Thursday, August 20, 2015

Fragmentos sobre o filme "Another Year" de Mike Leigh


1. Um roteiro posta bem no centro da história um casal próximo da aposentadoria. Durante as quatro estações do ano o casal é visto cuidando da sua horta num "alotment" [um pequeno pedaço de terra num lote comunitário] perto da casa e depois em casa recebendo amigos e parentes. Mas a verdadeira protagonista do filme, aquela personagem que faz as coisas andarem é uma amiga do trabalho da esposa do casal. Mary, interpretada pela sensacional Lesley Manville é uma mulher de meia idade muito sozinha que gravita em torno do casal Tom e Gerri. Mary está na periferia da vida de Tom e Gerri, o filme está firmemente assentado no mundo desses dois, mas, ainda assim, Mary é a razão de ser do filme. 
Ou seja, Mike Leigh, mais uma vez, fez um filme com um roteiro bastante ousado, mas que, mais uma vez, não grita e anuncia essa ousadia como se ela fosse a razão de ser do filme.  

2.  Ousadia formal que não se transforma em formalismo. Mike Leigh combina um cuidado extremo com a forma com uma certa dureza realista. A câmera/fotografia/luz são extremamente cuidadas, a música sutil intervém sempre a serviço da história sem afogar a tensão emocional da história. As atuações maravilhosas são uma combinação de improviso meticuloso e organicidade profunda. 

3. A personagem Mary de Lesley Manville é uma dessas pessoas que fala sem parar, mas os olhos e o rosto da atriz falam ainda muito mais. Assim, o tempo todo, assistimos o melancólico espetáculo de alguém que olha constantemente para o seu passado cheia de saudades e arrependimentos para não encarar um futuro, que já se descortina e que é para ela desesperador: envelhecimento e solidão para uma mulher presa em sonhos de juventude e romance cada vez mais impossíveis. Em Mary você vê a mulher que ela é, a jovem que ela foi e à qual ela se agarra desesperadamente e a velha que ela morre de medo de se transformar mas na qual ela já está se transformando.  Diz o próprio Leigh:

"Mary is a victim of many things, but mostly the received propaganda that a woman has to be sexy, a woman has to be gorgeous, and it stitched her up for life. She is not liberated, everything that has happened to her is a function of that misguided, received notion." 

Uma atriz capaz de fazer tudo isso num cinema que costuma costuma reservar às mulheres o papel de decoração dos ambientes é um fenômeno para se festejar.

3. O filme também fala com bastante agudeza de algo que a medicina contemporânea insiste em negar: o alcoolismo assim como a depressão, não se explicam simploriamente como frutos de "uma condição genética" e não se "resolvem" com uma pílula qualquer. Alcoolismo e depressão são condições privilegiadas para se falar da dor e do sofrimento humano, nessa interação complexa entre os limites de cada indivíduo e um mundo hostil que castiga sistematicamente a humanidade e premia a estupidez. Logo no começo do filme a também fantástica Imelda Staunton faz uma relutante cliente de terapia que é um retrato de de arrepiar. 


4. Os amigos do casal chamados Mary e Ken e o irmão de Tom chamado Ronnie são retratos dessa tristeza solitária. O filme mostra personagens que são todos, sempre, vítimas e culpados ao mesmo tempo, mas isso não nos incita à indiferença com relação ao sofrimento humano.

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