Tuesday, October 08, 2013

Escavando notas: um poeta brasileiro no México




Vi todo o mistério da arte, em sua expressão mais simples e direta, numa fábrica de Talavera de Puebla. 

Acurvado sobre o torno primitivo, o ‘alfarero’ é um transfigurador. Como no Gênese, ao seu comando anima-se a argamassa e a ordem domina a matéria. Na argila macia, pegajosa e informe, correm-lhe os dedos sábios. Ao impulso do pé ligeiro, roda o torno, e o artista, secundado por esse movimento inicial, cria o Universo do caos. Cilindros, pirâmides,  esferas, surgem e desaparecem, no côncavo das suas mãos; as linhas se recurvam ou se distendem, alongam-se, interrompem-se, unem-se e, num relâmpago, nascem vasos de colos esguios, candelabros, jarras e copas de esquisito feitio. 

Cantava no torno o esteta e, no fogo dos fornos crepitantes, cantava também a terra, a mesma terra que, antes, era poeira e rolava na pata dos animais, e agora seria cântaro para a boca fresca e lasciva da índia de ventre fecundo. Cantava o homem porque se unira à terra, e cantava a terra porque voltava das mãos do seu criador para o milagre de um monumento de perfeição. 

E tudo era alegria ao redor de mim, porque aquele homem era um deus.” 

Ronald de Carvalho, Imagens do México
 

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