Friday, April 30, 2010

Alvoroço em Pindorama: a dança do defunto

[foto: dois acadêmicos brasileiros mascarados à beira de um confronto mortal sobre o defunto polêmico]

Wilson Martins morreu. Um punhado de textos elogiosos sobre ele saíram em vários jornais. Flora Süssekind leu os tais textos e mandou bala em um artigo que, para os atuais parâmetros raquíticos do jornalismo brasileiro, é longo e pesado e contém pontos de vista bastante interessantes. Transcrevo aqui um trecho:


"O que parece, no entanto, nostálgico, reativo, talvez não aponte exclusivamente para um período anterior à formação da crítica moderna no Brasil, mas para uma reprodução esvaziada de sentido, e desligada de vínculos efetivos com a experiência histórica, de comportamentos, práticas de escrita e certo culto à autodivulgação e à vida literária que parecem se expandir (em prêmios, concursos, revistas, blogs, antologias, bolsas de criação) em movimento inverso ao da restrição que se opera no campo da produção e da compreensão da literatura, ao da quase total desimportância de livros e mais livros que se acumulam sem maior potencial de instabilização, sem provocar qualquer desconforto, sem fazer pensar. Uma restrição que talvez indique uma incapacidade não só da crítica, mas do campo literário, de modo geral, de reinventar a sua sociabilidade, de produzir condições outras para a própria prática.

Lembro, nesse sentido, a resposta de Jacques Rancière quando indagado, em entrevista recente, a respeito de uma série de escritores contemporâneos. Sem desqualificá-los, comentaria, no entanto, distinguindo a atual da ficção de até meados do século XX: 'Penso simplesmente que a literatura não inventa hoje categorias de decifração da experiência comum'. E concluindo numa espécie desdramatizada de beco sem saída: 'As formas de narratividade, de expressividade, de inteligibilidade que ela inventou foram apropriadas por outros discursos ou outras artes, ou banalizadas pelas formas de comunicação'."


Thursday, April 29, 2010

Mais terremotos: "El día del derrumbe" de Juan Rulfo

Se nós não temos terremotos, temos governadores de montão...




- Entonces fue allí ni más ni menos donde me agarró el temblor ese que les digo y cuando la tierra se pandeaba todita como si por dentro la estuvieran rebullendo. Bueno, unos pocos días después, porque me acuerdo que todavía estábamos apuntalando paredes, llegó el gobernador; venía a ver qué ayuda podía prestar con su presencia. Todos ustedes saben que nomás con que se presente el gobernador, con tal de que la gente lo mire, todo se queda arreglado. La cuestión está en que al menos venga a ver lo que sucede, y no que se esté, allá metido en su casa, nomás dando órdenes. En viniendo él, todo se arregla, y la gente, aunque se le haya caído la casa encima, queda muy contento con haberlo conocido.¿O no es así Melitón?

-Eso que ni qué.

-Bueno, como les estaba diciendo, en septiembre del año pasado, un poquito después de los temblores cayó por aquí el gobernador para ver como nos había tratado el terremoto. Traía geólogo y gente conocedora, no crean ustedes que venía solo. Oye, Melitón, ¿como cuánto dinero nos costó darles de comer a los acompañantes del gobernador?

-Algo así como cuatro mil pesos.

Monday, April 26, 2010

Prosa minha: O começo do fim de Eulâmpio Catabriga


O sol tinha acabado de nascer quando sentiu a dor pontual, aguda, intolerável. Quando logo em seguida o coração parou, parecia-lhe um alívio, uma oportunidade de escape, que durou só um instante. Agora a dor ainda era intensa mas era suportável. Passara num punhadinho de tempo do inferno da dor aguda para o purgatório da dor crônica: recostou-se no sofá do escritório e esperou paciente pela morte, que não veio.

Meu coração se agarra ao corpo. Cansado de bater na porta aberta, prepara-se para o salto, o relâmpago, o silêncio, o hiato.

A filha entrou sem bater, tinha as chaves da casa. O sol tinha acabado de se esconder atrás do telhado do vizinho.
- Pai? Cadê você?
Não conseguia responder. Esperou mudo, recostado feito um manequim desajeitado no sofá, até que ela chegasse ao escritório.
- Oi, Pai, a Lydia me pediu pra – Pai? Tudo bem?
Ele quer falar mas não consegue nem um sussurro. Acho que peguei no sono deitado de mau jeito, minha filha. Agora estou com um torcicolo que não consigo me levantar. Não há de ser nada. Queria mentir para não parar no hospital todo enfiado com agulhas, fios e tubos, como tantos que ele viu morrerem devagar na UTI.
A filha chamou a ambulância pelo telefone.

- Olha, se eu fosse ele também tinha medo da própria sombra.
- Pois toma a pitula e espera; acaba que o tempo passa e reduz cada um ao que ele é: o matão poderoso de hoje é um matinho de beira de estrada amanhã. Toma a pitula e espera; o tempo não pára.

A morte, essa não existência factual, é a coisa mais terrível que há. Agarrá-la firme com as duas mãos na altura do rosto exige do espírito humano mais coragem que qualquer outra coisa. Mas às vezes não há saída. Uma vida que se encolhe toda só para evitar ser tocada pela morte não merece o nome que tem.

Sunday, April 25, 2010

Recomendação - Quadrinhólatra


Para quem gosta de quadrinhos esse blogue de nome auto-explicativo é um prato cheio. O cara faz o papel, fundamental no mundo de hoje, de contrabandista cultural, divulgando um monte de coisas interessantes que acontecem por aí e não saem no Jornal Nacional nem no Fantástico. Recentemente colocou uma série de tiras do desenhista argentino Liniers, que vale a pena conhecer.

Saturday, April 24, 2010

Ainda José Emilio Pacheco e o terremoto


12
Esta ciudad no tiene historia,
sólo martirologio.
El país del dolor,
la capital del sufrimiento
el centro deshecho
del inmenso desastre interminable.

Thursday, April 22, 2010

Cantinflas cruza a fronteira

O filme se chama Por mis pistolas de 1968

Trechos favoritos:

Cantinflas: Además, no me grites si todavía no estoy en sus terrenos. Todavía no pasa uno y lo tratan de “sub-bajar” el individuo.
Guarda: Bueno ¿Qué quiere?
Cantinflas: Pos [pues], cómo “¿que quiero?”. Pasar al “over there”, al “other side”, you know.
[…]
Cantinflas: Y además pa [para] que tantas preguntas si vengo a gastar mis “dolarianos”. Pos qué, que cree que somos braceros, o qué?
[…]
Guarda: Estado civil?
Cantinflas: Pos solterón, así, pues, así, listo para el enganche. ¿no tiene usted una hermanita, mister?
[…]
Guarda: Quiere derrocar el gobierno de los Estados Unidos?
Cantinflas: Ay! Mire… No sea payaso, hombre. Pos solamente que yo tubiera armas, y esas las acapararan ustedes…
[…]
Cantinflas: Ay Fierabras [o nome do burro] y ya te pegaron garrapatos del otro lado. Y son güeros [louros], no más.
[…]
Este es una ganzúa [faquinha para abrir cadeados] made in mexico hecha para abrir candados made in United States.

Wednesday, April 21, 2010

Diário de Pindorama - Chove chuva

[essas duas capas apareceram para mim, assim, no blogue catatau - deve ter alguma coisa na água de Curitiba, como é que sai tanta gente legal de lá? - que por sua vez as encontrou no blogue revista do zé pereira, que eu não conhecia.]

O Brasil não tem furacões nem terremotos nem tsunamis (pelo por enquanto). Mas todos os anos, a partir da segunda metade de dezembro até o final de janeiro, chove muito, principalmente no sul e no sudeste. As mortes e perdas que essas chuvas causam todos os anos me parecem, na minha talvez inocente visão de um não-especialista em problemas urbanos, perfeitamente evitáveis, em sua maioria. Um problema de uma defesa civil atuante. Eu sei que prevenção e planejamento não são nosso forte, mas já melhoramos um pouco (sou um otimista). Diga-se de passagem que, em alguns lugares, essas mortes e perdas em larga escala já têm sido evitadas, mas nesse caso não aparece nada na imprensa. Não é notícia, não é mesmo? Dá para imaginar: “Choveu como o diabo por uma semana em tal lugar e ninguém morreu e nenhuma casa desabou e ninguém ficou desabrigado”, estampado na capa do jornal? Pareceria propaganda política safada, não é mesmo? Bom, essas duas capas de uma mesma revista num espaço mínimo de tempo são exemplo perfeito de propaganda política no sentido mais safado do termo. Esses caras levam ao extremo sua crença na memória curta do brasileiro...

Tuesday, April 20, 2010

Poema: Cuestión Bizantina de Max Aub

Pai alemão, mãe francesa, o espanhol Max Aub abraçou a República Espanhola [sem ele não haveria Guernica de Picasso] e por causa dela acabou num campo de concentração chamdo Djelfa, na Argélia, de 25 de dezembro de 1941 até julho de 1942. Dali saiu um livro de poemas, Diario de Djelfa, de onde vem esse poema.

CUESTIÓN BIZANTINA
Max Aub

La playa ¿es orilla
de la mar o de la tierra?
Conseja bizantina.
La orilla del bosque
¿es su límite o del llano borde?
¿Qué frontera separa
lo tuyo de lo mío?
¿Quién acota la vida?
¿Vives hoy o mañana?
Raíz, tallo, flor y fruto
¿dónde empiezan y acaban?
El mantillo
¿es orillo
del ramaje muerto,
del renuevo
o del retorcido
helecho nuevo?
Cuestión bizantina.
Importa la orilla,
dormir limpio en ella.
(No somos tú y yo,
sino el hilo impalpable
que va de tu presencia
a la mía.)
Límites y fronteras
se agostarán un día.
Sin orillo ni orilla
¿qué más da de quién sean
los cachones, la arena?
La playa es orilla
de la mar y de la tierra,
nunca frontera:
Nada separa.
Nada se para.
Palabra.

8-8-41

Sunday, April 18, 2010

Pindorama e Babilônia, ou o lugar das idéias III

[Foto: Race Riot em Omaha, Nebraska em 1919]
As bases dessa “febre” racista no coração da modernidade democrática liberal e vanguarda da modernidade capitalista? Uma receita muito conhecida no Brasil: uma pitada de Mendel, um bocado de Spencer, um pouquinho de Darwin e um galão de racismo. No Brasil as elites brancas se apavoram com as conseqüências de um sistema político em que a “gentalha” possa votar e, pior ainda, se candidatar. Nos Estados Unidos as elites brancas se apavoram com as hordas de imigrantes “escuros” que vão fazer da grande república redentora uma republiqueta latino-americana. É claro que essas idéias motivadas por ansiedades raciais, recebidas entusiasticamente na Alemanha não preciso nem dizer por que tipos, tinham seus opositores nos Estados Unidos (como no Brasil). Fitzgerald, por exemplo, inclui no Great Gatsby uma alusão satírica sobre o assunto quando Tom defende entusiasmado um livro chamado “The Rise of the Colored Empires”. Daisy ironiza o marido e diz: “Tom’s getting very profound”. A namorada do narrador, Jordan, sentencia: “you ought to live in California”.
Não custa lembrar que estamos falando de um Estados Unidos que entra no século XX abraçando a segregação racial [coisa mais “arcaica” não?] com base em duas formas diferentes de atuação simbólica: as race riots no norte e os linchamentos no sul correm soltos nesse começo de século.
E então, onde é que as idéias da modernidade liberal e capitalista. como imaginadas por certos estudiosos brasileiros, têm “o seu lugar”?

Saturday, April 17, 2010

Pindorama e Babilônia, ou o lugar das idéias II

II
Em 1906 um comitê liderado por um biólogo da universidade de Stanford foi criado para estudar a “heditariedade humana” para definir “o valor do sangue superior e a ameaça que o sangue inferior representa para a sociedade”.
Em 1909 a Califórnia criou sua lei de esterilização forçada dos "incapazes" [em poucos tempo, dois terços dos estados americanos teriam a sua].
Em 1916 Madison Grant publicou “The Passing of the Great Race; or, The Racial Basis of European History” que buscava demonstrar que “a raça nórdica” estava sendo superada por raças inferiores “dark-haired, dark-eyed” [no caso os “enxames” de judeus da Europa oriental, poloneses, italianos e “half-breeds” que chegavam aos milhões aos Estados Unidos naquele momento]. O livro advertia seus leitores que “democracy is fatal to progress when two races of unequal value live side by side”.
Em 1918 “Applied Eugenics” foi publicado e tornou-se rapidamente o livro didático mais usado nas universidades americanas em cursos sobre o assunto. Entre as pérolas do livro estava a afirmação de que a educação superior para as mulheres “is tending toward race suicide” porque justamente as moçoilas saxãs mais aptas a reproduzir a grande raça nórdica eram “rendered so cold and unattractive, so overstuffed intellectually and starved emotionally, that a typical man does not desire to spend the rest of his life in her company”. E enquanto isso a patuléia morena se reproduzia como coelhos por todos os cantos...
Em 1927 a lei de esterilização compulsória da Califórnia chegou à suprema corte americana. Carrie Buck, filha de “uma mulher também de mente fraca e moral degenerada”, engravidou ao ser estuprada pelo sobrinho de seus pais adotivos. Após o nascimento da criança, ela foi enviada a um asilo de incapazes e o médico da instituição esterilizou-a contra sua vontade já que sua filha, com a idade de 7 meses, foi declarada também uma “imbecil”. Por oito votos contra um o tribunal deu ganho de causa ao asilo e a sentença do supremo concluía: “três gerações de imbecis já é o suficiente”. À essa altura milhares de pessoas “defeituosas ou enfermas mentalmente” eram esterilizadas pelos quatro cantos do país.

Friday, April 16, 2010

Pindorama e Babilônia, ou o lugar das idéias I

I
Eu acho que falar sobre a demonização do outro é bater em cachorro morto. Eu me preocupo com um outro fenômemo, tão freqüente quanto e muito menos óbvio que aquele: um olhar crítico aparentemente agudo sobre nós mesmos pode tornar-se profundamente míope simplesmente porque parte de uma generalização idealizada do outro.
Chega de ser esotérico; vou dar um exemplo partindo de um lugar comum no pensamento crítico brasileiro: a idéia, ainda corrente no Brasil, de que o país entrava no século XX como um espaço arcaico investido de um discurso moderno, portanto como um país ainda dilacerado por uma contradição insolúvel entre a fascinação por idéias liberais modernas que não lhe pertenciam e o profundo arraigamento a uma estrutura social arcaica.
Continuo amanhã, tentando mostrar que essa idéia pressupõe uma visão altamente idealizada da situação na Europa e dos Estados Unidos na mesma época.

Wednesday, April 14, 2010

Já que hoje é 14 de abril...


April, the 14th (Part I)
When the iceberg hit,
Oh they must have known,
God moves on the water
Like Casey Jones.

So I walked downtown
On my telephone,
And took a lazy turn
Through the redeye zone.

It was a five-band bill,
A two-dollar show.
I saw the van out in front
From Idaho,

And the girl passed out
In the backseat trash.
There were no way they'd make
Even a half a tank of gas.

They looked sick and stoned
And strangely dressed.
No one showed
From the local press.

But I watched them walk
Through the bottom land,
And I wished that I played
In a rock & roll band.

Hey, hey,
It was the fourteenth day of April.

Well they closed it down,
With the sails in rags.
And I swept up the fags
And the local mags.

I threw the plastic cups
In the plastic bags,
And the cooks cleaned the kitchen
With the staggers and the jags.

Ruination day,
And the sky was red.
I went back to work,
And back to bed.

And the iceberg broke,
And the Okies fled,
And the Great Emancipator
Took a bullet in the back of the head...

Tuesday, April 13, 2010

Diário da Babilônia - Tonéx


Tonex [pronuncia-se Tôunei] é um cantor gospel americano. É uma tradição muito viva da música negra, que segue seu próprio circuito de shows e divulgação e que tem uma longa tradição de cantores maravilhosos – Mahalia Jackson, Al Green e Aretha Franklin só para dar três nomes. São muitos os casos de artistas do Gospel que se dividem entre o mundo da música “pagã” e da música cristã ou que vêm e vão de um universo ao outro – o pai de Tonex, por exemplo, tocou saxofone por um tempo com o “paganíssimo” James Brown. Bom, Tonex também pertence a uma longa tradição de cantores desse gospel negro que são, digamos assim, sexualmente ambíguos. O problema é que Tonex chegou ao ponto de declarar publicamente que ele é mesmo sexualmente ambíguo. Como eu não sou nem cristão nem homofóbico, tanto fez, tanto faz. Para ouvir uma sequência de músicas dele ver aqui. Um exemplo interessante da música dele com a letra, sincera e ambígua ao mesmo tempo, só consegui um daqueles "vídeos" do iutubio onde só aparece uma foto - paciência:

Unspoken
The organ plays service began.
It’s time to pray but before we began,
Does anyone have a prayer request
For a loved one?

The lord knows what’s best for you
It’s me, it’s me, it’s me, oh, Lord,
standing in the need of prayer.
I need Thee. Oh, I need Thee.
Hands up in the air, because this prayer is unspoken..
I can’t say a word because this prayer is unspoken..
Those who know the prayer of faith, please hear my devotion..
I’m in need of intercession, this one’s unspoken.

This one is private
I can’t tell nobody
what I did last summer
I can’t tell nobody
But the singing signifies
I’m raising your right hand
I know I’m not the only one
in this circumstance.

It’s Me.. It’s me .. It’s me.. Oh Lord..
standing in the need of prayer..
I need Thee. Oh, I need Thee.
Hands up in the air, because this prayer is unspoken..
I can’t say a word because this prayer is unspoken..
Those who know the prayer of faith, please hear my devotion..
I’m in need of intercession, this one’s unspoken.

Sometimes my circumstances change my prayer
I am praying the gospel selflessly
And the enemy is constantly harassing me
I don’t know if I can take it.

Saturday, April 10, 2010

Nocturno en la alcoba - Xavier Villaurrutia


La muerte toma siempre la forma de la alcoba

que nos contiene.

Es cóncava y oscura y tibia y silenciosa,

se pliega en las cortinas en que anida la sombra,

es dura en el espejo y tensa y congelada,

profunda en las almohadas y, en las sábanas, blanca.

Los dos sabemos que la muerte toma

la forma de la alcoba, y que en la alcoba

es el espacio frío que levanta

entre los dos un muro, un cristal, un silencio.

Entonces sólo yo sé que la muerte

es el hueco que dejas en el lecho

cuando de pronto y sin razón alguna te incorporas o te pones de pie.

Y es el ruido de hojas calcinadas

que hacen tus pies desnudos al hundirse en la alfombra.

Y es el sudor que moja nuestros muslos

que se abrazan y lucha y que, luego, se rinden.

Y es la frase que dejas caer, interrumpida.

Y la pregunta mía que no oyes,

que no comprendes o que no respondes.

Y el silencio que cae y te sepulta

cuando velo tu sueño y lo interrogo.

Y solo, sólo yo sé que la muerte

es tu palabra trunca, tus gemidos ajenos

y tus involuntarios movimientos oscuros

cuando en el sueño luchas con el ángel del sueño.

La muerte es todo eso y más que nos circunda,

y nos une y separa alternativamente,

que nos deja confusos, atónitos, suspensos,

con una herida que nos mana sangre.

Entonces, sólo entonces, los dos solos, sabemos

que no el amor sino la oscura muerte

nos precipita a vernos cara a cara a los ojos,

y a unirnos y estrecharnos, más que solo y náufragos,

todavía más, y cada vez más, todavía.


Wednesday, April 07, 2010

Burma Shave 3 - Tom Waits

Tom Waits é um personagem da Ópera do Malandro E é um compositor fantástico. Olha a história que ela conta a partir dos tais anúncios da Burma Shave:



Burma Shave
Licorice tattoo
turned a gun metal blue
scrawled across the shoulders of a dying town
the one-eyed jacks
[apelido do “valete” do baralho e, de acordo com Waits, carro com um farol queimado – um “jack é um burro]
across the railroad tracks
[área da cidade com gente pobre, barra pesada, do outro lado da linha do trem]
and the scar on its belly pulled a stranger passing through
he was a juvenile delinquent
never learned how to behave
but the cops would never think to look in Burma Shave.

And the road was like a ribbon and the moon was like a bone.
He didn't seem to be like any guy she'd ever known.
He kinda looked like Farley Granger
[ator de “Rope” de Hitchcock e “They live by Night”, predecessor de “Rebel Without a Cause”]
with his hair slicked back.
She say, “I'm a sucker for a fella in a cowboy hat.
How far are you going?” He said, “Depends on what you mean.”
He says “I'm going thataway just as long as it's paved,
I guess you'd say I'm on my way to Burma Shave”

And her knees up on the glove compartment,
she took out her barrettes and her hair spilled out like rootbeer
[root beer é um tipo de refrigerante que indica que o cabela dela é castanho],
and she popped her gum and arched her back.
“Hell, Marysville ain't nothing but a wide spot in the road.
[Marysville é um fim de mundo no norte da Califórnia]
Some night my heart pounds just like thunder,
I don't know why it don't explode
cause everyone in this stinking town has got one foot in the grave
and I'd rather take my chances out in Burma Shave”

“Presley's what I go by. Why don't you change the station?
Count the grain elevators in the rearview mirror.”
She said, “Mister, anywhere you point this thing
has got to beat the hell out of the sting of going to bed
with every dream that dies here every mornin’
and so drill me a hole with a barber pole.”
I'm jumping my parole just like a fugitive tonight
“Why don't you have another swig and pass that car if you're so brave
I wanna get there before the sun comes up in Burma Shave.”

And the spider web crack
and the mustang screamed.
Smoke from the tires and the twisted machine.
Just a nickel's worth of dreams and every wishbone that they saved
lie swindled from them on the way to Burma Shave

And the sun hit the derrick [guindaste manual]
and cast a bat wing shadow
up against the car door on the shot gun side. [assento do passageiro no banco da frente]
And when they pulled her from the wreck,
you know, she still had on her shades. [óculos escuros]
They say that dreams are growing wild
just this side of Burma Shave.

Encontrei a letra "anotada" nesse site bem legal onde também encontrei esse trecho de entrevista de Tom Waits sobre essa canção e sobre os anúncios Burma Shave:
- Tom Waits (1985): "Burma Shave is an American shaving-cream company, like Colgate. They advertise on the side of the road and they have these limericks which are broken up into different signs like pieces of a fortune cookie. You drive for miles before you get the full message. "PLEASE DON'T"... five miles... "STICK YOUR ARM OUT SO FAR"... another five miles... "IT MIGHT GO HOME"... five more miles... "IN ANOTHER MAN'S CAR - BURMA SHAVE." They reel you in. So when I was a kid I'd see these signs on the side of the road - BURMA SHAVE, BURMA SHAVE - and I'm young and I think it's the name of a town and I ask my dad, "When we getting to Burma Shave?" So in the song I used Burma Shave as a dream, a mythical community, a place two people are trying to get to. They don't make it." (Source: "Dog Day Afternoon" Time Out magazine (UK), by Richard Rayner. Date: New York, October 3-9, 1985)

Monday, April 05, 2010

Diário da Babilônia - Crise no Ensino

"In his most recent essay on the topic, "The Big Lie About the 'Life of the Mind'" (February 8), he [Thomas H. Benton] states that more and more graduate students are from working- to lower-middle-class backgrounds. They were raised to believe that the more education they acquired the better they would fare in life. And yet a starting professor's salary in the humanities is barely lower-middle class. And far fewer than 50 percent of newly minted Ph.D.'s ever find such a job."

Obs. Em inglês o conceito de Ciências Humanas como pensado no Brasil no ambiente acadêmico não é de uso corrente. Aqui as Ciências Humanas estariam divididas entre Ciências Sociais [social sciences] e humanidades [Humanities]. Eu particularmente prefiro a divisão brasileira, ainda que ela seja na maioria das vezes apenas um rótulo.

Thursday, April 01, 2010

Poema meu: Hino à Bandeira

Hino à Bandeira


Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamped on these lifeless things,
“Ozymandias”

Between the motion
And the act
Falls the shadow
“The Hollow Men”



O que vejo quando olho
a bandeira pendurada
no mastro da sua casa
não são as fronteiras,
as cicatrizes visíveis,
tão óbvias e inapagáveis,
de guerras, saques e conquistas.
O que vejo aqui
são forças sutis,
misteriosas, antigas,
impregnadas desde a partilha
das relíquias de reis e santos,
desde os banquetes dos Timbiras,
desde o massacre dos Cananeus.
O que vejo aqui
são rios profundos,
subterrâneos, água escura
que sobe lenta as veias
até nos turvar os olhos
na frente embaçada
do espelho do banheiro.
São sombras projetadas pra dentro,
que nos rasgam e costuram
entre estranhos e estrangeiros
e resistem aos vaivens
do poder e do dinheiro.
O que vejo aqui na minha frente
são ventos que correm
por dentro da boca,
esfumando as velas
dum catálogo de armas
e barões assinalados,
fantasmas antigos,
involuntários do mato,
pátrias de chuteiras,
nossos ame-os ou deixe-os,
o futuro que não chega,
o pocamadrismo
do orgulho ferido de morte
da Malinche deslumbrada,
o cosmopolitismo do pobre,
a cosmética da fome,
o Mazombo ressentido,
o fígado azul de Prometeu,
esses labirintos de metáforas,
alusões e rimas ricas
da lei de Herodes,
dos filhos da puta
e de los hijos de la chingada,
a cidade nova
plantada no chão
do planalto em chamas,
a elegância dos príncipes,
as veias abertas,
e as revoluções
que cortam cabeças
mas não perdem os dedos
e escondem os anéis,
uma cidade desfeita
uma vez por ano
pelas chuvas de janeiro,
uma chuva de relâmpagos
numa montanha de ferro
e um par de rios.

Na bandeira em trapos,
no selo rasgado,
na estátua sem braços
e no hino esquecido
no disco arranhado,
nesse quarto sem janelas
vejo também os meus olhos
armados até os dentes
de desejos e afeições,
duas pernas de pedra sem tronco
plantadas num pedestal
no meio desse deserto
no meu coração.

Burma Shave 2 - Clique na foto!

Burma Shave 1

Burma Shave era uma empresa que vendia creme de barbear nos Estados Unidos. Ficaram famosos quando a partir de 1925 até o começo dos anos 60 inventaram uma forma curiosa de anunciar seu produto nas estradas americanas: uma sequência de placas fazia um, eu diria sem hesitação, poema que sempre terminava com a logomarca do produto.
Alguns são geniais:

THE WOLF

IS SHAVED

SO NEAT AND TRIM

RED RIDING HOOD

IS CHASING HIM

BURMA SHAVE


No próximo post uma foto de outra sequência.