Tuesday, April 29, 2008

O cavalo morto de Cecília Meireles

Cecília Meireles é um pouco como Guimarães Rosa, uma grande artista brasileira que precisa ser resgatada de um equívoco crítico que vai se repetindo em um eco meio irrefletido e acaba tornando algo aparente e claro em um mistério que ninguém vê. O poema abaixo é exemplo de que Cecília não é essa passadista meio morna que os manuais escolares de literatura querem projetar. O cavalo desse contundente poema faz companhia na minha imaginação ao cavalo morto de um romance de Faulkner [As I Lay Dying], aos cavalos mortos do filme de Buñuel & Dalí [Le chien andalou] e ao terrível genocídio eqüino de Grande Sertão: Veredas.

O cavalo morto
Vi a névoa da madrugada
deslizar seus gestos de prata,
mover densidades de opala
naquele pórtico de sono.

Na fronteira havia um cavalo morto.

Grãos de cristal rolavam pelo
seu flanco nítido; e algum vento
torcia-lhes as crinas, pequeno,
leve arabesco, triste adorno,

- e movia a cauda ao cavalo morto.

As estrelas ainda viviam
e ainda não eram nascidas
ah ! as flores daquele dia ...
- mas era um canteiro o seu corpo:

um jardim de lírios, o cavalo morto.

Muitos viajantes contemplaram
a fluida música, a orvalhada
das grandes moscas de esmeralda
chegando em rumoroso jorro.

Adernava triste, o cavalo morto.

E viam-se uns cavalos vivos,
altos como esbeltos navios,
galopando nos ares finos,
com felizes perfis de sonho.

Branco e verde via-se o cavalo morto,

no campo enorme e sem recurso,
- e devagar girava o mundo
entre as suas pestanas, turvo
como em luas de espelho roxo.

Dava sol nos dentes do cavalo morto.

Mas todos tinham muita pressa,
e não sentiram como a terra
procurava, de légua em légua,
o ágil, o imenso, o etéreo sopro
que faltava àquele arcabouço.

Tão pesado, o peito do cavalo morto !

Monday, April 28, 2008

No meio da tempestade

Às vezes as coisas acontecem assim e nem toda a calma nem todo o amor nem toda a paciência do mundo são suficientes para navegar aqui nesse mar revolto. Então eu penso em como era antes: como eu ficava quieto, parado, olhando para uma parede qualquer esperando a tempestade passar, paralisado, incapaz de um gesto de reação, com medo da raiva que era a minha única língua, a única que eu conhecia. A única coisa que eu queria naqueles vários momentos em que a tempestade entrava pela casa adentro [foram tantas vezes] mesmo com todas as portas e janelas hermeticamente fechadas era morrer. Mas eu não quero mais morrer. Eu já morri demais. Eu já cansei de morrer. Eu ainda tenho medo tanto quanto eu tinha medo antes, talvez até pior agora, cada vez pior porque cada vez há mais a se perder do que antes. Mas agora eu quero: o livro do Matisse, um i-pod com todas as músicas do Portishead e do Radiohead, uma pasta de couro para o computador, muitas outras coisas eu quero e não quero nada para mim. Quero as palavras para servir à expressão da minha observação, da minha sensibilidade, da minha experiência, da minha memória, em um monte de outros que não existem, que eu criei do nada e que são tudo o que eu não sou. Observação, a sensibilidade, a experiência, a memória – sem chegar ao segundo passo, mortal: aquilo que transforma observação, sensibilidade, experiência e memória numa coisa morta, separada da vida, do sangue, da respiração; completamente separada da vida por medo da morte, que contradição! Mais uma contradição humana: transcender a vida com o poder da abstração que mata qualquer coisa em que toca para quê? Não sei se o ser humano é antes de qualquer coisa um ser amoroso ou um ser medroso; talvez seja as duas coisas e daí tantos paradoxos na vida humana – fêmea lambendo a cria recém nascida e hiena rindo nervosa à espera de mais uma quase carcaça. A fêmea lambendo a cria amando com a pureza de quem não ama as coisas e não os nomes que substituem as coisas. A hiena que não mata de uma vez porque quer saborear na carne alheia o medo do animal que se desespera com a chegada da morte que ainda não veio, mas que vem [e que morte é essa que não vem?]. Amar e ter medo me puxam para a frente e para trás o tempo todo, me fazem caminhar e me fazem fincar os pés no chão. Mas as coisas acontecem à revelia do nosso amor e da nossa covardia, à revelia da nossa vontade de caminhar ou de empacar contra tudo e todos. As coisas acontecem. Não param de acontecer. Mesmo quando tudo parece imóvel no meio do gelo e da neve do meio do inverno ou no calor mais parado do meio do verão as coisas continuam acontecendo. Mesmo assim os relógios dentro dos nossos corpos continuam correndo aqui dentro. Esses rios subterrâneos que falam de morte e outras coisas terríveis ou maravilhosas não param de fluir, eles correm para atar as duas pontas da vida [concepção e morte], nos pedindo um minuto de silêncio por dia. Silêncio eu faço, então, em homenagem aos rios subterrâneos que correm no fundo de mim mesmo, mesmo nos dias mais calmos – e hoje não é um dia dos mais calmos. Silêncio absoluto em homenagem à essa correnteza. Silencio profundo como os rios subterrâneos que correm fundo dentro do meu corpo e me preparam para o fim, esse fim que não passa de uma comunhão profunda com o mundo. Morrer é derreter-se no mundo. Fazer parte do mundo, dissolver-se na terra, na boca dos vermes, ser parte da terra, dos animaizinhos mais mesquinhos, os vermes cegos e mudos que comem, defecam, se reproduzem e comem, defecam e reproduzem no escuro absoluto da terra quente e úmida. Porque às vezes as coisas acontecem assim e nem toda a calma nem todo o amor nem toda a paciência do mundo são suficientes para navegar aqui nesse mar revolto. Então agora eu fecho os olhos e enfrento a tempestade sem medo de morrer. Morrer mais uma vez, mas dessa vez sem medo. Esse é o meu destino, que seja assim. Mas desespero, não. Desespero é o mais agudo afastamento de Deus.

Saturday, April 26, 2008

Genios da Critica Nacional 2

De doer esse:
"Li setenta páginas do Grande Sertão Veredas. Não pude ir adiante. A essa altura, o livro começou a me parecer uma história de cangaço contada para linguistas."

Thursday, April 24, 2008

Nova Série: Gênios da crítica

Um doce para quem adivinhar quem, nos anos 40, criticou a “monotonia” de Sagarana e disse que Guimarães Rosa “fracassaria no romance.”

Saturday, April 19, 2008

Fratura Exposta


Calavera Oaxaqueña [1910]
José Guadalupe Posada [1852-1913]




Faustus: Where are you damn’d?
Mephistophilis: In Hell.
Faustus: How comes it then that thou art out of hell?
Mephistophilis: Why this is hell, nor am I out of it.

Pobre esqueleto enterrado
completamente dentro em mim,
sonha em ser livre um dia.
Inocente osso não sabe
que a morte não leva a nada:
o corpo remando para o chão,
mera mudança de cela.

Tuesday, April 15, 2008

Rigoroso...

Acho que muito frequentemente quem diz “rigor” está dando um outro nome para “austero” e é uma escolha infeliz [e nada rigorosa]. As 600 páginas de Grande Sertão: Veredas são produto de um processo criativo rigoroso, mas nada austero. A poesia pode ser [para usar rótulos cansados mas ainda muito em voga] "rigorosa" ou "caudalosa", “sucinta” ou “exuberante” – isso não implica de forma alguma em boa ou má poesia. As pessoas têm mania de substituir as sutilezas de um julgamento estético por uma saída mais fácil, que possibilita aparentar uma opinião própria com o menor esforço possível e passar uma sentença sumária com relação às caracteristicas mais aparentes do estilo de alguém, sem perceber que não é tanto nas escolhas, mas no que fazem com essas escolhas, que os poetas [ou prosadores] são melhores ou piores. Não dá para ficar, em pleno século XXI, discutindo estética à moda dos manifestos vanguardistas que, por exemplo, condenavam à morte do limbo da história das formas o verso. Adélia Prado e João Cabral são bons poetas; qual é o melhor dos dois não se define pela “austeridade” mas pela maneira como eles exploram as possibilidades e os limites dentro das escolhas que talvez sejam expressão de um temperamento mais que tudo.

Para o pior aniversário de toda a minha vida

Não desista agora, amigo:
Pinte um sorriso
Tape os buracos do rosto
Olhos fixos sempre à frente
O coração batendo, fixo,
preso dentro das costelas
Alguma coisa ainda há de faltar
Sempre

Mas por mais que eu reconheça
Por mais que eu saiba que é assim mesmo
Porque é que não pára de doer?

Aí fora e aqui dentro
Porque é que não pára de doer?
Você abaixa e pega um pacote
e cai o outro no chão
rasga o saco cai o copo se espatifa
Tonto os joelhos doem as costas
racha o dente rói a pele
cada nova doença é sempre crônica
nenhuma das minhas cruzes vai embora
Quando é que você ficou assim tão velho?
Como é que você perdeu sua casa
E não ganhou nada em troca?

Os grandes nomes famosos veneráveis mitos
Chefes supremos de todos os meus destinos
Cheios de medalgas e títulos e becas e distintivos
Nessa terra fria estranha podre até a raiz mais profunda
São um bando de egos ridículos
Incapazes de não se levarem à sério
exibindo como perus vaidosos
seus rabinhos listrados de cinza
em volta do círculo de giz
bêbados sedentos por fazer pagar em dobro
os sofrimentos por que passaram
quando ainda tinham algo a dizer
quando ainda tinham sangue vivo nas veias
é esse o meu mundo?

Monday, April 14, 2008

Diario de um imigrante como se enquadrar "sem traumas"

Como se enquadrar:
Primeiro, pratique o aspecto passivo, que é o mais fácil e o mais importante, do enquadramento social de um estrangeiro ao seu novo país. Observe sempre os nativos e expresse um determinado sentimento [indignação, medo, alegria, tristeza, etc.] apenas quando eles assim se expressarem e da maneira como eles se expressam. Um pequeno atraso entre o início do seu sorriso e o dos nativos à sua volta nunca será percebido por eles, mas um sorriso diferente do deles ou um sorriso dado no momento errado denuncia seu estatuto de forasteiro imediatamente. Não se preocupe com o conteúdo de cada gesto que vê; isso não tem a menor importância. Não queira saber porque sorrir naquele exato momento, nem o que aquele sorriso expressa além de demonstrar concretamente a normalidade dentro daquele grupo. É a forma, a forma como eles sorriem, que nos importa aqui. Não mostre os dentes além da conta, não emita sons diferentes, não feche os olhos se eles não fecham os deles, mexa a cabeça ou as mãos ou qualquer outra parte do corpo exatamente como eles o fazem, nem mais nem menos. É inútil perguntar porque eles fazem as coisas desse jeito e impossível saber exatamente o seu significado. Concentre-se na pura superfície das coisas, porque o conteúdo que vive escondido em cada gesto misterioso de um país estranho acaba nos distraindo do que é realmente importante. A normalidade se manifesta aos normais sempre pela transparência, ela só se faz notar precisamente quando não está presente. Ninguém pensa na normalidade além do estrangeiro, que depende dela para se adaptar. Os nativos só pensam na anormalidade irritante dos imigrantes que insistem em aparecer aqui e ali, manchando a ordem das coisas. Vista-se como eles, os nativos, nos mínimos detalhes, sem se esquecer de meias, bonés, adereços, etc. Observe e reproduza todos os seus hábitos, mesmos que eles lhe pareçam sem sentido. Acompanhe atento o noticiário local e procure repetir as frases feitas das primeiras páginas dos jornais, das capas das revistas e dos programas de televisão, inserindo-as nas suas falas, se possível do mesmo jeito que os nativos. Sua opinião de fato a respeito de qualquer coisa não tem a menor importância nesse processo de enquadramento e sempre que suas idéias e opiniões romperem com a normalidade, você atrairá terríveis olhares de estranhamento e até repulsa, nunca de surpresa grata ou admiração e se isso acontecer com freqüência os nativos nunca o aceitarão como um igual, ou mesmo como um companheiro. 99% das pessoas vivem imersas o tempo inteiro na normalidade do seu ambiente cultural e o conceito de novidade dentro dessa normalidade está ligado a um jogo de regras fixas com um conjunto fechado de elementos e de uma combinação nova desses elementos. Se você pensar por si mesmo vai acabar trazendo elementos de fora que causarão um estranhamento que os nativos certamente rejeitarão e não perdoarão nunca. Nunca.

Saturday, April 12, 2008

O poema desliza em si mesmo como um cubo de gelo numa chapa quente

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

O medo amargava o cabo da língua
em Barbacena os loucos desencarnavam
dentro de barris cheios de ácido
detalhando o podre do são
e os ossos abasteciam os mostruários
das escolas de medicina onde se aprendia
a autopsiar fugas e atropelamentos impossíveis.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Gostava dele quando eu fechava os olhos,
na língua sem palavras que trago comigo,
e era tudo um imenso domingo universal.
O calor em que o cão pendura a língua
segurava meu coração pelo rabo
na linha de resguardo,
mas não parava o tempo.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Atrás de sorte e morte
as ruas fermentavam restos de urina e cerveja quente
mas o patrimônio específico dos corações inferiores
como o meu é o ressentimento,
canoão no seco, trem de doido,
pronto para me levar para Barbacena,
oco sem beiras,
parar de ser.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Quando a gente se acostuma com esse vendaval
só se ouve o silêncio que existe em toda a solidão.
Cai o parasita, fica o tronco morto,
imagem do desconsolo.
A seleção natural, o equilíbrio das espécies
para mim é o horror do mundo.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.

Em nome de nada, em nome de ninguém, sem nenhum sonho,
eu como o poema e não o seu nome;
sem ternura, sem a paixão da piedade, sem saudade,
fome que nasce quando a boca está perto da comida,
o poema limpo do retorcido desejo humano,
existindo como é.

O poema desliza em si mesmo
como um cubo de gelo
numa chapa quente.


[Esse poema ainda não está acabado, mas solto ele assim mesmo. A internet é uma maravilha, uma dura lição, para nos dar a exata noção da solidão de escrever para ninguém, mas eu me recuso a desistir]

Wednesday, April 09, 2008

Eleições e ilusões primárias

Nessas manifestações de entusiasmo pela campanha nas primárias americanas, acompanhada por uma certa indiferença pelas eleições municipais no Brasil, a gente vai também revelando a mesma inocência [ou será mesmo hipocrisia?] com que geralmente analisamos a vida política aqui ou lá. Vou me explicar melhor: o Brasil elegeu por duas vezes Lula com votações consagradoras [depositando nessas vitórias grandes esperanças de mudanças significativas] e, ao mesmo tempo, elegeu um congresso com clara maioria conservadora e fisiológica nas duas casas – basicamente o mesmo congresso com o qual FHC teve que governar. E depois ficamos todos decepcionados, reclamando por aí dos "conchavos" e "concessões" e "traições" ao projeto que o presidente da república representaria. Mas como governar com esse congresso sem concessões substanciais? Será que as tentativas de “cooptação” [leia-se: compra] de grupos descaradamente fisiológicos são fruto de mera vontade de perversão moral e “desejo obsessivo pelo poder”? Como seria um governo em que o PT tivesse um número de deputados no congresso proporcional aos de Lula? Esse voluntarismo grandiloqüente que imagina uma espécie de presidência imperial que resolve tudo por decreto só pode mesmo dar em amargura [hipócrita ou sincera]. E voltando aos Estados Unidos: que congresso e que judiciário vão acompanhar um hipótetico Obama presidente? Pouca gente parece disposta a reconhecer que a luta política não se restringe às eleições por cargos executivos e não acaba no dia da votação.

Tuesday, April 08, 2008

Porque só ler literatura brasileira na escola?

Acho um absurdo esse monopólio absoluto da literatura brasileira nas escolas e no vestibular. Parece coisa de um tempo em que nosso complexo de inferioridade queria evitar de qualquer forma a comparação com os grandes mestres da Europa para que as nossas supostas "fragilidades" não ficassem mais claras. A literatura brasileira não precisa e não deve temer a comparação com nenhuma outra. Não seria maravilhoso ler juntos Eça e Machado, Cruz e Souza e Camilo Pessanha, Drummond e Fernando Pessoa? Ler juntos Borges e Guimarães Rosa, Rulfo e Graciliano Ramos, Clarice e Cortázar, que tal? Uma das coisas mais difíceis para mim é explicar a um falante de língua inglesa que na nossa universidade nós segregamos a literatura em português em dois departamentos completamente diferentes. Para eles dividir Dickens e Edgar Allan Poe em dois departamentos seria algo incompreensível. E nós ainda acusamos [com uma certa razão] os anglo-saxões de tentar compartimentar tudo em guetos. Reservas de Mercado desse tipo podem ser políticas utéis em vários campos da economia, mas no ramo literário… acabamos promovendo uma formação nacionalista no pior sentido dessa palavra: profundamente provinciana, avessa ao novo e ao diferente vistos como estrangeiros. Não somos assim – pecamos hoje em dia muitas vezes pela apreciação deslumbrada de certos autores anglo-saxões que nem estão com essa bola toda - porque nossa formação escolar é quase que completamente inepta. Ou talvez porque o nacionalismo xenófobo e o deslumbramento com o estrangeiro sejam duas faces da mesma moeda: o complexo de inferioridade.

Sunday, April 06, 2008

A Pessoa Bruta - Mautner


Gosto do otimismo do Mautner nessa sua grande canção que vale a pena conhecer [fica a recomendação], mas infelizmente conheço muita gente "pedra bruta" dura demais, que rola pela vida inteira e... nada.

A Pessoa Bruta [Jorge Mautner]
A pessoa bruta não liga pra nuance das coisas
Por onde ela passa ela arrebenta
Pois ela é uma pedra em movimento
Que se move com o tempo e que se movimenta
E a pedra que rola pela vida vai rolando
E ao rolar aos pouquinhos ela se fragmenta
Ela rola e se esfola e vai se erodindo
E vão surgindo grãos de areia a seus pés
Podem chamar isso de experiência de vida
De erosões, iluminações e de axés
Mas eis que de repente quem era a pedra bruta
Virou a própria flor do amor em forma absoluta
Por isso que eu digo que essa vida vai nos levando
E ao levar ela nos leva nos eleva e vai nos transformando
Ê ê ê ê ê ê
Ô ô ô ô ô ô
Eu aprendi a ler no abc do amor
Ê ê ê ê ê ê
Ô ô ô ô ô ô
Pra onde for você é pra lá que eu vou

Thursday, April 03, 2008

Poesia Mexicana - José Emilio Pacheco 1

Nós costumamos nos lamentar da ignorância dos estrangeiros sobre a nossa literatura, sem admitir a nossa ignorância sobre a literatura de certos estrangeiros, aqueles que estão exatamente na nossa mesma situação. Quem é o maior poeta vivo do México? José Emilio Pacheco. E devo dizer, um poeta do mesmo tamanho de grandes poetas mexicanos ou não já mortos. Vou fazer uma série com ele, comecando com dois poemas sobre poesia:

Vidas de los poetas
En la poesía no hay final feliz.
Los poetas acaban
viviendo su locura.
Y son descuartizados como reses
(sucedió con Darío).
O bien los apedrean y terminan
arrojándose al mar o con cristales
de cianuro en la boca.
O muertos de alcoholismo, drogadicción, miseria.
O lo que es peor: poetas oficiales,
amargos pobladores de un sarcófago
llamado Obras completas.
Irás y no volverás, 1973

Manifiesto
Todos somos “poetas de transición”:
La poesía jamás se queda inmóvil.
Irás y no volverás, 1973

Tuesday, April 01, 2008

Eduardo Viotti Leão - Capítulo 7 [final]

A passagem dos cinqüenta para os sessenta anos é uma segunda adolescência. Tudo muda de novo, no corpo e fora dele, rápido demais. Em contraste com o espanto causado pelo corpo em seu implacável movimento interno (músculos, órgãos, ossos, pele e pelos), as muitas mudanças do lado de fora não tinham qualquer sabor, doce ou amargo, de novidade. A vida: o trabalho, as pessoas, boas ou más, continuavam mudando iguais, tudo cada vez mais repetitivo. Até o mesmo sexo transformara-se numa rotina aborrecida. Quantas vezes Eduardo não quis parar no meio do caminho, virar-se para o lado e simplesmente dormir? Pensei melhor, meu bem, e, sinceramente, não vale a pena. Ele e a esposa dormiam em quartos separados há muito tempo, mas com Laura era diferente. No apartamentinho classe média que Laura achava um luxo e ele uma bela porcaria, o que era em tese diversão agora lhe parecia um fardo. Mas, por motivos que Eduardo não saberia explicar, ele continuava a visitá-la metodicamente, duas vezes por semana, no meio da tarde. Na segunda adolescência, as coisas pareciam voltar a acontecer com Eduardo, depois de tanto tempo, sem que ele soubesse explicar, sem que ele pudesse controlar.
E agora o desaparecimento do cofre. A campainha do interfone tocou, ele afastou-se da janela e voltou à sua mesa. Ajeitou a gravata e pelo interfone mandou a secretária fazer entrar o delegado. Soltou um longo suspiro resignado: um problema atrás do outro, a vida. O sujeito resolve um e já fica esperando pelo próximo.
- Boa tarde, Doutor. Lamentável o ocorrido. Vamos fazer de tudo para resolver essa situação o quanto antes. Antes de qualquer coisa eu queria começar reconfirmando com o senhor a quantia exata no cofre... Eduardo interrompe:
- A quantia é a que eu mandei. Ele se impacienta com a cara de espanto aparvalhado do delegado. Ironicamente era cada vez mais difícil tolerar qualquer tipo de incompetência e o mundo ironicamente parecia cada vez mais cheio de imbecis e incapazes de todos os matizes. O delegado ensaia um recomeço:
- Bom, nós estamos completamente empenhados em recuperar o dinheiro e ... Eduardo interrompe de novo:
- Recuperar todo o dinheiro e pegar todos os envolvidos. O delegado tenta retomar seu discurso:
- Claro, prender os criminosos e recuperar o dinheiro todo ou pelo menos parte... Eduardo interrompe mais uma vez:
- Eu quero tudo e quero os criminosos; faço questão. O tom calmo e afável é típico dos que não costumam ser contrariados.
Não era o dinheiro: à essa altura qualquer cofre cheio embaixo de qualquer cama não faria diferença. Mas era preciso ser sensato. Seus colegas o respeitavam, seus subordinados o temiam e amigos e parentes o admiravam pela objetividade fria, mas a sensatez implacável era o seu maior atributo. A sensatez construíra palácios como aquele edifício e casas e fazendas e fábricas e bancos e centros culturais e museus e reformatórios, que levavam o seu nome ou o de alguém da família, mas ela crescia viçosa na lama e na fumaça de barracos empilhados na beira de rios imundos, moendo a carne e os ossos dos mais fracos, impondo sua marca no gado humano que transitava de lá para cá pelas ruas lá embaixo, oferecendo e negando ajuda em troca de poder, sufocando os insatisfeitos e os insubordinados e distribuindo migalhas ou pelo menos esperanças aos mansos e submissos, ditando uma ordem inflexível para as coisas do mundo girando à sua volta.
Com um sorriso limpo escondendo os dentes brancos perfeitamente alinhados e os mesmos olhos claros impenetráveis na moldura fina das sobrancelhas retas ele dirige ao delegado a voz inenfática, impessoal:
- Que fique claro: eu quero os criminosos e o dinheiro, e o mais rápido possível. O que você precisar, você pede a mim e eu lhe forneço pessoalmente: arma, carro, informante, documento, autorização especial, salvo-conduto, contato, qualquer coisa. Não peça nada a ninguém além de mim e me deixe saber do o que acontece da sua boca antes de qualquer outro. Para mim é questão de não abrir precedentes no fundamental, delegado – ele se levanta e estende a mão – obrigado, passar bem. A campainha em surdina soou, a secretária entrou no escritório imediatamente e acompanhou o delegado atordoado até a porta. Eduardo, com os olhos claros, duros, impenetráveis, outra vez perdidos na janela, pensou: Um problema atrás do outro, a vida.