Saturday, December 06, 2014

Marxado de Assis ou relevem meus rascunhos de samba do crioulo doido



Adoro a prosa de Marx [pelo menos como a conheço em inglês] acima de tudo pela sua ironia bem humorada, difícil de encontrar quando se trata de um texto prosaico científico. Basta comparar, por exemplo, com o xarope insuportável que é enfrentar um texto qualquer de Derrida para entender a diferença com clareza. Essa ironia é marca do texto marxiano, aqui no sentido do texto advindo diretamente do planeta marx, aquele astro vermelho calmamente assentado numa biblioteca ou na internet, aceitando pacientemente a visita de qualquer terráqueo. É uma ironia, perdoem meu provincianismo brasílico, muito machadiana

Vejam, por exemplo, essa passagem sobre a mercadoria, que eu traduzi do inglês: 

"À primeira vista, uma mercadoria parece algo muito trivial e facilmente compreendido, até que uma análise atenta revele na verdade algo muito raro, abundante em sutilezas metafísicas e minúcias teológicas. Como valor em uso, não há mistério algum, seja quando a consideramos como algo capaz de satisfazer as necessidades humanas, seja quando a consideramos por suas propriedades que derivam do trabalho humano. É claro como o meio-dia: a indústria do homem dá forma aos materiais fornecidos pela natureza de forma a torná-los úteis a ele. A madeira, por exemplo, é alterada quando se faz dela uma mesa. Mas, apesar de tudo isso, quando se apresenta como mercadoria, ela se transforma em algo transcendente. Não apenas é capaz de plantar seus pés no chão mas, na sua relação com outras mercadorias, ela também é capaz de plantar bananeira e evoluir para além das ideias grotescas contidas em seu cérebro de madeira para algo mais maravilhoso do que qualquer virada de mesa que já se viu."*

Fico com vontade de fingir que o texto acima é assinado por um barbudo de pele escura [o apelido de Marx, por seu cabelo e cor de pele, era justamente "mouro"] de nome Marxado de Assis, com uma vida dupla de estudioso da economia e escritor de prosa narrativa. Vejam que Marxado depois de escrever sobre os finos mistérios da mercadoria resolve escrever sobre as sutilezas do ceticismo como forma de superficialidade num certo personagem de nome Camilo:

"Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando."

Veja se não se aplica com perfeição a esse meu monstro teuto-carioca o que nos diz sobre o tal Machado de Assis o famoso marxista periférico austríaco-paulistano Roberto Schwartz:

"... considere-se que as idéias da burguesia, a princípio voltadas contra o privilégio, a partir de 1848 se ha­viam tornado apologética: a vaga das lutas sociais na Europa mostrara que a universalidade disfarça antagonismos de classe. Portanto, para bem lhe reter o timbre ideológico é preciso considerar que o nosso discurso impróprio era oco também quando usado propriamente. Note-se, de passagem, que este padrão iria repetir-se no séc. XX, quando por várias vezes juramos, crentes de nossa modernidade, segundo as ideologias mais rotas da cena mundial. Para a literatura, como veremos, resulta daí um labirinto singular, uma espécie de oco dentro do oco. Ainda aqui, Machado será o mestre." 



*Cá está o original em inglês: "A commodity appears, at first sight, a very trivial thing, and easily understood. Its analysis shows that it is, in reality, a very queer thing, abounding in metaphysical subtleties and theological niceties. So far as it is a value in use, there is nothing mysterious about it, whether we consider it from the point of view that by its properties it is capable of satisfying human wants, or from the point that those properties are the product of human labour. It is as clear as noon-day, that man, by his industry, changes the forms of the materials furnished by Nature, in such a way as to make them useful to him. The form of wood, for instance, is altered, by making a table out of it. Yet, for all that, the table continues to be that common, every-day thing, wood. But, so soon as it steps forth as a commodity, it is changed into something transcendent. It not only stands with its feet on the ground, but, in relation to all other commodities, it stands on its head, and evolves out of its wooden brain grotesque ideas, far more wonderful than “table-turning” ever was."

No comments: