Tuesday, December 20, 2005

Cadeia da Felicidade

Há muitos anos atrás o caderno de cultura pedante de um jornal pedante pediu a um monte de escritores (alguns também pedantes, outros não) para escrever um "contozito" (como diriam os portugueses) com o tema singelo de "felicidade". Inspirado por tanto pedantismo eu escrevi o meu "contozito":

A Cadeia da Felicidade


Ano passado Válter Disnêi inventou e patenteou um aspirador de pó que também pode ser usado como secador de cabelos ou ventilador/cortador de batatas. A fábrica de biscoitos Guarani resolveu produzir em série o aparato no formato transformer: forma de Elefante, Tamanduá ou Jibóia com um simples e rápido jogo de botões e alavancas móveis em cores e linhas arrojadas. A cadeia de lojas de departamento Pancrácio assinou contrato de exclusividade para a distribuição do produto em suas lojas em todo o país e no exterior usando o revolucionário sistema de embalagens KRAN111: caixas extremamente leves, feitas de resina transparente colorida e comestível, importadas diretamente da Malásia, onde o multi-empresário e ultra-milionário Maputra Mon Chian fez fama e fortuna com o sistema e com o também revolucionário método de gerenciamento Mon Chian, que combina com imaginação e bom-senso fraudes tributárias, contrabando e a exploração intensiva de força de trabalho infanto-juvenil em um dia dividido em três partes iguais: oito horas na fábrica, oito horas no prostíbulo e oito horas cavando com as próprias mãos o túnel subaquático que pretende conectar de forma ainda mais rápida e eficiente as economias da região, facilitando a troca de sapatos de crocodilo e bolsas de canguru australianos por fígados e rins humanos da Indonésia que abastecerão os melhores hospitais e restaurantes da Europa e dos Estados Unidos.
Disnêi, a fábrica de biscoitos Guarani e a cadeia de lojas de departamento Pancrácio foram recentemente comprados pelo conglomerado nipo-germânico de propriedade do hermafrodita cubano-americano Harvey “Pocahontas” Diaz, numa manobra radical que deixou Wall Street em discreta polvorosa por quase vinte minutos. Assim, a partir de agora Válter passa a atender pelo nome de Rodney, a Guarani transformou-se em Faktorie e a Pancrácio passa a se chamar Mon Congo Way. O mercado reagiu bem às mudanças e os efeitos dessa alegre revolução comercial, administrativa e financeira já se fazem sentir na cidade natal de Rodney Disnei, a aprazível Montezuma, bem no coração do Jequitinhonha: a cidade está também em polvorosa com a chegada dos novos executivos da Faktorie e da Mon Congo Way que foram importados diretamente do Canadá com base na nova lei de incentivo ao desenvolvimento sustentado do Vale – os novos executivos são movidos a bateria solar e prometem causar furor nos banhos públicos e bailes de debutantes da cidade, substituindo os velhos e já ventrudos executivos Belgas movidos a uísque e charutos, que já faziam parte do conjunto histórico do centro da cidade, mas ameaçavam a saúde financeira do município ao onerar muito mais os cofres públicos com manutenção e peças, já que quase sempre começavam a soltar as tiras depois de cinco anos de uso intensivo.

Friday, December 16, 2005

Certificado de Impunidade

Um conto(?) antigo que de repente ficou novo de novo. Dedico esse texto ao Romeu Queiroz e aos seus padrinhos, Aecio Neves e Walfrido Maresguia.

Certificado de Impunidade

Nós não medimos esforços no sentido de promover um ambiente o mais propício possível ao desenvolvimento aqui do nosso município. É nesse sentido que temos lançado uma série de políticas públicas e medidas administrativas para simplificar, agilizar, otimizar e desburocratizar os processos, sempre priorizando a transparência em um ambiente propício ao fomento dos mais diversos empreendimentos, buscando uma máxima diversificação dentro das nossas potencialidades e das nossas vocações naturais.
E agora estamos aqui para anunciar que a nossa prefeitura mais uma vez sai na frente e tem o orgulho de ser pioneira na aplicação de uma idéia que, com toda a certeza, logo se espalhará por todo o país: o Certificado de Impunidade®.
Como quase todas as grandes idéias, nosso Certificado de Impunidade® surgiu de uma constatação muito simples: ano após ano fortunas dos cofres públicos são gastas empregando recursos e pessoal qualificado na tentativa de levar ao tribunal, julgar e condenar certos indivíduos sem qualquer sucesso. Um verdadeiro exército de policiais, investigadores, promotores, juízes, programas de proteção a testemunhas, celas especiais para pessoas com diplomas do terceiro grau e uma imensa estrutura burocrática que drenam os recursos públicos sem qualquer retorno, financeiro ou social. Esses são recursos que poderiam ser utilizados no fomento ao desenvolvimento e no cumprimento das prerrogativas básicas do estado. Casos e mais casos notórios sempre terminam sem qualquer resultado prático: no máximo um punhado de reputações levemente arranhadas, coisa que o tempo trata logo de apagar e um rombo cada vez maior nas contas públicas.
Com o nosso Certificado de Impunidade® todo esse processo dispendioso e desgastante acaba e, melhor ainda, ganhamos uma nova fonte de arrecadação de recursos com a venda desse produto no mercado de ações, lojas de conveniência, shopping centers e internet. Depois de um processo simples, rápido e seguro, obedecendo a critérios estritamente técnicos, qualquer um pode, sem maiores aborrecimentos, receber seu Certificado de Impunidade® em casa pelo correio. Assim os casos de corrupção ativa e passiva, trabalho escravo, pistolagem, estelionato, fraude, desvio de recursos e tantos outros que sempre houve, há e haverá no nosso lindo paraíso tropical poderão estar à vista de todos, executados com máxima transparência e custo mínimo. Livres dos entraves burocráticos que atrasam e às vezes até paralisam o empreendedor e/ou empresário, nosso município e, logo, todo o país, estarão prontos para crescer com solidez e estabilidade social, uma vez que todo o aparato legal poderá dedicar-se em tempo integral àqueles crimes que chamamos de alta punibilidade, tais como prostituição autônoma, pequeno varejo de drogas, batedores de carteira, cambistas e falsos mendigos e aleijados. Esses são os delitos que comprovadamente mais irritam e incomodam o cidadão comum no seu dia-a-dia, espalhando um senso de desrespeito às leis que põe em risco nossa paz social.

Thursday, May 26, 2005

Eu vivo em guerra

Eu vivo em guerra porque eu vivo para a literatura e a literatura não vale nada no mundo de hoje. Dou um exemplo: Lygia Fagundes Telles ganha o maior prêmio literário da língua portuguesa (que aliás vem de um país com população e PIB menores que a cidade de São Paulo) e um jornal dá a notícia na seção cultural com menos destaque que um livro de um sujeito que ganhou um programa de "realidade". Então eu vivo em guerra contra a futilidade, a idiotice, a caretice, a ignorância e a cultura de patota que faz com que algumas pessoas finjam ler e adorar o que outras fingem escrever. Será que eu sou o único? Como as pessoas incapazes de encontrar um companheiro vão mandar anúncios para os jornais e para a internet para encontrar alguém, eu resolvi mandar às favas o orgulho e assumir que em carne e osso não consigo encontrar ninguém que viva em guerra como eu - e viver em guerra sozinho faz mal para o coração, a cabeça e o estômago.