Wednesday, April 27, 2016

Sobre a proximidade entre cães e seres humanos

Arte minha: nó da terra

Sobre a proximidade entre cães e seres humanos

"Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua"
O crime do professor de matemática 


Um cão adora comer carne e beber sangue mas, não sendo nunca o mais forte, aprende a roer ossos. A metonímia é a pedagogia da pobreza. 

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Um cão vigia um osso e espera até que outro se aproxime. Só então, num súbito ataque de volúpia, ele agarra o osso que agora é seu e o esmaga entre as mandíbulas. 

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O ser humano acredita que o amor do seu cão é uma questão de temor reverencial. O cão acredita no amor daquele que o alimenta.

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O cão encontra o primeiro ovo e o come cru. O dono do galinheiro cozinha um segundo ovo em água fervendo e chama o cão, que chega abanando o rabo. O ser humano abre a boca do cão e enfia o ovo quente lá dentro, trancando com as mãos as mandíbulas do animal desesperado em volta do segundo ovo. A pedagogia do dono do galinheiro lhe custa dois ovos. O cão perde para a sempre a vontade de comer ovos cozidos. 

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Quatro cães escutam seu dono discursar sobre o poder supremo das ideias e da fé.
O primeiro decide crer no sabor delicado e poder nutritivo das pedras e quebra os seus dentes.
O segundo começa a descrer na gravidade e pula do telhado da casa estragando as pernas.
O terceiro passa a noite deitado na neve e inventa um novo processo de mumificação.
O quarto deixa de acreditar na necessidade de respirar, se joga em águas profundas e aprende a nadar. 

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Arte Minha: Pastor

Sunday, April 24, 2016

Poema meu: História Permanente / Democrazy / Out the Killer

Arte Minha: Democrazy for heaven's sake / Common Ground Jogo Bruto


História Permanente

Eis aqui meu primeiro novo mito:
Escrever é cantar e dançar
de dentro pra fora
a mão na caneta
no papel com tinta
Ler é dançar e cantar pelos olhos
de fora pra dentro.
Tudo distante, tudo deserto,
tudo cantado, tudo perfeito,
mas a cada respiro, um poema
e um novo intercâmbio
do mundo lá fora
com o mundo cá dentro.
Somos bichos de suspiros,
animais musicais
que amam a dança
e se recriam no canto.
Cantar e dançar
de dentro pra fora
de fora pra dentro.

Eis meu mito mais antigo:
Havia um tempo antes de todos nós,
quando a terra girava em torno do sol,
que parecia cruzar o céu de leste a oeste
iluminando tudo mais que já existia
e em torno da terra girava a lua,
que esvaziava e enchia no céu escuro,
justo com o inchar e desinchar das marés silenciosas.
E os animais nasciam, viviam e morriam
na mais pura e inocente injustiça,
e ninguém dava pela falta de absolutamente nada.
Tudo distante, tudo deserto,
tudo cantado, tudo perfeito:
nada mais a fazer senão assistir descarnado
esse deserto sem gente.
Nada a propor, nada a esperar, nada a crer.


Imagem minha: Out the Killer

Sunday, April 10, 2016

Diário da Babilônia: Flórida e Pindorama

O mercado imobiliário na Flórida tem reputação de grande instabilidade, com períodos de crescimento vertiginoso seguidos por uma quebradeira generalizada, que inclui cidades inteiras que buscam atrair novos moradores com um IPTU excepcionalmente baixo e começam a pedir dinheiro emprestado para construir e manter escolas e o resto da infraestrutura. Há quem diga que o mercado imobiliário que sustenta o estado não passa de uma pirâmide que depende da chegada de pelo menos 1000 novos participantes ao ano para continuar funcionando. Sugiro ao leitor que passe um inverno no nordeste dos EUA [para não falar do meio-oeste] e o invernozinho ameno da Flórida explica parte dessa atração. Mas apenas parte e a Flórida foi muito afetada pela crise financeira de 2008 [lá a casa começou a cair já em meados de 2005], mais que a média nos EUA.

Um exemplo da bandalheira: um dono de salão de tatuagens em St. Peteresburg chamado Sang-Min Kim vendeu, entre 2004 e 2009, noventa imóveis na região de Tampa, ganhando 4 milhões de dólares. Os compradores, que tinham dado pouco ou nada de entrada e financiado o resto, eram impossíveis de se encontrar, alguns deles criminosos julgados por tráfico de drogas ou outros delitos. Um terço dos negócios de Kim foram financiados por um tal de Howard Gaines, sentenciado a 45 anos de prisão por fraude na Flórida. O pessoal do presídio não pode votar mas pode participar da festa do mercado imobiliário no estado. O tal Kim ganhava dinheiro vendendo e re-vendendo imóveis que em geral sequer eram ocupados. Aqui está uma reportagem da New Yorker sobre o assunto.

17 das 25 cidades com maior número de perda de imóveis por indimplência são da Flórida. Miami é a campeã com mais de 18% das hipotecas não pagas - quando se trata dos empréstimos com juros flutuantes para pessoas sem boas condições de crédito [as famigeradas "sub-prime mortgages"] a porcentagem de perdas de casas chega a 39.1%. Anos de pagamentos perdidos, casas tomadas pelos bancos abandonadas, gente no olho da rua. Por vezes, bairros inteiros praticamente vazios, sendo tomados pelo mato.

  



Em 2014 10% desse mercado consiste de compras feitas por estrangeiros não-residentes no estado, com 26.500 unidades vendidas em transações envolvendo 7.97 bilhões de dólares. 23% desses compradores são da América Latina, principalmente de Venezuela, Brasil, Argentina, Colombia e Peru. 82% dessas vendas de imóveis para estrangeiros são pagas em dinheiro, à vista, o que contrasta fortemente com o mercado doméstico típico que usa empréstimos bancários de longo prazo com o próprio imóvel comprado como garantia 88% dos casos. 

O país campeão é o Canadá, com 31.6% das vendas mas com uma média de preço [$200.000) bem abaixo dos outros estrangeiros. O auge dos compradores brasileiros aconteceu em 2012, com 9.3% e eles compram imóveis mais caros que a média [$409.600] e 69% deles pagaram em dinheiro. 31% dos brasileiros pretendiam viver nos seus imóveis um ou dois meses por ano e 31% pretendiam viver por pelo menos 6 meses. Os dados foram tirados de um relatório preparado por associação de corretores de imóveis da Flórida. 

 O câmbio e a crise global já afetaram muito as vendas à vista para latino-americanos e russos e, apesar do visível pânico de não provocar pânico, o mercado de imóveis da Flórida pode estar começando a enfrentar mais um capítulo da crise.

 

Monday, April 04, 2016

Recordar é viver: os anos de "democracia" perfeita no México e o amor à precisão

No dia 10 de junho de 1971, Corpus Christi, os estudantes universitários da UNAM, da UANL, do Instituto Politécnico e simpatizantes resolveram sair em passeata na Cidade do México pedindo pela democratização do ensino superior, pela autonomia universitária [a UANL havia sido recentemente ocupada e seu reitor substituído por alguns meses por um coronel do exército - a restituição do reitor de direito havia animado os estudantes a retomar o ativismo] e pela liberdade aos presos políticos que ainda restavam desde a repressão aos protestos estudantis em 1968 - antes da olimpíada no México - que culminaram com um massacre no dia 2 de outubro em Tlatelolco.

Um grupo paramilitar a paisana chamado de Halcones [Falcões], organizado pelo governo do novo presidente Luis Echeverría, reprimiu violentamente o protesto. Pelo menos 120 pessoas morreram. A imprensa controlada pelo PRI culpou grupos radicais de estudantes pela carnificina e começou uma campanha que falava em grupos estudantis armados que atuavam "como robots, insensibles, hechos para matar".



Sete dias depois do massacre de Corpus Christi, Octavio Paz se junta ao coro da imprensa oficial e escreve na Excélsior uma longa coluna de apoio ao presidente Luis Echeverría e condenação aos estudantes "radicalizados". Segue um trecho abaixo:

Imagens da repressão aos estudantes no México
"Entonces vino el 10 de junio; un grupo de insensatos convocó a una manifestación de equivocados, no para celebrar la victoria de Monterrey, sino para denunciarla como una derrota. La extrema izquierda –mejor dicho, nuestra falsa izquierda extremista– inconscientemente realizaba una operación de corrupción lingüística y política: transformar verbalmente una victoria parcial, pero real, en una derrota.

De nuevo el lenguaje, ahora el lenguaje radical, servía para ocultar la realidad. La respuesta de la realidad no se hizo esperar: un grupo de gángsters políticos, los halcones, agredieron a los manifestantes y mataron a varios muchachos Ya podían estar satisfechos todos aquellos que padecen nostalgia de catástrofes Con la agresión el monopolio político y el monopolio financiero pretendían volver a 1968".

Com uma série de programas na Televisa [Encuentro Mundial de la Comunicación, Encuentros Vuelta 1 y 2, Conversaciones con Octavio Paz, México en la obra de Octavio Paz, La Poesía de Nuestro Tiempo] Octavio Paz assumiu o papel de nome oficial da cultura do PRI neo-liberal a partir dos anos 80. Em 1990 Octavio Paz ganhou o prêmio Nobel ostentando um impecavelmente maquiado currículo de defensor da democracia no seu país. Do alto de seu posto de faraó literário correspondenente aos faraós/presidentes do PRI cercado de seus súditos fiéis, Paz passou aperto em 1990 quando Vargas Llosa quando ousou chamar o regime PRIista, agora em sua fase neo-liberal, de ditadura perfeita, ao vivo e à cores:



Paz responde categoricamente, claramente incomodado, já que está ali exercendo exatamente o papel que Vargas Llosa descreve na sua fala, e defende o "regime peculiar" mexicano. Em tempos em que a internet não existia esse incidente não serviu para manchar a figura do intelectual liberal que "amava a precisão". Paz morreu em 1998 ainda supremo, uma figura incontestável, principalmente dentro do México.

Mas o faraó morreu e seus seguidores são apenas seguidores. Em 2006 o ex-presidente Luis Echeverría Álvarez foi finalmente responsabilizado pelo massacre de Corpus Christi e pela repressão paramilitar dos Halcones que Paz identificava com os estudantes em seu artigo indignado. Ainda em 2006 a revista Proceso republicou a tal coluna de Paz. Ironicamente o texto chamado "Las palabras-máscaras" derramava-se em elogios a Echeverría exatamente pela fidelidade do presidente criador do mito dos estudantes-robôs comunistas às palavras em "sua transparência":

"Desde hace mucho asistimos en México a la corrupción de los nombres. Las palabras que fundaron a nuestra nación –las palabras de la Independencia, la Reforma y la Revolución– no sólo han perdido todo significado preciso, sino que no tienen el mismo sentido para todos los mexicanos.
[...]
Nuestro vocabulario político está compuesto de palabras-máscaras, que ocultan la realidad de nuestra situación Así, la rectificación de los nombres, dentro del contexto mexicano, quiere decir, ante todo, que las palabras cesen de ser antifaces. Esta es la tarea política más urgente, una tarea de higiene mental y moral: devolverle a las palabras su significado real, de modo que haya correspondencia entre lo que se dice y lo que se hace.
Desde hace seis meses vivimos en plena rectificación de los nombres. El presidente Echeverría inició su gobierno usando un lenguaje que no tardó en alarmar a los partidarios de las palabras-máscaras y que poco a poco, no sin vencer nuestro natural escepticismo, ha acabado por conquistar a la mayoría de la opinión independiente".

Foi preciso que se passassem mais de 30 anos para que a um outro tipo de transparência das palavras expusesse os intelectuais do peculiar estado de direito livre e democrático da ditadura perfeita PRIista. Basta voltar aos arquivos dos jornais brasileiros em datas chaves da história brasileira como abril de 1964 ou 1969 para encontrar ali defensores de manobras peculiares para preservar o estado de direito e criar peculiares regimes "democráticos" atacando estudantes robôs/comunistas e "partidarios de palavras-máscaras. Está tudo lá, como estará tudo aqui quando a poeira baixar.

Notas para Livros Impossíveis: Linguagem e Expressão

I
"A linguagem livresca, impersonal e abstrata, que ainda por cima se gaba ingenuamente de sua erudição pura, é sinal de uma educação pela metade. Uma pessoa completamente adulta no sentido cultural não utiliza essa linguagem."
Mikhail Bakhtin

"O verso é apreendido pelos ouvidos... mesmo o escritor mais original vai colhê-lo fresco na conversação, onde eles crescem espontaneamente."
Robert Frost

"Eu escuto muito. Se eu um dia tentasse ensinar a escrever outra vez, eu diria que a primeira lição é escutar."
Horton Foote


Desenho de Georg Baselitz
II
"Um desenho está sempre nú."
Georg Baselitz

"O sentimentalismo, esse desfilar ostentoso de emoções excessivas e espúrias, é a marca da desonestidade, da incapacidade de sentir."
James Baldwin sobre A cabana do Pai Tomás

"Todos as produções mentais têm um sentido. Desconsiderar qualquer conteúdo, não importa o quão psicótico ele seja, me parece um extravio dos fundamentos da disciplina."
Joel Gold
 




Friday, April 01, 2016

Poesia Mexicana e Inglesa: Nezahualcóyotl e Ozymandias

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Nezahualcóyotl Acolmiztli [1402 – 1472] era ou não era o grande rei-poeta de Texcoco, membro do triumvirato de grandes reis nahua que dominaram o vale central do México no século XV? Era ou não era o autor dos poemas que hoje a ele são atribuídos no sentido que damos hoje em dia à palavra autor? Vamos tentar responder essas perguntas e caímos num labirinto de cronistas coloniais e historiadores/linguistas mexicanos da segunda metade do século XX e ainda revisões e re-revisões e trevisões contemporâneas dessa maçaroca toda que alegam que o nome é apenas uma máscara para múltiplos, infinitos poetas/declamadores anônimos. Um pouco como aqueles debates intermináveis sobre Gregório de Mattos, mas ainda mais complicados porque envolvem várias línguas e culturas atravessando a linha divisória da chegada dos saqueadores espanhóis e do longo holocausto que eles promoveram na América. 

Bem, o texto está aí e me cala fundo. Não me atrevo a traduzir a partir do espanhol e do inglês, já que não sei nada de Nahuatl. Pode-se ouvir o poema em espanhol e nahuatl aqui, acompanhado por música azteca. A pergunta de Nezahualcóyotl ainda vigora.

Nezahualcóyotl em ilustração do Codex Ixtlilxochitl


Yo lo Pregunto

Yo Nezahualcóyotl lo pregunto:
¿Acaso deveras se vive con raíz en la tierra?
No para siempre en la tierra:
Sólo un poco aquí.
Aunque sea de jade se quiebra,
Aunque sea de oro se rompe,
Aunque sea plumaje de quetzal se desgarra.
No para siempre en la tierra:
Sólo un poco aquí.





Aqui uma traducão recente para o inglês feita por Jongsoo Lee no seu livro sobre o tema:

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I, Nezahualcoyotl, ask this:
Is it true one really lives on Earth?
Not forever on earth,
Only a little while here.
Though it be jade it falls apart,
Though it be gold it wears away,
Though it be quetzal plumage it is torn asunder.
Not forever on earth,
Only a little while here.

Há algumas maneiras diferentes de se escrever o idioma nahuatl. Essa é uma das transcrições possíveis do original:

O pássaro quetzal
Niquitoa

Niquitoa ni Nezahualcoyotl: 
¿Cuix oc nelli nemohua in tlalticpac? 
An nochipa tlalticpac: 
zan achica ya nican. 
Tel ca chalchihuitl no xamani, 
no teocuitlatl in tlapani, 
no quetzalli poztequi. 
An nochipa tlalticpac: 
zan achica ye nican. 





O poeta romântico Percy Shelley perguntou-se mais ou menos a mesma coisa de uma maneira bem diferente, escondendo-se por trás de um "viajante por terras antugas" que viu enterrados na areia uma cabeça e ao lado duas pernas num pedestal com as palavras de um rei que, ao contrário de Nezahualcóyotl, achava que era o tal, criador de uma obra imortal sem igual. O poema chama-se "Ozymandias", está aí no seu original, que eu tirei daqui.

Foto minha: Metropolitan, NY
I met a traveller from an antique land
Who said: “Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert . . . Near them, on the sand,
Half sunk, a shattered visage lies, whose frown,
And wrinkled lip, and sneer of cold command,
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamped on these lifeless things,
The hand that mocked them, and the heart that fed:
And on the pedestal these words appear:
‘My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!'
Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare
The lone and level sands stretch far away.”

Os dois poemas sobre ambições e desambições e reis reais ou imaginários, quase quatro séculos distantes um do outro, se encontraram aqui na cabeça de um zé ninguém morando longe, pensando em raízes e desenraizamentos no seeculo XXI.