Sunday, July 29, 2012

prosa minha

E aí a chuva engrossa e começa a cair um daqueles temporais violentos de fim de ano: as nuvens baixas cor de chumbo vão despejando um aguaceiro furioso em contraponto com o coro surdo dos trovões, roncando num contínuo lento e abafado, como se os céus odiassem Belo Horizonte e quisessem afogar e apagar do mapa a cidade de uma vez. E eu enfiado ali dentro, sentindo o rio tomando corpo, inchando, subindo, o bafo quente e líquido de tudo quanto é porcaria dos esgotos de Belo Horizonte se aproximando. E eu sei que eu tenho que sair rápido, mas eu não consigo. Meu corpo dói inteiro, o meu joelho parece uma bola de futebol, roxo – eu não consigo mais me mexer e sair daqui.
        A água não pára de subir e do buraquinho já dá para ver uma massa espessa e escura que me sussurra alguma coisa que soa como um lamento profundo e indiferente em duas vozes e que vem com o hálito quente que se desprende dos redemoinhos que atravessam a superfície da água e seguem em frente. O rio acorda. Levanta a cabeça da espuma branca feito suor cavalo. O espelho d’água que era plano fica de repente coalhado de lixo, de cacos, pedaços de casas, de mato, de sacos de plástico, roupas, sapatos; uma mundo de coisas partidas e encharcadas de água que o rio empurra, cutuca, sacode, embola e engole e vomita de novo em duas direções simultâneas e em duas velocidades dissonantes – para frente, rápido e implacável; para cima, lento e indolente.
Os meus olhos fixos no buraquinho vão se perdendo naquele corpo turvo e inquieto do rio, até que eu me fecho lá dentro e descubro que uma metamorfose se deu e agora eu sou o rio. Isso mesmo, companheiro: eu, em algum momento exato daquele temporal, por mais improvável que isso possa lhe parecer, me transformei no Rio Arrudas. Agora vejo cá de fora um homenzinho triste e sozinho com o corpo alquebrado e frágil enfiado dentro de um buraquinho imundo debaixo da ponte.
No ápice da tempestade eu desço rápido entre os dois lados da avenida que me cerca – são duas paralelas duras me contendo, por enquanto. Mais 5 minutos e eu me transbordo daqui. 5 minutos depois os dois lados da Avenida dos Andradas são meus, minhas são as lojas, meus os cortiços, os prostíbulos, os carros boiando e depois afundando em mim são todos meus. Mais do que meus, eles todos agora são parte de mim contidos entre as minhas 2 margens em expansão. Agora eu sou infinito, e não há nada mais terrível do que ser infinito, mesmo que só dure o tempo dessa primeira tempestade de verão.

Wednesday, July 25, 2012

Último parte das 5


V
O tempo indicaria que a cara definitiva do imperialismo não seria a de aventureiros sulistas como Walker mas do grande capital que afinal puxara seu tapete. Em 1857, derrotado na Nicarágua, Walker fugiria e tomaria um trem da Panama Railroad Company para voltar aos Estados Unidos, onde foi recebido como  herói popular. Absolvido pela justiça americana e enrolado outra vez em aventura neo-colonialista na América Central, dessa vez em Honduras, Walker seria capturado pelos ingleses e entregue aos hondurenhos, que o fuzilaram em 1870.

Friday, July 20, 2012

Escavando notas - parte 4 de 5


IV
Em setembro daquele ano de 1856 os marines americanos invadiriam pela primeira vez o Panamá, para assegurar condições de trabalho para a Panama Railroad Company e em represália pela relutância da Colômbia em indenizar a empresa por seus prejuízos com o distúrbios. A correspondência do diretor da empresa mostra que a companhia via William Walker como um indesejado competidor rival tentando abrir outra via para o lucrativo transporte atlântico/pacífico pela Nicarágua, mas publicamente a empresa mantinha-se neutra com relação a um tipo visto como herói pela opinião pública norte-americana.

Wednesday, July 18, 2012

Escavando notas - Parte 3


III
A Panama Railroad Company, com sede em Nova Iorque, tinha sido criada em 1850 e mudado a vida econômica do Panamá. José Manuel Luna, como vários outros panamenhos, sofria com a perda dos negócios transportando os gringos, que agora tomavam o trem construído pela multinacional americana, e sofria a falta de empregos depois do término da construção da ferrovia.
Juan Manuel Luna era negro, ferreiro de profissão, eleitor registrado pelo menos desde 1851 e, portanto, cidadão em pleno exercício de seus direitos. Os panamenhos, como outros habitantes da América Central, principalmente os negros e mestiços da região, viviam naquela época o receio da ação dos filibusteiros, gente como o famigerado aventureiro William Walker, que saiu do sul dos EUA e tomou o poder na Nicarágua, declarando-se presidente, reinstituindo a escravidão e fazendo do inglês a língua oficial do país. Texas, Alta Califórnia, Nicarágua – seria o Panamá a próxima vítima do “destino manifesto” anglo-saxão? Esse era o clima que propiciou a pancadaria nas ruas da Cidade do Panamá, conhecida pelo pitoresco nome de “a revolta da fatia de melancia”.


Tuesday, July 17, 2012

Escavando notas - Parte 2 de 5


II
No dia 15 de abril de 1856, um desses Americanos, Jack Oliver, embriagado, pegou uma fatia de melancia da barraca de um vendedor chamado José Manuel Luna, deu uma mordida na dita melancia e jogou o resto no chão. José Manuel exigiu o pagamento, o bêbado o xingou e o vendedor, lembrando ao gringo [em inglês] que ele não estava em seu país, exigindo outra vez o pagamento. O tal Oliver retorquiu puxando uma pistola da sua cintura. Confusão, empurra-empurra e logo a coisa degenera numa gigantesca briga de rua,
Na qual panamenhos do arrabaldes quebraram o pau com uns 800 norte-americanos, com um saldo de 17 mortos [15 deles norte-americanos] e várias propriedades da Panama Railroad Company depredadas.

Sunday, July 15, 2012

Escavando notas - Em cinco partes


I
Notícias de ouro na Califórnia em 1848 desencadearam um fluxo de imigração sem precedentes da costa leste para a costa oeste dos Estados Unidos. Naquela época, antes da construção da estrada de ferro que conectaria o país de ponta a ponta, o caminho mais rápido da travessia leste/oeste passava pelo Panamá, na época uma província da Colômbia, então chamada Nueva Granada.
O Panamá tinha uma população majoritariamente negra e mestiça e era ainda por cima um dos estados mais liberais de um país que tinha abolido a já quase inexistente escravidão em 1852. A passagem pelo Panamá de hordas de aventureiros norte-americanos brancos, profundamente racistas, acostumados a um regime brutal de segregação racial ou ao regime da escravidão e ainda por cima cheios de ambições imperialistas, logo criou problemas.

Wednesday, July 11, 2012

Tom Waits - um performador?


Tom Waits nos ensinar a similar com esmero um desastre e fazer dessa simulação esmerada um momento intenso de poesia. Poesia indissociável da performance, da voz e do piano do autor. Escuto essa música num velho cassete enquanto trabalho e só consigo me lembrar da “Poética” do Manuel Bandeira e sua opção preferencial pelo lirismo dos bêbados… e me lembrar de uma ainda breve conversa sobre performance, poesia, música, letra etc.

The Piano Has Been Drinking
Tom Waits

The piano has been drinking
my necktie is asleep
and the combo went back to New York
the jukebox has to take a leak
and the carpet needs a haircut
and the spotlight looks like a prison break
cause the telephone's out of cigarettes
and the balcony's on the make
and the piano has been drinking
the piano has been drinking...

and the menus are all freezing
and the lightman's blind in one eye
and he can't see out of the other
and the piano-tuner's got a hearing aid
and he showed up with his mother
and the piano has been drinking
the piano has been drinking

cause the bouncer is a Sumo wrestler
cream puff casper milk toast
and the owner is a mental midget
with the I.Q. of a fencepost
cause the piano has been drinking
the piano has been drinking...

and you can't find your waitress
with a Geiger counter
And she hates you and your friends
and you just can't get served
without her
and the box-office is drooling
and the bar stools are on fire
and the newspapers were fooling
and the ash-trays have retired
the piano has been drinking
the piano has been drinking
The piano has been drinking
not me, not me, not me, not me, not me

Monday, July 09, 2012

Diário de uma oficina 2

Receita de felicidade:

Ouvir dez haikais um atrás do outro, numa roda de dez pessoas sentadas, com o leitor caminhando e discretamente endereçando cada um dos dez poemas a cada uma das dez pessoas. Depois dez minutos de preparação solitária, cada um lê em voz alta o seu haikai respectivo, de três jeitos diferentes. Caí com esta pérola de Taniguchi Buson [1716-1783]:


A sensação de tocar
com os dedos o que não tem
realidade - uma
pequena
borboleta.


Obra do mesmo Buson



Thursday, July 05, 2012

Ilustração: Colagem de minha autoria

Só o tempo dirá


Só o tempo dirá
se há ou não há
raízes profundas.

Só o tempo dirá
se a dor penada
assim, em comum,
ata-nos laços mais duros
que o mero apreço
do interesse mútuo.

Só o tempo dirá
se aqui, na medula
do nosso colosso,
não vivem tremendas
feras que nos ão
de devorar.

Só o tempo dirá.


Tuesday, July 03, 2012

Escavando notas: Bolívar, 1815




Coloco em versos, esta longa frase de Bolívar, que é não apenas bolivariana mas também faulkneriana em versos porque acho que assim ela fica ainda mais bonita:

Yo considero
el estado actual de América,
como cuando desplomado el imperio romano
cada desmembración
formó un sistema político,
conforme a sus intereses y situación,
o siguiendo la ambición particular
de algunos jefes, familias o corporaciones,
con esta notable diferencia,
que aquellos miembros dispersos
volvían a restablecer sus antiguas naciones
con las alteraciones que exigían las cosas o los sucesos;
mas nosotros,
que apenas conservamos
vestigios de lo que en otro tiempo fue,
y que por otra parte
no somos indios, ni europeos,
sino una especie mezcla
entre los legítimos propietarios del país
y los usurpadores españoles;
en suma,
siendo nosotros americanos por nacimiento,
y nuestros derechos los de Europa,
tenemos que disputar a éstos a los del país,
y que mantenernos en él contra la invasión de los invasores;
así nos hallemos en el caso
más extraordinario y complicado.

Nesse trecho da famosa “Carta de Jamaica” está o germe da idéia da miscigenação como legitimação da dominação. O “nós” de Bolívar se constitui como fruto de uma marota dupla miscigenação: por um lado, esse “nós” é mescla dos legítimos proprietários [índios] e dos usurpadores [españoles], por outro é composta de americanos por nascimento e europeus por direito. Este “nós”, concebido e constituído pelo texto de Bolívar, precisa por isso lutar em duas frentes simultâneas: internamente eles lutam por seus direitos [los de Europa] contra os nativos [los del  país] tanto quanto lutam desesperadamente contra invasores externos, a trinca Inglaterra, França e Estados Unidos. Oprimidas no âmbito internacional e opressoras no âmbito interno, essas elites latino americanas estão constituídas por essa ambigüidade formadora. São um patético (ou esperto) ornitorrinco, lutando contra um pai opressor em cuja superioridade eles acreditam com todas as forças, porque só assim estão prontas para também legitimar a sua exploração secular alegando ao mesmo tempo, marotamente, “ter um pé na cozinha”.

Sunday, July 01, 2012

Diário de uma oficina


Relativo ao sábado, 31 de Junho de 2012:

Qual o pior efeito do obstinado mono-lingualismo brasileiro? A maioria das pessoas aqui perde a oportunidade de realmente escutar a si mesmas. Num meio social em que todos falam mais ou menos a mesma língua passam completamente batidos, por exemplo, os muitos sons nasais e os muitos “Us” guturais que espalhamos pelas nossas palavras e passam batidas até aquelas fatídicas vogais meio-pronunciadas no fim das palavras, entre outras coisas que a ortografia portuguesa esconde e o dogmatismo na alfabetização transforma em tabu. Não me falem em fatalidade quando falamos sobre a mono-lingualismo brasileiro, pois muitas outras línguas cruzaram nossas portas e passearam pelo país no século XX. Entre muitos exemplos possíveis levanto apenas o mais óbvio: milhões de falantes de italiano, espanhol, alemão, japonês e polonês vieram viver no Brasil e foram sistematicamente desestimulados e mesmo impedidos de manter suas línguas e ensiná-las a seus filhos e netos por causa uma política agressiva de assimilação, política cujo símbolo mais claro está na adoção por parte das duas maiores equipes de futebol da colônia italiana no país de nomes quase comicamente “verde-amarelos”: Cruzeiro [do Sul] e Palmeiras. 

O efeito negativo desse mono-lingualismo é ainda muito agravado pela falta de educação musical nas escolas. Aprender a técnica de produzir e ler música é aprender a ouvir sons em geral com sutileza e interpretação. Volto à música das vogais e a outras melodias e ritmos próprios que usamos e abusamos mas não percebemos conscientemente e assim raramente nos damos ao luxo de trabalhar com eles criticamente.

Nesse estado de dupla-ignorância nossa cultura fica meio-surda. As pessoas perdem a oportunidade de ouvir para valer os sons que produzem diariamente, a matéria principal com a qual elas imaginam seu mundo e elas mesmas. É caso exemplar da alienação mais vil e profunda que um sujeito não consiga sequer ouvir os sons que ele mesmo produz, que não ouve o balé sutil da sua própria fala, que não ouve seu próprio sotaque e imagina que produz uma flatulência inodora que chamamos de “português-padrão”. Que pena.