Monday, April 30, 2018

3. Esse monstro chamado "público geral"


Freud já avisava numa nota de pé de página meio melancólica que os conceitos “masculino” e “feminino” eram conceitos científicos por demais vagos e imprecisos. Os dois são difíceis de definir pela sua tendência a transformar-se em espelhos que simplesmente refletem os limites e possibilidades da cultura e da imaginação de quem os formula. Você tenta definir masculino e feminino e termina oferecendo um documento transparente e preciso daquilo que você acredita ser o masculino e o feminino.

Como o conceito de raças entre os seres humanos, a ideia de um masculino e um feminino existem objetivamente porque as pessoas acreditam neles. Como várias outras invenções culturais, essa ideia muda com o tempo e muda de lugar para lugar. Nada disso é particularmente interessante para mim, porque pertence ao campo do óbvio para quem estuda o assunto. Entretanto quem estuda as chamadas ciências humanas sabe muito bem que fora do seu meio acadêmico mais restrito é preciso reiterar todos os dias as obviedades que sequer passam pela cabeça desse monstro que é chamado de “o público em geral”.

Alguns dos meus colegas, encantados com as possibilidades que as redes sociais nos ofereceram [supostamente] para comunicar-se com o tal monstro, empenham-se com afinco em combater obviedades e destruir estereótipos. Mas não devíamos esquecer que as obviedades [que são sempre dos outros, não é de desconfiar?] e aquilo que poderíamos chamar de estereótipos, não são simplesmente mentiras que precisam ser desmascaradas pelos sábios da tribo. O estereotipo deriva seu particular poder de sedução coletiva da sua capacidade aguda de observação de um determinado comportamento.

Escravos, por exemplo, fugiam do trabalho como o Drácula foge da luz do sol e viviam em condições de higiene horríveis. O conteúdo de perversidade do estereotipo está um pouco mais adiante, na explicação para aquele comportamento, uma explicação que naturaliza aquilo que é cultural, que transforma em essência aquilo que é apenas circunstância: escravos fogem do trabalho e vivem em condições horríveis de higiene porque são negros e negros nascem desprovidos da vontade de trabalhar e de manter sua higiene. Escravos fugiam do trabalho para sobreviver [seus senhores tinham uma certa tendência a matá-los de tanto trabalhar] e não tinham condições mínimas de higiene porque não recebiam o mínimo em termos de roupa, água e sabão e eram ensinados na base da cacetada a ver sua roupa, água e sabão como propriedade de outra pessoa.

Voltemos ao masculino e ao feminino. As definições dos dois gêneros não fazem mais que nos mostrar como cada lugar em cada momento histórico diferente, via os dois gêneros. Um fantasma permanente: num mundo dominado por homens, o masculino era visto como o comandante “natural” e o feminino como subalterno também “natural”. Como acontece nas culturas ocidentais com várias dessas categorias que se montam em pares de opostos dentro de um contexto de dominação [bárbaros e romanos, cristãos e pagãos, cidadãos e imigrantes ilegais], aquela categoria que se encontra sempre do lado errado do cassetete [levando porrada] é definida em termos ou de idealização ou demonização. E eis que entendemos a complementaridade da “Virgem Inocente” e da “Destruidora de Lares” e todas as metamorfoses que vão modernizando [e assim preservando] as duas categorias.

Por isso mesmo é que esse gesto tão repetido de “contrariar” um estereotipo termina, suspeito, reforçando-o ainda mais. O que fazem todos esses filmes e programas de TV com suas super-mulheres que carregam caminhões cheio de areia com uma só mão, mulheres-soldado que atiram com duas bazucas enquanto fazem piadinhas sarcásticas, mulheres poderosas que lideram com mão de ferro imensas instituições políticas ou econômicas, mulheres detetives de capacidades dedutivas sobre-humanas e senso de justiça inabalável, mulheres justiceiras protetoras dos frascos e dos comprimidos? Será que estaremos livres para imaginar gênero e sexualidade em outros termos mantendo viva a ideia de dois opostos complementares tão cara ao universo maniqueísta da comunicação de massa [esse produtor monstruoso de melodramas anabolizados]? Será que estaremos pelo menos mais livres, e isso já é o suficiente?

Acho impressionante que uma das reflexões mais poderosas que eu conheço sobre esse assunto venha de Machado de Assis, um escritor do século XIX. “As Academias de Sião” foi escrito e publicado há mais de 100 anos! Não é um espanto que ainda acreditemos que almas são masculinas ou femininas [e nada além]? Não vou resumir aqui o conto – ele tem que ser lido com as suas sutilezas literárias. Mas termino com a seguinte constatação, também bastante simples: aqueles que tentam surfar nas ondas de um público maior, além dos muros da academia, deviam também se preocupar em não ser pautados pela ignorância que nos cerca. A conquista da aprovação do senso comum pode chegar cobrando caro, exigindo desses sábios de FCBK justamente a transformação deles em perfeitos comentaristas de CBN.

Sunday, April 29, 2018

2. Ainda um espaço

Então o mundo se modificou radicalmente nos últimos 30 anos. Eu acredito que em alguns poucos setores melhoramos bastante, e acho que essas melhoras são legados que me fazem pensar nos meus filhos como pessoas de sorte. Mas para cada mudança positiva, eu infelizmente vejo também uma mudança para pior.

Um paradoxo: como é que podemos viver simultaneamente numa sociedade cada vez mais e cada vez menos tolerante com relação a diferenças diversas? Cada movimento no sentimento da abertura a outras escolhas de vida, a outras formas de interação, parece vir acompanhado por uma reação brutal a essas melhorias. Uma onda reacionária carregada de ódio parece se articular lá no fundo dos cafundós da internet e os reacionários de sempre se sentam confortavelmente na poltrona e assistem indiferentes ao massacre eminente. Como não desconfiar que estamos caminhando para um precipício neo-fascista? No Brasil, penso que podemos estar bem perto de experimentar algo numa escala e intensidade inéditas. As intenções de voto não me deixam negar.

O ódio é apenas um dos afetos violentos que são a moeda corrente mais banal do nosso tempo. as condições objetivas são bem concretas: para existir nas redes sociais cocê tem 10 segundos para fazer com que seu público não clique o mouse e pule para o próximo texto/imagem/filme. Nesses 10 segundos você trata de agarrar pela lapela e sacudir violentamente o seu público, que é instado a reagir instantaneamente com uma gargalhada, um nó na garganta, uma lágrima de ternura ou um embrulho do estômago. Não é por nada que algo que eu poderia chamar de "melodrama atômico" é o gênero preferido de 9 entre 10 "estrelas" do mundo das redes sociais. Usinas produtoras de paixões e ódios, as redes sociais, capazes de sacudir com indignações e urros de euforia o mais fleumático dos indivíduos.

Dito isso, há que se reconhecer que não faltam razões muito concretas para a indignação geral. Mas esse estado permanente de indignação, esse papel constante de ser ofendido pelo mundo é sumamente exaustivo [pelo menos para mim]. Além do mais, suponho que estando emocionalmente exaustos, aceitamos de bom grado o fascismo. Adianto que não procuro explicações especificamente brasileiras para um fenômeno que é, creio, global. Nossa mistura brasileira de pessimismo  e ufanismo nos impele para respostas provincianas para problemas de escala global. Eu não quero nada com ela.

Saturday, April 28, 2018

1. Um espaço cheio de silêncio e serenidade

Eu nasci numa época em que era preciso estar sempre com sede de informação. A informação chegava através da televisão com cinco canais, dos cinco jornais [dois de SP, dois do RJ e um local], das revistas, dos discos de vinil e dos livros. O rádio era um deserto com pouquíssima variedade. Não era possível simplesmente pensar num assunto, numa pessoa ou num livro e encontrar informação abundante sobre ele. Todos esses poucos e parcos meios de comunicação eram comprometidos com interesses e tentavam agradar a um monte de públicos diferentes ao mesmo tempo, então às vezes tudo o que eu podia ter era uma nota de um parágrafo durante um ano inteiro. Então eu aprendi a estar sempre atento a tudo e a viver com sede de informação.

Quando eu cheguei à vida adulta o mundo começou a sofrer uma série de transformações que nos trouxeram até aqui: uma abundância aparentemente infinita de informação [e desinformação]. Hoje eu me vejo nem um pouco preocupado com a sede, mas sim com uma abundância desmedida de informação que no final das contas é selecionada e imposta por eminências pardas como Google e Facebook.

Na minha adolescência e primeira infância eu queria sempre passar os olhos por todos os jornais e revistas e livros nas livrarias e na biblioteca do meu pai e queria gravar em fitas cassetes todos os discos que eu encontrava. Agora eu preciso rejeitar essa avalanche de informação que se apresenta disponível na tela do computador. Fechar janelas e portas e só deixar entrar aquilo que realmente [peço desculpas pelo linguajar antiquado] me alimente o espírito. Definitivamente recusar o lixo, as tosqueiras e as imbecilidades que são tantas nessa avalanche. Recusar silenciosamente todas as chantagens emocionais e manipulações grosseiras, mesmo que às custas de recusar também coisas interessantes que ocasionalmente vêm.

Viver um espaço cheio de silêncio e serenidade. Onde eu possa ler muito, todos os dias, com calma e atenção, coisas instigantes e inteligentes. Onde eu possa cuidar de um jardim e tomar um pouquinho de sol. Onde eu possa escrever tranquilamente sobre o que eu quiser, com calma. Aqui, às moscas.

Friday, April 20, 2018

Of Montreal - The Past is a Grotesque Animal



The past is a grotesque animal and in its eyes, you see
How completely wrong you can be
How completely wrong you can be

The sun is out, it melts the snow that fell yesterday
Makes you wonder why it bothered

I fell in love with the first cute girl that I met
Who could appreciate Georges Bataille
Standing at a Swedish festival
Discussing Story of the Eye
Discussing Story of the Eye

It's so embarrassing to need someone like I do you
How can I explain?
I need you here and not here too
How can I explain?
I need you here and not here too

I'm flunking out, I'm flunking out
I'm gone, I'm just gone
But at least I author my own disaster
At least I author my own disaster

Performance breakdown and I don't want to hear it
I'm just not available
Things could be different, but they're not
Oh, oh, things could be different, but they're not

The mousy girl screams, "Violence, violence!"
The mousy girl screams, "Violence, violence!"
She gets hysterical
'Cause they're both so mean
And it's my favorite scene

But the cruelty's so predictable
It makes you sad on the stage
Though our love project has so much potential
But it's like we weren't made for this world
Though I wouldn't really want to meet someone who was

Do I have to scream in your face?
I've been dodging lamps and vegetables
Throw it all in my face
I don't care

Let's just have some fun
Let's tear this shit apart
Let's tear the fucking house apart
Let's tear our fucking bodies apart
Let's just have some fun

Somehow, you've red-rovered the Gestapo circling my heart
And nothing can defeat you -- no death, no ugly world
You've lived so brightly -- you've altered everything
I find myself searching for old selves
While speeding forward through the plate glass of maturing cells

I've played the unraveler, the parhelion
But even Apocalypse is fleeting
There's no death, no ugly world
Sometimes, I wonder if you're mythologizing me like I do you
Mythologizing me like I do you

We want our film to be beautiful, not realistic
Perceive me in the radiance of terror dreams
You can betray me
You can...
You can betray me

Teach me something wonderful
Crown my head, crowd my head with your lilting effects
Project your fears onto me
I need to view them
See there's nothing to them
I promise you, there's nothing to them

I'm so touched by your goodness
You make me feel so criminal
How do you keep it together?
I'm all, all unraveled

But you know no matter where we are
We're always touching by underground wires

I've explored you with the detachment of an analyst
But most nights, we've raided the same kingdoms
And none of our secrets are physical
None of our secrets are physical
None of our secrets are physical now

Wednesday, April 18, 2018

Relendo Frederick Douglass

1. Frederick Douglass manifesta logo na abertura do seu livro que gostaria muito de saber seu aniversário e quantos anos tinha desde que era uma criança. Aos escravos não se dá uma noção de origem, de começo de biografia. Sua curiosidade é ao mesmo tempo perigosa, possivelmente tomada como indício de um espírito inquieto e, portanto, fonte de desconfiança.

2. Já logo de saída Douglass também afirma o seu caráter de mulato que é marca, de novo, de uma humanidade marcada desde o começo pela mais extrema privação: ele sabe que seu pai é um branco, supõe que seja o produtor/proprietário, provavelmente é o dono da fazenda, da sua mãe e dele mesmo. Ao contrário das afirmações comuns desde o período colonial de que o mulato/mestiço viveria uma espécie de paraíso, o mulato é fonte de intriga e conflito entre o senhor e sua esposa legítima e por isso é frequentemente vendido.

3. Ser mulato num livro que é mais que simples biografia, obra abolicionista, também significa destruir o argumento bíblico que os escravistas dos Estados Unidos invocavam: a fatídica maldição de Cam que daria o selo cristão à escravidão dos africanos já não se aplica aos mulatos que o escravismo produz aos milhares no sul dos Estados Unidos.

4. Terceira privação: a ausência da mãe. Douglass nos informa que é costume em Maryland separar o mais rápido possível a mãe do filho, alugando-a para algum proprietário distante da fazenda e deixando a criança aos cuidados de uma escrava idosa [que já não consegue mais trabalhar no eito]. Trabalhando no eito distante 12 milhas ela ainda consegue visitar a criança quatro ou cinco vezes.

5. O primeiro capítulo termina com uma outra experiência formadora do escravo ["a bloody transaction"]: Douglass ainda criança assiste pela primeira vez a uma violentíssima cena de espancamento. Tia Hester ousa desobedecer o patrão e sai à noite para se encontrar com outro escravo. Furioso [possivelmente ciumento] o senhor da fazenda chicoteia até que o sangue pingue no chão.

6. E então, no segundo capítulo, chega a descrição do canto dos escravos, o canto que sai das vozes daqueles poucos escolhidos para ir levar ou trazer alguma coisa da casa-grande central [Douglass descreve um complexo de fazendas menores em volta de um grande centro onde vive o Senhor de todos os escravos]. No canto do escravo uma fonte poderosa de expressão da tristeza com o cativeiro. Para Douglass uma evocação do primeiro vislumbre da dolorosa desumanização da escravidão mas, paradoxalmente, um poderoso testemunho de sobrevivência como seres humanos. Cantar para Douglass é expressar a tristeza. Mas cantar também é dizer, apesar de tudo, "eu existo!"

Monday, April 02, 2018

Traduzindo: O Complexo Industrial do Branco-Salvador de Tejo Cole


O Complexo Industrial do Branco-Salvador
Teju Cole, 21 de março de 2012 [Publicado na revista Atlantic]

 Se vamos nos meter na vida dos outros, um pouco de escrúpulo é o requerimento mínimo.
Faz uma semana e meia eu assisti ao vídeo Kony2012. Escrevi em sequência uma breve resposta dividida em sete partes, que postei em sequência na minha conta do Tuíter:

1.     Do Goldman-Sachs ao colunista Nicholas Kristof passando pelo movimento Invisible Children e as conferências TED, a indústria que mais cresce nos Estados Unidos é o Complexo Industrial do Branco-Salvador.

2.     O Branco-Salvador apoia políticas de violência de manhã, patrocina instituições de caridade à tarde e recebe prêmios à noite.

3.     A banalidade do mal se transmuta na banalidade do sentimentalismo. O mundo inteiro não passa de um problema a ser resolvido pelo seu entusiasmo.

4.     Esse mundo a resolver existe para satisfazer às necessidades – incluindo, é importante, as necessidades sentimentais – dos brancos e de Oprah Winfrey.

5.     O Complexo Industrial do Branco-Salvador não tem nada a ver com justiça. Trata-se de prover uma grande experiência emocional que dê legitimidade ao seu privilégio.

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6.     Preocupe-se febrilmente com aquele terrível africano que é chefe de uma facção armada. Mas saiba que perto de 1.5 milhão de Iraquianos morreram por causa da guerra estadunidense do momento. Preocupe-se também com isso.

7.     Eu tenho um profundo respeito pelo sentimentalismo estadunidense do mesmo jeito que respeito a um rinoceronte ferido. É melhor ficar sempre de olho, por que você sabe que ele é letal.