Thursday, October 31, 2013

Escavando notas: de Rulfo a Duke Ellington e de Duke Ellington a Faulkner

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A cantora Ivie Anderson é discretamente citada no conto “Paso del Norte” de Juan Rulfo como “la Anderson esa que canta canciones tristes.” Paso del Norte era o antigo nome de Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos. Aqui o trecho:

“—¿Y qué diablos vas a hacer al Norte?
            —Pos a ganar dinero. Ya ve usté, el Carmelo volvió rico, trajo hasta un gramófono y cobra la música a cinco centavos. De a parejo, desde un danzón hasta la Anderson esa que canta canciones tristes; de a todo por igual, y gana su buen dinerito y hasta hacen cola pa oír. Así que usté ve; no hay más que ir y volver. Por eso me voy.”

“La Anderson” canta entre muitas outras coisas uma canção da fronteira com a orquestra de Duke Ellington: o primeiro sucesso de Harry Warren, filhos de imigrantes italianos [nome de batismo Salvatore Antonio Guaragna] nascido no Brooklin famoso pelo seu trabalho com trilhas de Hollywood. A canção de 1922 se chama “Rosa of the Rio Grande”:  



Rosa of the Rio Grande

Music by Harry Warren, lyrics by Edgar Leslie (1922)

Rosa of the Rio Grande
Rosa of the borderland
One word,
then hand in hand
we’ll leave the preacher’s side room
happy little bride and bridegroom

Over the hills of sand,
I've got your love nest planned.
You claim it,
I’ll name it
Rosa of Rio Grande


Ivie Anderson cantava músicas tristes, sim. Mas de uma tristeza irônica, uma ironia fina e levemente escamoteada que também aparece em muitos sambas do mesmo período. Um exemplo é “Cotton” de Rube Bloom [um judeu de Nova Iorque] com uma letra de arrebentar de Ted Koehler, que cria um personagem matreiro que se diz saudoso do Sul, onde ele nasceu “para catar algodão.” É como se um migrante da zona canavieira do nordeste cantasse uma música de saudades da rotina de viver de cortar cana. “Cotton” é a primeira gravação de do saxofonista Ben Webster com a orquestra de Ellington – a fúria criativa do saxofone de Webster é o equivalente Americano da fúria criativa de Pixinguinha na flauta no Brasil:


Cotton
music: Rube Bloom; lyrics: Ted Koehler

Cotton,
Give me a handful of cotton
Take me tonight
To those fields of snowy white
Along that muddy river shore

I'm lonesome for cotton
I'd gladly pick off the cotton
Just to get back
to that old loved cabin shack
Among my kind of folks
once more

I guess the Lord was partial to the Southland
'Cause he looked down and said one morn'
"Somebody's got to pick that cotton!"
And that's the reason I was born

Cotton,
My heart's all wrapped up in cotton
Lord, I was wrong
Take me back where I belong
I’ll never leave the South anymore.

A música me lembra várias passagens de Faulkner, entre elas essa, que descreve Vernon Tull, chefe absoluto de um fim de mundo já afastado do centro produtor de algodão do Alabama mas uma região ainda enfeitiçada pela obsessão com o “Rei Algodão”:

“He was the largest landholder and beat supervisor in one county and Justice of the Peace in the next and election commissioner in both, and hence and fountainhead if not of law at least of advice and suggestion. […] He was a farmer, a usurer, a veterinarian; Judge Benbow of Jefferson once said of him that a milder-mannered man never bled a mule or stuffed a ballot box. He owned most of the good land in the country and held mortgages on most of the rest. He owned the store and the cotton gin and the combined grist mill and blacksmith shop in the village proper and it was considered, to put it mildly, bad luck for a man of the neighborhood to do his trading or gin his cotton or grind his meal or shoe his stock anywhere else.”  

A ironia do narrador que bota prudentemente na voz do juiz que “nunca houve um homem mais gentil que sangrasse uma mula ou estufasse uma urna de votos” e que morar ali e procurar outra loja, outro desencaroçador de algodão ou outro moinho que não fosseo de Vernon Tull no Frenchman’s Bend “traria má sorte.”

Tuesday, October 29, 2013

Meu Lou Reed favorito: Gay e com uma tuba fazendo o contra-baixo



[Meu Lou Reed preferido vem do álbum Transformer, que eu ganhei numa fita K-7 da minha querida prima Sílvia Emanuela quando eu tinha 17 anos e passei um mês inesquecível na Espanha ainda de ressaca depois da longa noite do franquismo. No mesmo Transformer estava a famosa "Walk on the Wild Side," que não celebra o roquenrrol machão-cerveja-arroto-cigarro-no-bar-da-esquina mas uma outra onda, que nesse século XXI parece outro planeta, que continua existindo mas ainda mais clandestino. A tuba não me deixa mentir!]
 
Make Up

 
Your face when sleeping is sublime
and then you open up your eyes.

Then comes pancake factor number one,
eyeliner, rose hips and lip gloss, such fun.
You're a slick little girl.
You're a slick little girl.

Rouge and coloring, incense and ice,
perfume and kisses, oh, it's all so nice
You're a slick little girl.
You're just a slick little girl.

Now we're coming out,
out of our closets
out on the streets,
yeah, we're coming out

When you're in bed it's so wonderful.
It'd be so nice to fall in love.
When you get dressed I really get my fill.
People say that it's impossible

Gowns lovely made out of lace
and all the things that you do to your face
You're a slick little girl,
Oh, you're a slick little girl

Eyeliner, whitener, then color the eyes;
Yellow and green
Ooh, what a surprise
You're a slick little girl,
Oh, you're such a slick little girl

Now we're coming out, out of our closets
Out on the streets, yes, we're coming out
Yeah, we're coming out ...

Monday, October 28, 2013

Telegrama de Mictlan

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Desenho meu: "Quem ama nomeia quem ama não mata quem nomeia mata"
Desta vez prometo não me esconder atrás de mim mesmo. Deixa vez prometo deixar no papel nada que não seja meu sangue e nada mais.
Quando a onda vem e eu perco o pé, não me desespero. Eu solto meu corpo e sinto o silêncio vibrar no meu corpo a paz do esquecimento. Um vento mais denso de água e sal balança meu corpo feito um saco plástico vazio de mim. Imagino meu esqueleto solto dançando por dentro em ondas de sangue ainda mais denso. A próxima onda chega e me puxa ainda mais longe. Respirar me custa, me cansa subir. Devagar aos poucos tomo ar e volto. Não me sinto preso. Não estou me afogando ainda agora. Não estou vencido ainda que passe agora por mim o salva-vidas que vem atender alguém mais próximo da praia que eu. Não peço ajuda. Não é por orgulho. Estou à deriva por bem mais de meia hora. O salva-vidas me vê e me oferece levar-me de volta à praia. Não quero dizer que sim, quero me calar, por meio instante vacilo em aceitar. Meio instante, não mais. Não mais que meio instante. O salva-vidas me puxa e saio andando sozinho da água na altura da barriga. Me sento no sol mudo do mormaço na areia branca na praia do Rio da minha infância.
Sabem quantas vezes? Pelo menos sete. E a cada volta o corpo mais mole: pele, carne, osso um pouco mais frouxos, um monte de pedras quando desmorona fica mais difícil, se remonta frouxamente e cai outra vez, mais desconjuntado. O meio instante em que eu vacilo um pouco mais longo, a saudade da leveza, de estar vazio, da paz, do silêncio, do esquecimento do mundo e si mesmo, um pouco maior também. Uma progressão lenta, gradual. Acréscimos ínfimos no meio instante, uma paciente erosão por dentro.
Mas sempre o medo. Medo de morrer. Um pouco menos de medo. Sempre o prazer de estar na praia no sol na areia. Estar vivo vale. Antes da tormenta, penso, vale tanta pena. Sim, por que só conto a melhor parte do teorema. Ia deixar sangue, prometi, eu sei, e não foi por zelo que parti do meio desse teorema. É por que ali está o maior extremo, depois da tensão que rompe a corda que me prende a mim mesmo. E se a tensão dói cada vez mais ou se simplesmente uma corda cada vez mais fraca, eu não sei dizer.

Friday, October 25, 2013

Gosto como preconceito de classe

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95% das opiniões que as pessoas no Brasil têm sobre música são puro preconceito de classe e preconceito de inferioridade disfarçados em gosto musical.

Um ritmo bate estaca na frente e dois ou quatro acordes com sujeitos com as marcas certas [roupas, cor da pele, penteado, nome] é música roquenrrol; sem as marcas certas, é lixo-brega:  


Thursday, October 24, 2013

Conhecimento é mercadoria?

Dilma inaugurando creche ao lado do prefeito
Li no London Review of Books uma resenha crítica demolidora que deveria ser leitura obrigatória no Brasil nesses dias em que, por exemplo, Dilma visita e Belo Horizonte e rasga seda com o prefeito pisca-pisca pelos seus esforços de deixar a iniciativa privada mamar nas tetas da prefeitura o leite ralo que sobra para a educação pública da cidade, que serve à maioria das crianças da cidade.

Antes de qualquer coisa é necessário esclarecer um ponto importante. É comum no Brasil as pessoas confundirem universidades americanas particulares famosas como Yale ou Columbia com universidades brasileiras particulares, quando na verdade trata-se de duas coisas completamente diferentes. As universidades privadas brasileiras funcionam como as universidades "for-profit", que são geridas como negócios que distribuem dividendos aos seus acionistas ao fim do ano. A mais famosa [infame] dessas universidades é a University of Phoenix. Elas cresceram muito desde os anos 90 e entraram em crise com a crise econômica. Aqui um trecho bem informativo:

"... in 1998 Ashford University had just three hundred students; it was taken over by Bridgepoint Education Inc, and by 2008 boasted 77,000 students, nearly all online. Bridgepoint was described by the Senate committee’s chairman as a ‘scam’, still collecting profits despite having drop-out rates of 63 per cent for Bachelor’s degrees and 84 per cent for Associate degrees.

The biggest player in this market is the University of Phoenix, owned by the Apollo Group. UoP claims to be North America’s largest university: at its peak in 2010 it was said to have some 600,000 students and annual revenue in excess of $4 billion (in October 2012, it announced plans to close 115 campuses owing to a drastic drop in its profits). The Senate investigation showed that 60 per cent of Apollo students dropped out within two years, while of those who completed their course, 21 per cent defaulted on paying back their loans within three years of finishing. It also revealed that 89 per cent of Apollo’s revenue comes from federal student loans and that it spends twice as much on marketing as on teaching. A lawsuit filed in 2003 alleged that UoP had wrongfully obtained at least $3 billion of federal student aid; in 2009 the Apollo Group agreed to pay $78.5 million to settle the suit, in one of the largest pay-for-performance compensation settlements ever reached. After a separate investigation in 2004, the Apollo Group paid about $10 million in fines to the US Department of Education, which had criticised UoP’s admissions practices: recruiters, for example, were paid bonuses depending on the numbers they signed up. A parallel investigation by the Huffington Post of another ‘private provider’, Educational Management Corporation, found that after it was taken over by Goldman Sachs, its recruiters were issued with scripts ‘which instructed them to find potential applicants’ “pain” so as to convince them that college might be a solution to their struggles’."

A frase final que descreve o treinamento dos recrutadores é bem significativa: identifique o que mais machuca/dói/incomoda na vida atual dos potenciais alunos e convença esses pobres coitados que a solução está em entrar numa faculdade online da University of Phoenix.

A resenha na realidade centra atenção na Inglaterra e em recentes mudanças na área de educação no país. Nem por isso Stefan Collini toca em vários assuntos importantes que têm relevância urgente no Brasil. Por exemplo, quando ele expõe em números o relativo desinteresse do estado em investir em educação e a decisão de tampar o buraco com a participação da iniciativa privada, que só aparece quando sente o cheiro de lucro polpudo:

"Many of the financial problems faced by UK higher education date back to the shocking underfunding of university expansion in the 1980s and early 1990s. The Dearing Report found that ‘public funding per student for higher education had declined from a value of 100 in 1976 and 79 in 1989 to 60 in 1994.’ That is, it nearly halved in just 18 years. The damage has never been fully repaired: between 1979 and 2011 student numbers increased by 320 per cent while public expenditure on higher education rose by only 165 per cent. Roger Brown, scarcely given to rabble-rousing, concludes: ‘In effect, market-based policies have partly compensated for – and even been a (deliberate?) distraction from – a failure to consistently invest an appropriate proportion of national wealth in higher education.’"

E a dominação por parte do Senhor Mercado tem consequências, na minha opinião, trágicas para a educação:

"The international evidence of improvement of standards as a result of increased marketisation is, to say the least, mixed. As Brown notes, it ‘may also damage quality by commodifying knowledge, creating or reinforcing student “instrumentality”, and lowering standards through grade inflation, and the acceptance of plagiarism and other forms of cheating. It may also lead to a diversion of resources away from learning and teaching to activities like marketing, enrolment, student aid and administration (and in the US, athletics).’ "

Quando o conhecimento se transforma em mercadoria, quando a razão instrumental toma conta da educação, a educação já não serve para ensinar a pensar criticamente. E se for para ensinar a obedecer e a reproduzir o mundo em que vivemos, é melhor ficar em casa.

Wednesday, October 23, 2013

Feliz aniversário, Pelé!

 
Pelé e Médici trocam abraços no país liberal ou na terra da felicidade, não tenho certeza.

Trecho de entrevista dada por Pelé para o jornal La Opinión de Montevideo em 1972:

“Não há ditadura militar no Brasil. 
O Brasil é um país liberal, uma terra de felicidade. 
Somos um povo livre. 
Nossos dirigentes sabem o que é melhor para nós, 
e nos governam com tolerância e patriotismo.

A fonte é o artigo de Robert Levine chamado “Esporte e Sociedade: O caso do futebol Brasileiro” no livro Futebol e Cultura – Coletânea de Estudos.

Tuesday, October 22, 2013

Viva la mídia loca: censuráveis e incensuráveis

Um texto pequeno saiu no The Guardian sobre as políticas de censura do FCBK. Cenas de cabeças rolando: ok; cenas de mulheres amamentandoonde seus mamilos se deixam revelar: proibido! Esclareço de uma vez que eu não estou minimamente interessado em proibir ou "permitir" nada nem no FCBK nem em lugar nenhum.
Esses momentos de ridículo são bons para salientar o que digo aos meus alunos daqui: um filme com uma decapitação gráfica e duzentas cenas de tortura e assassinatos não ganha a atenção de uma fração de mamilo feminino no sistema de censura americano e eles então não se sentem à vontade assistindo a um filme em que alguém fica pelado por 15 segundos porque já foram "treinados" para sentir-se assim, como nós no Brasil fomos treinados a achar normal que uma pessoa pública se chame "Mulher Filé" e venda parafusos com a imagem do seu traseiro ao lado de sujeito com cara de bonzinho vestido dos pés à cabeça e com um apelido infantilóide do tipo Gugão ou Faustinho.
E mais: há que se pensar no mundo em que vivemos em que a censura privatizada não causa escândalo. Sim, porque a censura é muito ativa e está privatizada por aqui: é concebido como um sistema de auto-censura por parte das grandes empresas como o FCBK. No Brasil um tipo de censura bem parecido existe também e também é privatizado. Um permite decapitações, outro permite a banheira do Gagá. Mas nessas horas a tal globalização mostra também sua cara mais costumeira: a de americanização do mundo, para o bem e para o mal. 
E mais uma última observação: as decapitações estão bem desde que sejam acompanhadas por textos que condenem a prática. Mas uma foto de um anúncio de sabão em pó no qual a Mulher Repolho se agarra com um sujeito qualquer e mostra seus mamilos "desocupados" de qualquer tipo de amamentação [importante sublinhar: amamentação de bebês] não passa pela censura do fcbk nem se acompanhada por um texto que condene o ato, seja ele a exposição imoral de partes pudentas de seres humanos ou a comercialização impudenta de um certo corpo feminimo ou a idealização de uma forma física que depende de uma dieta de alface e água e 12 horas de ginástica ou a transformação do sexo numa performance para a venda de sabão em pó ou...  

Monday, October 21, 2013

Confundindo continente e conteúdo?

 
Luiz Cardoza y Aragón disse o seguinte sobre a relação de Artaud com a América Latina:  

“confundió por desesperación, el Nuevo Continente con un Nuevo contenido. Algo hay de ello, pero no bastaba a su exigencia absoluta. También mucho de Europa moría en nosotros.”

Uma exigência [obviamente não tão absoluta] por um novo conteúdo no continente novo não é má ideia. Principalmente quando nos repetimos a nós mesmos tão tristemente.   

Sunday, October 20, 2013

Postais: Artaud de Silviano Santiago

O Artaud de Silviano Santiago em Viagem ao México:
"Esses latino-americanos são todos uns infelizes em desterro, encantados com as maravilhas da industrialização que não conhecem e da cultura ocidental que conhecem como ninguém. Acreditam que as chaminés das fábricas vão nivelar todo o mundo das letras e deixar à mostra as formas ocultas e variadas da opressão capitalista. Mal sabem o que os espera no dia em que não forem mais cópias disformes, mais iguais ao original que tanto invejam.”

Saturday, October 19, 2013

Escavando notas ou a raiz do peculiar racismo brasileiro


Carl Friedrich Philipp von Martius [1794-1868] articulou provavelmente pela primeira vez o tema das “três raças” que tem tido tanto impacto na identidade do Brasil. Von Martius escreveu a monografia “Como se deve escrever a história do Brasil” em resposta à chamada do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro por indicações para o estudo da história do então nascente Brasil. Von Martius saiu-se com a ideaia de que “o homem brasileiro” era resultado “do encontro, da mescla, das relações mútuas e mudanças” de “três raças, a saber: a de cor de cobro ou americana, a branca ou caucasiana, e enfim a preta ou etiópica” (442). A história do Brasil para Von Martius seria o resultado da “lei particular” que dirige o “movimento histórico” das três raças, movimento que implicava na sujeição de duas delas ao “sangue português (…) poderoso rio que deverá absorver pequenos confluentes das raças india e etiópica” (443).

Friday, October 18, 2013

Escavando notas: Ignorância ou cara-de-pau contando com a ignorância alheia?


Trecho do meu livro que sai no final deste ano:

"Em entrevista a Márcia Abos de O Globo no dia 8 de maio de 2008, Tadeu Jungle, então envolvido no projeto chamado Amores Expressos, chamou o mesmo de “um projeto inédito no Brasil e no mundo.”

Oito anos antes a Random House-Mondadori lançou o projeto Colección Año 0, convidando sete jovens autores latino americanos (Roberto Bolaño, Rodrigo Fresán, Santiago Gamboa, Rodrigo Rey Rosa, José Manuel Prieto, Gabi Martínez, Lala Isla e Hector Abad Faciolince) a escrever um romance que se passava em uma cidade específica. Os romances foram lançados entre 2000 e 2001 e os mais bem sucedidos foram Una Novelita Lumpen de Bolaño passado em Roma e Mantra de Fresán na Cidade do México."

Thursday, October 17, 2013

Notícias de além TVlândia


Ou nada [Rômulo Fróes]

Ou nada
São cabeças cortadas no céu 
de uma estrela chamada sol
Todo o resto e você me detesta 
e com isso seguimos nós
Meu consolo é que eu morro de sono, 
de chumbo, de bala e dó
Um dó não devia no vidro uma bolha de ar
Onde havia beleza, incerteza e pó
Meu consolo é que eu morro de culpa, 
de porre, de berro e só
Só sob a estrela da noite 
estrelada de alguém
De algum astronauta, 
de algum outro mundo
Meu consolo é que eu morro de vício, 
o início do fim de tudo
ou nada...

Wednesday, October 16, 2013

Postal: Uma espécie diversa de morte

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Colagem minha

“Contudo, às vezes sucede que morramos, de algum modo, espécie diversa de morte, imperfeita e temporária no próprio decurso desta vida. Morremos, morre-se, outra palavra não haverá que defina tal estado, essa estação crucial. É um obscuro finar-se, continuando, um trespassamento que não põe termo natural à existência, mas em que a gente se sente o campo de operação profunda e desmanchadora, de íntima transmutação precedida de certa parada, sempre com uma destruição prévia, um dolorido esvaziamento; nós mesmos, então, nos estranhamos.”
"Páramo" de Guimarães Rosa

Um bilhete do inferno

Arte minha: "Folha com notas sobre Marx em estado de desespero", 2013
Obs. Se não aparecer a imagem inteira, clique na mesma que ela aparece em outra janela.

Tuesday, October 15, 2013

Postal: Falando de forma contra o formalismo

Foto minha: Avenida Paraná


"Form is not the neutral frame of particular contents,
but the very principle of concretion,
that is, the 'strange attractor'
which distorts, biases, confers a specific colour
on every element of totality."
Slavoj Zizek, "Jameson as a Theorist of Revolutionary  Philately" 114

Sunday, October 13, 2013

Uma primeira cooperação entre pai e filho

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Ilustração: Samuel
Na esfera cabal
A esfera de cristal
Vive o homem de marfim
Vive dentro de mim
Uma vida sem bolor
Sem medo da morte
Sem medo da dor
Olha para o lado
Tira de dentro de si
os dois bracinhos
O homem de marfim
Quer sair de mim
Ilustração: Samuel

A esfera de cristal
Flutuando no ar
Numa nuvem de gás
O homem de marfim
Deixa os braços pra trás
Agarrando a si mesmo
No pedestal tambor
A cabeça de marfim
Olhando para mim
Numa nuvem de gás
Os olhos vaziinhos
Se enchendo de mim







Saturday, October 12, 2013

Antes do Nobel, Alice Munro entre o céu e o inferno

"There’s something confusing about the consensus around Alice Munro. It has to do with the way her critics begin by asserting her goodness, her greatness, her majorness or her bestness, and then quickly adopt a defensive tone, instructing us in ways of seeing as virtues the many things about her writing that might be considered shortcomings. So she writes only short stories, but the stories are richer than most novels. Over a career now in its sixth decade, she’s rehearsed the same themes again and again, but that’s because she’s a master of variation. She has preternatural powers of sympathy and empathy, but she’s never sentimental. She writes about and redeems ordinary life, ordinary people – ‘people people people’, as Jonathan Franzen puts it."
Christian Lorentzen detonando Alice Munro aqui.


"There are writers for whom reality seems a secret novelty; and there are writers for whom it seems a shared habit. In the first category-which would include Dostoevsky, Conrad, Svevo – nothing is entirely recognisable, everything seems to have been burned out of recognition by the difficulty of its entry into the world. This is the strangeness they offer, and which we enjoy. In the second category, reality is born in an open ward. It makes its appeal to a known world. It is not that the writer’s reality is necessarily familiar to the reader, but it is familiar to its characters. We learn to judge oddity by seeing it through them. In this category are Tolstoy, Chekhov; and in our age the late V.S. Pritchett and Alice Munro."
James Wood enchendo a bola de Alice Munro aqui.

Friday, October 11, 2013

Postais: Willem de Kooning lendo William Faulkner

Light in August de Willem de Kooning
 
“That’s what fascinates me—
to make something I can never be sure of, 
and that no one else can either. 
I will never know 
and no one else will ever know.”
Willem de Kooning em entrevista


“He stood with his hands on his hips, 
naked, thighdeep in the dusty weeds, 
while the car came over the hill and approached, 
the lights full upon him. 
He watched his body grow white out of the darkness 
like a kodak print emerging from the liquid.”
Trecho do romance Light in August de William Faulkner
 

Thursday, October 10, 2013

Música: Nadie conoce La Habana mejor que o grupo de Pedro Sánchez

--> São quatro Latino-americanos: dois cubanos, um peruano [onde uma cultura negra vibrante existe às sombras das imagens nacionais] e um venezuelano [que é Caribe e portanto tão influenciado pela cultura trazida e reelaborada pelos escravos africanos quanto Cuba ou o Brasil]. Eles se encontram em Nova Iorque e formam um grupo que toca ao vivo três vezes por semana num clube da cidade. Juntos os quatro entortam e reentortam e rereentortam a rumba por todos os lados, provocando-se e respondendo-se incansavelmente, esperando e avançando por todos os lados possíveis da síncope, tocando seus instrumentos e cantando com fúria. A pianista Ariacne Trujillo é um fenômeno de talento e criatividade tanto nos padrões rítmicos do piano como na harmonia e nos solos.
E essa canção aí embaixo, doce de saudade, ainda serve para que Pedrito Sanchez, comendo as consoantes como só um caribenho sabe fazer, celebre seu amor pela “capital más linda del mundo” que ele conhece inteirinha como ninguém [“Nadie conoce La Habana mejor que yo”] e que “se queda chiquita” debaixo dos seus pés de andarilho. Cuba espalhando alegria pelo mundo! Qualquer músico brasileiro devia escutar isso aqui antes de se meter em gracinhas caribenhas, como é comum acontecer.

Pedrito Sanchez Group – "La Habana" ao vivo em Houston:



Tuesday, October 08, 2013

Escavando notas: um poeta brasileiro no México




Vi todo o mistério da arte, em sua expressão mais simples e direta, numa fábrica de Talavera de Puebla. 

Acurvado sobre o torno primitivo, o ‘alfarero’ é um transfigurador. Como no Gênese, ao seu comando anima-se a argamassa e a ordem domina a matéria. Na argila macia, pegajosa e informe, correm-lhe os dedos sábios. Ao impulso do pé ligeiro, roda o torno, e o artista, secundado por esse movimento inicial, cria o Universo do caos. Cilindros, pirâmides,  esferas, surgem e desaparecem, no côncavo das suas mãos; as linhas se recurvam ou se distendem, alongam-se, interrompem-se, unem-se e, num relâmpago, nascem vasos de colos esguios, candelabros, jarras e copas de esquisito feitio. 

Cantava no torno o esteta e, no fogo dos fornos crepitantes, cantava também a terra, a mesma terra que, antes, era poeira e rolava na pata dos animais, e agora seria cântaro para a boca fresca e lasciva da índia de ventre fecundo. Cantava o homem porque se unira à terra, e cantava a terra porque voltava das mãos do seu criador para o milagre de um monumento de perfeição. 

E tudo era alegria ao redor de mim, porque aquele homem era um deus.” 

Ronald de Carvalho, Imagens do México
 

Poesia prosaica minha: porque eu não me desespero


Foto minha: hospício abandonado em Diamantina, se não me falha a memória

Este aí embaixo é um primeiro rascunho de uma série de poesia prosaica [não confundir com prosa poética]:

Eu não me desespero


Dedicado a Miriam Carey

Eu não me desespero, não; sabe por quê?
Porque agorinha mesmo eu sei
que num futuro talvez nem tão distante
os exegetas de um outro planeta
recolherão indícios da nossa existência no planeta Terra
e se espantarão com essa multidão à minha volta
que ainda insiste que não está acontecendo nada demais,
que entre ultra-obesos e esfomeados e viciados e diabéticos
e psicóticos de todos os tipos (e se um psicótico é alguém
que perde contato com a realidade,
levando em conta a realidade que nos é oferecida,
quem não os pode compreender?)
e deprimidos e dementes por Parkinson ou por Alzheimer
não somos uma imensa legião de zumbis
carregando nos bolsos um cartão de crédito e uma receita médica
e uma das mais de cem milhões de armas semiautomáticas carregadas que passeiam por aí
e na outra um de mais de cem milhões de telefones que monitoram 24 horas por dia
cada passo e cada peido dos seus usuários
que ficam entre dias de aquecedor e dias de ar-condicionado
procurando desesperadamente uma válvula de escape
na frente de uma tela plana imensa ou minúscula
que passa uma dúzia de anúncios de comida-lixo
que roda e cai em câmara lenta feito os cabelos de uma modelo de anúncio de shampoo
e meia-dúzia de anúncios de antiácido para aguentar feliz a ressaca de corante, humectante,
sódio, gordura e conservante
e depois sete minutos de drama com sacos plásticos fingindo serem seres humanos
barbeados e maquiados
que precisam muito torturar seres humanos barbudos e suados fingindo ser sacos pláticos
para então salvar mais uma vez as criancinhas inocentes da América
e finalmente mais uma dúzia de anúncios de lixo-comida entregues à domicílio
e mais outra dúzia de antiácido ou analgésico ou antibiótico,
porque somos além de tudo alérgicos, sinusíticos, artríticos, infectados do pé à ponta dos
cabelos,
sonhando com o dia em que os aviões não-tripulados
não vão servir apenas para matar gente por controle remoto
mas também para entregar pizza, refrigerante e quem sabe até flores.
E compungidos os exegetas de outro planeta contarão
a partir dos caquinhos que encontrarem enterrados pelo chão seco e duro do nosso planeta
a nossa história absurda e infeliz de contentamento conformista entre explosões de
desespero
e quem sabe então não terão lições edificantes
sobre o que fazer e principalmente o que não fazer
para não sofrer da mesma cegueira e não ter o mesmo triste fim
e assim afinal darão algum sentido a todo este inferno?

Por isso eu não me desespero, não.

Monday, October 07, 2013

Postais: hei de voltar

Foto minha: Larva de Libélula em Diamantina
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Um amigo que vê as coisas de forma bem diferente da minha forma de ver as coisas no Brasil ontem à noite brincou comigo pressupondo que eu não gostaria de voltar para o Brasil de jeito nenhum. Hoje de manhã escrevi esse rascunho de poema: 
 
Um dia eu hei de voltar

“o que pensamos ser a canção dos anjos é a canção deles.”

Um dia eu hei de voltar
para casa em dezembro
e as nuvens cor de chumbo
trarão o cheiro de terra molhada
e o ronco dos trovões
anunciará outra invernada
e a água cairá
calma como a lava de um vulcão
e limpará tudo, tudo, tudo.

Um dia eu hei de voltar pra casa
e não serei mais estrangeiro
e descansarei os olhos
na cidade minha casa
madrasta dos meus fantasmas
e a lama descerá calma
como a lava de um vulcão
invernando o verão
e limpando nada, tudo, nada.

Um dia eu hei de voltar
e a chuva não será mais inerte
e a água não será mais sem rumo
e os malditos que habitamos
o inferno mais profundo
cantaremos outra vez
a doce canção dos anjos
e de novo os poemas
farão sentido pra mim
e eu, finalmente,
voltarei a nada.