Monday, August 31, 2015

Tempos difíceis: Woolf & Stein

Iris
Virginia Woolf chama o marido Leonard Woolf para entrar e ouvir um discurso de Hitler no rádio. Ele responde que não vai; prefere ficar no jardim. Diz que está plantando íris e elas estarão dando flores muito depois de Hitler morrer.



"A vida é engraçada assim. É sempre engraçada assim, aqueles que deveriam naturalmente oferecer alguma coisa não oferecem, e aqueles que não tem qualquer motivo para oferecê-la, o fazem, você nunca sabe de onde a sua boa sorte pode vir."
Trecho de "Guerras Que Vi" de Gertrude Stein

Monday, August 24, 2015

Sobre o esquecimento

Forgetfulness
Billy Collins
 
 
The name of the author is the first to go
followed obediently by the title, the plot,
the heartbreaking conclusion, the entire novel
which suddenly becomes one you have never read, never even heard of,

as if, one by one, the memories you used to harbor
decided to retire to the southern hemisphere of the brain,
to a little fishing village where there are no phones.

Long ago you kissed the names of the nine muses goodbye
and watched the quadratic equation pack its bag,
and even now as you memorize the order of the planets,

something else is slipping away, a state flower perhaps,
the address of an uncle, the capital of Paraguay.

Whatever it is you are struggling to remember,
it is not poised on the tip of your tongue
or even lurking in some obscure corner of your spleen.

It has floated away down a dark mythological river
whose name begins with an L as far as you can recall

well on your own way to oblivion where you will join those
who have even forgotten how to swim and how to ride a bicycle.

No wonder you rise in the middle of the night
to look up the date of a famous battle in a book on war.
No wonder the moon in the window seems to have drifted   
out of a love poem that you used to know by heart.

Sunday, August 23, 2015

Música: Wise Up de Aimee Mann


Esse devia ser o hino de todos os pobres diabos como eu, que pastam nesse mundo duro e ruim como eu, que volta e meia batem com a cabeça no vidro da janela fechada feito uma mosca idiota como eu, que vivem indo embora e voltando e indo embora procurando uma coisa que não existe em lugar nenhum como eu, que bebem demais e comem demais e suam demais ou morrem de frio e choram demais e dormem de menos e têm medo de tudo até que de repente não têm mais medo de nada. Como eu.

No final do post a versão de estúdio da canção que apareceu no filme Magnólia de Paul Thomas Anderson, que eu coloquei no final do post.



Wise Up
Aimee Mann


It's not what you thought
when you first began it.
You got what you want,
now you can hardly stand it, though
by now you know
It's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
Till you wise up

You're sure there's a cure
And you have finally found it
You think one drink
Will shrink you till you're underground
And living down
But it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
Till you wise up

Prepare a list for what you need
Before you sign away the deed
'Cause it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
Till you wise up

No, it's not going to stop
Till you wise up
No, it's not going to stop
So just give up

Saturday, August 22, 2015

Música: duas versões para "Seven Nation Army"

Seven Nation Army

I'm gonna fight 'em off
A seven nation army couldn't hold me back
They're gonna rip it off
Taking their time right behind my back
And I'm talkin' to myself at night because I can't forget
Back and forth through my mind behind a cigarette

And the message comin' from my eyes says, "Leave it alone."

Don't wanna hear about it
Every single one's got a story to tell
Everyone knows about it
From the queen of England to the hounds of hell
And if I catch it comin' back my way, I'm gonna serve it to you
And that ain't what you want to hear, but that's what I'll do

And the feeling coming from my bones says, "Find a home."

I'm going to Wichita
Far from this opera for evermore
I'm gonna work the straw
Make the sweat drip out of every pore
And I'm bleeding, and I'm bleeding, and I'm bleeding right before the lord
All the words are gonna bleed from me and I will think no more

And the stains comin' from my blood tell me, "Go back home."




E mais uma terceira, em ritmo de ska, feita por Ben l'Oncle Soul e apontada pelo Daniel:

Thursday, August 20, 2015

Fragmentos sobre o filme "Another Year" de Mike Leigh


1. Um roteiro posta bem no centro da história um casal próximo da aposentadoria. Durante as quatro estações do ano o casal é visto cuidando da sua horta num "alotment" [um pequeno pedaço de terra num lote comunitário] perto da casa e depois em casa recebendo amigos e parentes. Mas a verdadeira protagonista do filme, aquela personagem que faz as coisas andarem é uma amiga do trabalho da esposa do casal. Mary, interpretada pela sensacional Lesley Manville é uma mulher de meia idade muito sozinha que gravita em torno do casal Tom e Gerri. Mary está na periferia da vida de Tom e Gerri, o filme está firmemente assentado no mundo desses dois, mas, ainda assim, Mary é a razão de ser do filme. 
Ou seja, Mike Leigh, mais uma vez, fez um filme com um roteiro bastante ousado, mas que, mais uma vez, não grita e anuncia essa ousadia como se ela fosse a razão de ser do filme.  

2.  Ousadia formal que não se transforma em formalismo. Mike Leigh combina um cuidado extremo com a forma com uma certa dureza realista. A câmera/fotografia/luz são extremamente cuidadas, a música sutil intervém sempre a serviço da história sem afogar a tensão emocional da história. As atuações maravilhosas são uma combinação de improviso meticuloso e organicidade profunda. 

3. A personagem Mary de Lesley Manville é uma dessas pessoas que fala sem parar, mas os olhos e o rosto da atriz falam ainda muito mais. Assim, o tempo todo, assistimos o melancólico espetáculo de alguém que olha constantemente para o seu passado cheia de saudades e arrependimentos para não encarar um futuro, que já se descortina e que é para ela desesperador: envelhecimento e solidão para uma mulher presa em sonhos de juventude e romance cada vez mais impossíveis. Em Mary você vê a mulher que ela é, a jovem que ela foi e à qual ela se agarra desesperadamente e a velha que ela morre de medo de se transformar mas na qual ela já está se transformando.  Diz o próprio Leigh:

"Mary is a victim of many things, but mostly the received propaganda that a woman has to be sexy, a woman has to be gorgeous, and it stitched her up for life. She is not liberated, everything that has happened to her is a function of that misguided, received notion." 

Uma atriz capaz de fazer tudo isso num cinema que costuma costuma reservar às mulheres o papel de decoração dos ambientes é um fenômeno para se festejar.

3. O filme também fala com bastante agudeza de algo que a medicina contemporânea insiste em negar: o alcoolismo assim como a depressão, não se explicam simploriamente como frutos de "uma condição genética" e não se "resolvem" com uma pílula qualquer. Alcoolismo e depressão são condições privilegiadas para se falar da dor e do sofrimento humano, nessa interação complexa entre os limites de cada indivíduo e um mundo hostil que castiga sistematicamente a humanidade e premia a estupidez. Logo no começo do filme a também fantástica Imelda Staunton faz uma relutante cliente de terapia que é um retrato de de arrepiar. 


4. Os amigos do casal chamados Mary e Ken e o irmão de Tom chamado Ronnie são retratos dessa tristeza solitária. O filme mostra personagens que são todos, sempre, vítimas e culpados ao mesmo tempo, mas isso não nos incita à indiferença com relação ao sofrimento humano.

Monday, August 17, 2015

Fragmentos: Corpo e Imaginação

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Depois de quase uma década trabalhando nos Estados Unidos, adaptar-se ao sistema de concursos das universidades  brasileiras é um desafio interessante. Enquanto nos Estados Unidos a universidade pede que cada candidato, além do seu currículo, apresente o melhor do seu trabalho, o sistema de pontos de exame exige que a gente saia estudando coisas e tentando construir um discurso articulado sobre assuntos que muitas vezes podem não ser mais que uma nota de rodapé no seu trabalho, quando não menos. Eu vou estudar A e acabo trombando com B ou C, que não tem nada a ver com o exame, mas me interessam muito mais. O resultado é que, entre vários textos curtos que tenho produzido para me preparar, acabo produzindo fragmentos que não servem para nada e que acabam ficando então "às moscas"... 

Eis um deles:

Corpo e Imaginação

Desenho meu: Carnaval
Como Tomás de Aquino, acredito na existência material da alma. Não como uma espécie
de terceiro rim fantasmagórico ou algum espectro misterioso escondido em algum beco escuro do cérebro. A alma está acessível a qualquer um que mantenha seus olhos bem abertos, fixos num corpo vivo. A alma é a forma do corpo, a forma como ele se apresenta aqui e agora, vivo, concreto. A alma é a forma pela qual o corpo se expressa no mundo que ele habita. Essa forma de expressão é única, distinta para cada pedaço de matéria viva que chamamos corpo. Portanto, volto a dizer, a alma está visível para qualquer um que quiser vê-la. Cada animal tem sua alma, sua forma particular de vida. Porque se comunica, porque constrói significado, porque se transforma constantemente, o corpo vivo se diferencia objetos inanimados (o termo significa exatamente sem alma). A alma é o corpo vivo, é a matéria articulada. Não quero ter nada que ver com o materialismo crasso que imagina toda a matéria como um saco de cimento inerte e estúpido. 

Arte minha: To Rent What You Owned
Como Marx, acredito num materialismo sutil que incorpora em si, por exemplo, o conceito de imaginação. Marx comparava aranhas e abelhas a tecelões e arquitetos para dizer que o que distingue os humanos dos animais não é a excelência de seu trabalho, mas o fato de que os humanos erguem primeiro em sua imaginação tudo o que poderão ou não eventualmente erguer na realidade. Por isso, quando leio um texto teórico e especialmente um texto que discute determinações primeiras e segundas e limites e potenciais da agência humana no mundo sou particularmente sensível à ausência ou presença do termo imaginação.

Thursday, August 13, 2015

Tradução: outro trecho de Citizen de Claudia Rankine

Foto minha da série "Land of the Free"
O mundo está errado. Você não pode deixar o passado para trás. Ele está enterrado em você; transformou a sua carne no armário dele. Nem tudo o que se lembra é útil mas tudo vem do mundo para ser guardado dentro de você.... Eu escutei o que eu penso que escutei? Isso saiu da minha boca, da boca dele, da sua boca?
   
O original “The world is wrong. You can’t put the past behind you. It’s buried in you; it’s turned your flesh into its own cupboard. Not everything remembered is useful but it all comes from the world to be stored in you. . . . Did I hear what I think I heard? Did that just come out of my mouth, his mouth, your mouth?”

Wednesday, August 12, 2015

Poesia em tradução: trecho de Citizen de Claudia Rankine

Foto minha da série "Land of the Free"
Trecho traduzido por mim de Citizen Claudia Rankine:

"Um homem no metrô jogou no chão o filho dela. Você sente seu próprio corpo contrair. O menino está bem, mas o filho da puta simplesmente continuou andando. Ela me diz que agarrou o braço do estranho e disse a ele que pedisse desculpas: eu disse a ele, olhe para o menino e peça desculpas. E é isso mesmo, você quero que isso pare, você quer que o menino negro empurrado no chão seja visto, que ajudem ele a se erguer e a bater a poeira da sua roupa, não ser limpo por uma pessoa que não o tenha visto, nunca o viu, talvez nunca tenha visto ninguém que não seja um reflexo de si mesmo.

O que foi bonito é que um grupo de homens ficou em pé do meu lado feito uma frota de guarda-costas, ela me diz, feito um banco de tios e irmãos recém encontrados."

Aqui o original em inglês:
A man knocked over her son in the subway. You feel your own body wince. He’s okay, but the son of a bitch kept walking. She says she grabbed the stranger’s arm and told him to apologize: I told him to look at the boy and apologize. And yes, you want it to stop, you want the black child pushed to the ground to be seen, to be helped to his feet and be brushed off, not brushed off  by the person that did not see him, has never seen him, has perhaps never seen anyone who is not a reflection of himself.
The beautiful thing is that a group of men began to stand behind me like a fleet of  bodyguards, she says, like newly found uncles and brothers.

Monday, August 10, 2015

Traduções de brincadeira no FCBK: Robert Frost e Charles Perrone


Acho muito simpático e quase irresistível esse tipo de desafio feito pelo FCBK, um desafio em que ninguém ganha de ninguém e todos se divertem. 

Um foi feito pelo grande professor e figuraça Charles Perrone, que tem um trabalho importante e muito bonito feito aqui nos Estados Unidos sobre a poesia do Brasil. Além disse ele é poeta e publicou esse poema muito legal, no qual a forma da edição é fundamental:


Minha tradução devia incluir uma tradução de edição mas não tenho tempo para aprender a apresentar com certa decência uma "tradução gráfica". Fica a tradução:

Meios e sem meios

Miolos de sabedoria
Brinquedos em petardos
tritura lascas silvícola

Mingau de letrinhas
Alegres cachos tosquiados
Mente meio que viril

Há outras versões legais do poema de Perrone boiando por aí.

Ontem, Ana Martins Marques fez um desafio parecido com um poema de Robert Frost. Ana foi minha colega na Letras e, para quem ainda não sabe, é uma poeta de mão cheia - os dois livros que li dela são muito, muito bons. Eis o poema e a tradução [que já modifiquei um pouquinho desde ontem]:

Fogo e Gelo
Robert Frost

Uns dizem, o mundo acaba em fogo.
Em gelo, dizem outros.
Pelo que já provei do desejo
Fico com os que torcem pelo fogo.
Mas fosse o mundo sucumbir de novo,
Acho que sei o bastante do ódio
Para dizer que o poder destrutor do gelo
Também é bom
E basta.

E o original:

Fire and Ice
Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
 

Saturday, August 08, 2015

Amnésia histórica e pobreza cultural

Sobre a importância de tradição e história na cultura, Raymond Williams dizia que uma sociedade que só pode viver com base em seus recursos contemporâneos é uma sociedade pobre de fato. Terry Eagleton acha que as sociedades do capitalismo tardio reprimem a história porque elas devem reprimir formas alternativas de história e porque gostariam produzir a história de mais do mesmo em qualquer que seja a aparência mais na moda no momento. Não sei se concordo com Eagleton – acho a explicação talvez simples demais. Mas fico com a constatação de Williams sobre a pobreza cultural de quem vive eternamente num estranho hoje dono de, no máximo, um passado nebuloso e rarefeito.

Assim vive o Brasil, cuja a opinião pública “discute” o país fingindo que a história desse país não existe. Alguns exemplos:

1. A maioria da opinião pública “discute” política exclusivamente em termos personalistas e profundamente moralistas, fazendo crer que a solução de todos os nossos males políticos é a simples substituição de pessoas “incompetentes” e “desonestas” [“más”] por pessoas “competentes” e “honestas” [“boas”].

2. A maioria da opinião pública “discute”, entre outros temas econômicos, inflação e nível de individamento como se não tivéssemos vivido décadas e décadas e décadas de endividamento externo e de um processo inflacionário hediondo que ajudou a nos transformar em um dos países mais injustos do planeta. E regula a importância relativa da conjuntura às suas simpatias políticas: meu inimigo só erra, quando acerta é porque a conjuntura favorece.

3. A maioria da opinião pública “discute” projetos faraônicos de desenvolvimento sem atentar para a tragédia que é repetir, pela enésima vez, o binômio apropriação de riquezas indígenas e destruição natural e cultural.

4. A maioria da opinião pública “discute” carga tributária insistindo na tecla de precarizar serviços sociais ainda mais [cortando custos] sem falar na desproporção absurda entre impostos relacionados com o consume e impostos relacionados a renda e propriedade.

5. A maioria da opinião pública “discute” o combate à violência sem sequer tocar na questão da brutalidade genocida de forças policiais militarizadas e do encarceramento em massa em prisões sub-humanas.

Essa maioria da opinião pública não é composta apenas de gente que mereça os adjetivos “imbecil” e “fascista”, duas “gentilezas” com que os intolerantes premiam aqueles que discordam deles em qualquer coisa. São muitas pessoas mais ou menos conservadoras, mas há um número considerável de outras posições entre os amnésicos. A grande ironia é que as soluções, os possíveis caminhos que eles apontam são quase sempre pastiches reconhecíveis de algum evento passado na história brasileira, alguns bastantes infelizes: reverter resultados eleitorais com manobras de bastidores, parlamentarismos de ocasião, planos de desenvolvimento que parecem saídos do governo Geisel, apelos ao Brasil gentil que resolve as coisas na conversa, mãe dos pobres, república parlamentar, golpe militar em nome de uma suposta liberdade ameaçada, plano real, constituinte, renúncia, impeachment. A pobreza da imaginação brasileira me assusta.


Friday, August 07, 2015

Prosa minha: Sobre dinossauros e lagartixas


Sobre dinossauros e lagartixas

São várias as pitorescas curiosidades da minha cidadezinha, mas quero chamar a atenção para uma que, crescendo à sombra de outra muito mais impressionante, pode passar desapercebida, mesmo aos locais. 488 anos de escravidão deixaram aqui inúmeras marcas. São cicatrizes muito feias, que preenchem de modo sufocante o nosso no dia a dia e que podem nos fazer perder de vista outras marcas. Eu me refiro às marcas causadas pelos 489 anos de monarquia que acompanharam a escravidão em quase todo o seu percurso por aqui. Meu pequeno pedaço de chão está coalhado de cartórios hereditários que não me deixam negar. Mesmo nossas ainda tão jovens universidades estão coalhadas de herdeiros, filhos, sobrinhos e netos dos grandes dinossauros de gabinete que as habitavam soberanos nas priscas eras em que elas foram constituídas, há menos de cem anos. Meus amigos nostálgicos me acusam de republicano radical e insistem em me dizer que esses herdeiros acadêmicos – este termo aqui se aplica lindamente – são todos hoje em dia devidamente concursados. Acrescentaria que alguns deles são até donos de um certo brilho próprio. Ora, um breve passeio pelos anais da história seria o suficiente para constatar que o filho de um monarca brilhante pode ser um imbecil inoperante. Mas a crença na força do sangue que se perpetua de geração em geração é uma superstição ainda muito poderosa aqui em Moctezuma. Sapateiros, médicos, lojistas, advogados, engenheiros, pilotos de avião: todos sonham em encaminhar seus filhos em seu ramo profissional, escondendo sua vaidade num delicado véu de benevolência. E não se deixe enganar pelo aspecto até meigo com que esses filhos, sobrinhos e netos desfilam suas fraquezas singelas ao lado dos seus vistosos sobrenomes. Não ouse deixar sem resposta por mais de quatro dias o chamado real de um deles, mesmo que ele chegue na prosaica forma de um e-mail. A estatura diminuta desses herdeiros dos dinossauros lembra nossas simpáticas lagartixas, mas a sua pele é fina e delicada como a de uma dessas comedoras de mosquitos e baratas que adornam as paredes de todas as nossas casas. E esses minúsculos e frágeis filhotes de glórias passadas podem comportar-se ferozmente ao pressentir que não se tem para com eles o mesmo temor reverencial que se prestava aos seus gigantescos e cascudos pais. Recomenda-se, pois, ao visitar nossa cidade o uso de botas de cano bem alto.    

Wednesday, August 05, 2015

Prosa minha: Certificado de Impunidade®


Certificado de Impunidade®


“Nós não medimos nem pesamos esforços no sentido de promover um ambiente o mais propício possível ao desenvolvimento aqui do nosso município. É justamente com esse intuito que temos lançado uma série de políticas públicas e medidas administrativas para simplificar, agilizar, otimizar e desburocratizar os nossos processos, sempre priorizando a eficiência e a transparência em um ambiente propício ao fomento dos mais diversos empreendimentos, buscando uma máxima diversificação dentro das nossas potencialidades e das nossas vocações naturais. E agora, embuídos desse espírito, estamos aqui hoje para anunciar que a administração municipal do prefeito Lair Lara e da vice-prefeita Santuza Vasconcelos mais uma vez sai na frente e tem o orgulho de ser a pioneira na aplicação de uma idéia que, com toda a certeza, logo se espalhará por todo o país: o Certificado de Impunidade®.
Como quase todas as grandes idéias que vêm para mudar, o nosso Certificado de Impunidade® surgiu de uma constatação muito simples: ano após ano fortunas dos nossos cofres públicos são gastas inutilmente empregando recursos valiosos e pessoal qualificado na tentativa de investigar, levar a tribunal, julgar e condenar certos indivíduos, sempre sem qualquer sombra de sucesso. Mobilizamos um verdadeiro exército de policiais, investigadores, promotores, juízes, programas de proteção a testemunhas, celas especiais para pessoas com diplomas do terceiro grau e uma imensa estrutura burocrática que drena os recursos públicos sem qualquer retorno, financeiro ou social. Esses são recursos que poderiam ser utilizados no fomento ao desenvolvimento e no cumprimento das prerrogativas básicas do estado. Casos e mais casos notórios sempre terminam sem qualquer resultado prático: no máximo um punhado de reputações levemente arranhadas, coisa que o tempo trata logo de apagar e nossa máquina com uma sensação crescente de impotência e um rombo cada vez maior nas contas públicas.
Com o nosso Certificado de Impunidade® todo esse processo dispendioso e desgastante acaba e, melhor ainda, ganhamos uma nova fonte de arrecadação de recursos com a venda desse produto no mercado de ações, lojas de conveniência, shopping centers e internet. Depois de um processo simples, rápido e seguro, obedecendo a critérios estritamente técnicos, qualquer um pode, sem maiores aborrecimentos, receber seu Certificado de Impunidade® em casa pelo correio. Assim os casos de corrupção ativa e passiva, trabalho escravo e semi-escravo, pistolagem, grilagem de terras, estelionato, fraude, desvio de recursos e tantos outros que sempre existiram, existem e existirão no nosso lindo paraíso tropical abençoado por Deus e bonito por natureza poderão estar à vista de todos sem exclusões, executados com máxima transparência e custo mínimo. Livres dos entraves burocráticos que atrasam e às vezes até paralisam o empreendedor e/ou empresário, nosso município e, logo, todo o país, estarão prontos para crescer muito rapidamente com solidez e estabilidade social, uma vez que todo o aparato legal poderá finalmente dedicar-se em tempo integral àqueles crimes que chamamos de alta punibilidade, tais como o exercício da prostituição autônoma, o pequeno varejo de drogas e produtos pirateados, batedores de carteira, cambistas e falsos mendigos e aleijados – os delitos que comprovadamente mais irritam e incomodam o cidadão comum no seu dia-a-dia, espalhando um senso geral de desrespeito às leis que põe em risco os pilares da nossa paz social.