Wednesday, June 29, 2016

Lendo Marx com óculos de professor de literatura


O Carlos Marques quer te ver dançar
Vamos ler Marx e ele nos põe sempre para dançar entre o significado das coisas em si e o significado dessas mesmas coisas quando elas caem no mundo, interagindo umas com as outras. Esses dois significados nunca coincidem mas não são totalmente diferentes. O tango que os dois significados dançam é em si um todo instável, movente, sujeito a chuvas e trovoadas constantes, em mutação perene.

Fazem parte dessa coreografia complexa, por exemplo, três conceitos: o valor [o hieroglifo social das coisas, que se manifesta apenas nas relações social entre mercadorias], o valor de uso [definido pela utilidade das coisas, pelo que essas coisas podem fazer quando caem no mundo] e ainda o valor de troca. Olha esse trechinho [sinto muito, em inglês, mas não deve ser difícil achar em português]:

Could commodities speak, they would say: our use-value may be a thing that interests men. It is no part of us as objects. What, in fact, does belong to us as objects is our value. Our natural intercourse as commodities proves it. In the eyes of each other we are nothing but exchange-values.

Penso no que se espera hoje da prosa de um economista ou sociólogo ou filósofo e não consigo deixar de pensar que o movimento geral no sentido da profissionalização e especialização das disciplinas acadêmicas foi um tremendo atraso. Nos seus piores momentos a profissionalização é um eufemismo para regimentação e a especialização para estreiteza. Em geral, mesmo em textos interessantíssimos, as duas coisas fizeram da prosa não ficcional uma maçaroca difícil de digerir, uma espécie de tortura voluntária. Explico que isso não tem nada que ver com um elogio da “facilidade” – Marx é uma leitura difícil – mas com o simples fato de que a complexidade não precisa ser impressa num pacote indigesto de palavras emboladas numa prosa triste e feia. 

Monday, June 27, 2016

3 contos de Lydia Davies

Lydia Davis
Não é a primeira vez que Lydia Davis aparece aqui no blogue. Ela é uma das poucas escritoras de prosa em inglês que me entusiasmaram ultimamente. Os três textos abaixo são do livro can't and won't que ela lançou em 2015. Não tenho tempo para grandes elaborações aqui no meu canto, mas o habitual laconismo no blogue talvez se encaixe bem com os textos dela. Para mim Lydia Davis é como a Clarice Lispector dos contos/crônicas, principalmente quando poesia, conto e crônica se confundem nos textos mais curtos dela - o trabalho dela é vendido como contos mas essas são questões mercadológicas antes de qualquer coisa.  

Bloomington

Agora que já estive aqui por algum tempo, posso afirmar com certeza que nunca tinha estado aqui antes.


Encontrei o original de "Bloomington" enterrado nessa resenha do livro Can't and Won't.


O Romance Ruim

Esse romance difícil e sem graça que eu trouxe comigo para a viagem - eu continuo o lendo. Eu já voltei a ele tantas vezes, sempre temorosa e sempre o achando tão ruim quanto da última vez, que agora ele já se tornou uma espécie de velho amigo. Meu velho amigo o romance ruim.

Encontrei o original, "Bad Novel", aqui.


Minha Irmã e a Rainha da Inglaterra

São cinquenta anos já de chateia chateia chateia e enche enche enche. Não importa o que minha irmã faça, nada é bom o suficiente para minha mãe, e nem para o meu pai. Ela mudou-se para a Inglaterra para escapar deles, e casou-se com um inglês, e quando ele morreu, casou-se com outro inglês, mas não foi o suficiente.

Aí ela recebeu a Ordem do Império Britânico. Meus pais pegaram um avião para a Inglaterra e ficaram assistindo do outro lado do salão quando minha irmã se levantou e foi sozinha até a Rainha da Inglaterra e ficou ali parada conversando com ela. Eles ficaram impressionados. Minha mãe me contou numa carta que nenhuma das pessoas recebendo homenagens naquele dia tinha ficado falando tanto tempo com a rainha como a minha irmã. Eu não me surpreendi porque minha irmã é sempre ótima de conversa, não importa a ocasião. Mas quando eu depois perguntei à minha mãe o que é que minha irmã estava usando, ela não se lembrava muito bem - luvas brancas e um vestido que parecia uma barraca, ela disse.

Quatro Lordes do Parlamento mencionaram minha irmã em seus discursos de posse, pelo trabalho extraordinário que ela tinha feito em prol dos portadores de deficiência, e ela tratava os deficientes, minha mãe contou, como qualquer outra pessoa. Ela conversava com motoristas de táxi do mesmo jeito que ela conversava com os Lordes, e ela conversava com os Lordes do mesmo jeito que ela conversava com os deficientes. Todos adoravam minha irmã, e ninguém se importava que a casa dela fosse meio bagunçada. Minha mãe disse que a casa continuava uma bagunça, e que minha irmã continuava engordando e perdendo as formas, ela convidava gente demais para a casa dela, e ela deixava a manteiga de fora da geladeira o dia inteiro, ela falava demais da vida particular dela com o amigo dela indiano dono da mercearia da esquina, e ela simplesmente não conseguia parar de falar, mas minha mãe e meu pai se sentiram na obrigação de ficar calados porque como é que eles dar o contra em alguma coisa agora que minha irmã tinha feito tanto bem para tanta gente e era tão admirada.

Eu tenho orgulho da minha irmã, e estou feliz por ela por causa do prêmio que ela recebeu, mas também estou feliz que minha mãe e meu pai finalmente tiveram que calar a boca um pouco, e vão deixar ela em paz um pouco, ainda que eu ache que não vai durar muito, e eu lamento que só mesmo a Rainha da Inglaterra tenha dado conta de calar os meus pais.

Encontrei o original, "My sister and the Queen of England", aqui.

Friday, June 24, 2016

Música que você precisa conhecer: Lucinda Williams




Gostam de criticar o sul dos Estados Unidos, projetando para lá tudo o que há de ruim e atrasado nos Estados Unidos, principalmente o racismo supremacista que envolveu esse país num manto triste de segregação racial no estilo do apartheid até pelo menos os anos 60 e ainda traz sequelas até hoje. Sim, o sul é a parte mais pobre e "atrasada" economicamente dos Estados Unidos, mas também é um celeiro inesgotável para a parte mais interessante da cultura dos Estados Unidos, aquela que não se contenta em ser apenas uma nova Inglaterra, aquela que se deixa infiltrar nas raízes por várias matrizes culturais profundas, vernaculares, fortes demais. Lucinda Williams, eu suponho, deve ser muito pouco conhecida no Brasil, então dá vontade de compartilhar essa maravilha. Por que esse cantinho meu jogado às moscas serve entre outras coisas para isso; para compartilhar tantas coisas que eu acho maravilhosas e que passam em branco no mundo dos Faustinhos, FMs e jornalões e quetais. 

Fruits of My Labor

Baby, see how I been living
Velvet curtains on the windows to
Keep the bright and unforgiving
Light from shining through
Baby, I remember all the things we did
When we slept together
In the blue behind your eyelids
Baby, sweet baby

Traced your scent through the gloom
'Til I found these purple flowers
I was spent, I was soon smelling you for hours
Lavender, lotus blossoms too
Water the dirt, flowers last for you
Baby, sweet baby

Tangerines and persimmons and sugarcane
Grapes and honeydew melon
Enough fit for a queen
Lemon trees don't make a sound
'Til branches bend and fruit falls to the ground
Baby, sweet baby

Come to my world and witness
The way things have changed
'Cause I finally did it, baby
I got out of La Grange
Got in my Mercury and drove out west
Pedal to the metal and my luck to the test
Baby, sweet baby

I been tryin' to enjoy all the fruits of my labor
I been cryin' for you boy but truth is my savior

Baby, sweet baby if it's all the same
Take the glory any day over the fame
Baby, sweet baby

Wednesday, June 22, 2016

Poesia Minha: Everything Must Go!

-->
My Secret World de Martin Wong

Everything Must Go!

Ao pintor Martin Wong [1946-1999] que, 
lendo nas vitrines anúncios de liquidações ["Everything Must Go!"] 
na véspera da sua primeira exposição individual,
jogou fora ou entregou a desconhecidos 
seus quadros e tudo o que era seu
e foi encontrado semanas depois ensinando pintura 
aos colegas internados num hospital psiquiátrico.  

a casa as plantas
no jardim lá fora
cá dentro nos quartos
baús malas bolsas
móveis armários e roupas
chinelos sapatos
talheres e pratos
utensílios mantimentos
aparelhos e aparatos
espelhos escovas tesouras quadros

tudo no olho da rua
na boca de lobo
na fossa no fogo
no lixo no mar
tudo, tudo tem que ir
embora agora já

gavetas arquivos pastas
caixas e dentro livros retratos
títulos diplomas certificados 
nascimentos casamentos divórcios
óbitos bons e maus antecedentes
sinistros multas apólices de seguro
carteiras de identidade
trabalho reservista eleitor
motorista estudante cartões
de crédito e débito saldos contas

tudo no olho da rua
na boca de lobo
na fossa no fogo
no lixo no mar
tudo, tudo tem que ir
embora agora já

descendentes e antepassados
pais filhos parentes
amigos colegas
memórias e esquecimentos
passado futuro presente marcas
de chuva sol sal vento neve e gelo
lágrimas suor saliva esperma e sangue
pelos unhas dentes
pele carne nervo osso
casca polpa e semente

tudo no olho da rua
na boca de lobo
na fossa no fogo
no lixo no mar
tudo, tudo tem que ir
embora agora já

Monday, June 20, 2016

Literatura e Crueldade em Anne Enright

Anne Enright
- Eu o fiz. Eu o fiz do jeito que ele é. Ele é meu filho e eu não gosto dele, e ele também não gosta de mim.
- Mas de mim você gosta, né, Mãe?
- De você eu gosto agora.
Diálogo entre mãe e filha em The Green Road, romance de Anne Enright



- Eu recomendo.
- Recomenda o quê? Depressão? 
- Não, recomendo ter um colapso nervoso logo cedo. Se a sua vida se desintegra logo cedo, você consegue remontá-la de novo. São aqueles que estão sempre à beira de uma crise mas que não chegam a afundar até o fim que estão em apuros.
Anne Enright em entrevista ao jornal quando ganhou o Man Booker Prize em 2007

Friday, June 17, 2016

Animais em Bizâncio

-->
Foto do Museu de Istambul que encontrei aqui

Alguns arqueólogos se especializam em ossos de animais. Estes nos informam que os cavalos em Bizâncio começavam a trabalhar com cargas pesadas com dois anos de idade. O freio usado pelos bizantinos em seus cavalos era peculiar: sua mordedura desgastava o céu da boca dos animais até o osso e terminava abrindo um buraco que ligava a boca à cavidade nasal. A pressão exercida a partir daí se transmitia por toda a estrutura óssea dos cavalos, que costumavam morrer antes dos dez anos com problemas nas patas, joelhos, pernas e colunas. Incapacitados os cavalos eram abatidos e suas carcaças eram atiradas no fundo do cais do porto, ali onde começa a Europa, depois que se retirassem delas as crinas, os rabos, a pele e a carne. Os bizantinos, ao contrário dos romanos, apreciavam a carne do cavalo, assim como de burros e de ursos amestrados. Os ursos se apresentavam ao lado de elefantes no circo do hipódromo e seus crânios revelam marcas de fraturas na infância, frutos do processo de adestramento. Ao contrário dos ursos, burros e cavalos, os restos dos elefantes encontrados não têm marcas do trabalho dos açougueiros. Especula-se que, ao aposentar-se, os elefantes alimentavam os leões do circo. 

Monday, June 13, 2016

O que pode assistir Eisenstein em Guanajuato contra esse exército homofóbico, agora armado com uma AR-15

Talvez faça algum sentido hoje recomendar um filme de 2015 do diretor Peter Greenway, Eisenstein em Guanajuato. Recomendar um filme que corre o risco de ser cafona de vez em quando e que corre o risco de reduzir o México mais uma vez àquele país "exótico" que inspirou 2587 europeus e gringos sedentos de sensualidade e sentimentalismo. Contrariando nossos instintos, esqueçamos, por favor, todas as questões de representação, inclusive àquelas relacionadas com uma inexistente "base documental" para a história que se conta no filme sobre o famoso cineasta russo.

Quero recomendar hoje Eisenstein em Guanajuato por ser um filme que não pede desculpas por mostrar cenas de sexo entre dois homens com aqueles proverbiais violinos melosos e meia-luz "romântica", um filme que não pede desculpas por mostrar o corpo masculino completamente nu sem esconder "as partes pudentas"com aqueles lençolzinhos estratégicos e aqueles malabarismos de câmera que o puratismo de Róliudi implantou como norma mundial.

Quero recomendar Eisenstein em Guanajuato porque um sujeito embriagado de homofobia potencializada pela imbecilidade que permite que qualquer cidadão possa comprar e carregar por aí uma metralhadora AR-15 matou e feriu mais de cem pessoas na noite latina da boate gay Pulse em Orlando na Flórida. 



Aqui a crítica do The Guardian.

Aqui um artigo no mesmo jornal sobre problemas com o filme na Rússia do machão-mor Putinho.

Friday, June 10, 2016

Schopenhauer, o rabugento, em quatro momentos

Depois de ler uma versão traduzida com um facão para o inglês por Peter Mollenhauer, me deliciei com a tradução de Pedro Sussekind para a LP&M. Digo que gostei do texto em português em si, pois não tenho como julgar uma tradução do alemão - apenas ficaram escandalosamente evidentes para mim os cortes na versão em inglês.

1. Detestando o desconhecimento geral do latim e do grego antigos [naquela época]:
"A preguiça e sua filha ignorância estão por trás disso. É uma vergonha! Um não aprendeu nada, o outro não quer aprender nada."

2. Detestando o francês:
O francês, em sua essência é um "jargão medonho", "esse italiano deformado da maneira mais repugnante, com as longas sílabas atrozes e a pronúncia nasal" (157).

3. Detestando os monolíngues:
"As fronteiras das línguas só existem para os ignorantes" (158).

4. Detestando neologismos e estrangeirismos que não acrescentam nada, como báique ou Txin:
"... que a provisão de palavras de uma língua seja aumentada no mesmo passo em que aumentam os conceitos [...] se aquilo acontece sem isso, trata-se de um sinal da pobreza de espírito de quem gostaria de levar alguma coisa para o mercado e no entanto, como não tem nenhum pensamento novo, vem com novas palavras. [...] Novas palavras para velhos conceitos são como uma nova cor aplicada a uma velha roupa" (158).

Thursday, June 09, 2016

A utilidade da música e poesia



Era uma vez um compositor com pouco mais de 60 anos, à beira da morte. Uma década antes ela havia afirmado que a função principal de um compositor como ele era "ser útil e ser útil para os vivos". Ele então resolve aproveitar o resto de tempo de vida dele e mais uma vez ser útil. Útil para nós, os vivos, uma última vez. A qualidade abstrata de uma música como essa, instrumental sem letra, faz dela um verdadeiro Bombril musical, de 1001 utilidades. Hoje essa versão aí de cima do quarteto de cordas de Benjamin Britten interpretado pelo Ives Quartet e felizmente tão facilmente acessível no iutúbio é para mim uma questão de vida ou morte. Mais ou menos meia-hora de música, escutada duas vezes seguidas na penumbra, com portas e janelas fechadas para encher o ambiente e restaurar minha sanidade [relativa]. Como efeito quase colateral, essa hora de música talvez até me dê um pouco de clareza sobre a minha própria utilidade no mundo. Meu valor, minha valia principal é compartilhar aqui com meia dúzia de perdidos como eu essa meia-hora de música. E um poema ilustrado em três versos:


Onde estou, aonde fui, onde sou
nesse escuro onde não se distingue
entre o azeite e o sangue na poça
  
Arte minha: Arbusto Acidental na Parede

Wednesday, June 01, 2016

Uma contribuição ignorada do português ao Marxismo ou "cada hum dança segundo os amigos que tem na sala"

Foto minha: Pedreira
Tentando entender porque diabos um velho poema do século XVI dizia "hazem Virey de pidreiros" confirmei que "pidreiro" era uma variação antiga de "pedreiro". Isso não ajudava muita a entender o poema que reclamava da atuação do Vice-rey intercedendo em favor de "perdoar" judeus presos por serem o que eram. Mas aí descobri que "pedreira" podia ser uma outra coisa: "valia, interecessor, medianeyro &c." Daí para mais iluminação no verbete "Valia" do velho dicionário de Bluteau:

"VALIA. Preço. O em que que está avaliada hua cousa.
[...]
Valia. Pedreira. A pessoa de cujo valimento nos valemos, para conseguir alguma coisa. Na corte del Rey minha valia he Pedro, &c. [latim] O q tem muitas valias na Corte. [mais latim]. (Como neste tempo os homens estão já desenganados de quão pouco valem os merecimentos, que por elles não o terem) vierão a chamar Valia às adherencias, & lhes tem mostrado a experiencia a verdade daquele rifaõ, que cada hum dança, segundo os amigos, que tem na sala."