Monday, January 23, 2017

Recordar é viver: Luta Desarmada


Paulo de Tarso Celestino 1944-1971
"O Paulo [de Tarso Celestino] era moderado. [...] Ele era contra toda radicalização. Mas foi acuado pela ditadura de fio a pavio, escondeu-se e em seguida participou da luta armada. Acabou assassinado debaixo de uma tortura atroz naquela sinistra casa de Petrópolis. Foi um pouco o que poderia ter ocorrido com vários de nós e o que aconteceu com Honestino Guimarães, nosso sucessor na Feub. Outros não foram mortos, mas foram torturados, presos, tiveram que se esconder, e suas vidas sofreram graves transtornos. Nas ditaduras, na América Latina ou no resto do mundo,  você nem sempre escolhe a forma de fazer oposição. As circunstâncias e a própria repressão empurram às vezes parte dos oposicionistas para a clandestinidade e a luta armada. Quando vejo gente desinformada ou de má-fé dizer que Dilma “escolheu” a luta armada na sua juventude, acho um absurdo. Por que é que só teve luta armada no Brasil durante a ditadura, e não no regime constitucional, ao contrário do que aconteceu noutros países latino-americanos ou europeus? Por causa da ditadura, foi a ditadura que perseguiu uma parte dos oposicionistas e os empurrou para a luta armada."

Luiz Felipe Alencastro em entrevista a Estudos Históricos

Sunday, January 22, 2017

O tango e a dança selvagem no Brasil ou vamos virar o disco




“Para cada problema complexo há uma resposta clara, simples e errada”.
"For every complex problem there is an answer that is clear, simple, and wrong."
H. L. Mencken

Cidadão brasileiro do século XXI amante da música brasileira, por favor, leve em consideração que:

1. Duas grandes, fundamentais composições da música brasileira [ "Odeon" de Ernesto Nazareth e "Gaúcho" também conhecida como "Corta-Jaca" de Chiquinha Gonzaga e] são TANGOS. 
Tendo isso em mente, re-ouçam "Odeon" com Yamandu Costa e Roee Ben Sira:


e re-ouçam "Gaúcho" com Paulo Moura e Clara Sverner:

2. Os dois compositores têm além de inúmeros tangos no seu repertório, várias composições em ritmos como polcas e valsas, tão "estrangeiros" quanto o jazz, o iê-iê-iê ou a discoteca.

3. A música dos dois (a de Ernesto Nazareth em 1922 e a de Chiquinha Gonzaga em 1914) causaram escândalo quando chegaram a ambientes elitistas. Para ter uma ideia do tom dos indignados da época, escute a nota desaforada de Rui Barbosa, lida por Mário Lago:

 
Será possível que CEM ANOS depois há quem ainda insista nesse tipo de elitismo mequetrefe torcendo o nariz para "a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens" do momento?! E será possível que CEM ANOS depois há quem ainda bata no peito para "a verdadeira música brasileira" sem nem um pinguinho de ironia?! Como se dizia nos meus tempos de vinil: vamos virar o disco, por favor!


Monday, January 09, 2017

Obituário: Leonard Cohen

Era uma vez um velho poeta judeu que sabia que ia morrer e, sabendo que ia morrer, escreveu um último poema. Esse poema, como era do seu feitio, passava longe de slogans sentimentais e certezas, coisas que ele uma vez disse andar escurecendo o ambiente feito uma praga de gafanhotos. Ainda assim o tal poema continha um refrão ao mesmo tempo simples e poderoso: Hineni/הנני [Aqui estou!]. O refrão em hebraico era uma referência a um outro poeta judeu, de uma sensibilidade bastante diferente. Esse outro poeta, muito antigo, chama-se Isaías, e gostava de fazer falar furiosamente um Deus que anunciava a redenção dos seres humanos num futuro próximo que, séculos mais tarde, parecia ainda mais improvável. 

O velho poeta judeu, descrente de redenções grandiloquentes, transformou seu poema numa canção, e chamou para acompanhá-lo o coro da sinagoga da sua infância, Shaar Hashomayim, que significa, significativamente, "Porta dos Céus". Falava de velas votivas queimando em vão e sofrimentos cantados em cantigas de ninar, entre outras coisas.

Terminada o poema e gravada a canção o velho poeta judeu estava pronto para morrer. E morreu. Seu nome era Leonard Cohen.

Era assim a canção:



A canção/poema dizia o seguinte:

If you are the dealer, 
I'm out of the game.
If you are the healer, 
it means I'm broken and lame.
If thine is the glory, 
then mine must be the shame
You want it darker,
we kill the flame.

Magnified, sanctified
be thy holy name.
Vilified, crucified
in the human frame.
A million candles burning 
for the help that never came.

You want it darker,
Hineni! Hineni!
I'm ready, my lord.

There's a lover in the story,
but the story's still the same.
There's a lullaby for suffering
and a paradox to blame,
but it's written in the scriptures
and it's not some idle claim.

You want it darker,
we kill the flame.

They're lining up the prisoners
and the guards are taking aim.
I struggled with some demons,
they were middle class and tame.
I didn't know I had permission 
to murder and to maim.

You want it darker,
Hineni, hineni!
I'm ready, my lord.

Magnified, sanctified
be thy holy name.
Vilified, crucified
in the human frame.
A million candles burning 
for the love that never came.

You want it darker
We kill the flame

If you are the dealer, 
let me out of the game.
If you are the healer, 
I'm broken and lame.
If thine is the glory, 
mine must be the shame.

You want it darker,
Hineni! Hineni!
I'm ready, my lord!
Hineni!
Hineni! 
Hineni!
Hineni!

Tuesday, January 03, 2017

Traduzindo: Every Day is For The Thief de Teju Cole

Trecho de Every Day is For The Thief do nigeriano Teju Cole no qual o protagonista tem uma troca de incompreensões com um velho amigo que ele reencontra depois de anos:

- Estou com malária.
- Ai, não diz isso.
Fico perplexo.
- Como assim? Eu estou com malária.
- O que eu quero dizer é que você não devia dizer "estou com malária" e esse tipo de coisa. A língua é uma coisa muito poderosa, sabia?
- Bom, tudo bem, isso é muito bonito e coisa e tal. Mas o negócio é o seguinte, meu chapa: eu estou mesmo com malária. Então eu digo que estou com malária. Estou doente feito um cachorro já faz 24 horas.
- É dizer essas coisas que te faz doente. Você não está doente.
Não estou a fim de discutir com ele. Naquela altura tenho que sair correndo para o banheiro para me aliviar. Volto me arrastando para a cama e digo:
- A fêmea do mosquito Anopheles me pegou. Essa é a realidade. O parasita plasmodium ataca meus glóbulos vermelhos e me faz sentir assim, então quanto mais cedo eu admitir isso para mim mesmo, mais cedo eu começo a tratar a doença, Oluwafemi. Não faz sentido contrariar a realidade.
Busco em seu rosto, em vão, sinais de compreensão. Oluwafemi apenas balança a cabeça, como se sentisse pena de mim, preso que estou a uma visão científica do mundo. "Relaxe! Deus está no comando!" E na sua atitude reconheço a chave para entender muito do que vi nas semanas anteriores. a ideia de que dizer alguma coisa faz dela uma realidade, de que as leis da imaginação valem mais do que todas as outras. Mas é claro. Oluwafemi justifica a si mesmo: ele está em plena saúde, e sou eu, descuidado com a língua e desprovido de fé, que estou suando frio debaixo das cobertas.