Monday, April 28, 2008

No meio da tempestade

Às vezes as coisas acontecem assim e nem toda a calma nem todo o amor nem toda a paciência do mundo são suficientes para navegar aqui nesse mar revolto. Então eu penso em como era antes: como eu ficava quieto, parado, olhando para uma parede qualquer esperando a tempestade passar, paralisado, incapaz de um gesto de reação, com medo da raiva que era a minha única língua, a única que eu conhecia. A única coisa que eu queria naqueles vários momentos em que a tempestade entrava pela casa adentro [foram tantas vezes] mesmo com todas as portas e janelas hermeticamente fechadas era morrer. Mas eu não quero mais morrer. Eu já morri demais. Eu já cansei de morrer. Eu ainda tenho medo tanto quanto eu tinha medo antes, talvez até pior agora, cada vez pior porque cada vez há mais a se perder do que antes. Mas agora eu quero: o livro do Matisse, um i-pod com todas as músicas do Portishead e do Radiohead, uma pasta de couro para o computador, muitas outras coisas eu quero e não quero nada para mim. Quero as palavras para servir à expressão da minha observação, da minha sensibilidade, da minha experiência, da minha memória, em um monte de outros que não existem, que eu criei do nada e que são tudo o que eu não sou. Observação, a sensibilidade, a experiência, a memória – sem chegar ao segundo passo, mortal: aquilo que transforma observação, sensibilidade, experiência e memória numa coisa morta, separada da vida, do sangue, da respiração; completamente separada da vida por medo da morte, que contradição! Mais uma contradição humana: transcender a vida com o poder da abstração que mata qualquer coisa em que toca para quê? Não sei se o ser humano é antes de qualquer coisa um ser amoroso ou um ser medroso; talvez seja as duas coisas e daí tantos paradoxos na vida humana – fêmea lambendo a cria recém nascida e hiena rindo nervosa à espera de mais uma quase carcaça. A fêmea lambendo a cria amando com a pureza de quem não ama as coisas e não os nomes que substituem as coisas. A hiena que não mata de uma vez porque quer saborear na carne alheia o medo do animal que se desespera com a chegada da morte que ainda não veio, mas que vem [e que morte é essa que não vem?]. Amar e ter medo me puxam para a frente e para trás o tempo todo, me fazem caminhar e me fazem fincar os pés no chão. Mas as coisas acontecem à revelia do nosso amor e da nossa covardia, à revelia da nossa vontade de caminhar ou de empacar contra tudo e todos. As coisas acontecem. Não param de acontecer. Mesmo quando tudo parece imóvel no meio do gelo e da neve do meio do inverno ou no calor mais parado do meio do verão as coisas continuam acontecendo. Mesmo assim os relógios dentro dos nossos corpos continuam correndo aqui dentro. Esses rios subterrâneos que falam de morte e outras coisas terríveis ou maravilhosas não param de fluir, eles correm para atar as duas pontas da vida [concepção e morte], nos pedindo um minuto de silêncio por dia. Silêncio eu faço, então, em homenagem aos rios subterrâneos que correm no fundo de mim mesmo, mesmo nos dias mais calmos – e hoje não é um dia dos mais calmos. Silêncio absoluto em homenagem à essa correnteza. Silencio profundo como os rios subterrâneos que correm fundo dentro do meu corpo e me preparam para o fim, esse fim que não passa de uma comunhão profunda com o mundo. Morrer é derreter-se no mundo. Fazer parte do mundo, dissolver-se na terra, na boca dos vermes, ser parte da terra, dos animaizinhos mais mesquinhos, os vermes cegos e mudos que comem, defecam, se reproduzem e comem, defecam e reproduzem no escuro absoluto da terra quente e úmida. Porque às vezes as coisas acontecem assim e nem toda a calma nem todo o amor nem toda a paciência do mundo são suficientes para navegar aqui nesse mar revolto. Então agora eu fecho os olhos e enfrento a tempestade sem medo de morrer. Morrer mais uma vez, mas dessa vez sem medo. Esse é o meu destino, que seja assim. Mas desespero, não. Desespero é o mais agudo afastamento de Deus.

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