudar
Eu sei

Tuesday, April 28, 2015

"Baltimore" de Randy Newman com Nina Simone


Beat-up little seagull
On a marble stair
Tryin' to find the ocean
Lookin' everywhere

Baltimore, 1968
Hard times in the city
In a hard town by the sea
Ain't nowhere to run to
There ain't nothin' here for free

Hooker on the corner
Waitin' for a train
Drunk lyin' on the sidewalk
Sleepin' in the rain

Baltimore, 1968
And the people hide their faces
And they hide their eyes
'Cause the city's dyin'
And they don't know why

Oh, Baltimore
Ain'i it hard just to live
Oh, Baltimore
Ain'i it hard just to live, just to live

Get my sister Sandy
And my little brother Ray
Buy a big old wagon
Gonna haul us all away

Live out in the country
Where the mountain's high
Never gonna come back here
'Til the day I die

Oh, Baltimore
Man, it's hard just to live
Oh, Baltimore
Man, it's hard just to live, just to live

Monday, April 27, 2015

Poesia minha: O marinheiro de Fernando Pessoa


Ilustração minha: Corrosão do Tempo
O marinheiro de Fernando Pessoa

Dos pés soa
o sussurro dos seixos
da praia boa.
O barulho me ensina coisas
que eu não quero:
a derrota chega, ele me diz,
e a derrota também é boa:
vibram todas as coisas desse mundo,
vibram os bichos e as pessoas,
tudo no mundo vibra em sua própria frequência,
toda a matéria do mundo se move,
mesmo as pedras,
tudo quer se fazer sentir presente,
mesmo de longe,
tudo quer se fazer conhecer,
e um toque só é diferente de um não toque
porque a distância é só
uma questão de intensidade.
E até a derrota é boa
porque até os cadáveres soam
enquanto se descompõem
uma vibração frouxa e informe
que é um abrir as comportas
e deixar-se ir com o mundo que ressoa
convocando a todos nós,
esperando o tempo todo pelo encontro,
pela absorção num outro corpo.
A derrota da vida
é uma entrega à perfeição
que consiste em cada coisa
conter em si todas as outras coisas.



Sunday, April 26, 2015

Quarto dia, quarto poema: Lição de Poesia de João Cabral de Melo Neto

Arte minha: Auto-Retrato
A Lição de Poesia
                  I
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
                  II
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
                  III
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade

menor que a do ar.

Saturday, April 25, 2015

Terceiro dia, terceiro poema: Francisco Alvim

Desenho meu: "S_mething. is missing"

Argumento
Mas se todos fazem
Do livro Elefante de Francisco Alvim, 2000

Friday, April 24, 2015

Poema de Cacaso



 LAR DOCE LAR
p/ Maurício Maestro



Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio



Tuesday, April 21, 2015

Traduzindo o começo de "Nonato" de Augusto Roa Bastos


O parágrafo de abertura de Nonato, de Augusto Roa Bastos:

Augusto Roa Bastos
"Quando você me diz que eu não posso me lembrar tão para trás, que ninguém em seu juízo são pode fazer isso, e que eu já estou crescido para andar perdendo tempo com bobageiras de menino, eu me calo. Só por fora. Sem ninguém para falar dessas coisas, já que você também não quer me escutar, fico falando comigo mesmo, para dentro. Posso desperdiçar minhas palavras; não desperdiço nada com meu silêncio. Me abraço com a parede, encosto a boca no reboco e as sinto mover-se no meu hálito com gosto de cal, gosto de baratinhas vermelhas. Eu as mastigo um pouco e as deixo subir meio mancando. Sobem e ficam enroladas nas teias de aranha do teto."

No original em espanhol:

"Cuando usted me dice que yo no puedo acordarme tan lejos, que nadie en su sano juicio puede hacerlo, y que ya estoy crecido para andar perdiendo el tiempo en chocheras de chico, yo me callo. Solo por fuera. Sin nadie a quien hablar de estas cosas, ya que usted tampoco quiere escucharme, me quedo hablando conmigo mismo, para adentro. Puedo malgastar mis palabras; a qué voy a malgastar mi silencio. Me abrazo a la pared, aplasto la boca contra el revoque y las siento moverse en el aliento con gusto a cal, a cucarachitas rubias. Yo las masco un poco y las dejo subir rengueando. Suben y se quedan enredadas en las telarañas del techo."