Sunday, June 29, 2008

A imbecilidade é uma epidemia...

Não faz muito tempo que eu trombei na internet com um bando de panguás que tinham criado uma ridícula Copa da Literatura [espécie de concurso idiota em que o sujeito é obrigado a escolher entre dois livros]. Pois semana passada a FSP cometeu uma sandice parecida, levando esse "conceito" digno de um programa de auditório de tarde de domigo, pasmem, para "decidir" qual o melhor: Machado de Assis ou Guimarães Rosa. O resultado anunciado foi que Machado ganhou de "goleada" por 11 a 2; na verdade 17 dos 30 escolhidos para responder a tal imbecilidade tiveram o bom senso de responder "são da mesma estatura:" [12] ou "não é possível comparar" [5]. Deveríamos talvez fazer uma copa da idiotice: qual é a maior estupidez que você já leu na imprensa? Mas aí estaríamos talvez sem querer nos juntamos aos idiotas.

Friday, June 27, 2008

O fascismo

Para quem não sabe da ferocidade da ditadura argentina:
"Primero mataremos a todos los subversivos; luego mataremos a los colaboradores; luego a los que permanezcan indiferentes. Y por ultimo, mataremos a los indecisos."
Ibérico Saint-Jean, general argentino, governador da provincia de Buenos Aires, 1977.

Wednesday, June 25, 2008

Saudades de Belo Horizonte (desde muito longe)

“- Dói muito?
- Muito, Doutor. Dói demais.
Tem um país saindo de dentro de mim
e não entra nada no buraco que fica
latejando, velando minha insônia,
pedindo não sei bem o quê.
E não há tango argentino que resolva, Doutor.
Nem o tango argentino me resta.”

O melhor texto que eu já li passou ali
na minha frente quando eu nem esperava
nem queria. O capricho das palavras,
os caprichos da poesia, como os de Goya,
caindo de fora de dentro do meio
pediam pelo silêncio sutilmente histérico
da cidade que é a minha casa.
Ela é que me faz falta.

O resto é um outro silêncio que me abraça
cada vez que eu encaro duro o fato
de que o ser humano
humano mesmo como a imaginação humana
concebe nesse sonho que é a vida não existe –
o ser humano de fato é assim,
que nem eu:
o ser humano mesmo
não passa mesmo
de um negocinho muito besta.

[esse é um poema já meio velho escrito de um outro momento de exílio e é estranho para mim relê-lo agora que estou de volta mais uma vez por apenas um par de meses a Belo Horizonte]

Tuesday, June 24, 2008

Sociedade da Desinformação

Sociedade da Desinformação
Um caso ilustrativo do poder de reverberação da informação pelos meios de comunicação: uma biógrafa nos informa que o seu biografado, um famoso autor mexicano que publicou diversos contos numa revista literária mexicana nos anos 40 e 50, ilustrava seus textos com suas próprias, também hoje famosas, fotografias, comparando-o com um autor mais recente, W.G.Sebald, que incorporava imagens fotográficas aos seus romances [li e recomendo muito Austerlitz, desse autor alemão morto precocemente]. Um jornalista “especializado” nesse famoso autor mexicano publica artigo em jornal respeitado no próprio México e cita a tal biógrafa, falando justamente da integração entre fotografia e literatura na obra do autor e repetindo a associação entre ele e W.G. Sebald. O autor em questão é nada menos que Juan Rulfo, um dos melhores escritores do século XX [um levantamento junto a especialistas pelo jornal El País elegeu seu romance Pedro Páramo a mais importante obra em espanhol no século XX – se você ainda não leu, não sabe o que está perdendo] e também um excelente fotógrafo. Rulfo de fato publicou seus contos e fotografias na revista América, mas seus contos nunca foram ilustrados pelas suas fotografias e sim por ilustradores da revista. Mas a tal “informação” agora está por aí, solta no mundo, e muita gente vai com certeza viajar na maionese com associações mil entre as fotos e os contos. O que me inquieta é: como estabelecer a confiabilidade da informação num mundo em que ela se multiplica freneticamente? O jornal e a editora que publicou a biografia de Rulfo não são obscuras ou de má reputação. A refutação desse conto de fadas sobre as fotos e os contos está em um livro recente Tríptico para Juan Rulfo, uma das várias excelentes iniciativas da Fundação Juan Rulfo, prova de que uma família de um autor falecido pode ter uma atuação positiva de divulgação da obra, ao invés de submetê-la aos caprichos e ganância dos descendentes [mas isso é assunto para outro post]. Mas nem todo mundo vai ler o Tríptico e muita gente vai ler o tal artigo no site do jornal La Jornada [excelente jornal por sinal, como nem sonhamos em ter no Brasil, mas isso é assunto para um terceiro post].

Friday, June 20, 2008

Esperança à moda Carlos Drummond de Andrade



O elefante
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano,
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não narrados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite,
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

Thursday, June 12, 2008

Cidade do México


A Cidade do México é uma das cidades mais interessantes que eu já conheci. Eu moro perto de Nova Iorque e visito a cidade pelo menos uma vez por mês, mas comparada com a Cidade do México, a gringolândia fica no [meu] chinelo. Vou me explicar, traduzindo em termos familiares: imagine juntos, no mesmo lugar, a força cultural e econômica da São Paulo de hoje em dia, os tesouros da longa história de capital desde os tempos da colônia de Salvador e Rio de Janeiro, o poder e grandiosidade arquitetônica [e a intriga] de Brasília e, ainda por cima [ou melhor por baixo] uma gigantesca Machu Pichu Asteca. Em um passeio de não mais que DEZ quarteirões pelo centro dessa cidade você passa por um Teatro Municipal do Rio, uma Confeitaria Colombo, uma São Francisco de Assis de Ouro Preto, um palácio colonial, um MASP, uma Avenida Paulista, um Pelourinho, um par de livrarias fantásticas e uma pirâmide Asteca! Imagine ainda uma cidade que, além de atrair os maiores talentos do seu país, tem as marcas de vários refugiados brilhantes vindos da Espanha, Colômbia, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, Cuba, Guatemala, Nicarágua, etc [exemplos: gente como Buñuel, Gabriel García Márquez, Fernando Vallejo, Augusto Monterroso, DH Lawrence, Trotski, Einsenstein, Artaud, Breton, Che, etc]. Imagine um campus universitário que é considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO e que tem proporções absolutamente gigantescas, com teatros, cinemas, museus, estádios, um puta jardim botânico e sei lá o que mais.
vou parar por aqui, mesmo porque eu preciso aproveitar a cidade... estou escrevendo da livraria Rosario Castellanos [ver foto], uma mega livraria onde não se vende artigos de papelaria nem presentes, mas sim livros, CDs e DVDs, com uma seleção super cosmopolita [inclusive uma nova coletânea de contos de Guimarães Rosa] e preços são bem melhores que os do Brasil... [encontra-se facilmente um livro de capa dura por 15 reais!!!]
Pois então, venham, venham todos!!! a Cidade do México deve ser a cidade mais interessante da América Latina, pelo menos uma das cidades mais interessantes que eu já conheci.

Friday, June 06, 2008

Alfonso Reyes e o Rio de Janeiro


Alfonso Reyes foi embaixador mexicano no Rio de Janeiro por seis anos. Companheiro de geração de José Vasconcelos [que escreveu seu famoso Raza Cósmica depois de uma viagem ao Brasil como ministro da educação mexicano em 1922], Reyes era um homem ameno de natureza bem diferente da de Vasconcelos - enquanto Vasconcelos trouxe consigo a imensa estátua de Cuautemoc em trajes de guerra que ainda hoje recebe quem chega ao centro do Rio vindo pelo aterro, Reyes doou uma pequena estátua de Xochipilli, deus Maia das flores, que fica escondida dentro do Jardim Botânico. Além de figurante ilustre no "Rondó dos Cavalinhos" de Manuel Bandeira [com quem Don Alfonso fez excursões memoráveis ao Mangue e à Lapa], Reyes escreveu um livro em homenagem ao Rio de Janeiro e fez uma pequena edição caprichada que presenteou a amigos antes de ir embora. Apresento aqui só a entrada do primeiro poema:

Río de Enero, Río de Enero
fuiste río y eres mar:
lo que recibes con ímpetu
lo devuelves devagar.

Minha tradução:
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
foste rio e agora mar:
o que recebes com ímpeto
é o que devolves devagar.

Os poemas são lindos, bastante melancólicos. Reyes vinha de uma série de atribulações e aflições relacionadas à Revolução Mexicana, onde, entre outras coisas, seu pai, Bernardo Reyes morreu dramaticamente metralhado em plena cidade do México bem na porta do Palácio Nacional. No Rio de Janeiro, apesar da revolução de 30 [que para Reyes transcorreu de forma tão tranquila comparada com a carnificina de anos e anos de reviravoltas no México], Alfonso Reyes encontrou uma beleza natural cheia de calma e tranquilidade, mas não ainda sua completa paz de espírito:
Aqui se ha perdido un hombre:
dígalo quien lo encontrare.
Entre los hombres bogaba,
ya no lo distingue nadie.

A minha tradução:
Aqui está perdido um homem:
digam-me se o encontrarem.
Entre os homens vagava,
já não o distingue ninguém.

Alfonso Reyes conheceu bem e apreciava muito o português e por isso introduziu em vários momentos palavras portuguesas nos seus poemas sobre o Brasil, "para dar tempero ao caldo". Dou um doce para quem descobrir onde está o portunhol no original da primeira estrofe que trancrevi.

Thursday, June 05, 2008

Campanha política na sociedade de massas na Babilônia [e no resto do mundo]


Roger Stone é um operador republicano tipo peixe-pequeno envolvido em várias campanhas eleitorais americanas, desde Nixon a Bush Filho. Por mais pequeno e desimportante que Stone seja, ele esteve próximo de dois momentos muito simbólicos do pior da política americana recente: a recontagem de votos na Flórida na primeira “eleição” de Bush e a recente queda do governador Spitzer de Nova Iorque. O sujeito é uma peça rara, um sessentão com o corpo todo malhado que tem uma cara de Richard Nixon tatuada nas costas e vive em Miami com a segunda esposa de uma dessas “veneráveis” famílias de exilados cubanos. Entre as suas “artes” mais recentes está um “grupo” anti-Hillary Clinton chamado de Citizens United Not Timid – CUNT [um trocadilho infame com essa palavra que pode ser usada para o orgão sexual feminino e para um xingamento difícil de traduzir para pessoas do sexo feminino].
Entre várias lorotas e bravatas ditas por ele em reportagem especial da New Yorker sobre a sua pessoa, Roger Stone disse que pretende publicar um livro com suas “regras de Stone [um trocadilho com o nome, “pedra”] para a Guerra, política, moda e vida” e adiantou algumas. Eu destaco três para caracterizar o personagem:
“Quando eu escuto a palavra ‘cultura’, pego logo meu revólver.”
“Você é preto? É latino? É gay? Então que caralho você está fazendo no Partido Democrata?”
“O ódio é uma força motivadora maior que o amor.”
E outras quatro para caracterizar a cultura política que ele representa:
“Sempre use atalhos.”
“Ataque, ataque, ataque – nunca se defenda.”
“Não admita nada, negue tudo e lace um contra-ataque”
“Fique na moita, finja-se de bobo, continue agindo.”
Esses quatro “princípios” são significativos dos descaminhos da tática política na sociedade de massas em qualquer lugar. Os detalhes que variam de um país para o outro são o conteúdo do discurso político [já é um sintoma pernicioso a gente ver o conteúdo da mensagem ser mero detalhe]; a essência está aí e pode ser aplicada a qualquer lado, direita, esquerda, tanto faz. Essa gente domina a prática política atual em escala global, às vezes pessoalmente, o próprio Stone anda agora metido em campanhas na Ucrânia. Na base dessa tática barra pesada de campanha está um velho princípio de um coronel mineiro que eu tenho certeza que contaria com a concordância entusiasmada de Stone:
“Em eleições o único pecado é perder.”
No Brasil os imitadores de Stone e companhia ganharam literalmente todas as eleições presidenciais até hoje e a transformação de Lula do “sapo-barbudo comunista perigoso pobre ressentido que nunca vai ganhar” no triunfal “Lulinha paz e amor” das metáforas futebolísticas, ternos impecáveis e sorriso ameno é a sua maior “glória”. O que aconteceu depois de cada uma dessas eleições é prova cabal de que essas mudanças não são meramente cosméticas. Até quando eles vão ganhar as eleições?

Tuesday, June 03, 2008

Uma voz - poema em quatro partes

I

Torce
os duros tendões do tempo,
guarda o mundo dentro,
mergulha
entre escrito e não-escrito
(os dois lados de todo livro).
Densa,
funda,
muda,
nua
na frente, vestida de gente,
finge
que finge
que finge
que finge
e antes da visita do ponto final
engole
a sua derrota no prato de cal,
seca
o rosto
e some.

Sunday, June 01, 2008

Novos e velhos capitães da indústria na Babilônia e em Pindorama









A história da industrialização dos Estados Unidos é marcada pelos nomes de um bando de homens extremamente ricos, os chamados capitães da indústria e das finanças americanas: Andrew Mellon, Jay Gould, James Fisk, J.P. Morgan, John D. Rockefeller senior and junior, William H. and Cornelius Vanderbilt, William Randolph Hearst, Daniel Guggenheim, Andrew Carnegie, etc. Eles eram também chamados pejorativamente de “robber barons” (algo como barões ladrões, termo de origem incerta que alguns dizem ter se originado na Alemanha para se referir a nobres que extorquiam quem passasse pelo rio Reno), termo que ganhou grande popularidade durante a depressão que devastou a economia americana nos anos 30. Seus apologistas por outro lado inventaram o termo “industriais estadistas”, que, acredito, dispensa maiores explicações.
Essa coisa da filantropia em si é, para mim, questionável. Afinal quem defenderia em sã consciência que um sujeito expropriasse ao máximo seus empregados e clientes para depois fazer bonito distribuindo uma parte do dinheiro que ganhou e ainda abatendo tudo do imposto de renda?
Essa figura mítica do capitalismo não está confinada ao passado, mesmo porque, como eu comentei recentemente, de XIX para XXI é só deslocar o pauzinho do meio para a ponta… Nos Estados Unidos do fim do século passado apareceram Bill Gates e companhia computadorizada e figuras polêmicas como Sam Walton do Walmart. Esses novos barões do software, da internet ou do comércio globalizado vão extorquindo as pessoas com preços absurdos e reclamando da pirataria ou se aproveitam alegremente de uma ditadura que ignora direitos trabalhistas e preservação ambiental para solapar brutalmente direitos trabalhistas norteamericanos. Aproveitam-se todos eles de monopólios construídos com sanha sanguinária e defendidos com o entusiasmo frio com que as hienas defendem uma carcaça fresquinha na savana, mas esses novos “robber barons” também vivem doando milhões e milhões de suas fortunas pessoais ou de suas empresas para projetos filantrópicos quase tão ambiciosos quanto suas empresas.
E no Brasil? A industrialização brasileira produziu e agora o avanço do capitalismo financeiro talvez continue produzindo figuras semelhantes aos robber barons gringos. Só que os nossos grandes capitalistas, com uma ou outra exceção, só deixam para a posteridade uma dúzia de mansões de gosto duvidoso e excentricidades como zoológicos particulares e fazendas nababescas, além de haras na Suíça, apartamentos em Paris ou casas em Miami. Ao invés de deixarem, como seus pares americanos, seus nomes registrados para a posteridade em grandes atos de filantropia que deram nome a universidades, teatros, fundações, museus, etc, nossos barões deixam filhos ilegítimos e biografias mais ou menos escandalosas. Enquanto o senso comum se preocupa com nossa “imagem” ligada a pobres desdentados e subnutridos morando em barracos miseráveis, são esses “grandes” homens que constituem a face mais visível e chocante do nosso subdesenvolvimento.