Saturday, September 20, 2008

Série "Batendo em Cachorro Morto": Crítica de música “pópi" 1

Seguem pequenos trechos de uma coluna publicada recentemente na FSP:

• “a inútil idealização de uma época que não volta mais”
Está aí um trecho que mistura tantos clichês que chega quase ao nonsense. Considero uma expressão digna de fazer dupla com seu oposto “a útil não-idealização de uma época que volta sempre”.

• “a melancolia auto-indulgente”
Essa expressão é puro clichê sem nonsense algum, portanto ainda pior que o primeiro trecho, já que não tem a menor graça. Note aqui a insistência em falar do conteúdo das letras [suponho], já que o sujeito provavelmente nem sabe direito o que é um acorde.

• “letras tão idílicas que fariam João Gilberto passar por contestador”?
Desde quando o oposto de idílico é contestador? Posso imaginar um sujeito falando, “ah, como eu gostaria que meu filho fosse mais idílico!” E detalhe: João Gilberto não escreve letras.

• “arranjos que vão na direção do samba-canção e da tradição MPBística”?
Isso é um defeito, de acordo com o autor da própria expressão. Já sei que os arranjos vão, mas será que os arranjos chegam? Que tal essa pérola fazer par com “desarranjos que vêm na contramão”? Talvez o samba-canção aqui seja um tipo de cueca...

• “O clima aqui é de total descontração,”
O sujeito está falando de um CD, mas eu logo me imagino assistindo uma daquelas coberturas de baile de carnaval da minha adolescência. E porque “total”? Existe “descontração parcial”? Se um sujeito toca a marcha fúnebre rindo, qual será o clima então?

• “com músicas que caminham soltas e com naturalidade pelo reggae, pelo pop californiano dos anos 1960, com algumas paradas para retoques psicodélicos.”
Ora, não são só os arranjos que vão em direções; as músicas também caminham! E o fazem “com naturalidade”!! E “soltas” ainda por cima!!! Mas será que não sabem que músicas só podem passear por aí de coleira? Mas nem as músicas nem o nosso gênio pára por aí, caros amigos. E sabe para quê as musicas param? Ora, para “retoques psicodélicos”! Suponho que aqui ele quis fugir do “toques psicodélicos” [ficaria rico se ganhasse 15 centavos cada vez que um desses caras usasse essa expressão]. Mas afinal, o que são mesmo “retoques psicodélicos”?

• “nos transporta para um fim de tarde em uma praia havaiana”
Não são só os arranjos e as músicas que passeiam e vão em direções; nós também! Mas [supondo que essa é uma linguagem metafórica, ou se preferirem, “poética”] o que é que “um fim de tarde em uma praia havaiana” significa? Elvis? Saias de palha? O quê será? Consigo até imaginar um protesto nacionalista, exigindo que dá próxima vez a tal música nos transporte para praias cearenses! Mas porque fim de tarde? Será Itapoã?

• “um neo-reggae lisérgico”
Atenção, neo-liberal, neo-nazista e neo-pernóstico, apresento-lhes seu novo amiguinho: o neo-reggae, que além de neo-reggae é lisérgico também.

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