Tuesday, February 26, 2019

Tradução minha: Brenda Ríos

"Agora me vem a ideia de que a literatura europeia cuida dos adjetivos como se fossem jóias que estivessem trancafiadas na caixa forte de um hotel elegante. Os latino-americanos escrevem como se só pudessem fazer um livro que diga tudo de todas as maneiras possíveis. A narrativa europeia é um homem vestido de terno num anúncio de perfume. A narrativa latino americana é um jovem imprudente dum anúncio de motocicletas. Ainda que não seja ninguém para opinar sobre o assunto, é essa a minha opinião."

Fragmento de "1 de mayo", crônica de Brenda Ríos contida em Empacados al vacío - Ensayos sobre la nada

Saturday, February 23, 2019

Juan Rulfo: El día del derrumbe


“El día del derrumbe” (Toda la obra, 140-149) é um conto de acento nitidamente cômico e quase farsesco. Publicado pela primeira vez no influente caderno cultural México en la Cultura, do jornal Novedades em 1955, “El día del derrumbe” só foi acrescentado ao volume de contos El Llano en llamas na sua nona edição em 1970.
“El día del derrumbe” traz dois narradores/contadores de história: um deles, cujo nome desconhecemos, conduz quase toda a narrativa, mas constantemente elicita explicitamente uma confirmação ou correção do outro narrador, Melitón, dizendo, por exemplo, “Oye, Melitón, (…) ¿Tú no te acuerdas?” (140) ou “¿O no es así, Melitón?” (141). A narrativa dividida assim entre os dois ganha sentido agudo de performance, com apelos frequentes a uma audiência silenciosa com coisas como: “pero espérense” (140), “Todos ustedes saben” (141), ou “bueno, como les estaba diciendo” (141). Aqui Melitón é um ouvinte participante, convocado insistentemente pelo narrador principal porque “eres muy bueno para eso de la memoria, Melitón, no cabe duda” (142) e porque era “presidente municipal” Tuzcacuesco quando da visita do governador. Melitón corrige o narrador às vezes, fornece detalhes e toma as rédeas da narrativa ao reproduzir verbatim o longo discurso do governador que “lo he repetido tantas veces que hasta resulta enfadoso” (142).  
Melitón e o narrador principal recontam juntos o dia em que o tal governador do estado faz uma visita extraordinária fora do calendário eleitoral por causa um terremoto devastador que atinge Tuzcacuexco. Houve de fato um violento terremoto em 1932 que deixou pelos menos 6.000 famílias desabrigadas. O governor era Sebastián Allende (1893-1947), general ativo da revolução Mexicana e “famigerado” pelo envolvimento num tiroteio na câmara dos deputados que resultou na morte de um rival político e pelos vistosos sapatos negros que renderam a ele e a seus acólitos o apelido tenebroso de “los muerteros” (os agentes mortuários). A devastação causada pelo desastre natural é exarcebada pela visita do governador, que causa uma custosa interrupção no esforço de reconstrução com a realização de um farto banquete ao governador e sua imensa entourage, uma origia de excessos grotescos que rapidamente se deteriora em tiroteio seguido de briga de rua com a morte de pelo menos mais uma pessoa, esse o “derrumbe” a que se refere o título.
O desastre natural pode ser comparado metaforicamente ao impacto causado por bruscas mudanças econômicas, políticas e sociais na existência já precária de gente pobre vivendo às margens do capitalismo rural. “El día del derrumbe” vai além, estabelecendo uma conexão mais explícita entre os desastres de ordem natural e os desastres de natureza social. O estado aparece como um interventor frequentemente brutal e parcial que frustra qualquer expectativa de mudança positiva ao reduzir o discurso de reformas a um vazio e pela quase completa ausência, abandonando a gente que têm que lidar com violência e arbitrariedades entre errupções calamitosas de desastres naturais e humanos.
A presença do governador, descrita com ironia sarcástica pelos dois narradores, expõe claramente o absurdo de uma presença que por si parece magicamente capaz de consertar qualquer problema e que na verdade não faz nada. Uma comunidade em seríssimas dificuldades oferece em sacrifício quatro mil pesos ao governador e sua entourage, enquanto estes lhes oferecem nada além de gestos vazios de falsa compaixão. Ao invés de indignação com esse absurdo, os narradores do conto de Rulfo nos oferecem um sarcasmo em forma de falsa ingenuidade que lembra o monólogo final de Justino Nava em “¡Diles que no me maten!” ou a voz zombeteira de Ratliff em “A Bear Hunt”:

            "(…) me lembro que estávamos ainda escorando as paredes, chegou o governador; vinha ver que ajuda podia dar com sua presença. Vocês todos sabem que sempre que basta que o governador se apresente, é só o pessoal vê-lo, para que tudo se arranje. A questão é fazer com que ele pelo menos venha ver o que está acontecendo, e não fique por lá, metido na sua casa, só dando ordens. Ele vindo tudo se arranja, e o pessoal, mesmo que a casa tenha desmoronado em cima da cabeça, fica todo contente só de tê-lo encontrado."*

Esse governador totem do poder do estado é familiar: cínico e oportunista, aqui alvo de uma sátira irônica que se esconde em um discurso ostensivamente ingênuo: 

"… ficamos muito contentes: o pessoal estava que arrebentava o pescoço de tanto se esticar para poder ver o governador e fazendo comentários sobre como ele tinha comido o peru e que havia até chupado os ossos, y de como ele era rápido para traçar uma tortilha atrás da outra, passando nelas o molho de abacate; repararam em tudo. E ele todo tranquilo, todo sério, limpando as mãos nas meias para não sujar o guardanapo que só serviu mesmo para ele ajeitar os bigodes de vez em quando."*

A ambivalência reticente que não impede a crítica aguda e sarcástica. Pode parecer covardia, mas trata-se de estratégia de sobrevivência transformada em característica cultural profunda, traço que carregamos, brasileiros e mexicanos, desde que invasores europeus começaram a chegar no século XVI.



* No original, “… me acuerdo que estábamos todavía apuntalando paredes, llegó el gobernador; venía a ver que ayuda podía prestar con su presencia. Todos ustedes saben que nomás con que se presente el gobernador, con tal que la gente lo mire, todo se queda arreglado. La cuestión está en que al menos venga a ver lo que sucede, y no que se esté allá metido en su casa, no más dando órdenes. En viniendo él, todo se arregla, y la gente, aunque se le haya caído la casa encima, queda muy contenta de haberlo conocido.” (141)

** No original, “… estuvimos muy contentos: la gente estaba que se reventaba el pescuezo de tanto estirarlo para poder ver el gobernador y haciendo comentarios de cómo se había comido el gualojote y de que si había chupado los huesos, y de cómo era de rápido para levantar una tortilla tras otra rociándolas con salsa de guacamole; en todo se fijaron. Y él tranquilo, tan serio, limpiándose las manos en los calcetines para no ensuciar la servilleta, que sólo le servió para espolvorearse de vez en cuando en los bigotes.” (141-142)

Wednesday, February 20, 2019

Poesia portuguesa: Miguel Torga e o Brasil


Coimbra, 16 de junho de 1970.

BRASIL

Brasil onde vivi, Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!

Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar. Perder-te mais. Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.

Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.

Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Entre o chão encontrado e o chão perdido.

Miguel Torga (1907-1995), Diários, Vols IX a XII, 219

O poeta, contista e memorialista Adolfo Correia da Rocha (Miguel Torga) nasceu em Portugal em família humilde e amigrou para o Brasil com 12 anos e ali viveu até 1925, quando um tio decide patrocinar seus estudos após ele ter se destacada no Ginásio Leopoldinense.

Encerra o livro Traço de União (Temas Portugueses e brasileiros) com carta a Ribeiro Couto que tem o seguinte trecho: "deixaram de ser o que eram, e amam o que as fez diferentes. Aceitar uma vida sem passado, eis a grandeza dos povos americanos. Do povo brasileiro em particular, que não tem uma pedra carcomida onde repouse a memória. O estímulo só lhe pode vir do futuro que construir. Não calculas o respeito que senti por certos camaradas teus conterrâneos que olhavam a arquitetura de algumas fábricas de S. Paulo com o embevecimento com que eu contemplo a Sé Velha" https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/adriano-moreira/interior/traco-de-uniao-4780382.html

Em 21 de junho de 1951 em Coimbra ele comenta em artigo sobre José Lins do Rêgo, "Assim como o Brasil nos desconhece, desconhecemos nós o Brasil. Porque ficamos fiéis à imagem burocrática de uma colónia, fugiu-nos a fisionomia de uma pátria nascente; porque ficou fiel à imagem dominadora da metrópole, esfumou-se-lhe o papel de uma pátria materna. E, longe de nos aproximarem, as aproximações têm-nos separado. É que elas não têm sido feitas a partir de uma justa atualização de valores." https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/adriano-moreira/interior/traco-de-uniao-4780382.html


Friday, February 15, 2019

Anne Enright

Anne Enright é uma escritora irlandesa contemporânea e não deve nada aos grandes escritores dessa tradição tão rica e tão viva da lingua inglesa. Li uma série curta de ensaios dela que ela escreveu sob o impacto da gravidez e do nascimento da sua primeira filha. A série chamada Babies [na verdade fragmentos de um livro dela chamado Making Babiesi] me tocou profundamente pela maneira sensível e ao mesmo tempo avessa aos clichês cafonas ou engraçadinhos que costumam proliferar nesse tipo de texto sobre paternidade.

Abro um parêntesis necessário. Meu convívio com pessoas que optaram por não ter filhos foi muito positivo para me alertar sobre a tolice de sair empilhando superlativos para descrever uma experiência pessoal e intransferível, falsificando uma ideia de que a paternidade é boa para todo mundo em qualquer situação o tempo todo. Claro que isso não impede que alguém escreva sobre suas experiências e consiga compartilhá-las sem fazer cabotinismo. Não se trata de qualquer tipo de censura. Além das hipocrisias e moralismos sentenciosos e pequeno-burgueses que entopem as redes sociais, o convívio com pessoas diferentes da gente nos alerta para os nossos pontos cegos e nossas babaquices involuntárias. Fecho o parêntesis.

Enright já começa com uma série altamente irônica de pedidos de desculpas ["Apologies All Around"]:

"A fala é um ato egoísta, portanto as mães deviam permanecer em silêncio. Quando um desses ensaios, sobre a gravidez, apareceu na revista do jornal The Guardian as reações na seção de cartas dos leitores foi feroz. Quem ela pensa que é? and Por quê nós devemos ser obrigados a ler sobre as suas entranhas? and Não seria melhor se ela estivesse escrevendo sobre o sofrimento de um aborto involuntário?

Então eu gostaria de pedir desculpas a todos antes de qualquer coisa. Desculpas. Desculpas. Desculpas. Desculpas." 

Daí Enright começa a falar de coisas que talvez sejam consideradas "de mal-gosto": as implicações fisiológicas da gravidez e do parto a partir de uma perspectiva bem direta e franca. Lá pela metade desse início tão finamente irônico ela comenta:

"Esses textos foram teclados com pressa. Eles foram escritos ao som da respiração de um bebê dormindo" (3).

Thursday, February 14, 2019

Poesia Portuguesa: Jorge de Senna

Arte Minha: S_mething. is m_ssing

A Portugal
Jorge de Sena

Podereis roubar-me tudo:
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas, os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, de penetrar
Em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
Será terrível. Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado como meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu, E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Esta é a ditosa pátria minha amada.
Não, nem é ditosa porque o não merece,
nem minha amada, porque é só madrasta
nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de ter nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
Quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela
Saudosamente nela,
Mas amigos são por serem meus amigos
e mais nada.
Torpe dejecto de romano império,
Babugem de invasões,
Salsujem porca de esgoto atlântico,
Irrisória face de lama, de cobiça e de vileza,
De mesquinhez, de fátua ignorância.
Terra de escravos, de cú para o ar,
Ouvindo ranger no nevoeiro a nau do Encoberto.
Terra de funcionários e de prostitutas,
Devotos todos do Milagre,
Castos nas horas vagas, de doença oculta.
Terra de heróis a peso de ouro e sangue,
E santos com balcão de secos e molhados,
No fundo da virtude.
Terra triste à luz do Sol caiada,
Arrebicada, pulha,
Cheia de afáveis para os estrangeiros,
Que deixam moedas e transportam pulgas
(Oh!, pulgas lusitanas!) pela Europa.
Terra de monumentos
em que o povo assina a merda
o seu anonimato.
Terra-museu em que se vive ainda
com porcos pela rua em casas celtiberas.
Terra de poetas tão sentimentais
Que o cheiro de um sovaco os põe em transe.
Terra de pedras esburgadas,
Secas como esses sentimentos
De oito séculos de roubos e patrões,
Barões ou condes.
Oh! Terra de ninguém, ninguém, ninguém!
Eu te pertenço.
És cabra! És badalhoca!
És mais que cachorra pelo cio!
És peste e fome, e guerra e dor de coração!
Eu te pertenço!
Mas seres minha, não!

Tuesday, February 12, 2019

Poesia minha


Só me importa o que não leva a nada

São meus esses desertos
vibrando sob os dedos do amor.

É minha essa aranha miúda
que vai tecendo minha desventura.

São meus os semeadores da confusão
que arde nas minhas entranhas aqui agora.

São meus esses linchadores do espírito
me esperando atrás da porta.

Mas hoje só me importa o que não leva a nada:
Um raio de sol que se enfia pela cortina;
uma florzinha teimando na racha do asfalto;
um olhar atento de bebê, alheio a nostalgias e previsões;
todas as emoções dissolvidas na desarticulação da pré-história onde não existe palavra.

Enfim, todas as memórias inconsequentes.

Hoje só me importa o que não leva a nada.