Sunday, June 29, 2014

Música: Creature Fear

Justin Vernon estava se recuperando de uma doença e se enfiou numa barracão de madeira no meio do nada no inverno de Wisconsin. Lá ele compos e gravou sozinho as canções do primeiro album da sua banda Bon Iver. Acho o método de composição muito interessante: primeiro ele compôs e gravou fazendo os vocais sem letras para depois esscrever “encaixando” as letras nas canções prontas. Já postei aqui a minha favorita desse primeiro album, mas aqui aproveito para me deliciar com as coisas que a internet nos proporciona: três versões da canção “Creature Fear.” 

Creature Fear
Justin Vernon

I was full by your count
I was lost but your fool
Was a long visit wrong?
Say you are the only

So many foreign worlds
So relatively fucked
So ready for us, so ready for us
The creature fear

I was teased by your blouse
Spit out by your mouth
I was loud by your low
Seminary soul

Tear on, tail on
Take all on the wind on
The soft bloody nose
Sign another floor

So many territories
Ready to reform
Don't let it form us, don't let it form us
The creature fear

So did he foil his own?
Is he ready to reform?
So many torahs, so many for us
The creature fear


Na versão do studio a canção é delicadamente vestida aqui e ali:

Ao vivo no rádio, sozinho com o violão, a canção fica nua:

Ao vivo com uma banda e público, a canção se veste com roupas agressivas e fica barulhenta e feroz:

Friday, June 27, 2014

Postal Efraín Huerta

Foto Minha: Pingüim, 2013
Ay poeta
Primero
Que nada
Me complace
Enormísimamente
Ser
Un buen
Poeta
De segunda
Del
Tercer

Mundo.

Wednesday, June 25, 2014

Tradução: Eu puto, tu putas, ele puta, nós putamos, vós putais e eles putam

Um exemplo fascinante de uma tradução que sai dos trilhos por motivos que nada têm a ver com a tradução em si é a seguinte frase famosa do dramaturgo romano Terencio:

Homo sum: humani nihil a me alienum puto.

Destrinchando rapidamente a frase:

homo e humani não precisam de explicação, suponho;
sum é “sou”;
nihil é “nada”;
puto é a primeira pessoa singular do verbo putare [nada de pensar em bobagem] que significa aqui “considerar” [dele veio nosso “imputar”]
alienum é “alheio”
a me é “a mim” ou “para mim”

A famosa frase foi traduzida elegantemente nem sei por quem como:

“Sou um homem: nada do que é humano me é estranho”

Não há nada de errado com a tradução, não é?

O problema é que na peça de onde ela vem, Heautontimoroumenos (“o que se pune a si próprio” - em grego, que por sinal dá uma vontade danada de traduzir como “O masoquista” …), essa fala vem de um personagem que se intromete na vida dos outros e está cinicamente defendendo o seu direito de se meter onde não é chamado dizendo alguma coisa mais ou menos assim:

“Eu sou do mundo, então nada da vida de todo mundo não me diz respeito”.

Minha tradução é feia e desajeitada, meio como traduzir Heautontimoroumenos como “O masoquista”, que é uma piada muito metido à besta. Se eu fosse contratado para traduzir a peça não tenho ideia do que eu faria – aliás não faria nada porque ia me custar um tempão para acabar de me meter onde não tinha que me meter depois de míseros dois anos de latim sem fazer um monte de lambanças.

O que acontece com a tradução famosa não tem nada a ver com a tradução em si. O problema é que ela é citada frequentemente como exemplo do humanismo clássico de Terêncio ou dos romanos em geral, que se interessariam nobremente por tudo que é da existência humana e coisa e tal. Apesar de ser uma comédia, a peça foi escrita antes de Cristo e as pessoas não tendem a associar esse tipo de “baixeza” àqueles tempos em que todo mundo andava de toga e sandálias [aparentemente].


Então a tradução da frase precisaria lidar com essa tendência a fazer uma mistranslatation [outro espeto é traduzir elegantemente mistranslation e mistranslate para português]? Sinceramente não sei.

Tuesday, June 24, 2014

Postal: Jorge Andrade

Foto minha: "Pedra"
"Quem consegue sentir os outros, 
senão os que vivem divididos 
em mil pedaços!"
As Confrarias de Jorge Andrade

Sunday, June 22, 2014

Histórias na Babilônia, histórias em Pindorama

Nos estados do sul dos Estados Unidos no começo do século XX um negro era enforcado ou queimado vivo [ou alguma combinação grotesca dos dois] a cada QUATRO dias. Até então 90% dos negros americanos viviam nos estados do sul, numa situação que não devia absolutamente nada ao apartheid da África do Sul.

Entre 1915 e 1918 meio milhão de negros americanos migraram para o o norte e entre 1920 e 1930 mais 1.3 milhão de negros chegaram principalmente nas grandes cidades industriais da época: Chicago, Detroit, Nova York, Filadelfia e Los Angeles.

Depois disso que foi chamado "A Grande Migração", 53% dos negros americanos ainda viviam no sul. Com eles Martin Luther King se levantaria e sacudiria as coisas ao ponto em que chegamos hoje, ainda longe da igualdade, ainda longe da justiça, mas longe do mundo construído por gente como James K. Vardaman [que dizia "imporemos a ordem nem que tenhamos que linchar todos os negros do estado] e Theodore Bilbo, [que sozinho impediu a votação que varia do linchamento um crime [se esta lei passar as portas do inferno estarão abertas no Sul].

Nas cidades do norte esses migrantes analfabetos ou semi-analfabetos enfrentaram um racismo quase também duro, que segregava brancos e negros rigidamente em cidades e bairros com escolas e serviços muito diferentes e, nesse ponto como no Brasil, submetiam os negros a uma polícia e um judiciário racista que os prendem mais e os condenam proporcionalmente a penas maiores.

E mesmo assim muitos dos filhos e netos daqueles migrantes acabariam formando uma classe média negra - na verdade uma classe operária com alto nível de vida - que a desindustrialização dos Estados Unidos tratou de comprimir bastante, mas que dá notável visibilidade não apenas a atletas mas também a professores universitários, advogados, médicos, políticos etc.

O livro de Janice Pearlman chamado Favela, que leva em conta quatro gerações de habitantes de algumas favelas do Rio de Janeiro é conta algo parecido no Brasil, uma história dessa gente toda que largou a opressão no campo por uma vida um pouco menos marcada na cidade e lutou e às vezes não chegou a lugar nenhum mas muitas outras tantas vezes legou a cada geração da família uma vida um pouquinho melhor. Uma pena que o livro parte de uma série de parâmetros "científicos" da sociologia que não me atraem muito. Falta alguém que aproveite as mil histórias que estão para se apagar com velhinhos e velhinhos de vários bairros afastados do centro como vez Isabel Wilkerson em The Warmth of Other Suns: The Epic Story of America's Great Migration. Wilkerson entrevistou um montão de velhinhos em Chicago e montou um mosaicos de histórias incríveis que vale a pena ler - o enfoque não é ficcional mas é literário. Não estou entre os entusiastas de um livro como Favela de Deus, que eu acho que é um bom romance, mas que também repete de maneira impressionante certos procedimentos naturalistas que reforçam a visão de que essa massa, que se não é a maioria é uma imensa porção da população brasileira, vive trocando tiro feito animais encurralados - algo que quem sabe o seriado Cidade dos Homens tentou de alguma compensar. Mas estou muito interessado no que vem por aí, que há de estar à altura desses heróis anônimos que, contra tanta coisa e às vezes tão pouco preparados para essa luta ingrata, já nos trouxeram até onde chegamos.



Thursday, June 19, 2014

Sobre a possível inexistência da história e outras coisas

O discreto magnata da imprensa, dono do jornal em inglês de maior circulação no mundo [4.300.000 a exemplares por dia], tem, de repente, mais um dos seus momentos de filósofo:

“Acho que História não existe e, se eu fosse primeiro-ministro da Índia, baniria o estudo dessa disciplina nas nossas escolas."

A nem tão discreta escritora de um romance escandaloso sobre a alta sociedade em Mumbai e Nova Dehli, editora e organizadora de vários desses estranhos festivais literários,* retruca de bate pronto:

"Vamos fazer o seguinte: eu lhe dois tapas bem dados e um chute na canela, e se você não conseguir se lembrar deles eu concordo com a sua tese sobre a inexistência da história."

O magnata ri educadamente, vira-se para o outro lado e ignora a escritora pelo resto da noite.

A pequena anedota, que li num longo perfil sobre o tal magnata, me chamou a atenção para a tal escritora. Procurei um livro recente dela, seu único livro de contos, porque não teria tempo de ler o tal romance escandaloso. O conto que escolhi – que dava título ao livro – começava assim:

“O hábito de sofrer pode ser tão insidioso quanto o hábito de amar. Quando eu era uma jovenzinha, encontrei um homem da minha idade. Nós nos apaixonamos, nos casamos, tivemos filhos, brigamos, continuamos juntos, e agora ele estava morto e eu…”

Dali para frente eu fui desgostando da prosa e acabei desistindo de ler o conto até o final. Uma larga experiência me diz que nove em dez vezes esse tipo de juízo estético é um ato de narcisismo mal-disfarçado de objetividade. Dali para frente ela já não escrevia sobre mim, suas palavras já não podiam ser minhas.

*Não tenho, à princípio, nada contra festivais literários e nem muita experiência nesse tipo de evento. Fui a um deles uma vez. Acho esse tipo de evento estranho porque num festival de música, teatro ou cinema as pessoas passam [ou pelo menos podem passar] o tempo todo assistindo a concertos, peças e filmes, enquanto num festival literário - pelo menos desses que exilam a poesia [justamente o potencialmente mais social dos gêneros literários] - as pessoas passam o tempo todo falando e o único jeito de ler alguma coisa é trancar-se no quarto do hotel. 


Tuesday, June 17, 2014

Postal: Dou água aos outros, e peço água, quando estou com sede

Foto minha: "Água em Diamantina 1"

"- É o que é, seu Oscar. Viver de graça é mais barato... É o que dá mais...
- E os outros, seu Laio? A sociedade tem sua regra...
- Isso não é modinha que eu inventei.
- Ta varrido!
- Pode que seja, seu Oscar. Dou água aos outros, e peço água, quando estou com sede... Este mundo é que está mesmo tão errado, que nem paga a pena a gente querer consertar..."


" Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou a volta do marido pródigo", João Guimarães Rosa