Tuesday, September 30, 2008

Goya 2 - Caprichos


Segunda lição de Goya: olhar o inferno de frente, mesmo o inferno dentro da gente.

Monday, September 29, 2008

Sunday, September 28, 2008

O mal ator de suas emoções




O mal ator de suas emoções

Julio Torri [1889-1971]


E ele chegou à montanha onde vivia o ancião. Seus pés estavam ensangüentados por causa das pedras no caminho e o brilho dos seus olhos manchado pelo desalento e pelo cansaço.
- Senhor, sete anos se passaram desde que vim pedir-lhe conselho. Os varões dos mais remotos países louvavam sua santidade e sua sabedoria. Cheio de fé escutei as suas palavras: “ouve a teu próprio coração, e o amor que tenhas por teus irmãos não ocultes.” E desde então não encobria minhas paixões aos homens. Meu coração foi para eles como guia em águas claras. Mas a graça de Deus não desceu sobre mim. As mostras de amor que dei a meus irmãos, eles as tomaram por fingimento. E veja então como a solidão obscureceu o meu caminho.
O ermitão o beijou três vezes na testa; um leve sorriso iluminou a sua face e ele disse:
- Encobre o amor que tenhas a teus irmãos e dissimula tuas paixões ante os homens, porque és, meu filho, um mal ator de tuas emoções.

Esse é um poema em prosa escrito no México mais ou menos na mesma época do Modernismo brasileiro por uma figura importante da geração de intelectuais que antecedeu à Revolução Mexicana. Não era um grupo de artistas, embora muito fossem artistas também. Julio Torri, por exemplo, era professor de literatura e escreveu uma Historia da Literatura Espanhola. É uma reflexão simples sobre uma coisa que todo mundo que escreve deveria estar careca de saber, mas nem sempre percebe: que para ser autêntico há que saber representar, que para ser simples há que se ter artifício, que autenticidade e simplicidade, ao contrário do dita o senso comum, precisam de muita elaboração estética e não tem nada de transparente.

Thursday, September 25, 2008

Coração de Cachorro



[Esse post eu dedico para nosso querido Totó, atualmente vivendo em um sítio muito, muito longe daqui.]
Cachorros são sobreviventes natos, acima de tudo. Eu adoro um romance de um russo [Bulgakov] chamado "Heart of a Dog" [não sei se foi traduzido para o português] que ele abre com a "voz" de um cão abandonado nas ruas de Moscou no inverno. Um cozinheiro tinha jogado água fervendo para espantar o pobre do cão e uma hora o cão diz assim:
"My side hurts dreadfully, and I can see my future quite clearly: tomorrow I’ll have sores, and, I ask you, what am I going to cure them with? In summertime, you can run down to Sokolniki Park. There is a special kind of grass there, excellent grass. Besides you can gorge yourself on free sausage ends. And there’s the greasy paper left all over by the citizens – lick it to your heart’s content! And if it weren’t for that nuisance who sings “Celeste Aida” in the field under the moon so that your heart sinks, it would be altogether perfect. But where can you go now? Were you kicked with a boot? You were. Were you hit with a brick in the ribs? Time and again. I’ve tasted everything, but I’ve made peace with my fate, and if I’m whining now, it’s only because of the pain and the cold – because my spirit hasn’t yet gone out of my body…. A dog is hard to kill, his spirit clings to life."


Chegou
“Wait till I get him back
He won’t have a back to scratch”
Fiona Apple
Lá vem
vou entornar o caldo de novo
eu sei
vou perder de novo meu tempo
eu sei
de novo esse inferno todo
eu sei
mas não adianta falar
não adianta dar conselho
nem correr adianta agora
nem se eu pular pela janela
a pé
agora não adianta mais nada
eu estou a pé.

Eu sei como é
a fome dói aqui em cima
e aí vai
subindo uma dor nos quartos
e aí vai
os olhos e ouvidos se fecham
e aí a boca vai
se abrindo num grito medonho
que eu sei
espanta todo mundo que eu amo
eu sei
vai embora quem presta quem vale a pena vai
e eu sei
só ficam aqui do meu lado
nesse buraco que eu mesmo cavei
meus piores amigos
quem é ainda pior que eu
mas agora foi-se
azeite.
Eu não resisto
eu quero tanto
eu não consigo
eu não sei resistir
não sei sair disso
sair daqui
sair de mim
eu não sei não ser incondicional
me perdoa meu bem
mas eu não sei.
Lá vem
subindo quente rio acima
constante
esse fogo é esse fogo é fogo e aí
pronto
eu entro de novo pelo cano
eu sei
eu me arrebento todo lá embaixo
eu sei
explodindo quebrando arrebentando tudo
de novo eu sei
estúpido animal humano sou eu
eu sei
arrancando o cabelo pela raiz
de novo eu sei
imbecil duro o osso
careca de eu sei
queimando trocando os pés pelas mãos
na lama eu sei
é duro de roer esse meu osso
meu bem
estourando o balão cheio
outra vez na cara
do palhaço com o revólver na mão.
Lá vem
vou me estrepar outra vez
eu sei
perfeitamente bem
eu sei
eu vou me foder bonito outra vez
eu sei
mas me diz porque não?
porque não mais uma vez?
se eu não faço mal demais a ninguém
se eu não faço mal a ninguém mais
além de mim mesmo
se eu não faço sempre assim
se assim eu passo o tempo passa mais rápido
se assim eu não sou tão mal assim
no final das contas
no frigir dos ovos
se eu não tenho medo de sangue
se eu não tenho medo nenhum de mim
porque não mais uma vez?
Só mais uma vez
só mais uma
segura que lá vem
chegou.

Tuesday, September 23, 2008

José Emilio Pacheco


Manifiesto
Todos somos “poetas de transición”:
La poesía jamás se queda inmóvil.
[Irás y no volverás, 1973]

Diário do Império - Mercado Livre

Um desabafo curto e grosso:
O curioso é que agora eu vivo em uma economia estatizada pelos papas do livre mercado! Os republicanos são sensacionais: defendem a liberdade e a não-intervenção do estado quando se trata de cercear lucros [por exemplo, quando se trata do salário mínimo, considerado uma intervenção indevida no mercado livre], mas agora estatizam [e portanto socializam] os prejuízos do mercado financeiro. A conta vai ficar em mais ou menos 700 bilhões de dólares, isso para um estado que já está mais que afundado em déficits gigantescos por causa das guerras e dos cortes nos impostos que esse safados inventaram nos últimos anos! Enquanto isso, os palhaços que são os responsáveis diretos por essa crise tiram férias nas Bahamas e riem da nossa cara: entre 2001 e 2006 Jimmy Cayne do Bearn Stearns [primeiro gigante que afundou nessa crise] ganhou a bagatela de 156 milhões de dólares entre salários e outros “incentivos”.

Monday, September 22, 2008

Mash-up 4 – Robert Browning

Ele fez essa carne
de gente, essa bolha
inflada, essa massa
socada que engarrafa e gruda
no chão da terra essa alma
humana, bafo da boca dEle,
vaporosa vertigem de cinza e nada.

E Ele faz aparecer nessa mesma
carne esses picos e rachaduras por onde
esse vapor engenhoso, esse fogo
esbelto, essa música
delgada, essa coluna de silêncio
puro, esse rio assombroso
que se levanta do leito e flui
pelos ares, que escapa assim de volta
à fonte, sempre um pouco antes da hora.

Isso e tudo mais nesse inferno
que é o artesanato Seu aqui na terra
me aparece assim:
torcido e torneado
com tinta que escorre da Sua boca
e se condensa no papel
jornal de um livrinho vagabundo
jogado num canto cheio
de problema sobre-humanos.

Formigueiros crescendo
dentro de uma caixa de ferro:
Deus nos quer assim:
sem caber dentro.

Sunday, September 21, 2008

Música "pópi" 2

Mais pérolas da tal matéria sobre música:

• “das bandas mais heterodoxas do rock atual”
Será que eles comem carne de porco? Será que comem peixe na sexta-feira da paixão? Será que celebram casamentos de homossexuais?

• “uma bem-vinda atmosfera dançante”
Agora somos transportados para o reino das metáforas atmosféricas, mania desse tipo de resenha. No caso temos a manjada “atmosfera dançante”, provavelmente referência àquelas nuvenzinhas que ficam mexendo de lá para cá atrás do sujeito que faz a previsão do tempo no jornal da TV.

• “músicas que se inspiram na disco music e na música negra americana”
Eu me espanto com a precisão do termo “música negra americana”, que vai de Louis Armstrong a Mahalia Jackson a Miles Davis a Aretha Franklin a James Brown a Michael Jackson a Public Enemy. E essa imprecisão ainda é maior se pensarmos que agora, além de ir e vir e andar sem coleira e nos transportar a praias havaianas, as danadas das músicas também se inspiram! Mas o se inspiram como?

• “canções que vão de situações áridas a arrependimentos dolorosos”
De novo o tema das letras substitui a ignorância completa sobre música propriamente dita. De novo a imprecisão pseudo-poética. E de novo os clichês “dolorosamente” pomposos.

• “guitarras etéreas e a voz marcante”
De novo, de novo, de novo.

Qual a diferença entre essas pérolas e as dos jogadores de futebol depois de um jogo? Para mim são três:
1. O jogador se esforça e ganha dinheiro para jogar futebol e não para se expressar verbalmente.
2. O jogador tem que improvisar ali, na lata, depois de correr feito um doido sob forte pressão emocional, e não tem tempo de revisar nada nem de pensar duas vezes no que diz.
3. O jogador, quando fala bobagens, frequentemente comete erros que são identificados com os pobres, embora técnicos e comentaristas com diploma já estejam ensinando a todos no meio futebolístico a falar “besteiras de nível” como as desse crítico de música da FSP.

Observações:
1. Não incluo aqui o nome nem dou a fonte precisa porque o texto e o autor [que não conheço] não têm nada de especial. Infelizmente quase todas as resenhas e reportagens sobre música “pópi” são escritas exatamente nesse estilo pomposo, cheio de lugares-comuns e vazio de conteúdo.
2. Não tenho absolutamente nada que ver com o mérito da música em questão nesse texto ou, em linguagem de dia de semana: não estou aqui fazendo picuinha porque o cara meteu o pau no CD do meu amigo.
3. Essa nova série [que, como outras daqui, provavelmente não vai ter continuidade] se dedica precisamente a mostrar que não são as pessoas supostamente incultas que esculhambam a língua portuguesa e que, se há uma crise na língua portuguesa, eu acho que ela não é uma questão de conjugação ou ortografia e de pessoas que têm poucos anos de escolaridade e sim um problema de uma pompa vazia e de uma enxurrada de lugares comuns vindas de pessoas que tem diploma superior. Aliás é espantoso como quase todos os debates públicos são motivados por interesses pessoais, se atém a coisas como pontuação ou sintaxe do oponente e descambam daí para ofensas pessoais violentas e quase que desarticuladas [me lembro de uma Roda Viva com o ex-governador de SP em que ele simplesmente repete aos berros mais de vinte vezes “caluniador!” “mentiroso!” “safado!” “canalha!”

Saturday, September 20, 2008

Série "Batendo em Cachorro Morto": Crítica de música “pópi" 1

Seguem pequenos trechos de uma coluna publicada recentemente na FSP:

• “a inútil idealização de uma época que não volta mais”
Está aí um trecho que mistura tantos clichês que chega quase ao nonsense. Considero uma expressão digna de fazer dupla com seu oposto “a útil não-idealização de uma época que volta sempre”.

• “a melancolia auto-indulgente”
Essa expressão é puro clichê sem nonsense algum, portanto ainda pior que o primeiro trecho, já que não tem a menor graça. Note aqui a insistência em falar do conteúdo das letras [suponho], já que o sujeito provavelmente nem sabe direito o que é um acorde.

• “letras tão idílicas que fariam João Gilberto passar por contestador”?
Desde quando o oposto de idílico é contestador? Posso imaginar um sujeito falando, “ah, como eu gostaria que meu filho fosse mais idílico!” E detalhe: João Gilberto não escreve letras.

• “arranjos que vão na direção do samba-canção e da tradição MPBística”?
Isso é um defeito, de acordo com o autor da própria expressão. Já sei que os arranjos vão, mas será que os arranjos chegam? Que tal essa pérola fazer par com “desarranjos que vêm na contramão”? Talvez o samba-canção aqui seja um tipo de cueca...

• “O clima aqui é de total descontração,”
O sujeito está falando de um CD, mas eu logo me imagino assistindo uma daquelas coberturas de baile de carnaval da minha adolescência. E porque “total”? Existe “descontração parcial”? Se um sujeito toca a marcha fúnebre rindo, qual será o clima então?

• “com músicas que caminham soltas e com naturalidade pelo reggae, pelo pop californiano dos anos 1960, com algumas paradas para retoques psicodélicos.”
Ora, não são só os arranjos que vão em direções; as músicas também caminham! E o fazem “com naturalidade”!! E “soltas” ainda por cima!!! Mas será que não sabem que músicas só podem passear por aí de coleira? Mas nem as músicas nem o nosso gênio pára por aí, caros amigos. E sabe para quê as musicas param? Ora, para “retoques psicodélicos”! Suponho que aqui ele quis fugir do “toques psicodélicos” [ficaria rico se ganhasse 15 centavos cada vez que um desses caras usasse essa expressão]. Mas afinal, o que são mesmo “retoques psicodélicos”?

• “nos transporta para um fim de tarde em uma praia havaiana”
Não são só os arranjos e as músicas que passeiam e vão em direções; nós também! Mas [supondo que essa é uma linguagem metafórica, ou se preferirem, “poética”] o que é que “um fim de tarde em uma praia havaiana” significa? Elvis? Saias de palha? O quê será? Consigo até imaginar um protesto nacionalista, exigindo que dá próxima vez a tal música nos transporte para praias cearenses! Mas porque fim de tarde? Será Itapoã?

• “um neo-reggae lisérgico”
Atenção, neo-liberal, neo-nazista e neo-pernóstico, apresento-lhes seu novo amiguinho: o neo-reggae, que além de neo-reggae é lisérgico também.

Friday, September 19, 2008

Pinturas de Leticia Galizzi 1


Gosto da forma como alguns blogues que visito revezam texto com posts de artes visuais [principalmente fotografias]. Eu vou começar a fazer isso aqui, com pinturas de uma grande e promissora artista [que eu conheço há muito, muito tempo].
Obs. Para ver uma imagem maior, clique na figura.

Wednesday, September 17, 2008

O último manuscrito de Teodoro (ou a vingança de Montezuma)

Para Letícia e Samuel

“¿Qué pasa con el zorro ?, y cuando lo encontraban en los cócteles
puntualmente se le acercaban a decirle tiene usted que publicar más.”
Augusto Monterroso


Teodoro havia terminado o terceiro volume da sua trilogia sobre a cidade de Montezuma (estância mineral no extremo norte de Minas Gerais; pode procurar no mapa) e enviado o último manuscrito revisado aos seus editores quando sentou-se animado na frente do seu computador naquela bela manhã de primavera, tão esperada depois de tantos meses frios em seu longo exílio dos trópicos, e escreveu no alto da primeira página virtual na tela do seu computador de antepenúltima geração o título do seu novo livro: “A Emancipação da Dissonância”. Logo abaixo do título, Teodoro copiou de um papel todo amassado que carregara na carteira durante os meses em preparara o seu último manuscrito a epígrafe do seu novo livro, frase de um venerável compositor alemão: “Quando tudo é possível, tudo precisa ser explicado”. Depois de jogar o papelucho amassado no lixo, Teodoro foi então teclando enter, cada vez mais lentamente, até finalmente chegar à segunda página. Ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer. Lembrou-se com pesar, e uma certa inveja, da fábula da Raposa, que, para combater o tédio, a melancolia e a falta de dinheiro, havia publicado dois bons livros, o segundo ainda melhor que o primeiro, mas que, depois disso, apesar de toda a repercussão – estudiosos americanos publicaram livros sobre os livros publicados sobre os dois livros da Raposa, que foram traduzidos (quase sempre mal) em mais de uma dúzia de idiomas – e apesar de toda a insistência daquela gente toda que a Raposa vivia encontrando em magros coquetéis de livraria, ela havia se recusado terminantemente a publicar um terceiro livro porque, pensava a Raposa consigo mesma, “na realidade querem que eu publique um livro ruim, mas como sou a Raposa, não vou fazê-lo”.

Tuesday, September 16, 2008

Notas de rodapé ao post passado:



O texto que eu estava lendo é de Love and the Law in Cervantes de González Echevarría e ele por sua vez cita um livro dos vários recentes que misturam as “armas” análise literária com a análise legal de textos de direito: Minding the Law de Anthony G. Amsterdam e Jerome Bruner.

Monday, September 15, 2008

Scripts e narrativas



Estou lendo um texto interessantíssimo sobre Don Quixote e, como quase todo texto interessantíssimo, ele tem pequenas pérolas espalhadas por ele, pequenos pedaços de reflexão que saltam do texto e vão se pregar em outro canto da minha cabeça – escrevi, por exemplo, um par de parágrafos sobre os filmes de Iñárritu depois de uma dessas passagens, sobre uma espécie de “estética narrativa da interrupção”.
Ainda sobre esse texto, um a referência muito instigante: um par de definições interessantíssimas de um par de críticos que eu não conhecia [Anthony G. Amsterdam e Jerome Bruner]:
Para eles, o Script conta a norma, os clichês que saem do que as pessoas em geral acreditam na sociedade de um dado tempo e espaço [o monstro, o tarado, o herói, a mãe, o passional, etc]. Os scripts passam por verdade porque, apesar de às vezes bastante inverossímeis, correspondem às expectativas das pessoas em uma dada situação. As interrupções chamam atenção para o absurdo, as contradições desses scripts; essas interrupções são aquilo que transforma aqueles clichés e aqueles personagens de cartolina dos scripts marcados em atores em uma narrativa que perturba, questiona, irrita. Aí está a estética do documentário Ônibus 174 do Padilha, por exemplo. Ou pelo menos de parte do documentário.
No imaginário popular o script do seqüestro do ônibus pelo Sandro Barbosa do Nascimento era claro: um negro drogado e completamente enlouquecido exigia armas e dinheiro, alegava estar possuído pelo demônio e martirizava covardemente meia-dúzia de moças indefesas que ele prendera dentro do ônibus em plena luz do dia em “quatro horas e meia de terror com transmissão direta pela TV” (Jornal do Brasil, 13-06-2000). O filme interrompe várias vezes esse script para revelar uma narrativa mais complexa e instigante por trás dele. Essa narrativa se recusa a reduzir essa história a um outro script complementar do primeiro; as interrupções aqui não servem para inocentar o seqüestrador e transferir Sandro para o campo das vítimas da violência, seguindo as leis da economia narrativa que domina a cultura brasileira contemporânea [a do melodrama das telenovelas]. A narrativa provoca, irrita, confunde justamente porque impossibilita o brasileiro comum a formatar a história do seqüestro do ônibus 174 em qualquer um dos scripts que formatam a compreensão da violência urbana, particularmente no Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo o filme aceita uma outra parte do script: o filme de Padilha decide não perseguir com a mesma persistência e eloqüência narrativa e retórica um aspecto fundamental da história dos eventos daquele dia. Os atiradores de elite da policia tiveram várias possibilidades de acertar Sandro sem maiores riscos para as vitimas e não o fez. Não o fez porque “alguém” ligou para o comandante da operação e deu ordens expressas de que, contrariando a análise dos policiais naquele momento, não se atirasse no seqüestrador. Mas quem partiu essa ordem que os policiais entrevistados no filme condenam como incorreta do ponto de vista “técnico”? O governador? O secretário de segurança? O filme, antes tão eloqüente em sua confiança de investigar e revelar a verdade dos fatos a respeito da vida de Sandro do Nascimento, titubeia e silencia, indo pouco além do que diziam os jornais e televisões na época.

Sunday, September 14, 2008

Keats vai ao paraíso

Keats vai ao paraíso


Corremos, voamos e quando lá chegamos, quando longe se faz perto, nada se altera, e nós encontramo-nos com as mesmas misérias, com os mesmos e estreitos limites, e de novo a nossa alma suspira pelo mesmo bálsamo que acabou de se esvair.
Werther







Enfim,
fugiu.
E viu
que lá
o chão
também
é duro
e frio
e o metro
tem cem
centímetros
e um quilo
de estopa
e um quilo
de chumbo
são um quilo
também
e dez
vez oito
ou oito
vez dez
dá oitenta
também
e as portas
[fossem do que fossem feitas]
fechavam
também.

Friday, September 12, 2008

Rotas da Globalização

Uma prova de que a globalização tem fluxos bem definidos que obedecem às antigas rotas coloniais que os europeus passaram a controlar com mãos de ferro a partir do século XVI: 1968 foi um ano marcante em muitas partes do mundo, inclusive no México. "México?" você talvez me pergunte. É, México. O quadro abaixo, que fotografei lá, diz respeito ao massacre de 2 de outubro. "2 de outubro?" É, em Tlatelolco. "Tlate o quê!?"
Antes que você bata no peito e jogue cinzas na cabeça em penitência, vá ao México e pergunte se alguém sabe da passeata dos Cem Mil. Ou do AI-5. Eles também não fazem a mínima idéia.
Agora pergunte nos dois países sobre Woodstock ou a Primavera de Praga. Que diferença!

Wednesday, September 10, 2008

A força do lugar


Octavio vive cheio de planos de viver maritalmente com sua própria cunhada. Lá pelo quinta proposta, depois de um mundo de pequenos e grandes desastres, Susana retruca com uma frase da sua avó:
“Si quieres hacer reir a Dios, cuéntale tus planes.”
Ah, Alejandro González Iñárritu, como te faz falta o México! Vejam Amores Perros e comprovem...

Tuesday, September 09, 2008

Blogues que pensam: Ademir Assunçao

Um post do Ademir Assunçao que para mim eh um exemplo de que blogues nao precisam ser enrolacao pura:

15/08/2008

QUEM É QUE PAGA POR ISSO?

Hoje vou participar de um bate-papo e de uma leitura de poemas, ao lado de Marcelo Tápia, com mediação de Donny Correia, na Bienal do Livro. A partir das 19h30, no estande da Volkswagen.

Eu vou lá para falar de coisas que levo muito a sério: linguagem poética, visões (e alucinações) de mundo, e vou ler alguns poemas. Mas eu quero falar também de algumas coisas que continuam me preocupando. Cada vez mais.

Talvez por conta desses megaeventos como Bienal do Livro e Festa Literária de Paraty, muita gente pensa que escritores e poetas vivem num mundo de glamour. Bobagem. Literatura exige talento, vocação, seriedade, e também trabalho. Muito trabalho. Ralação. E escritores e poetas são tratados cada vez mais como trabalhadores altamente desqualificados. São cada vez menos respeitados. Na indústria do livro, todos ganham (do gráfico ao editor), menos o escritor, menos o poeta. Essa é que é a verdade. Pergunte a um escritor e a um poeta quais são seus direitos. Nenhum.

Noventa por cento do que é vendido, ou que movimenta a Bienal do Livro, é lixo. Digam a verdade. Não me venham dizer que ler livros de merda é bom, que pelo menos cria o hábito de leitura. Todo mundo sabe que não é verdade. Também não me digam que o aumento das vendas da indústria editorial é bom para os escritores e poetas, porque faz com que as editoras possam investir em literatura e poesia de verdade. Conversa pra boi dormir. Esse lixo editorial atrapalha os escritores, os poetas, o público, o país. O público é enganado. O nível cai à estaca abaixo de zero. Quem é acostumado a ler livros enganadores jamais vai gostar de literatura e de poesia de verdade, porque isso exige maior sofisticação, maior cuidado, tanto de quem faz quanto de quem lê. Literatura não ensina ninguém a ser feliz, não traz promessas artificiais de como se dar bem na vida. Literatura e poesia, ao contrário, trazem questionamentos, visões críticas, desconforto até, principalmente num mundo tão injusto, tão esquizofrênico, tão desconfortável.

É por isso que quando apresentamos nossos livros aos editores, principalmente se for um livro de poesia, freqüentemente ouvimos: isso não vende. Por que? Porque estão acostumando os leitores com coisas fáceis, com coisas imbecis. Então, a lógica funciona ao avesso. Quanto mais os livros imbecis vendem, mais a literatura e a poesia de verdade são estranguladas. Isso está acontecendo em escala escandalosa na música. Liguem o rádio, liguem a TV, pra ver se estou falando bobagem. Quando o nível cai abaixo de zero, isso só é bom para quem se pauta apenas por interesses comerciais.

Ninguém vai me convencer que os enlatados americanos fabricados diariamente por Hollywood vão preparar o espectador para um filme de Cassavetes, de Sérgio Leone, de Jim Jarmush, de Kurosawa. Não vão. Ao contrário, vai ter cada vez menos espaço para diretores como esses.

E quem perde com isso? O país. Que vai tendo sua cultura cada vez mais desmilingüida. O público. Que é enganado. E os artistas de verdade, que têm cada vez menos espaço.

Quando se fala em literatura russa se pensa logo em Dostoievski, em Tolstoi, em Tchecov, em Maiakovski, e certamente tem um punhado de autores contemporâneos, produzindo literatura crítica, densa, profunda, que não conhecemos.

E quando se falar em literatura brasileira perante o mundo, vamos falar de quem?

Na indústria editorial, o elo mais fraco é justamente quem produz. É o escritor. É o poeta. Se for crítico, denso, elaborado, então, aí está condenado ao limbo profundo, ao desespero, ao desrespeito total. Viu, ministro Juca Ferreira? Viu, donos de jornais? Viu, editores? Viu, leitores? Isso é sério. Nos ouça.

O escritor e o poeta brasileiros estão sendo calados dentro do próprio país. O que fazem não repercute. Não é debatido. Não alcança o espaço público de verdade. Por conta de toda essa embromação. E some-se aí a total irresponsabilidade das mídias tradicionais. E o silêncio da universidade.

E os próprios escritores e poetas também são responsáveis por isso. Porque não se posicionam, não criticam, não apontam o que está errado, não levantam a voz. Não se fazem respeitar. Se nós não nos respeitamos, vamos esperar que os leitores nos respeitem? Nos leiam? Como?

Isso é sério. Isso é grave. Ou não?
Então eu vou lá na Bienal para falar de poesia, daquilo a que me dedico há mais de 30 anos. Mas vou lá para falar disso também. Para dizer que não concordo. Para dizer que é preciso mudar esse quadro.

Aliás, eu vou lá trabalhar (não vou lá me exibir como um pavão). E eu deveria receber por isso. Ou será que a Volkswagen, que tem um estande na Bienal do Livro, não tem dinheiro para pagar os escritores e poetas brasileiros que vão lá trabalhar?

E vou fazer um pedido público aqui: quem achar que não estou falando besteira, quem achar que esse debate merece ser travado, repercuta isso. Fale. Se posicione. Espalhe. Falar com as paredes é a pior das sensações.

Monday, September 08, 2008

Quatro Partes

Quatro Partes

O sol
no céu,
um dia
em quatro partes:
manhã,
tarde,
noite e
madrugada.
O sol
no céu,
um ano
em quatro partes:
primavera,
verão,
outono
e inverno.
O sol
no corpo
uma vida
em quatro partes:
infância,
juventude,
madureza e
velhice
e a morte?

Sunday, September 07, 2008

Puritanismo estadounidense e puritanismo brasileiro

Moro nos Estados Unidos e mais especificamente na chamada Nova-Inglaterra, berço do puritanismo. Conheço a mentalidade puritana de perto e a sua extraordinária capacidade de metamorfose: um dia queimam bruxas, cem anos depois proíbem as bebidas alcoólicas, mais algumas décadas e são os comunistas, agora são os fumantes. Até o chamado politicamente correto é nas suas profundezas tipicamente puritano [não estou aqui fazendo essa crítica fácil que se faz a essa que não é um movimento nem mesmo uma corrente, mas um estado de espírito; quem conhece de perto os inimigos do politicamente correto por aqui sabe que o que se faz no Brasil é uma caricatura grotesca do real significado desse termo].
Volto para o Brasil e me encontro com essa lei seca no volante. “Tolerância zero!” Gritam entusiasmados os nossos moralistas, quase sempre sedentos de sangue [Quer ficar com medo? Leia os e-mails que mandam para O Globo comentando sobre qualquer notícia que envolva qualquer tipo de crime.]
Muita gente inteligente que merece meu apreço e minha admiração concorda com a lei seca! E os argumentos a favor são o que mais me impressionou: o número de acidentes e vítimas caiu um colosso, os hospitais estão recebendo menos pacientes e gastando muito menos, etc.
Esses argumentos me levam de volta aos Estados Unidos. Eu vivo num lugar em que a diretora da escola do meu filho de 7 anos decide proibir a prática de esportes como futebol e atividades “perigosas” como pegador para preservar a integridade física dos alunos. O argumento é da mesma natureza: “se as crianças não correm e não trombam umas nas outras, não temos acidentes.”
Bom, na política o puritanismo quase sempre não passa de hipocrisia. Não só no Brasil [que o diga o ex-governador de Nova Iorque].

Pois eu fico pensando e acho que é pouco. Porque parar por aqui? Depois de proibir terminantemente a bebida e o cigarro em qualquer lugar habitado por qualquer criatura viva, proponho banir de nossa sociedade também o consumo do açúcar e do chocolate – especialistas garantem que a obesidade, a diabetes e outras doenças relacionadas ao consumo em excesso dessas substâncias praticamente sumiriam do mapa! Ah, proponho que também proibamos o prática de exercícios físicos em púbico, digo público – garanto uma redução substancial de contusões que certamente vai desafogar nossos já tão ocupados hospitais. E finalmente, com o apoio entusiasmado da comunidade católica, proponho a proibição de qualquer atividade sexual que não tenha propósitos estritamente reprodutivos –diminuindo a contaminação de DST, eliminando o homossexualismo e reduzindo o consumo de drogas perigosas como o Viagra ou o licor de catuaba. Poderíamos até criar [aqui entra uma das belezas da cultura brasileira] o CEPROSER, Certificado de Propósito Sexual Estritamente Reprodutivo, emitido nos cartórios ou paróquias locais. Que tal?

Saturday, September 06, 2008

Machado, o nosso querido argentino

Essa saiu na sexta-feira na seção de cultura do "jornal modelo" de muita gente no Brasil, o New York Times: "Machado 21, a citywide celebration of the centenary of the Argentine novelist Machado de Assis".

Friday, September 05, 2008

ANTOLOGIA POÉTICA

ANTOLOGIA POÉTICA
— Não vai levar a Obra Completa?
diz o livreiro, em tom maior.
— Não. Levarei a Antologia,
por ser dos males o menor.

O humor ácido é de Drummond. Quer conhecer um pouco mais sobre os poemas de circunstância de Drummond e de Bandeira? Procure o poesia.net, um trabalho muito legal feito sem qualquer alarde há seis anos [255 números!!!!] por Carlos Machado. Além do site, você pode inscrever seu endereço como eu fiz e receber com constância impressionante um e-mail/post bem montado com pérolas surpreendentes, de um medalhão ou de um ilustre desconhecido [para você].

Wednesday, September 03, 2008

Informação ou embromação?

Estatísticas em jornais sempre me intrigam e freqüentemente me irritam. E não é porque eu tenha alguma coisa contra os números; ao contrário eu acho que as estatísticas são informação relevante na maioria das vezes, só que, ao contrário do cliché, não falam nunca por si. Agora, os números nos jornais quase nunca dizem nada, porque sempre aparecem pela metade, de forma meio torta. Vejamos um exemplo simples: na Folha de São Paulo de hoje saiu uma nota [“Bienal do Livro tem queda de público de 10%] que diz o seguinte:

“A 20ª edição da Bienal do Livro de São Paulo, que terminou no dia 24, teve queda de cerca de 10% em seu público na comparação com 2006, quando 811 mil pessoas estiveram no evento. Neste ano, em 11 dias, 728 mil pessoas foram ao pavilhão do Anhembi, segundo a organização. Entre os compradores, a média de livros adquiridos subiu de 3,45 para 4,97 por pessoa.”

Uma conta matemática simples, que eu tive que fazer por conta própria, já me revela um dado curioso: a bienal de 2008, apesar de menos gente, vendeu mais livros que a de 2006 – 800.000 livros a mais. Mas como é que a gente compara os dois eventos direito sem saber pelo menos quatro coisas:
1. Se os dois duraram o mesmo número de dias [sim],
2. se tiveram o mesmo número de expositores [não sei],
3. se aconteceram na mesma época do ano [um foi em março o outro em agosto; pode ter alguma coisa aí, mas eu não sei],
4. a quantas anda o consumo de livros no Brasil agora em comparação com 2006 [não sei; suponho que tenha crescido. Será que cresceu mais ou menos que crescimento em vendas da bienal?].
Em outras palavras, a nota da Folha de São Paulo só informa pela metade e informando pela metade não serve quase para nada – eu leio a nota e continuo quase que com a mesma incapacidade de comparar as duas bienais e muita ou relativa incapacidade são, na prática, a mesma coisa. Fica um fato solto no ar e como eu não consigo articular nada com esse fato solto, ele já fica pronto para um rápido esquecimento [dizem que somos um povo sem memória; com um jornalismo assim, só Funes, o memorioso, de Borges para lembrar-se de alguma coisa]. O pior é que não há nada aqui de particular no jornalismo da FSP, nem mesmo no jornalismo brasileiro.

Monday, September 01, 2008

Leopoldo Serran


Leopoldo Serran.
Nome não diz nada?
Que tal "Dona Flor e seus dois maridos", "Gabriela, Cravo e Canela", "Ganga Zumba", "Bye Bye Brasil", "O que é isso, companheiro?", "O Quatrilho"?
Pois é, o cara escreveu o roteiros desses filmes todos [Dona Flor com ninguém mais que Eduardo Coutinho] e quem gosta de cinema brasileiro devia conhecer o nome dele de cor. Faz parte da história.
Tem gente que gosta de se lamentar que o brasileiro não tem memória. Ao invés de ficar se lamentando eu prefiro dar minha modesta contribuição para que a gente se lembre mais. Repito um gesto de generosidade de um aluno. Minha fonte de informação no caso foi esse ex-aluno que me mandou a reportagem sobre o Leopoldo Serran que saiu no NYT. Saíram também pequenos comentários no Merten e no Zanin [do estadão] e na FSP.