Wednesday, January 31, 2018

Poema meu: Aura de desastre

Foto minha: Puxador em Veneza

Foto minha: Pés no Metropolitan

Uma aura de desastre. Dois olhos duros, amarelos. Olhos de gato me estudando sóbrios, me especulando com a atenção indiferente de um bebê.

esse eu conheço pelo cheiro: do vinho só bebe o nome.

caráter é carne, caroço e casca: punhal de que não se vê nem o fio, nem o cabo.

a gente só ama o que não tem. Quando encosta o dedo de leve, o amor abre as asas e vai embora.

amor não morre, vai embora. Quem morre é você, fulminado, carcomido,
cego, e pior: sem nem saber que.

Só é corajoso quem descrê da boa sorte.

O amor pega, bate a carteira dos dois e cai fora. fica a carne dos dois
pendurada no açougue, tentando, sozinha, reacender o fósforo numa lata cheia d’água.

Baixei as malas no chão e tranquei a porta do quarto brigando com as chaves.

Quando me virei lá estava ela, nua de modéstia e descalça de vergonha: a fome. 

Foto: Chão no Gabinete Português

Foto minha: Bica 

Sunday, January 28, 2018

Obituário: Nicanor Parra

Nicanor Parra (1914-2018)
Epitafio
Nicanor Parra

De estatura mediana,
Con una voz ni delgada ni gruesa,
Hijo mayor de profesor primario
Y de una modista de trastienda;
Flaco de nacimiento
Aunque devoto de la buena mesa;
De mejillas escuálidas
Y de más bien abundantes orejas;
Con un rostro cuadrado
En que los ojos se abren apenas
Y una nariz de boxeador mulato
Baja a la boca de ídolo azteca
-Todo esto bañado
Por una luz entre irónica y pérfida-
Ni muy listo ni tonto de remate
Fui lo que fui: una mezcla
De vinagre y aceite de comer
¡Un embutido de ángel y bestia!


Mais Nicanor Parra aqui.

Friday, January 19, 2018

Recomendação para ontem: Fábio Durão

Quer ler algo relevante vindo da universidade, algo que seja inteligente e contundente sem ser hermético e bruto? Recomendo ler o que escreve Fábio Durão, professor da UNICAMP. Além de livros muito bons como Fragmentos Reunidos e TEORIA (LITERARIA) AMERICANA: UMA INTRODUÇAO CRITICA, vários dos seus artigos estão disponíveis na página dele no saite Academia. Eis dois trechos de dois desses artigos:

"Quem usa o conceito de Bildung como se ele estivesse disponível, como se ele pudesse ser usado agora, vai estar cometendo um erro sério, um erro que na área de Letras é muito fácil de ser cometido, e que se refere à cegueira em relação ao novo. [...] Pois bem, qualquer abordagem da questão da formação, tem assim que reconhecer a natureza eminentemente antiquada dessa problemática. Daí a minha tese, de que o problema da Bildung não tem nenhuma atualidade hoje. Tudo aquilo que a formação indica (conhecimento, uma subjetividade forte para poder discernir e criticar, instituições capazes de transmitir uma tradição educativa viva) – tudo isso já está há muito tempo fora de questão, morto. E só não vê isso quem não quer, ou não tem coragem."
De "Sobre a relevância dos estudos literários hoje"

"Embora não haja imbecilidade sem pessoas, não são elas que, a rigor, a criam, porque, é óbvio, a criação de algo requer alguma espécie de inteligência. A burrice é mais produtivamente abordada, não como resultado das ações da pessoa, mas como estrutura, um dispositivo subjetivador; nesse sentido, ela pode estar entranhada nas instituições, pois, como pelo menos já desde Althusser (1995) sabemos, estas transformam indivíduos em sujeitos."
De "Burrice acadêmico-literária brasileira".  


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