Monday, April 13, 2015

Segundo trecho da minha aula sobre cinema contemporâneo, ilustrado outra vez



Essas comédias de grande sucesso de público expressam e ao mesmo tempo reiteram a atual normalização da sexualidade neurótica na cultura masculina contemporânea, como se a melhor reação possível à emergência do sujeito feminino fosse permanecer ou retornar ao estado da sexualidade infantil. É como se esses filmes lamentassem inconscientemente a morte do grande patriarca e tentassem substituí-lo pelo puer aeternus, transformando assim o núcleo familiar num gentil matriarcado onde o marido é um filho mais velho. As matriarcas caricaturadas também ficam então à beira de um ataque de nervos sob a pressão extraordinária de satisfazer as fantasias edipianas impossíveis de seus parceiros infantilizados de levar para cama máquinas sexuais que cuidam deles o resto do dia.

2 comments:

sabina anzuategui said...

Eu assisti a uma palestra com Paulo Cursino, roteirista da série "De pernas pro ar".

O curioso é que ele conta uma história (própria) de superação - não era levado a sério como roteirista de longas (antes fez Didi e Zorra Total), os temas das suas comédias eram considerados sem interesse pelos produtores, os atores escolhidos como protagonistas também eram considerados sem potencial de destaque.

Ou seja, por incrível que pareça, ele propôs histórias que não foram consideradas "fáceis" pelos produtores.

Paulodaluzmoreira said...

Interessante isso, Sabina. Eu posso mesmo imaginar os caras acharem um filme sobre uma mulher de negócios uma furada. Eu acho o filme muito mais interessante que o do Porchat, que é um ator com um potencial muito maior que a aIngrid Guimarães [eu acho]. Tem aquelas pixotadas meio de praxe, mas a gente não consegue entender um filme assim direito sem entender o propósito dele. E o sucesso dessas comédias devia dar algo mais interessante do que o habitual "essa gentalha classe média ignorantona só gosta de coisa ruim!" que o pessoal adora escrever.