Sunday, September 21, 2008

Música "pópi" 2

Mais pérolas da tal matéria sobre música:

• “das bandas mais heterodoxas do rock atual”
Será que eles comem carne de porco? Será que comem peixe na sexta-feira da paixão? Será que celebram casamentos de homossexuais?

• “uma bem-vinda atmosfera dançante”
Agora somos transportados para o reino das metáforas atmosféricas, mania desse tipo de resenha. No caso temos a manjada “atmosfera dançante”, provavelmente referência àquelas nuvenzinhas que ficam mexendo de lá para cá atrás do sujeito que faz a previsão do tempo no jornal da TV.

• “músicas que se inspiram na disco music e na música negra americana”
Eu me espanto com a precisão do termo “música negra americana”, que vai de Louis Armstrong a Mahalia Jackson a Miles Davis a Aretha Franklin a James Brown a Michael Jackson a Public Enemy. E essa imprecisão ainda é maior se pensarmos que agora, além de ir e vir e andar sem coleira e nos transportar a praias havaianas, as danadas das músicas também se inspiram! Mas o se inspiram como?

• “canções que vão de situações áridas a arrependimentos dolorosos”
De novo o tema das letras substitui a ignorância completa sobre música propriamente dita. De novo a imprecisão pseudo-poética. E de novo os clichês “dolorosamente” pomposos.

• “guitarras etéreas e a voz marcante”
De novo, de novo, de novo.

Qual a diferença entre essas pérolas e as dos jogadores de futebol depois de um jogo? Para mim são três:
1. O jogador se esforça e ganha dinheiro para jogar futebol e não para se expressar verbalmente.
2. O jogador tem que improvisar ali, na lata, depois de correr feito um doido sob forte pressão emocional, e não tem tempo de revisar nada nem de pensar duas vezes no que diz.
3. O jogador, quando fala bobagens, frequentemente comete erros que são identificados com os pobres, embora técnicos e comentaristas com diploma já estejam ensinando a todos no meio futebolístico a falar “besteiras de nível” como as desse crítico de música da FSP.

Observações:
1. Não incluo aqui o nome nem dou a fonte precisa porque o texto e o autor [que não conheço] não têm nada de especial. Infelizmente quase todas as resenhas e reportagens sobre música “pópi” são escritas exatamente nesse estilo pomposo, cheio de lugares-comuns e vazio de conteúdo.
2. Não tenho absolutamente nada que ver com o mérito da música em questão nesse texto ou, em linguagem de dia de semana: não estou aqui fazendo picuinha porque o cara meteu o pau no CD do meu amigo.
3. Essa nova série [que, como outras daqui, provavelmente não vai ter continuidade] se dedica precisamente a mostrar que não são as pessoas supostamente incultas que esculhambam a língua portuguesa e que, se há uma crise na língua portuguesa, eu acho que ela não é uma questão de conjugação ou ortografia e de pessoas que têm poucos anos de escolaridade e sim um problema de uma pompa vazia e de uma enxurrada de lugares comuns vindas de pessoas que tem diploma superior. Aliás é espantoso como quase todos os debates públicos são motivados por interesses pessoais, se atém a coisas como pontuação ou sintaxe do oponente e descambam daí para ofensas pessoais violentas e quase que desarticuladas [me lembro de uma Roda Viva com o ex-governador de SP em que ele simplesmente repete aos berros mais de vinte vezes “caluniador!” “mentiroso!” “safado!” “canalha!”

2 comments:

sabina anzuategui said...

Sobre "canções que vão de situações áridas a arrependimentos dolorosos":
Meu marido chama essas frases de "arco imaginário". Quem disse que existe algo de uma coisa até a outra?

Paulodaluzmoreira said...

"Arcos imaginários" é um boa definição. É um dos vários recursos que dão uma falsa aparência de eloquência a um texto. Eu me lembro trabalhava com um carro e ficava ouvindo a rádio CBN e pensava, "como essas pessoas falam mal, que português feio e vazio", mas eram coisas "normalizadas", que não causavam estranhamento nenhum. Os erros têm a estampa da classe social e o proconceito social se disfarça de críticas à incorreção gramatical das massas.