Monday, December 29, 2014

Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 4

É maravilhosa a interpretação que Levi-Strauss dá às diferenças entre os mitos da descoberta do fogo entre os povos de cultura Tupi e aqueles de cultura Gê. Não só dando clareza às diferenças mas também às semelhanças, o texto é uma lição para quem trabalha com literatura.

Sunday, December 28, 2014

Postal: Sobre a nossa nudez dos outros

Da série de Bonecas de Bellmer, 1934


“Todos andam inteiramente nus, as mulheres, porém, trajam uma tanga de forma triangular feita de folhas de palmeira bastante modesta, sendo maior do que um olho, mas menor do que uma orelha.
Neste respeito o sentimento de vergonha, oriundo da nossa educação é inteiramente desconhecido por elles. Mas também não se póde contestar que já depois de uma curta estada no meio delles a sua nudez não dá mais na vista e pelo costume a falta de todas as vestimentas desapparece diante de nossos olhos.

Nós tambem, já disse um philosopho, no final de contas, estamos nus dentro da nossa roupa.”
Karl Von Steinen, "O rio Xingu", 1888 [ortografia e outras marcas como no original da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, Tomo IV, 3o Boletim]

Saturday, December 27, 2014

Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 3

Decobri que Levi-Strauss cita os trabalhos de Horace Banner e Schultz a partir das fontes brasileiras em que eles foram publicados primeiro, a Revista do Museu Paulista e a Revista de Antropologia da USP. Assim a história da onça e do índio e do fogo começa na língua dos Kayapo [e dos Krahôs] e passa do português para o francês. Teria Walnice ido direto às versões em português? Sim, ela mesmo deixa isso bem claro no seu famoso artigo: "escolho de propósito, como se verá, a versão que Horace Banner publicou em seu trabalho 'Mitos dos índios Kayapó', intitulado 'O fogo da onça.'" Mas eu estou curioso mesmo para conhecer em português a versão que eu já encontrei em inglês. 

Enquanto isso mais uma página da versão quadrinhos do Samuel:


Wednesday, December 24, 2014

Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 2

Essa é a primeira página da história em quadrinhos que meu filho Samuel fez com base na versão que eu contei de memória da história da posse do fogo. Para ver a imagem melhor é preciso clicar em cima dela. O desenho menino foi baseado na observação desta imagem. O tio do menino foi reduzida a um retângulo com a palavra "uncle" dentro.  


Sobre a parte do meu trabalho que eu amo - Parte 1

Alguém escuta um mito de índios Kayapó sobre a conquista do fogo. Esse alguém possivelmente transcreve o mito na língua original e logo traduz, provavelmente para a sua língua nativa [no caso o inglês]. Ainda não está claro para mim se esse alguém - Horace Banner - era um antropólogo ou um missionário. Seu livro tem um nome muito estranho - a princípio que tinha feito um erro na transcrição do título: On the trail of the Three Freds.

Um antropólogo francês muito famoso traduz então esse mito Kayapó, entre outros coletados por várias pessoas diferentes. Provavelmente o antropólogo traduz o tal mito do inglês, talvez corroborando com o texto original, mas provavelmente não. Há uma chance de ele ter travado contato com o tal mito em português, já que Banner publicou os mitos que coletou em português em revistas acadêmicas em 1957 e 1961 - o livro do antropólogo francês é de 1964. Além disso o que o antropólogo francês faz no seu livro não se trata propriamente de uma tradução, mas apenas de uma versão resumida.

O livro do antropólogo francês se transforma em um clássico traduzido em inúmeras línguas. Assim o mito é traduzido de volta para o inglês além de outras línguas, entre elas o português.

Muito provavelmente pelo livro do antropólogo francês uma crítica literária brasileira chega ao mito Kayapó, que lhe chama a atenção como possível chave de uma leitura de um famoso [e difícil] conto de Guimarães Rosa. Traduzido nesse famoso estudo dessa crítica literária sobre Guimarães Rosa, o tal mito Kayapó volta ao português.

Sentado na frente do computador chego facilmente à versão em português [traduzida do antropólogo inglês] e também chego facilmente à versão em inglês do mito transcrito para o francês do antropólogo francês.  

Qualquer pessoa que já tenha brincado de telefone sem fio, sabe que essa zona deve ter dado em vários tipos de confusão. Mesmo com todas as hipóteses otimistas que eu elaborei aí em cima, de que o inglês transcreveu tudo direitinho na língua dos Kayapós antes de traduzir para o inglês e que o francês corroborou sua tradução do inglês com o original. A versão "original" em Kayapó já teria sido uma transcrição feita pelo tal inglês de uma versão oral que um interlocutor.

Nesse ponto o estudo do antropólogo francês já era bem ilustrativo: não há original senão uma penca de variações sobre uma penca de motivos e uma mesma base: onça > fogo > índio. O fogo permitindo a transição do cru ao cozinhado, a transição de um estado natural para um estado cultural. Levi- Strauss num momento memorável diz que o mito pensa através daqueles que o contam, com ou sem consciência dos seus significados. A forma não é superfície, é esqueleto, estrutura vários corpos que têm lá as suas diferenças mas compartilham algo fundamental.

Ainda em inglês saio em busca do livro de título curioso do tal inglês, Horace Banner, de 1939. Descobri aliás que ele é o primeiro de dois livros em que Banner conta [suponho sua viagem]. Ano que vem estarei com o livro dele aqui em mãos.

Me contento hoje com uma antologia fantástica de contos dos índios Gê, feita em 1978 na UCLA. Nela descubro todas as versões que constam no livro do antropólogo famoso e um par [são todas variações sobre o mesmo tema] que não constam do livro do antropólogo francês. Elas, como as do inglês, foram publicadas ainda nos anos 50 no Brasil em português, em revistas científicas brasileiras.

A aventura promete. Algumas não conto aqui para não estragar.

De volta à casa depois de um dia de detetive de biblioteca, decido contar de memória a história do rapaz que rouba o fogo da onça para o meu filho que faz dela uma história em quadrinhos, em inglês.

Thursday, December 18, 2014

Sobre a papoula da história

Desenho Meu: História Recente 

Eric Hobsbawn uma vez disse que a história era a matéria prima das ideologias nacionalistas, etnocêntricas e fundamentalistas que têm assolado o planeta, assim como a papoula era a matéria prima da heroína. Sinceramente acho que o historiador estava subestimando consideravelmente as qualidades da heroína, uma bichinha danada de perigosa também mas bem mais agradável do que essas outras drogas malhadas que se espalham pelo planeta de tempos em tempos. Se o hedonismo e o escapismo abastecem o desejo pela heroína, o desejo pelo nacionalismo, o etnocentrismoe fundamentalismo é abastecido, imagino, por impulsos sado-masoquistas. Digamos que o nacionalismo, o etnocentrismo e o fundamentalismo que andam grassando por aí deveriam ser comparados mais adequadamente com um vício mais besta como o tabaco [me desculpem os amigos e amigas fumantes que me juram sentir mil prazeres com o cigarro, mas o tabagismo é um vício quase tão besta quando a cafeína]. A história, que deveríamos sempre nos lembrar, envolve esquecimentos tanto quanto a memória, é, sim, matéria prima de ideologias nocivas no Brasil: o bolsonarismo e o vejismo se alimentam, por exemplo, de conceitos históricos fantasiosos, como uma suposta "ditabranda" e um golpe de estado que paradoxalmente nos teria "salvado do totalitarismo" com vinte anos de ditadura militar. A história é, portanto, um campo de batalha bem azedo no Brasil contemporâneo e o recente relatório da Comissão da Verdade é uma grande vitória para o lado que entende que quem assassina e tortura 5 pessoas não é mais "brando" do que quem assassina e tortura 15 pessoas e que o Brasil adiou em vinte anos uma série de embates importantes sobre a posse da terra no campo e na cidade e sobre os direitos civis em geral e dos negros, mulheres, índios e outros grupos discriminados, recebendo ainda por cima um país completamente quebrado e disfuncional da mão dos militares.
Mural com vítimas da ditadura militar

Wednesday, December 17, 2014

Poesia Mexicana: Xavier Villaurrutia

NOCTURNO DE LA ESTATUA
A Agustín Lazo


Soñar, soñar la noche, la calle, la escalera
y el grito de la estatua desdoblando la esquina.

Correr hacia la estatua y encontrar sólo el grito,
querer tocar el grito y sólo hallar el eco,
querer asir el eco y encontrar sólo el muro
y correr hacia el muro y tocar un espejo.
Hallar en el espejo la estatua asesinada,
sacarla de la sangre de su sombra,
vestirla en un cerrar de ojos,
acariciarla como a una hermana imprevista
y jugar con las fichas de sus dedos
y contar a su oreja cien veces cien cien veces
hasta oírla decir: «estoy muerta de sueño».

Monday, December 15, 2014

Diário da Babilônia: Tom Waits

No final dos anos 70, Tom Waits caça em Los Angeles um bando de músicos de estúdio, veteranos esquecidos, todos oriundos de New Orleans. Uma das canções que ele grava com eles, “Whistlin’ Past the Graveyard”, é uma pérola. Conheci primeiro uma versão alternativa, mais lenta, numa fitinha K7 [Heartattack and Vine, coletânea de 1980] que eu toquei 395.000 vezes numa época em que era difícil escutar qualquer coisa do primeiro Tom Waits no Brasil. A versão do disco de 1978, Blues Valentine, mais rápida, é bem melhor. É como um Chico Buarque meio vaudeville das rimas nonsense, naqueles momentos mais inspirados, tipo “Bye Bye Brasil” ou a Ópera do Malandro. Em “Whistlin’ Past the Graveyard” Tom Waits chega perto de um certo poeta judeu-americano conhecido pela alcunha Groucho Marx que, por exemplo, fez essa coplazinha em versos alexandrinos românticos:

“One morning I shot an elephant in my pajamas.
How he got into my pajamas, I don’t know.”

A expressão idiomática “whistling past the graveyard” é apropriadamente antiquada – Tom Waits sempre gostou de brincar com coisas completamente, ostensivamente fora de moda. Significa mais ou menos tentar passar por um situação muito difícil sem se afetar muito por ela, seja por estoicismo, seja por ignorância. É o que eu desejo aos meus amigos, o que eu mais preciso aprender a fazer para passar por esses dias nebulosos.


Whistlin’ Past the Graveyard
Tom Waits, 1978


Well, I come in on a night train
with an arm full of box cars
on the wings of a magpie [um corvo bicolor]
’cross a hooligan night
and I busted up a chifferobe [tipo de armário com gavetas e espaço para cabides]
way out by the Kokomo [ilha caribenha, na minha opinião, de formato um tanto sugestivo],
cooked up a mess a mulligan [sopa que os mendigos andarilhos - hobos - cozinhavam juntando o que encontravam por aí],
and got into a fight.

[Chorus] 
Whistlin’ past the graveyard
Steppin' on a crack ["Step on a crack, you'll break your mother's back",é o chamado para brincar de andar sem pisar em nenhuma linha na calcada]
I'm a mean Mother Hubbard[1]
Papa one eyed jack

You probably seen me sleepin'
out by the railroad tracks.
Go on and ask the prince of darkness
what about all that smoke come from the stack.
Sometimes I kill myself a jackal
’n’ suck out all the blood.
Steal myself a station wagon
drivin' through the mud.

[Chorus]

I know you seen my headlights
and the honkin' of my horn.
I'm callin' out my bloodhounds
chase the devil through the corn.
Last night I chugged the Mississippi
now that sucker’s dry as a bone.
I [was] born in a taxi cab
I'm never comin' home.

[Chorus]

My eyes have seen the glory
of the draining of the ditch.
I only come to Baton Rouge
to find myself a witch.
I'm-onna snatch me up a couple of ’em
every time it rains.
You see a locomotive
probably thinkin' it’s a train.

[Chorus]

What you think is the sunshine
is just a twinkle in my eye.
That ring around my fingers,
call the fourth of July.
When I get a little lonesome
and a tear falls from my cheek,
there's gonna be an ocean in
the middle of the week.

[Chorus]

I rode into town on a night train
with an arm full of box cars
on the wings of a magpie
cross a hooligan night.
I'm-onna tear me off a rainbow
and wear it for a tie.
I never told the truth
so I can never tell a lie.







[1] “Old Mother Hubbard” é uma canção de ninar [nursery rhyme] do século XIX cheia de rimas nonsense.

Sunday, December 14, 2014

Tradução: Manifesto dos Necronautas

Desenho meu: Auto-Retrato dos Meus Medos
Manifesto Necronauta

Nós do primeiro comitê da Sociedade Internacional Necronáutica declaramos o seguinte:
1.    Que a morte é um tipo de espaço que pretendemos mapear, entrar, colonizar e, finalmente, habitar.
2.    Que não há beleza sem a morte, sem sua imanência. Cantaremos a beleza da morte, ou seja, a beleza.
3.    Que tomaremos como nossa responsabilidade a tarefa de trazer a morte às vistas do mundo. Nós identificaremos todas as suas formas e meios: na literatura e na arte, onde ela é mais aparente; também na ciência e na cultura, onde ela espreita submersa mas nem por isso menos potente em seu obscurecimento. Tentaremos captar suas frequências – pelo rádio, pela internet e em todos os lugares nos quais estão ativos seus processos e avatares. No quotidiano a morte se move com a mesma intensidade: em acidentes de trânsito que acontecem ou quase acontecem; em funerárias e casas de velório, em coroas de flores, em congeladores de açougueiros e depósitos de lixo cheios de produtos alimentares apodrecendo. A morte se move em nossos apartamentos, pela tela das televisões, a fiação e os canos nas nossas paredes, nossos sonhos. Nossos próprios corpos não são mais que veículos que nos levam indubitavelmente à morte. Somos todos necronautas, sempre, desde sempre.
4.    Nosso objetivo maior é criar uma técnica[1] que nos permita chegar até a morte de tal maneira que possamos, não estando vivos, pelos menos persistir. Com a fome, a guerra, as doenças e o impacto de asteróides ameaçando acelerar nossa jornada universal ao desaparecimento, a única chance de sobrevivência da humanidade está na sua habilidade, ainda não sintetizada, de morrer de formas novas e imaginativas. Que possamos um dia nos entregar completamente à morte, não em desespero, mas rigorosamente, criativamente, olhos e bocas abertos para que se encham das águas profundas do Desconhecido.

PS. Interessante notar como um manifesto como esse, feito na Inglaterra, adota, mais de uma vez, uma retórica que aproxima conhecimento e colonização. 

O original, encontrável aqui:

We, the First Committee of the International Necronautical Society, declare the following:
1.That death is a type of space, which we intend to map, enter, colonise and, eventually, inhabit.
2. That there is no beauty without death, its immanence. We shall sing death's beauty - that is, beauty.
3. That we shall take it upon us, as our task, to bring death out into the world. We will chart all its forms and media: in literature and art, where it is most apparent; also in science and culture, where it lurks submerged but no less potent for the obfuscation. We shall attempt to tap into its frequencies - by radio, the internet and all sites where its processes and avatars are active. In the quotidian, to no smaller a degree, death moves: in traffic accidents both realised and narrowly avoided; in hearses and undertakers' shops, in florists' wreaths, in butchers' fridges and in dustbins of decaying produce. Death moves in our appartments, through our television screens, the wires and plumbing in our walls, our dreams. Our very bodies are no more than vehicles carrying us ineluctably towards death. We are all necronauts, always, already.
4. Our ultimate aim shall be the construction of a craft1 that will convey us into death in such a way that we may, if not live, then at least persist. With famine, war, disease and asteroid impact threatening to greatly speed up the universal passage towards oblivion, mankind's sole chance of survival lies in its ability, as yet unsynthesised, to die in new, imaginative ways. Let us deliver ourselves over utterly to death, not in desperation but rigorously, creatively, eyes and mouths wide open so that they may be filled from the deep wells of the Unknown.






[1] Esse termo deve ser compreendido da forma a mais versátil possível, podendo designar um conjunto de práticas tais como: a usurpação de identidades e personas de pessoas mortas, o desenvolvimento de códigos genéticos ou semânticos especialmente adaptados baseados em certas mortes específicas, a reabilitação do sacrifício como um ritual social aceitável, o aperfeiçoamento, patenteamento e eventual distribuição ampla de Thanadrine™ ou, atém a construção de uma técnica específica – todos [This term must be understood in the most versatile way possible.It could designate a set of practices, such as the usurpation of identities and personas of dead people, the development of specially adapted genetic or semantic codes based on the meticulous gathering of data pertaining to certain and specific deaths, the rehabilitation of sacrifice as an accepted social ritual, the perfection, patenting and eventual widespreaddistribution of ThanadrineTM, or, indeed, the building of an actual craft - all of the above being projects currently before the First Committee.]