Saturday, April 21, 2007

O automóvel do poema de Zaid

O poema de Gabriel Zaid que eu postei foi começado em 1974, se não me engano. Assim o automóvel que sai do mar pode assumir pelo para mim conotações mais obscuras, relacionadas à violência bruta que explode hoje mas que já implodia o Brasil desde aquela época.
Se alguém disser que aquilo tudo (torturas, assassinatos, prisões, exílio) é passado e não precisa ser rememorado, saiba que a extrema violência policial, a brutalidade desumana das prisões que só piora a violência social cada vez mais chocante das ruas, coisa que preocupa tanto ao brasileiro médio hoje em dia, não começou, mas avançou muito naquele período de repressão e autoritarismo. Toda aquela gente treinada naqueles anos tristes para fazer exatamente o que aparece no filme "Batismo de Sangue" e foi descrito em detalhes no livro "Brasil: nunca mais" anda solta por aí até hoje, trabalhando e possivelmente treinando outras pessoas.

Wednesday, April 18, 2007

Gabriel Zaid em Ipanema

Este poema é para fazer par com o poema de Carlos Pellicer que postei aqui sobre o Rio de Janeiro. A revista Letras Libres tem um artigo (disponível online) do prórpio Zaid explicando a composição do poema que começou a ser escrito nos espaços em branco do JB (Amílcar de Castro ficaria feliz com isso, suponho).

IPANEMA
El mar insiste en su fragor de automóviles.
El sol se rompe entre los automóviles.
La brisa corre como un automóvil.

Y de pronto, del mar, gloriosamente,
chorreando espuma, risas, desnudeces,
sale un automóvil.

Wednesday, April 11, 2007

Sobre o futebol

Sobre o futebol
Por mais que a gente aprecie o futebol pela sua beleza, como esporte ele pode ser tão bonito (ou feio) e emocionante (ou tedioso) como o tênis ou o basquete ou outro esporte qualquer. O brasileiro obviamente acompanha futebol antes de tudo por causa desse comprometimento visceral com um time de futebol que, seja qual for, se transforma para ele em uma instituição sagrada. Normalmente esse comprometimento acontece na infância e é um ato de integração na família ou às vezes um gesto de rebeldia contra ela.
Claro que é algo completamente irracional. Tão irracional quanto chorar pela morte de um cantor ou ator de cinema qualquer que a gente nunca conheceu pessoalmente e tão fundamentalmente absurdo como acreditar em um Deus especifico. Mas está claro faz tempo que não somos 100% racionais de qualquer jeito, não é mesmo?
Torcer por um time de futebol (na alegria e na tristeza, na vitória e na derrota até que a morte nos separe, amem) é uma experiência coletiva intensa em um mundo desumanamente individualista e cheio de ofertas de experiências superficiais. Algo que aparentemente, para o meu espanto nem o comercialismo oportunista com que essa paixão é tratada pode abalar.
Esse comprometimento apaixonado com um time de futebol civilizadamente permite a muitas pessoas extravasar sua agressividade, suas frustrações e seus ódios de uma maneira não-violenta. Infelizmente uma minoria prefere transformar sua paixão em uma caricatura de fascismo.

Sunday, April 01, 2007

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco

A Folha de São Paulo me fornece o mote:

A ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), está incitando o ódio racial.
É essa a opinião da antropóloga Yvonne Maggie, professora titular do departamento de antropologia cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a respeito das declarações da ministra publicadas na terça passada.
Questionada sobre se, no Brasil, também há racismo de negro contra branco, como nos EUA, Matilde Ribeiro disse: "Acho natural [que haja]".
São Paulo, domingo, 01 de abril de 2007

E eu trago a glosa:

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco
Eu não agüento mais ser discriminado no Brasil só por ser branco. Não se passa uma semana sem que eu sofra com o preconceito contra o meu grupo étnico, que dizem que é uma minoria por aqui, mas isso é só porque tem muito branco por aí que prefere fingir que é negro. Negam a própria raça! Imagine que outro dia eu deixei um amigo meu mais escuro que eu na porta do estádio de futebol e fui estacionar o carro e, quando eu cheguei na fila para entrar no estádio, um sujeito na fila me gritou “ei, branquelo azedo, isso aqui não é jogo de golfe, não!” E agora vem essa moça do governo incitar ainda mais o ódio contra o meu povo! Absurdo!
O dono da empresa onde eu trabalho já não queria me dar emprego por causa do meu cabelo liso e dos meus olhos claros. Quando ele me contratou disse que fez isso só porque queria me dar uma chance de provar que essa história de que “branco não gosta de trabalhar” é balela. O gerente do banco onde eu tenho conta também me olha com cara de poucos amigos; outro dia veio com um papo estranho de que não era comum ver um branco como eu com uma conta com tanto dinheiro assim naquele banco. E eu não posso pegar uma batida policial, de carro ou de ônibus, que logo me vem um policial, muitas vezes até mais branco que eu, me pedir para ver meus documentos e não sei o quê mais. Uma humilhação. E essa tal ministra deve achar tudo isso muito natural.
Um professor da escola do meu filho (que nem é tão branco assim) vive implicando com o menino, dizendo que “o ariano é assim mesmo, preguiçoso e fofoqueiro, e que os arianos em geral não têm mesmo jeito para o estudo.” Quando meu filho reclamou, sabe o que ele disse? “No dia em que o Brasil tiver um presidente branco, eu mudo de idéia.” E quando meu filho disse para ele que o FHC era branco, o professor disse para ele que todo mundo estava careca de saber que o FHC não era branco; que o próprio FHC tinha admitido que ele tinha um pé na cozinha. Quando eu fui reclamar pessoalmente com a diretora da escola, sabe o que ela me disse? Que eu era um branco com complexo e que eu estava ensinando aos meus filhos a se sentirem inferiorizados. E agora essa mulher preconceituosa vem dar uma entrevista no estrangeiro para exacerbar o ódio racial ainda mais.
Minha esposa, que tinha os cabelos mais lisos que os meus, agora frisou o cabelo. Meu filho mais novo prefere andar de cabelo raspado só para não mostrar a cabeleira escorrida dele e meu outro filho, o mais velho, vive tomando sol só para “melhorar a aparência” e agora me disse que quer fazer uma operação plástica para achatar o nariz! Ele diz que duvida que uma dessas empresárias, políticas, gerentes de empresa, chefes de repartição, todas mulheres negras como a ministra, iriam dar emprego para um homem como ele, branco que nem papel e ainda por cima com o cabelo todo escorrido. Isso mesmo com todas as qualificações que ele tem. Nesse Brasil em que os negros já dominam tudo, ministra, onde é que a senhora quer chegar?
E ainda por cima nós somos todos louros de olhos azuis!

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco

A Folha de São Paulo me fornece o mote:

A ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), está incitando o ódio racial.
É essa a opinião da antropóloga Yvonne Maggie, professora titular do departamento de antropologia cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a respeito das declarações da ministra publicadas na terça passada.
Questionada sobre se, no Brasil, também há racismo de negro contra branco, como nos EUA, Matilde Ribeiro disse: "Acho natural [que haja]".
São Paulo, domingo, 01 de abril de 2007

E eu trago a glosa:

Desabafo em face das declarações de Matilde Ribeiro à BBC ou o fardo do homem branco
Eu não agüento mais ser discriminado no Brasil só por ser branco. Não se passa uma semana sem que eu sofra com o preconceito contra o meu grupo étnico, que dizem que é uma minoria por aqui, mas isso é só porque tem muito branco por aí que prefere fingir que é negro. Negam a própria raça! Imagine que outro dia eu deixei um amigo meu mais escuro que eu na porta do estádio de futebol e fui estacionar o carro e, quando eu cheguei na fila para entrar no estádio, um sujeito na fila me gritou “ei, branquelo azedo, isso aqui não é jogo de golfe, não!” E agora vem essa moça do governo incitar ainda mais o ódio contra o meu povo! Absurdo!
O dono da empresa onde eu trabalho já não queria me dar emprego por causa do meu cabelo liso e dos meus olhos claros. Quando ele me contratou disse que fez isso só porque queria me dar uma chance de provar que essa história de que “branco não gosta de trabalhar” é balela. O gerente do banco onde eu tenho conta também me olha com cara de poucos amigos; outro dia veio com um papo estranho de que não era comum ver um branco como eu com uma conta com tanto dinheiro assim naquele banco. E eu não posso pegar uma batida policial, de carro ou de ônibus, que logo me vem um policial, muitas vezes até mais branco que eu, me pedir para ver meus documentos e não sei o quê mais. Uma humilhação. E essa tal ministra deve achar tudo isso muito natural.
Um professor da escola do meu filho (que nem é tão branco assim) vive implicando com o menino, dizendo que “o ariano é assim mesmo, preguiçoso e fofoqueiro, e que os arianos em geral não têm mesmo jeito para o estudo.” Quando meu filho reclamou, sabe o que ele disse? “No dia em que o Brasil tiver um presidente branco, eu mudo de idéia.” E quando meu filho disse para ele que o FHC era branco, o professor disse para ele que todo mundo estava careca de saber que o FHC não era branco; que o próprio FHC tinha admitido que ele tinha um pé na cozinha. Quando eu fui reclamar pessoalmente com a diretora da escola, sabe o que ela me disse? Que eu era um branco com complexo e que eu estava ensinando aos meus filhos a se sentirem inferiorizados. E agora essa mulher preconceituosa vem dar uma entrevista no estrangeiro para exacerbar o ódio racial ainda mais.
Minha esposa, que tinha os cabelos mais lisos que os meus, agora frisou o cabelo. Meu filho mais novo prefere andar de cabelo raspado só para não mostrar a cabeleira escorrida dele e meu outro filho, o mais velho, vive tomando sol só para “melhorar a aparência” e agora me disse que quer fazer uma operação plástica para achatar o nariz! Ele diz que duvida que uma dessas empresárias, políticas, gerentes de empresa, chefes de repartição, todas mulheres negras como a ministra, iriam dar emprego para um homem como ele, branco que nem papel e ainda por cima com o cabelo todo escorrido. Isso mesmo com todas as qualificações que ele tem. Nesse Brasil em que os negros já dominam tudo, ministra, onde é que a senhora quer chegar?
E ainda por cima nós somos todos louros de olhos azuis!