Sunday, January 27, 2019

Viva la mídia loca: mantendo a sanidade depois do crime ambiental de Brumadinho

Uma segunda barragem com rejeitos de mina da Vale, agora em Brumadinho, promete possivelmente arrasar o rio Paraopeba. A escala de rejeitos é bem menor do que o da mina da Samarco, mas os danos à população perto da mina já são muito piores. 

Vou escrever sobre a primeira recepção do acontecido sem citar nomes porque tenho horror a esses linchamentos virtuais que volta e meia acontecem nas redes sociais, como se atirar todo o ódio visceral quando A ou B que compartilhou ou disse algo repugnante não fosse igualmente repugnante. O processo se repete com pessoas diferentes e sair destilando ódio personalizado é uma reação descontroladamente violenta e, pior, completamente ineficaz. 

Vamos lá:

O exército de desinformadores já trabalha freneticamente na mídia em geral. Amiga do FCBK me informa que "especialistas" passaram a manhã inteira no canal de notícias da Rede Globo limpando a barra da Vale e das outras mineradoras. Esses senhores muito serenamente especializados com seus ternos bem cortados e diplomas bem lustrados "constatam" placiadmente que como o estado não tem mesmo como fiscalizar as minas e barragens, elas têm mesmo que ser fiscalizadas pelas próprias corporações. Isso, tendo como panos de fundo imagens e números chocantes de destruição e morte em Brumadinho, me parece cena grotescas daqueles filmes ou séries sobre distopias à moda de 1984 de George Orwell. 

Esses da televisão pelo menos são pagos regiamente para fazer o que fazem. 

Muitas outras pessoas comuns se prestam a divulgar desinformação sem fontes gratuitamente. Fui confrontado na TL de um outro amigo com um longo comentário já formatado por outra pessoa e tomado como "informação", embora sem qualquer indicação de fontes. O comentário/"notícia" dizia entre outras coisas que o presidente da Vale é "um ex-sindicalista" e que Lula/Dilma haviam "reestatizado" a Vale com dinheiro do BNDES através dos fundos de pensão. A culpa do crime ambiental seria, "portanto" culpa dos PT e do socialismo estatista. 

Eu, que normalmente não costumo me meter nessas coisas, ainda mais na TL de outra pessoa, mandei apenas um link do Estadão com a origem nada sindicalista do atual presidente da Vale. Meu amigo algum tempo depois mandou uma tabela com os acionistas principais da Vale. As duas informações desmontavam toda a sustentação "factual" do argumento do tal comentário/"notícia". A pessoa, que havia compartilhado o libelo no final das contas anônimo a favor da privatização "de tudo" dando como exemplo um [segundo] crime ambiental cometido por uma empresa privatizada há mais de vinte anos e dirigida por um executivo com longa carreira em corporações brasileiras, respondeu aos dois comentários mais ou menos da mesma maneira. Ele reconhecia o erro mas sustentava que "muito do que estava ali ainda era verdade". Na minha opinião não havia sobrado nada além do argumento quase surrealista, em vista da situação catastrófica, baseado justamente nesses "fatos" desmontados primeiro por mim e depois pelo meu amigo.

Friday, January 25, 2019

Poesia Portuguesa: "Papel"

Papel 
Carlos de Oliveira


Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou, levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita, paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto, vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.

Wednesday, January 23, 2019

Diário de Babylon

Quando eu cheguei aos Estados Unidos para estudar um fenômeno curioso aconteceu. Mais de dez vezes eu telefonei para alguém anunciando um apartamento para alugar e, ao perceber que eu era latino americano, fui informado que o imóvel já tinha sido alugado. Só depois de vários dias, quando eu aprendi a omitir minha origem, conseguimos um apartamento para alugar. Esse foi apenas o cartão de visitas. Depois vieram uma seleta de professores racistas, colegas de curso racistas e até funcionários racistas. Depois venho a enfermeira da clínica onde minha esposa constatou a gravidez me mandando voltar para o meu país. Depois veio o guardinha de imigração proibindo minha esposa grávida de seis meses de se sentar na sombra num calorão de Califórnia. Depois veio a volta ao Brasil, exaustos e perdidos, com um bebê nos braços e a cabeça mexida para sempre.

Quando voltei para trabalhar nos Estados Unidos, agora como professor universitário, me choquei com um grupo de alunos de fraternidade que, claramente embriagados, postaram-se na frente do "Women's Center" da universidade com cartazes que diziam "We Love Yale Sluts" [Nós Amamos as Piranhas de Yale] enquanto cantavam "No means yes! Yes means anal!" [Não quer dizer sim! Sim quer dizer anal!] Fizeram isso em plena luz do dia em dia de semana, e depois ainda postaram vídeos e fotos nas redes sociais. Mas o que me surpreendeu mesmo foi o que aconteceu depois: nada! Nas redes sociais frequentadas pelos alunos mais de um deles [adivinhem o gênero, a etnia e a conta bancária da família...] se queixava da falta de humor das feministas que não teriam entendido que tudo não passava de uma "brincadeira". Por parte da universidade, só enrolação. Condenações de praxe e promessas de investigação que deram em nada. Outros casos menos abertamente escandalosos mas talvez mais absurdos me acompanharam durante os outros anos que passei por aqui. Não tenho a paciência e a concentração exigidas para falar de todas eles. Creio que os que citei já são suficientes.

Antes de pensar em vir para Oklahoma, acompanhei um caso de racismo com fraternidades aqui. Fiquei impressionado com a rapidez e energia da reação do presidente da universidade na época. Semana passada outro incidente. E hoje mais um. Dessa vez sob a liderança de um presidente/empresário/mega-milionário que, quando perguntado sobre a importância da diversidade, cita a si mesmo como exemplo. Já era de se esperar a fraqueza da reação, devidamente recheada de promessas vagas e platitudes e de referências lacrimosas a Martin Luther King, um homem odiado intensamente enquanto viveu, até ser assassinado covardemente. "Damage Control" dizem os profissionais de relações públicas.

Confrontado com a frustração e a revolta de muita gente reunida num mesmo espaço e no calor da hora, o presidente da universidade se ofendeu e disse que não tinha responsabilidade pelo que tinha acontecido. Talvez não seja mesmo justo jogar toda a responsabilidade pelo que fazem um bando de barangos lourinhos nas costas do presidente lourinho da universidade. Quando um aprendiz de político oxigenadamente barango lança sua candidatura a presidência chamando imigrantes mexicanos em geral de estupradores e traficantes de drogas e, depois de inúmeras outras instâncias de discursos e atitudes racistas, termina ganhando as eleições, toda uma multidão de branquinhos e branquinhas de cabelinho escovadinho e olhos claros recebeu uma mensagem bastante clara: seja escrotamente, babacamente, abertamente racistas e/ou machistas, façam como os meninos com bonés MAGA tirando um sarro de um senhor indígena protestando dignamente em Washington, chame os outros de nomes ofensivos, agrida e ofenda e humilhe os outros sem pensar duas vezes, exiba sem pudor a sua ignorância e o seu privilégio de ser parte da raça dominante. Vá em frente! Afinal isso aqui é tudo seu! Não basta ser ignorante e agressivo; é preciso transpirar orgulho por isso.

Do outro lado, desânimo, cansaço e às vezes desespero. Escapismo, medo e raiva. Nos reunimos para chorar pitangas e oferecer consolo uns aos outros enquanto o mundo lá fora daquela sala espaçosa nos ignora completamente. Deveríamos, quem sabe, chorar nossas pitangas na porta das fraternidades e sororidades que todos sabem ser segregadoras e racistas. Quem sabe atirar rosas ou tomates nos pomposos edifícios coloniais que lhes servem de sedes. Quem sabe rir da baranguice, do ridículo senso de superioridade, da ignorância. Quem sabe?

Monday, January 21, 2019

Além da Intencionalidade

Um tema espinhoso no meu campo de estudos é a questão da intenção autoral. A maioria que finge que a questão não existe insiste em se arvorar autoridade para dizer o que Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Shakespeare queriam dizer ou fazer com determinado trecho de suas obras. A subjetividade do leitor é o outro lado dessa moeda esquecida no fundo da gaveta. Afinal de contas quaisquer conclusões que eu tire sobre um texto de Machado de Assis ou Guimarães Rosa ou Shakespeare são minhas e não dos respectivos autores.

Ilustro com um simples caso não literário. Os retratos de corpo inteiro que Albert Eckhout fez de vários "tipos" do Brasil colônia: negro/as, mulato/as, índio/as e mameluco/as. A gente pode (e talvez deva) especular sobre o que pensava Eckhout sobre os seus retratados e a relação destes com o colonizador europeu. Mas o nosso trabalho não pode (nem deve) parar por aí. Porque eu creio que o amor pelo trabalho de pintor realista da escola holandesa de Eckhout transcende em muito os seus preconceitos. Mesmo no caso daquele que representa na série o supostamente mais primitivo e selvagem deles, "O homem tapuia":

Sunday, January 20, 2019

Intelectuais [des]armados

Conta Roberto Méndez Martínez:
1897, a disputa entre facções de Blancos e Colorados esquenta no Uruguai. Na redação do El Orden, jornal identificado com os Colorados corre o boato que Blancos exaltados viriam empastelar o jornal e encher todo o mundo de pancada. Exaltados os jornalistas tomam revólveres e começam a carregá-los para enfrentar os inimigos. De repente o grupo se da conta que José Enrique Rodó faz o oposto: certifica-se de que o seu revólver não tem balas antes de guardá-lo no bolso. Os colegas o instam a carregar a arma ao que Rodó responde: "Nem pensar, depois me escapa um tiro."
E os tais exaltados nunca chegaram.
***


Saturday, January 12, 2019

Poesia portuguesa: Ruy Belo

Breve Sonata em Sol [Um] (Menor, claro)
Ruy Belo

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia

Friday, January 11, 2019

Nova série: Poesia Portuguesa

Lavoisier
Carlos de Oliveira

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto 
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Fonte: Trabalho Poético, 99

Tuesday, January 08, 2019

You're So Paranoid You Probably Think This Essay Is About You

Aprendendo muito com a leitura de Touching Feeling: Affect, Pedagogy, Performativity (2003) de Eve Sedgewick, principalmente com "Paranoid Reading and Reparative Reading, or, You're So Paranoid You Probably Think This Essay Is About You".

Uma questão premente: se você escreve almejando relevância política/cultural, como escrever efetivamente? Para Sedgewick trata-se de escrever afetivamente com a intenção de buscar formas de reparar danos e propor alívios possíveis. 

Qual a chave para tentar escrever assim? Primeiramente escrever sem medo de escorregar e cair. Sem medo de errar feio e se expor ao ridículo. 

Sem coragem para se expor, nos rendemos à paranóia. E assumindo uma perspectiva paranóica, sonhamos com uma voz poderosa que se levanta indestrutível e incontestável - "lacradora". Essa voz pensa seu papel cultural como um elementor desmistificador: revelando verdades e mentiras, separando o joio do trigo, iluminando o caminho das pedras. 

A voz paranóica é, na melhor das hipóteses, um pastiche da voz do poder. Assim sendo, apenas se junta ao coro monótono do GRANDE PAI.