Thursday, June 19, 2014

Sobre a possível inexistência da história e outras coisas

O discreto magnata da imprensa, dono do jornal em inglês de maior circulação no mundo [4.300.000 a exemplares por dia], tem, de repente, mais um dos seus momentos de filósofo:

“Acho que História não existe e, se eu fosse primeiro-ministro da Índia, baniria o estudo dessa disciplina nas nossas escolas."

A nem tão discreta escritora de um romance escandaloso sobre a alta sociedade em Mumbai e Nova Dehli, editora e organizadora de vários desses estranhos festivais literários,* retruca de bate pronto:

"Vamos fazer o seguinte: eu lhe dois tapas bem dados e um chute na canela, e se você não conseguir se lembrar deles eu concordo com a sua tese sobre a inexistência da história."

O magnata ri educadamente, vira-se para o outro lado e ignora a escritora pelo resto da noite.

A pequena anedota, que li num longo perfil sobre o tal magnata, me chamou a atenção para a tal escritora. Procurei um livro recente dela, seu único livro de contos, porque não teria tempo de ler o tal romance escandaloso. O conto que escolhi – que dava título ao livro – começava assim:

“O hábito de sofrer pode ser tão insidioso quanto o hábito de amar. Quando eu era uma jovenzinha, encontrei um homem da minha idade. Nós nos apaixonamos, nos casamos, tivemos filhos, brigamos, continuamos juntos, e agora ele estava morto e eu…”

Dali para frente eu fui desgostando da prosa e acabei desistindo de ler o conto até o final. Uma larga experiência me diz que nove em dez vezes esse tipo de juízo estético é um ato de narcisismo mal-disfarçado de objetividade. Dali para frente ela já não escrevia sobre mim, suas palavras já não podiam ser minhas.

*Não tenho, à princípio, nada contra festivais literários e nem muita experiência nesse tipo de evento. Fui a um deles uma vez. Acho esse tipo de evento estranho porque num festival de música, teatro ou cinema as pessoas passam [ou pelo menos podem passar] o tempo todo assistindo a concertos, peças e filmes, enquanto num festival literário - pelo menos desses que exilam a poesia [justamente o potencialmente mais social dos gêneros literários] - as pessoas passam o tempo todo falando e o único jeito de ler alguma coisa é trancar-se no quarto do hotel. 


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