Wednesday, January 28, 2009

Poema meu: Eu e a Palavra

Foto: Fathia Al-Absi faz pão no campo de refugiados de Al-Shati , Gaza. Photograph: Abid Katib/Getty Images










http://blogs.guardian.co.uk/food/2008/04/20-week/





Eu sou o chão que a palavra pisa.
Eu sou o pão que a palavra come.
Pobre palavra, consome e oprime
justo aquilo que a sustenta viva;
pobre de mim, condenado à fome
e sabedoria dos insetos,
gastos, sujos, insones, expressos
na lágrima que não cai, represa.

É eu e a palavra que me pisa,
eu e essa palavra que me come,
juntos no matrimônio fundido
até que o tempo dê a medida
das coisas e nos livre do amor
em que eu sou chão e pão da palavra.

As delícias de uma vida gelada longe dos trópicos

Desesperado, enterrado no meio da neve e "comemorando" um mês consecutivo de temperaturas abaixo de zero, fui consolado por Zuleide, que como grande seguidora de Polyanna, me fez uma lista de coisas positivas nessa minha vida longe dos "tristres trópicos" [Ah, Levi-Strauss!]:
1. Agora eu posso tomar sorvete bem lentamente já que ele não fica derretendo e respingando em uns poucos minutos!
2. Agora eu posso deixar o feijão e o arroz dias fora da geladeira e eles nem mofam nem azedam!
3. Se eu quero um refrigerante bem gelado, basta deixar ele no carro ou do lado de fora uns 10 minutos!
4. Agora eu não preciso mais escolher entre três camisas favoritas: posso [e devo] simplesmente vestir as três e sair de casa!
5. O mesmo se aplica às minhas meias favoritas [tentei dizer a Zuleide que todas as minhas meias são iguais, mas elas me disse que eu insisto em ver o copo com uma metade vazia quando ele está com uma metade cheia].
6. Transpirando menos [transpirar? o que é isso?] eu posso repetir minhas roupas e tomar menos banhos, o que é muito bom para o 1/2 ambiente.
7. Com a queda da temperatura para -10ºC, fomos nós 4 aqui em casa dormir todos no mesmo
quarto, o que Zuleide diz que é uma forma de aproximar a família.
8. Depois de três invernos aqui eu sou capaz de ir à praia de nudismo no inverno brasileiro [Meus amigos: "Brrr, está fazendo 12 graus de madrugada nas montanhas!" Eu: "Cadê minhas havaianas?"
Quer mais?
Não, desisto!

Monday, January 26, 2009

Machado ainda afiado mesmo com leitor cego?

Quando eu morava no Brasil, nós tínhamos um grupo de leitura em casa que se reunia toda as segundas à noite lá em casa para ler um conto não muito longo, para ler em voz alta de uma vez só e dar tempo de conversar depois. Os contos podiam ser trazidos por uma pessoa, mas também lemos dois livros inteiros [os Cem Melhores Contos e o Tutaméia] assim, conto a conto meses a fio.
Fiquei espantado quando lemos "Pai contra Mãe" de Machado de Assis e uma das pessoas achou que Machado não via com maus olhos a instituição da escravidão. O conto começa com uma espécie de prólogo:

"A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem."

Será que a ironia é uma faca assim tão estranha, que só corta dependendo de quem segura o cabo?

Friday, January 23, 2009

Para Caroline Pivetta da Mota

Quase assinei o comentário anterior como Zuleide. Pois agora Zuleide tomou conta de todo o meu ser e reproduzo aqui o e-mail que ela mandou hoje para o jornal O Globo hoje depois de ler a noticia sobre a nova prisao de Caroline Pivetta da Mota.

Caros Editores,
Gostaria de manifestar publicamente meu agradecimento às autoridades pois sinto-me muito mais segura agora que essa terrível pichadora da Bienal – que ainda por cima é ladra de DVDs – encontra-se novamente atrás das grades. O que esse país precisa é justamente disso, de dar um basta à impunidade e ao vandalismo da juventude sem valores. Qualquer pessoa com um mínimo de formação entende que essa moça é obviamente uma pessoa perigosa e precisa ser tirada da sociedade. Só assim teremos paz e não vou precisar ter medo de ir a um museu com os meus filhos e encontrar as paredes todas pichadas. Que a prisão dessa moça envie uma mensagem aos outros jovens pichadores de museu que agora sabem, que se eles picharem, terão que pagar pelas consequencias dos seus atos vandalescos. Só lamento que o Lula, o congresso e o supremo e mesmo a Rede Globo não tenham leis mais duras para esse tipo de crime. Na minha opinião essa moça devia pegar pelo menos uns 30 anos sem direito a liberdade condicional, pois só assim, com muita cadeia e pena de morte é que vamos algum dia dar um jeito nesse país.
Atenciosamente,
Zuleide

Thursday, January 22, 2009

Blogolandia

Li no blogue http://www.pretensoliterato.blogspot.com/ recentemente o seguinte post:


"Mulher não gosta de transar

Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) “descobriu” que o sexo é a oitava prioridade na vida das mulheres brasileiras, absurdamente atrás de itens como “horas de sono” e “atividades culturais”, por exemplo. Para elas, sexo só é mais importante que os itens “exercícios e férias regulares”. Lendo a notícia, ficou claro para mim o porquê de, atualmente, “as coisas” andarem mais difíceis para o nosso lado, amigos homens...

Ah, a pesquisa também apontou que, para os homens, o sexo é a terceira prioridade, atrás de “alimentação saudável” e “convívio com a família”. Tudo bem, com família eu não mexo, cristão que sou. Mas “alimentação saudável”? Tenha dó! Que bando de homem frouxo que é esse que está espalhado Brasil afora, Deus do céu!? Além de não ligar para sexo (será possível isso?), eles também não comem o maravilhoso fígado com jiló do Mercado Central de Belo Horizonte, não entram na tradicional feijoada de sexta-feira nem no apetitoso tropeirão de quinta — pratos que tão bem abrem o apetite para a mal passada picanha do churrasco de domingo... Para que viver, então, senão para desfrutar de todas essas maravilhas da vida?

A única boa notícia que encontrei na tal pesquisa é que, dentre as mulheres ouvidas, 43% disseram que fariam sexo com alguém sem envolvimento afetivo. Ufa: há ainda esperança, por assim dizer. Azar o meu, que só ando trombando com as que pertencem aos outros 57%. Mas dá-se um jeito. Disposição para procurar é o que não me falta.

Como eu não poderia deixar de escrever a parte burocrática desta matéria — atento, é claro, às modernas (sic) técnicas de jornalismo aprendidas na universidade — a pesquisa foi realizada em dez capitais brasileiras com 8.200 pessoas maiores de idade que não gostam de sexo. A responsável pelo estudo é a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Disse ela sobre a pesquisa, para os veículos de comunicação replicarem, eufóricos, em massa: “Eu diria que os homens fazem sexo para se sentirem bem e que as mulheres precisam se sentir bem para fazer sexo”. Se por um lado a afirmação não traz novidade alguma para quem já se acostumou a ouvir o tradicional “estou com dor de cabeça” noturno, por outro a frase de efeito ficou um primor só.

Por fim, levando em conta essa pesquisa, pode-se deduzir que mulher, no frigir dos (meus? Seus? Nossos?) ovos, não gosta de transar. Antes da cama, a sua lista de prioridades contempla “alimentação saudável”, “convívio com a família”, “horas de sono”, “trabalhar no que gosta”, “cuidados com a saúde”, “convívio social” e “atividades culturais”. Ou seja: as mulheres transam, na verdade, para terem filhos, para não perder o homem para a amante ou porque, na ocasião que o parceiro propõe um rala-e-rola, elas estão: enjoadas de sanduíche natural; brigadas com os parentes; com insônia; de férias; com o plano de saúde vencido; cansadas dos amigos e tristes porque a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança acabou. É, meu amigo: torça, mas torça muito para perceber e conseguir aproveitar esse dia tão raro e especial na vida de sua mulher. Ou então, comece a pensar na possibilidade de se tornar um seminarista. Afinal, celibato por celibato, é melhor ficar longe da tentação para não sofrer, não é não?

É: pensando bem, não."

Comentei assim:
"Acho que essa pesquisa só vem a provar que o homem brasileiro é uma bosta na cama...
E se é para fazer mal-feito, melhor nem fazer.
Mas, pensando bem, essas pesquisas [que são legião, na imprensa pelo menos] é que são um primor do mal-feito. E um mal-feito previsível, ainda por cima, já que elas, ou dizem o que todo mundo ja sabe, tipo "comer muito bacon engorda" ou "timidos preferem nao falar em publico"; ou fazem associações estapafúrdias, tipo "quem come as unhas antes do jantar assiste mais horas de televisao educativa" ou "mulheres que usam meias verdes se aposentam mais cedo".
Alias é uma pena que Carmita Abdo não compartilhe da opinião de que se é para fazer mal-feito, melhor nem começar; porque então ela teria um bom motivo para NÃO fazer mais uma pesquisa porca de encher nota de meio de jornal de dia de semana.
E também gostaria de saber quem é que não mentiria numa pesquisa estúpida dessas. Eu certamente inventaria um monte de lorotas absurdas [ex: faço séquiço 13 vezes por dia, sempre antes do Jornal Nacional] ou um nonsense comparável como "eu me sinto mulher para fazer bem e me sinto sexo para fazer homem". Mas essa pesquisa parece que nem para isso serviria, porque pelo jeito era de múltipla escolha, ou, em outras palavras, só permitia como resposta as mentiras e idiotices mais convencionais."

Gostaria de ter assinado meu comment como "Zuleide".

Wednesday, January 21, 2009

Contos 2: Trecho Sensacional de "Axolotl" de Cortázar


Foi assim, com a graça de San Julio Cortázar, o Grande, que foi inventada a transmutação de voz narrativa, do corpo de personagem-gente para o corpo de um personagem-anfíbio:

"Mi cara estaba pegada al vidrio del acuario, mis ojos trataban una vez mas de penetrar el misterio de esos ojos de oro sin iris y sin pupila. Veía de muy cerca la cara de una axolotl inmóvil junto al vidrio. Sin transición, sin sorpresa, vi mi cara contra el vidrio, en vez del axolotl vi me cara contra el vidrio, la vi fuera del acuario, la vi del otro lado del vidrio. Entonces mi cara se apartó y yo comprendí.
Sólo una cosa era extraña: seguir pensando como antes, saber. Darme cuenta de eso fue en el primer momento como el horror del enterrado vivo que despierta a su destino. Afuera mi cara volvía a acercarse al vidrio, veía mi boca de labios apretados por el esfuerzo de comprender a los axolotl. Yo era un axolotl y sabía ahora instantáneamente que ninguna comprensión era posible. El estaba fuera del acuario su pensamiento era un pensamiento fuera del acuario. Conociéndolo siendo él mismo, yo era un axolotl y estaba en mi mundo. El horror venía -lo supe en el mismo momento- de creerme prisionero en un cuerpo de axolotl, transmigrado a él con mi pensamiento de hombre, enterrado vivo en un axolotl, condenado a moverme lúcidamente entre criaturas insensibles. Pero aquello cesó cuando una pata vino a rozarme la cara, cuando moviéndome apenas a un lado vi a un axolotl junto a mi que me miraba, y supe que también él sabía, sin comunicación posible pero tan claramente. O yo estaba también en él, o todos nosotros pensábamos como un hombre, incapaces de expresión, limitados al resplandor dorado de nuestros ojos que miraban la cara del hombre pegada al acuario."

Curta e Fina

¿El mundo tiene remedio?
–El mundo está vivo y nada vivo tiene remedio y ésa es nuestra suerte.

Monday, January 19, 2009

Reformas Ortográficas

Eu também estranho as mudanças na ortografia e tenho preguiça de reaprender as regras [ainda escrevo como antes]. Mas esse auê todo, esse mal-humor todo com mais essa reforma, me fez recolher alguns exemplos de passados às vezes bem recentes para dar uma certa perspectiva aos rabugentos de plantão.

1. Até o começo dos anos 70 a gente acentuava as coisas assim em português brasileiro:
Sàbiamente êle fôra embora mais cedo mas ela sòmente estranhou a côr do envelope.
O cafèzinho estava bem prêto.

2. Já lá pelos anos 1940 a gente escrevia assim:
Com o irmão prêso há três annos e o triumpho dos inimigos, a familia estava anniquilada.
A commoção della e seu instincto de sobrevivência o fizeram fugir.
Era vivissima a lembrança dos ruidos do quarto.

3. Por outro lado, bem mais atrás, no século XVII, não havia ainda homogeneidade. Uns escreviam assim:

Toda a orthographia consiste em escrevermos, assi como
pronunciamos; & assi hemos de pronunciar, como escrevemos

Enquanto outros escreviam assim:

...a primeira regra da orthographia Portuguesa: que assi hemos de screuer, como
pronunciamos, & assi hemos de pronunciar como screuemos

Já deu para perceber que nossos amados acentos e hífens pelos quais andam derramando baldes de lágrimas por aí não são antigos assim. E é fácil bem imaginar algum indignados colunistas de jornal de antanho tenham execrado a idéia nefasta de por um acento agudo em idéia.

Sunday, January 18, 2009

Conto 2 - Borges y yo

Além de "A quinta história", inclui outros quatro contos curtos que lidavam também com o escrever. Um deles era "Borges y yo", que trata da dupla vida [pública e privada] que de certa forma quase todo mundo tem, mas que num escritor famoso torna-se um problema mais agudo. O conto, de uma única página, abre assim:

"Al otro, a Borges, es a quien le ocurren las cosas. Yo camino por Buenos Aires y me demoro, acaso ya mecánicamente, para mirar el arco de un zaguán y la puerta cancel; de Borges tengo noticias por el correo y veo su nombre en una terna de profesores o en un diccionario biográfico."

E termina descrevendo as mudanças de temática na carreira do contista como uma tentativa de livrar-se da tal outra figura:

"Hace años yo traté de librarme de él y pasé de las mitologias del arrabal a los juegos con el tiempo y con to infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendré que idear otras cosas. Asi mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro."

Mas arremata com um parágrafo curto decisivo:

"No sé cuál de los dos escribe esta página."

Lembrei-me de um texto que li recentemente sobre a diferença entre "naked" [pelado] e "nude" [desnudo]. O primeiro um estado que prescinde da pose, da consciência de estar sendo observado. 99.999999999% de todas as fotografias e pinturas rodando o mundo são obviamente de gente desnuda e não pelada. Pensei que Borges está de forma extremamente sucinta falando dos dois estados e finalmente confessando que está diferenciação já não tem a clareza que parece no princípio.

Friday, January 16, 2009

Contos 1 - A quinta história

Enquanto as pessoas no Brasil vão à praia e tiram férias, eu estou trabalhando a pleno vapor com um semestre novo e -18ºC lá fora...

Como estou dando um curso sobre o conto latino-americano, aproveito para fazer uma série nova.

Esqueçam a tietagem absurda e leiam qualquer coisa de Clarice Lispector como se ela fosse um escritor qualquer. Nada de divina bruxa, de maga maravilhosa, de deusa do mistério; só uma escritora de carne e osso e sua obra. Acredite, esse é um favor que você presta à obra dela e a você mesmo. Clarice é uma escritora muito corajosa no sentido do que disse o Bolaño no meu post passado, mas coragem só não basta. Clarice Lispector escreve com uma precisão impressionante. O conto "A quinta história" e bem curto; mal completa um par de páginas. O mesmo enredo trivial das baratas no apartamento é contado cinco vezes - a primeira em sumárias duas linhas que se atém aos fatos e acentua a aparente banalidade do evento e depois três versões cada vez mais intensas. Cá estamos chegando ao final do conto, no final da quarta versão - e a quinta é só um título quase que non-sense - e lemos isso aqui:

"Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem 'adeus', e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: 'Esta casa foi dedetizada'."

Nada da vida pessoal da narradora em primeira pessoa além do episódio específico tinha aparecido, nem sequer a mais oblíqua menção. Não sabemos quantos anos a narradora/personagem tem, se mora sozinha, se é solteira ou casada, se trabalha, se tem filhos [a versão em inglês, com os adjetivos sem marca de gênero, não dão nem sequer um indício concreto de que ela seja mulher]. E de repente essa bomba de três linhas, tão enigmática e ao mesmo tempo tão incisiva. Alguém aí já se encontrou nessa situação terrível de ter que escolher entre "eu ou a minha alma"? Como diz um personagem de outro livro de outro escritor que também tem lugar cativo no meu coração: "más te vale" [em espanhol].

Thursday, January 15, 2009

Uma gotícula de teoria: correr riscos em literatura

Encontrei um trecho de entrevista de Bolaño em que ele fala sobre a idéia de correr riscos em literatura, articulando o formal e o que ele chama de ético, deixando claro que o formalismo que podemos chamar de experimental pode ser a mais chata e previsível das literaturas justamente pelo seu vazio, por propor uma forma sem assumir qualquer tipo de risco no campo da relação entre arte e experiência, entre arte e vida. Bom, pelo menos essa é a interpretação que eu dei ao trecho...

n.enc
..
"Cuando hablo de riesgos formales no me limito a lo que comúnmente se llama literatura experimental. Tampoco estoy pensando en lo que se suele designar como literatura aburrida. La literatura aburrida, precisamente, es la que no asume riesgos. Y los riesgos, en literatura, son de orden ético, básicamente ético, pero no pueden expresarse si no se asume un riesgo formal".
... "De hecho, en todos los ámbitos de la vida la ética no puede expresarse sin la asunción previa de un riesgo formal".

Tuesday, January 13, 2009

Gillian Welch and David Rawlings

Gillian Welch and David Rawlings fazem música caipira americana de montanha, típica do norte montanhoso e extemamente pobre da região sul dos EUA, sul que é aliás o berço de quase tudo que presta em cultura popular americana. Fazem esse tipo de música sem espírito "conservacionista" que quer "preservar" [em formol] o estilo, muito menos nem o espírito "mudernizador" [com u mesmo], que significa basicamente passar gel no cabelo, usar um terninho e uma montanha de sintetizadores cafonas. A idéia desses dois é outra; é fazer essa Mountain Music acreditando no potencial que ela tem, sem pensar que ela precisa ser "resgatada" ou pasteurizada. Deixo aqui o link de uma das melhores canções deles, uma "Murder Ballad", que sempre tem uma letra comprida contando uma história, sempre a história de um assassinato. Reconheço que muita gente torceria o nariz, mas só por fugir do quarteto onipresente das FM [cama, ama, dor, amor] já merece uma chance [Clique no link do título abaixo para ouvir/ver os dois tocando essa canção ao vivo]

Caleb Meyer
Caleb Meyer, he lived alone
In them hollerin' pines
Then he made a little whiskey for himself
Said it helped pass the time

Long one evening in back of my house,
Caleb come around
And he called my name 'til I went out
with no one else around

Caleb Meyer, your ghost is gonna
wear them rattlin' chains.
but when I go to sleep at night,
Don't you call my name

Where's your husband, Nellie Kane
Where's your darlin gone?
Did he go down off the mountain side
and leave you all alone?

Yes, my husband's gone to Bowlin' Green
to do some business there.
Then Caleb threw that bottle down
and grabbed me by my hair.

Caleb Meyer, your ghost is gonna
wear them rattlin' chains.
but when I go to sleep at night,
Don't you call my name


He threw me in the needle bed,
across my dress he lay
then he pinned my hands above my head
and I commenced to pray.

I cried My God, I am your child
send your angels down
Then feelin' with my fingertips,
the bottle neck I found

I drew that glass across his neck
as fine as any blade,
and I felt his blood pour fast and hot
around me where I laid.

Caleb Meyer, your ghost is gonna
wear them rattlin' chains.
But when I go to sleep at night,
Don't you call my name

Caleb Meyer, your ghost is gonna
wear them rattlin' chains.
But when I go to sleep at night,
Don't you call my name

Monday, January 12, 2009

Oliver Sacks - Musicofilia

Para tentar ler alguma coisa por pura diversão resolvi pegar um audio-livro [em um punhado de CDs] e colocar no i-pod de Letícia e "escutar" um livro nos momentos em que caminho sozinho [geralmente depois de deixar meu filho na escola]. O livro que escolhi foi Musicophilia de Oliver Sacks - já tinha lido "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu" no meu curso de graduação. Oliver Sacks é neurologista mas escreve muito bem, seus casos médicos são verdadeiros contos. Retardados que sabem de cor as melodias e harmonias de mais de 200 óperas, um sujeito que é atingido por um raio e fica absolutamente louco com música, um músico que sofre um derrame e não consegue mais reconhecer um piano afinado de um completamente desafinado, etc. No livro ele se concentra na audição, particularmente a relação que nós humanos temos com a mais abstrata das artes.

Sunday, January 11, 2009

Recomendação

Suave Coisa [http://quelevequenada.blogspot.com/] da Mariana é um blogue de poesia muito bom. Eis um exmplo da poesia que se encontra lá:

afinação
há que se aprender a tirar silêncio
das coisas

quando uma coisa produz silêncio
ela está
pronta

Thursday, January 08, 2009

Insensatez

Muita gente tende a achar traduções ou versões ou adaptações sempre piores que o original. Eu discordo e dou um exemplo. Vinícius de Morais escreveu a letra de Insensatez, mas a versão em inglês é melhor. Deixo as duas aqui e depois me explico em outro post:

Insensatez
Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado

Ah, por que você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade

Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado

How insensitive
I must have seemed
When she told me that she loved me
How unmoved and cold
I must have seemed
When she told me so sincerely
Why she must have asked
Did I just turn and stare in icy silence
What was I to say?
What can you say
When a love affair is over?

Why she must have asked
Did I just turn and stare in icy silence
What was I to say?
What can you say
When a love affair is over?

So now she's gone away
And I'm alone
With a memory of her last look
Vague and drawn and sad
I see it still
All the heartbreak in her last look
How she must have asked,
Could I just turn and stare in icy silence
What was I to do?
What can one do
When a love affair is over?

Wednesday, January 07, 2009

Um poema meu - Mash-up de "Morte sem fim"

Mash-up 5: Morte sem fim


¡Hazme, Señor,
Un puerto en las orillas de este mar!



Eis o meu poema,
pesadelo surdo
da carne, que queima,
punciona, rói, sangra.

Flor que se abre pra dentro,
estéril, cheia
de mim, repetindo; presa
na epiderme que me define,
cheia de mim.

Eu, seco como a sede do gesso,
padecendo a fome do ar que respira,
por um Deus inalcançável,
rancor da molécula.

Pântano de espelhos,
solidão em chamas.
Surdo pesadelo da carne.
Ilhas de monólogos sem eco.
Topo dum tempo paralítico.

Ínfimo do olho
que segue o curso da luz
pela pele da gota de orvalho.

Flor que se abre para dentro,
afogada n’água
estrangulada no copo.

Poema que se afoga na garganta –
Resta o poço ainda ressecado,
esgar de agonia:
o poema.

Obs. Mash-up, um termo emprestado da música, é basicamente um processo de edição em que se combinam a voz de uma canção e o acompanhamento instrumental de outra canção completamente diferente, ajustando-se tom e andamento da segunda, para a criação do que podemos considerar quase uma terceira canção. Muerte sin fin é um livro/poema de José Gorostiza.

Tuesday, January 06, 2009

Por que Bolaño?

Eu me prometi não sucumbir a esse tipo de prosa raivosa, mas às vezes eu não resisto. Perguntaram recentemente a um técnico português se um dos seus jogadores brasileiros poderia se transferir para um clube brasileiro. O tal patrício demonstrou espanto incrédulo com a pergunta e arrematou: “No Brasil, só se vai passar férias". Essa pérola, simultaneamente lusitana e futebolística, me fez pensar numa explicação para as pessoas no primeiro mundo se sentirem tão à vontade com a literatura de “latinoamericana” de Bolaño de 2666: é porque os personagens de Bolaño em geral [mas nem sempre] vivem se deslocando, viajando, imigrando, fugindo, sendo deportados, se extraviando, etc. E um latino-americano é, no imaginário do habitante do primeiro-mundo, um ser em permanente deslocamento.
Para essas pessoas um latino-americano só existe concretamente, só tem interesse efetivo, quando está fora da América Latina, preferivelmente em caráter permanente. Isso porque a América Latina [e o teceiro mundo em geral] é transformada pela fértil e perversa imaginação dessas pessoas em um estranho lugar que é ou um eterno paraíso tropical de férias, ou uma aldeia meio abandonada onde uns velhinhos meio gagás esperando seus filhos e netos voltarem para uma última visita, ou um inferno tipo Heart of Darkness, onde as pessoas se matam como escovam os dentes quando têm dentes ou trocam os sapatos quando não vivem descalças. Essa gente com quem eu convivo bem de perto são o que a minha sábia e irônica professora Candace Waid chamava de “provincianos urbanos”: cosmopolitas de araque de Nova Iorque que ficam discutindo na New Yorker sobre o tempero do cachorro quente de não sei qual esquina de Manhattan e acham que o mundo inteiro, ou, pelo menos, aquela parte do mundo que vale a pena se interessar, necessariamente passa em desfile pela porta da sua casa, ou no MoMa ou no BAM ou nos cinemas ou nos festivais da cidade. Esse tipo de provincianismo, diga-se de passagem, não é privilégio do primeiro mundo, podendo se manifestar em São Paulo, Rio de Janeiro, e até Belo Horizonte. E, voltando à vaca fria, passei hoje da página número 1000 de 2666 e Bolaño é mesmo um grande escritor e não tem nada a ver com isso.

Monday, January 05, 2009

Borges de novo

17 de dezembro de 1964
Jornalista: Qual é a mensagem da sua obra?
Borges: Eu não sou mensageiro.