Friday, November 28, 2014

Nessa base?!

Será que eu sou o único a perceber a ironia grotesca que é um sujeito assim


considerar um intruso na "América" um sujeito assim:

e comemorar um "Dia de Ação de Graças" em que supostamente um sujeito mais ou menos assim:

deu de comer a um grupo de imigrantes mais ou menos assim
?


Thursday, November 27, 2014

A música popular vai e volta sem dar a menor bola para sua noção de bom gosto, cultura "de qualidade" ou autenticidade

O mento está para o reggae como o maxixe está para o choro. Anos 50 e 60 na Jamaica: péssima reputação de música de um bando de pé-de-chinelo bêbado fumador de maconha encrenqueiro barraqueiro etc e tal. Nada mais justo que eles chupem descaradamente da chupada descarada que Amy Winehouse deu no R&B do começo dos anos 60.

Minha filha tem 6 anos e adora música. Eu então escuto tudo o que ela escuta, com prazer e muita paciência, assim como jogo banco imobiliário e vejo desenhos animados dela. Pois não é que está bombando aqui nos EUA exatamente uma nova chupada naquele universo musical dos Jolly Boys? Saca só esse sucesso avassalador que toca 354 vezes por dia no rádio:

All About That Bass
Meghan Trainor/Kevin Kadish

Because you know
I'm all about that bass
'Bout that bass, no treble
I'm all about that bass
'Bout that bass, no treble
I'm all about that bass
'Bout that bass, no treble
I'm all about that bass
'Bout that bass

Yeah, it's pretty clear, I ain't no size two
But I can shake it, shake it
Like I'm supposed to do
'Cause I got that boom boom that all the boys chase
And all the right junk in all the right places

I see the magazine workin' that Photoshop
We know that shit ain't real
C'mon now, make it stop
If you got beauty, beauty, just raise 'em up
'Cause every inch of you is perfect
From the bottom to the top

Yeah, my mama she told me don't worry about your size
She says, "Boys like a little more booty to hold at night."
You know I won't be no stick figure silicone Barbie doll
So if that's what you're into then go ahead and move along

R

I'm bringing booty back
Go ahead and tell them skinny bitches that.
No, I'm just playing. I know you think you're fat
But I'm here to tell ya
Every inch of you is perfect from the bottom to the top

R2

R

Wednesday, November 26, 2014

Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher: as flausinas e os lopes dessa vida...

Foto minha: Fantasma de Menina de Rosa, Minha Filha

“Entanto que enfim, agora, desforrada. O povo ruim terminou. Meus filhos, Lopes, também, provi de dinheiro, para longe daqui viajarem gado. Deixo de porfias, com o amor que achei. Duvido, discordo de quem não goste. Amo, mesmo. Que podia ser mãe dele, menos me falem, sou de me constar em folhinhas e datas?
Que em meu corpo ele não mexa fácil. Mas que, por bem de mim, me venham filhos, outros, modernos e acomodados. Quero o bom-bocado que não fiz, quero gente sensível. De que me adianta estar remediada e entendida, se não dou conta de questão das saudades? Eu, um dia, fui já muito menininha... Todo o mundo vive para ter alguma serventia. Lopes, não! – desses me arrenego.”

Esse é o final do monólogo de Flausina em "Esses Lopes", conto de Guimarães Rosa, que em 1967 respondeu a uma daquelas perguntinhas safadas sobre "o comportamento da mulher atual em desacordo com a condição feminina" na lata, dizendo que era melhor assim porque "antigamente havia um exagero, o homem era homem demais e a mulher era mulher demais". Em tempo, flausina num velho dicionário de português significava “rapariga moderna que traja com todas as extravagâncias da moda” e era gíria para uma mulher  lésbica. Quem quiser saber mais sobre o conto, pode procurar meu livro [momento propaganda...]. 

Infeliz quem ainda insiste em ser "homem" demais ou "mulher" demais [os dois bem cobertos de aspas], mas cada um faz o que quer da sua vida. Mais infeliz ainda quem não reconhece a necessidade de respeitar as escolhas, a autonomia dos outros, o direito dos outros de ser quem eles quiserem ser do jeito que eles querem ser e não sabe que há que mudar muitomuitomuitomuito para poder libertar de verdade as pessoas que querem ser livres de outros jeitos. Agora triste mesmo é achar que homem só por ser homem não tem motivo para querer mudar muitomuitomuitomuito. Quem quer ser Lopes nessa vida? Me inclua bem fora disso. 
 

Tuesday, November 25, 2014

Diário da Babilônia: Fix the system, what system?

Foto minha: Carne de Pedra
 1. Fix The System:
"We are profoundly disappointed that the killer of our child will not face the consequence of his actions.
While we understand that many others share our pain, we ask that you channel your frustration in ways that will make a positive change. We need to work together to fix the system that allowed this to happen.
Join with us in our campaign to ensure that every police officer working the streets in this country wears a body camera.
We respectfully ask that you please keep your protests peaceful. Answering violence with violence is not the appropriate reaction.
Let's not just make noise, let's make a difference."
Declaração da família de Michael Brown após o veredicto que inocentou o policial que matou o rapaz em Fergunson. O negrito sobre a última frase é meu.

Corpo de Michael Brown


2. The System: 

 “Os espanhóis, com atrocidades que os marcaram com vergonha indelével, não conseguiram exterminar a raça indígena nem puderam fazer com que os índios não compartilhassem seus direitos. Os Estados Unidos conseguiu ambos resultados com incrível facilidade, calmamente, legalmente e filantropicamente, sem derramar sangue e sem violar sequer um dos grandes princípios da moralidade ante os olhos do mundo. Impossível destruir seres humanos com mais respeito pelas leis da humanidade.

Trecho de Democracia na América motivado pelo momento em que Tocqueville vê os índios cruzarem o rio Mississippi rumo a Oklahoma depois de terem sido expulsos do sul dos EUA.


Monday, November 24, 2014

Postal: Rio das Velhas

Carl Friedrich Phillip Von Martius:
"
Campos pontilhados de mata
junto ao Rio das Velhas, Província de Minas", 
1840

"Mas nada disso vale fala, porque a estória de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida. E a existência de Sete-de-Ouros cresceu toda em algumas horas - seis da manhã à meia-noite - nos meados do mês de janeiro de um ano de grandes chuvas, no vale do Rio das Velhas, no centro de Minas Gerais."

"O burrinho pedrês" de Guimarães Rosa

Recordar é viver: Chernoviz

Como não amar ler um livro chamado:

DICCIONARIO
DE
MEDICINA POPULAR
E DAS
SCIENCIAS ACCESSARIOS
PARA USO DAS FAMÍLIAS
CONTENDO A DESCR1PÇÃO
DAS
Causas, symptomas e tratamento das moléstias;
As receitas para cada moléstia;
As plantas medicinaes e as alimentícias;
As águas mineraes do Brazil, de Portugal e de outros paizes.

E muitos conhecimentos úteis.

Ilustração do livro em questão
 O livro é de autoria de um polonês e era mais conhecido pelo sobrenome do autor, Chernoviz.

Em artigo sobre o livro veja o que encontrei:  

O 'Chernoviz' foi lido e utilizado por pessoas de diferentes categorias sociais e profissionais, para as quais facilitou o entendimento da hermética ciência médica. Figuram aí os donos de boticas, os patriarcas e líderes políticos e religiosos que frequentemente cuidavam de pessoas doentes e necessitadas (dos quais o famoso padre Cícero é um exemplo), e as matriarcas da elite latifundiária do Império, que cuidavam das pessoas da casa, dos seus agregados e da escravaria. O 'Chernoviz' também serviu como subsídio científico aos autodidatas e às pessoas leigas que exerceram ofícios de cura, chamados pelos médicos acadêmicos de 'charlatães' ou 'curiosos'.


Um pedacinho de uma entrada [com a ortografia de 1890], estrategicamente situada entre ABACACHI e ABAIXA-LINGUA (esta última ilustrada):

"ABACATEIRA. Laurus persea, Arvore da familia das Laurineas. È originaria da Persia, mas habita espontaneamente no Brazil, e é cultivada, por causa do seu fructo, em todos os paizes intertropicais. [...] O fructo (abacate) é grande, pyriforme; contém uma polpa espessa, butyrosa, de sabor proximo ao da avelã; constitue um alimento sadio e agradavel que se come de sobremesa preparado com assucar, limão, canella, rhum, etc; algumas pessoas temperam o abacate com sal e pimenta, mas para isto o fructo não deve estar maduro. No centro da polpa existe um caroço, cujo succo, a principio lacteo, torna-se vermelho ao ar, e deixa na roupa nodoas indeleveis podendo, por isso, servir para marcar a roupa."   

Saturday, November 22, 2014

Descrevendo com precisão os efeitos do racismo, ou pimenta no u dos outros é refresco


Claudia Rankine acabou de publicar um livro novo, chamado Citizen. Eis um trecho particularmente forte do livro, na minha opinião:

/ 
You are in the dark, in the car, watching the black-tarred street being swallowed by speed; he tells you his dean is making him hire a person of color when there are so many great writers out there.
You think maybe this is an experiment and you are being tested or retroactively insulted or you have done something that communicates this is an okay conversation to be having.
Why do you feel okay saying this to me? You wish the light would turn red or a police siren would go off so you could slam on the brakes, slam into the car ahead of you, be propelled forward so quickly both your faces would suddenly be exposed to the wind.
As usual you drive straight through the moment with the expected backing off of what was previously said. It is not only that confrontation is headache producing; it is also that you have a destination that doesn’t include acting like this moment isn’t inhabitable, hasn’t happened before, and the before isn’t part of the now as the night darkens 
and the time shortens between where we are and where we are going.
/
When you arrive in your driveway and turn off the car, you remain behind the wheel another ten minutes. You fear the night is being locked in and coded on a cellular level and want time to function as a power wash. Sitting there staring at the closed garage door you are reminded that a friend once told you there exists a medical term — John Henryism — for people exposed to stresses stemming from racism. They achieve themselves to death trying to dodge the build up of erasure. Sherman James, the researcher who came up with the term, claimed the physiological costs were high. You hope by sitting in 
silence you are bucking the trend.
/
When the stranger asks, Why do you care? you just stand there staring at him. He has just referred to the boisterous teenagers in Starbucks as niggers. Hey, I am standing right here, you responded, not necessarily expecting him to turn to you.
He is holding the lidded paper cup in one hand and a small paper bag in the other. They are just being kids. Come on, no need to get all KKK on them, you say.
Now there you go, he responds.
The people around you have turned away from their screens. The teenagers are on pause. There I go? you ask, feeling irritation begin to rain down. Yes, and something about hearing yourself repeating this stranger’s accusation in a voice usually reserved for your partner makes you smile.
/
A man knocked over her son in the subway. You feel your own body wince. He’s okay, but the son of a bitch kept walking. She says she grabbed the stranger’s arm and told him to apologize: I told him to look at the boy and apologize. And yes, you want it to stop, you want the black child pushed to the ground to be seen, to be helped to his feet and be brushed off, not brushed off  by the person that did not see him, has never seen him, has perhaps never seen anyone who is not a reflection of himself.
The beautiful thing is that a group of men began to stand behind me like a fleet of  bodyguards, she says, like newly found uncles and brothers.
/
The new therapist specializes in trauma counseling. You have only ever spoken on the phone. Her house has a side gate that leads to a back entrance she uses for patients. You walk down a path bordered on both sides with deer grass and rosemary to the gate, which turns out to be locked.
At the front door the bell is a small round disc that you press firmly. When the door finally opens, the woman standing there yells, at the top of her lungs, Get away from my house. What are you doing in my yard?
It’s as if a wounded Doberman pinscher or a German shepherd has gained the power of speech. And though you back up a few steps, you manage to tell her you have an appointment. You have an appointment? she spits back. Then she pauses. Everything pauses. Oh, she says, followed by, oh, yes, that’s right. I am sorry.
I am so sorry, so, so sorry.

/

Friday, November 21, 2014

Emilia Viotti da Costa entre Pindorama e Babilônia

Um dia eu fui a uma apresentação mais ou menos de rotina em Yale, alguém que ia falar de Favelas no Brasil, uma socióloga daqui dos Estados Unidos. No final quando se abriram as perguntas uma senhora incisiva apertou a tal socióloga quando trouxe à baila a questão da legalização das drogas e da criminalização dos habitantes da favela em geral que o tal combate às drogas trazia. Acabada a coisa toda fui falar com a senhora e encontrei pela primeira vez com Emilia Viotti da Costa, com quem tive o privilégio de conversar umas poucas vezes pela gentileza de um amigo em comum aqui na universidade que nos convidou para a sua casa umas três vezes. Quando estava preparando uma aula para apresentar o período da ditadura militar aos alunos estava buscando algo que mostrasse o impacto dos eventos históricos na cultura no seu sentido mais amplo e ao mesmo tempo mais íntimo. E não é que trombei com o depoimento de Emilia Viotti da Costa para a USP? Além dos trechos que abordavam as injustiças, arbitrariedades e oportunismos de que aqueles tristes anos estão cheios, descobri esses outros, igualmente interessantes. O depoimento está disponível na íntegra aqui.

“Quando anunciei que precisaria um ajustamento do horário para amamentar, o professor Oliveira França me fez um discurso dizendo que se eu pretendia ter filhos nunca seria uma intelectual. Furiosa, disse a ele que, se pretendia cercear minha vida pessoal, eu preferia me demitir. Foi o que fiz.”
[…]
“O meu primeiro contato com Yale foi surpreendente. Eu era, na ocasião, a única mulher no Departamento de História. Uma vez por semana os professors do departamento reuniam-se para o almoço. Servia-se um cherry antes da refeição. Tudo muito elegante, mas quando eu me aproximava de um grupo de homens que conversavam animadamente todos se calavam. Vencendo o embaraço, um colega polidamente me perguntava: e como vão seus filhos, como
estão as coisas em Buenos Aires? Esse era o fim da conversa. Com exceção desse almoço semanal, no departamento ninguém conversava com ninguém. As portas dos escritórios estavam sempre fechadas. Eu estranhava o isolamento e a falta de comunicação entre as pessoas. A ausência de interesse político espantava-me ainda mais. Coisas importantes ocorriam no país e no mundo e no dia seguinte ninguém comentava. Watergate, o impeachment do presidente Nixon, a
eleição de Jimmy Carter, o resgate dos norte-americanos presos no Irã, a invasão de Granada pelas tropas americanas, o bombardeio da Líbia, a revolução da Nicarágua, as denúncias de participação da CIA na queda de Allende, todos esses fatos e muitos outros se sucederam sem que provocassem comentários no meu departamento. Até os dias de eleição no país eram dias normais. Todos estavam voltados para o seu próprio trabalho. Acabei me acostumando. Hoje o departamento mudou em vários aspectos. Se bem que sejam ainda uma minoria, há mais mulheres no corpo docente. Há maior comunicação entre as pessoas. Conversa-se mais. Mas ainda se evitam assuntos controvertidos que possam ameaçar o consenso. A política continua tema proscrito.”
[…]

“Talvez fosse melhor se nos preocupássemos mais em rever a imagem que temos dos Estados Unidos e a que temos de nós mesmos.”